EPISTEMOLOGIA DE BACHELARD: A FILOSOFIA DE DOIS POLOS DA FÍSICA MODERNA E CONTEMPORÂNEA

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Rogério Fonteles Castro
Pós-Graduação em Física
Universidade Federal do Ceará

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(…) É, portanto, na encruzilhada dos caminhos que o epistemólogo deve colocar-se: entre o empirismo e o racionalismo. É aí que ele pode apreender o novo dinamismo dessas filosofias contrárias, o duplo movimento pelo qual a ciência simplifica o real e complica a razão. Fica então mais curto o caminho que vai da realidade explicada ao pensamento aplicado. É nesse curto trajeto que se deve desenvolver toda a pedagogia da prova, pedagogia que é a única psicologia possível do espírito científico. (…) A ciência, soma de provas e experiências, de regras e de leis, de evidências e de fatos, necessita, pois, de uma filosofia de dois polos. (BACHELARD, 1978).

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No texto abaixo, de forma breve e simples, reunimos e desenvolvemos alguns conceitos teóricos relativos ao entendimento de nosso diagrama no qual abordamos esquematicamente a epistemologia bachelardiana.

Matemática, como expressão da mente humana, reflete a vontade ativa, a razão contemplativa, e o desejo da perfeição estética. Seus elementos básicos são a lógica e a intuição, a análise e a construção, a generalidade e a individualidade. Embora diferentes tradições possam enfatizar diferentes aspectos, é somente a influência recíproca destas forças antitéticas e a luta por sua síntese que constituem a vida, a utilidade, e o supremo valor da Ciência Matemática (COURANT;ROBBINS, 2000).

O papel da física-matemática na epistemologia bachelardiana tem sido discutido por distintos pesquisadores; aqui, em nosso diagrama, é fundamental este aspecto fisico-matemático.

Ontologicamente, dizemos que a Física não conhece em si os objetos de seu estudo, mas suas relações, as estruturas matemáticas na qual estão inseridos. Ignorando, assim, a realidade, a Física toma contato apenas com os fenômenos (o observável) a partir dos quais constrói seus conceitos.

Foi Francis Bacon que estabeleceu o aforismo: Naturam renuntiando vincimus (pela renúncia vencemos a natureza): ou seja, somente quando renunciamos ao conhecimento do que seja a Natureza em sua essência, surge a possibilidade de elucidar seus mistérios e colocar suas forças a nosso serviço. A partir deste aforismo se verifica o surgimento da tendência construtiva da ciência moderna: daí então a Física se afastando da metafísica, deixa de buscar a concepção ontológica da realidade.

(…) Este método paradoxal, então, de penetrar nos segredos da Natureza mais e mais profundamente, renunciando a responder às questões que sempre tinham sido propostas, sempre se mostrou frutuoso. Aí está o ponto em que a maneira especificamente matemática de pensar desempenhou seu papel. A renúncia tem por consequência uma limitação de respostas possíveis sobre a Natureza, e, somente com esta limitação (a impossibilidade de dar diversas respostas), ela se deixa precisar matematicamente (BECKER, 1965).

A intuição bachelardiana, sempre comunicável em seus resultados, se situa em dois níveis distintos: há intuições sensíveis e intuições racionais. A intuição sensível corresponde à produção espontânea de imagens sugeridas pela ausência natural de explicação para o mundo que nos rodeia. Trata-se do conhecimento imediato daquilo que provém dos sentidos. As intuições sensíveis representam o estado de repouso da racionalidade e, por isso mesmo, precisam ser combatidas pelo pensamento racional rigoroso, precisam ser retificadas, cedendo lugar às intuições racionais. As intuições racionais se formulam na superação do imobilismo, revelam novos problemas e novas ideias, correspondem ao conhecimento imediato dos objetos da razão (LOPES, 1996). No rigor das apresentações do método matemático, a intuição racional exerce papel decisivo, entretanto, com o uso somente desta corre-se o risco de perder-se de vista o conteúdo algébrico/geométrico essencial entre a massa de detalhes formais; daí, a intuição racional segue sendo fonte, porém não última razão de validez da verdade.

Aqui, elaboramos uma abordagem própria nossa da intuição: temos a intuição racional, dada ao nível do Mundo Matemático Platônico, e a intuição empírica, dada ao nível dos fenômenos (abstrato/inteligível ou concreto/sensível). No diagrama fazemos a representação da intuição racional e da intuição empírica (dada através da inteligência é dita inteligível, dos sentidos, é dita sensível). Ainda, do ponto de vista ontológico, não obstante nosso diagrama se dizendo não substancial, tem existência objetiva.

Epistemologicamente, a construção dos conceitos físicos se dá através da dialética entre o racionalismo e o empirismo, entre teoria e prática. Assim, a partir do momento em que se medita na ação científica, apercebemo-nos de que o empirismo e o racionalismo trocam entre si infindavelmente os seus conselhos. Nem um e nem outro, isoladamente, basta para construir a prova científica. Contudo, o sentido do VETOR EPISTEMOLÓGICO parece-nos bem nítido. Vai seguramente do racional ao real e não, ao contrário, da realidade ao geral, como o professavam todos os filósofos de Aristóteles a Bacon. Em outras palavras, a aplicação do pensamento científico parece-nos essencialmente realizante (BACHELARD, 1978).

Este papel realizante, a juízo de Bachelard, incorpora, assim, a dimensão objetiva e subjetiva no processo de conhecimento, possibilitando, desta maneira, uma espécie de resgate ontológico do ser espiritual e material com que se parece revestir a pessoa humana (SOUSA, 2007).

Observemos que o vetor epistemológico no REALISMO DE PLATÃO vai das Ideias para a Matéria; e no REALISMO DE ARISTÓTELES o mesmo vetor vai da Matéria parta as Ideias. É de se notar o caráter platônico, então, do vetor epistemológico bachelardiano.

(…) É, portanto, na encruzilhada dos caminhos que o epistemólogo deve colocar-se: entre o empirismo e o racionalismo. É aí que ele pode apreender o novo dinamismo dessas filosofias contrárias, o duplo movimento pelo qual a ciência simplifica o real e complica a razão. Fica então mais curto o caminho que vai da realidade explicada ao pensamento aplicado. É nesse curto trajeto que se deve desenvolver toda a pedagogia da prova, pedagogia que é a única psicologia possível do espírito científico. (…) A ciência, soma de provas e experiências, de regras e de leis, de evidências e de fatos, necessita, pois, de uma filosofia de dois polos. (BACHELARD, 1978). Exemplos práticos disto são o “salto da ideia” de Einstein e o conceito de “massa negativa” obtida por Dirac a partir de suas equações quântico-relativísticas do elétron.

A filosofia dialética, então, do “por que não?”, de dois polos, é a característica do novo espírito científico. Por que razão a massa não havia de ser negativa? Que modificação teórica essencial poderia legitimar uma massa negativa? Em que perspectiva de experiências se poderia descobrir uma massa negativa? Qual o caráter que, na sua propagação, se revelaria como uma massa negativa? Em suma, a teoria insiste, não hesita, a preço de algumas modificações de base, em procurar as realizações de um conceito inteiramente novo, sem raiz na realidade comum. (…) Deste modo a realização leva a melhor sobre a realidade. Esta primazia da realização desclassifica a realidade. Um físico só conhece verdadeiramente uma realidade quando a realizou, quando deste modo é senhor do eterno recomeço das coisas e quando constitui nele um retorno eterno da razão. Aliás, o ideal da realização é exigente: a teoria que realiza parcialmente deve realizar totalmente. Ela não pode ter razão apenas de uma forma fragmentária. A teoria é a verdade matemática que ainda não encontrou a sua realização completa. O cientista deve procurar esta REALIZAÇÃO COMPLETA. É preciso forçar a Natureza a ir tão longe quanto o nosso espírito (BACHELARD, 1978).

Dois exemplos práticos desse forçamento, se constituem no “salto da ideia” de Einstein e no conceito de “massa negativa” obtida por Dirac a partir de suas equações quântico-relativísticas do elétron.

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Referência Bibliográfica

BACHELARD, G. A Filosofia do Não. Os Pensadores. Rio de Janeiro: Editora Abril Cultural, 1978.

BACHELARD, G. O Novo Espírito Científico. Os Pensadores. Rio de Janeiro: Editora Abril Cultural, 1978.

BECKER, O. O Pensamento Matemático. São Paulo: Editora Herder, 1965.

LOPES, A. R. C. Bachelar: O Filósofo da Desilusão. Rio de Janeiro, 1996. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/fisica/article/viewFile/7049/6525>.

SOUSA, I. M. S.: Os Fundamentos Antropofilosóficos da Epistemologia de Gaston Bachelard, Santiago de Compostela, 2007.

 

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Sobre seletynof

Escola (ensino médio):Colégio Marista Cearense;Faculdade/Universidade: Universidade Federal do Ceará;Curso:Física; Diploma:Pós-Graduação em Física;Profissão:físico e professor; Setor:Científico.

Publicado em 26 de junho de 2017, em FISICAMATEMATICA. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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