FISICAPSICOLOGIA E ALÉM

diagrama

DIAGRAMA PSICOFÍSICO

Se o psicólogo, nas suas investigações através das camadas mais profundas da psique, encontra a matéria, por sua vez o físico, nas suas pesquisas mais finas sobre a matéria, encontra a psique.

Rogério Fonteles Castro

https://www.facebook.com/fisicapsicologia/

Pós-Graduação em Física

Universidade Federal do Ceará

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RESUMO

Entendemos que as respostas dos gregos ao problema “tão antigo” entre heracliteanos e parmenidianos não atingiu seu maior objetivo: ou seja, dar conta do Ser e do Devir dentro de um sistema filosófico e científico único. Aqui, perseguindo esse objetivo, enveredamos por um caminho alternativo: como uma trilha, nossa resposta entrelaça boa parte dos caminhos já bem conhecidos por todos. Assim, mapeando nossa trilha, construímos um diagrama no qual temos uma visão esquemática, bastante esclarecedora, com relação à realidade do Universo. Neste diagrama, portanto, fundamentamos – ontológica e epistemologicamente – nossa resposta ao problema “tão antigo”, na qual o Ser e o Devir coexistem harmonicamente num sistema filosófico e científico único.

Assim, partindo da Hipótese de Jung/Pauli, o nosso diagrama psicofísico representa pictoramente  nossa proposta para a modelagem da realidade psicofísica do Universo: os dois lados do diagrama (esquerdo e direito) são equivalentes estruturalmente; entretanto, mesmo apresentando alguns conceitos comuns, dar-se que o lado esquerdo centra-se mais em conceitos psicológicos e, o lado direito, centra-se mais em conceitos filosóficos. O Mundo Matemático de Platão e o Unus Mundus ambos correspondem à Realidade Potencial de Aristóteles. O Nada equivalendo ao “vazio filosófico” e o Vácuo Quântico equivalendo ao “vazio físico”, se interpenetram. Agora, a Consciência – como um Portal no Nada/Vácuo Quântico  -, se constituindo como o Acto de Aristóteles, transmuta a Realidade Potencial (Mundo Matemático de Platão ou Unus Mundus) em Realidade Factual. Paradoxalmente, então, surge a Existência psíquica e fisicamente observada no Mundo Fenomênico (representado pelo pentagrama – símbolo dos pitagóricos e dos satanistas), o devenir de Heráclito.  Matéria ou Ideia (psique), portanto, resulta da questão relativa ao ponto de vista do observador ou consciência: quando se olha para “fora” temos a matéria , quando se olha para “dentro” temos a ideia (pique). Assim, matéria e ideia (psique), pertencem igualmente ao  Mundo Matemático de Platão (ao “Unus Mundos” postulado por Carl Jung e Wolfgang Pauli).

Palavras-chave: Realidade; Conhecimento; Diagrama; Realismo; Idealismo, Unus Mundus, Mundo Matemático de Platão, Nada, Vazio, Vácuo Quântico, Consciência, fenômeno, Acto de Aristóteles, Heráclito, Parmêndes, Mundo Fenomênico.

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INTRODUÇÃO

 

Aqui é importante conhecermos o posicionamento do maior físico teórico brasileiro e um dos mais notáveis físicos do mundo – Mário Schenberg –, dado em seu pronunciamento por ocasião da comemoração de seu 70º aniversário. No seu pronunciamento – por sinal, atualíssimo – podemos destacar a importância maior que ele dava à unificação da Física com a Psicologia em relação à Teoria da Grande Unificação:

 

“Heisenberg, falando em seu livro, cujo título da edição em português é Física e Filosofia, sobre a importante unificação da química com a física, que havia sido feita no século XX com o patrocínio da mecânica quântica, faz o seguinte questionamento: ‘Qual seria o próximo passo? O novo seria a unificação da física com a biologia, esta entendida num sentido amplo, englobando citologia, e todas as áreas ligadas ao homem’. E não podemos esquecer isto. É grande a lição da mecânica quântica, se já não era lição na sabedoria comum, de que toda nossa ciência é uma criação humana. Por isso, talvez a coisa mais importante seja compreender melhor o homem, do que essas teorias da Grande Unificação e outras coisas nesse sentido. Sem contar que nosso interesse em conhecer o homem é maior do que conhecer as teorias da Grande Unificação. Nós estamos num momento terrível da história da Humanidade, porque vivemos uma época em que não sabemos se daqui a dez anos ela existirá ou não. Uma guerra nuclear nas condições atuais, certamente levaria à destruição de toda vida sobre a Terra.

Assim, vejo uma grande sabedoria nesta previsão de Heisenberg. Porque na biologia, penso eu, também incluiria a psicologia e outras áreas mais diretamente ligadas ao homem. Seria um progresso mais na direção do Homem do que do Cosmo. Evidentemente, esta maior compreensão do homem, poderia eventualmente modificar também radicalmente, a nossa compreensão do Cosmo. Portanto, estou inclinado a ver mais dessa maneira: os passos mais essenciais seriam descobrir algo qualitativamente diferente (não estou dizendo que não se façam progressos importantes em partículas elementares ou noutros ramos da física). (…) Mas, ao que parece, o próximo grande passo na física, ou nas ciências naturais, digamos assim, seria na direção de uma compreensão maior da Vida e do Homem. Acreditava Heisenberg que com os conceitos atuais da física, não conseguiríamos fazer esta unificação, porque nos falta algo muito essencial. O que caracteriza a Vida é a historicidade, um tempo histórico, que não é o tempo da física. O tempo físico é mais matemático, e o tempo histórico tem outras características. Ainda, Heisenberg achava muito importante introduzir na física algo que se aproximasse do tempo histórico. Na física ou fora dela, o fato é que esta introdução seria o mais importante. (…) Eu pertenço a uma certa tradição pois afinal fui aluno de Pauli e sofri sua influência; assim acredito que talvez a união da física com a biologia, seja precedida da união da física com a psicologia.” (Mário Schenberg).

As reflexões de Mário Schenberg desembocam consequentemente na proposta de Wolfgang Pauli e Carl Jung com relação ao estudo conjunto da Mecânica Quântica e da Psicologia Profunda: um estudo unificado da física com a psicologia, necessariamente se iniciará ao nível mais profundo da psique e da matéria (aqui denominaremos tal estudo de fisicapsicologia). Partindo desse estudo é inevitável a nossa confrontação com uma velha frase, já muito conhecida de todo nós, escrita no templo de Delfos: Conhece a ti mesmo e conhecereis o Universo. Certamente conhecendo integralmente o Homem (o qual queremos descrever, compreender, explicar e dominar), facilita por demais o nosso conhecimento sobre o Universo.

Segundo Schenberg, portanto, mais urgente do que compreender o Universo é entender mais especificamente o próprio homem. Mas tal urgência nos remete à crítica de Husserl às ciências positivas: o objeto da crítica de Husserl constitui-se pelo naturalismo e o objetivismo, a pretensão pela qual a verdade científica é a única verdade válida e a ideia a ela ligada de que o mundo descrito pelas ciências seria a verdadeira realidade. Husserl, então,  traça a história dessa pretensão e dessa ideia, a começar por Galileu e Descartes. Mas, escreve ele, “na miséria da nossa vida, (…) essa ciência não tem nada a nos dizer. Em princípio, ela exclui aqueles problemas que são os mais candentes para o homem, o qual, em nossos tempos atormentados, sente-se à mercê do destino: os problemas do sentido e do não-sentido da existência humana em seu conjunto”. A critica husserliana está em plena ressonância com o nosso trabalho aqui, desempenhando a fenomenologia de Husserl um papel importante em nossas pesquisas.

A maioria dos pesquisadores das ciências, principalmente no presente, como todos sabem, procuram manter-se bem distantes de qualquer assunto ligado à religião, ao misticismo, ou a qualquer outra questão que não seja aprovada pela comunidade científica institucionalizada: é sim justificável tal atitude e concordamos plenamente com tal regulamento, pois  evita vários mal entendidos e, principalmente, a proliferação de teorias absurdas. Porém, não se constitui crime as abordagens heterodoxas. Isaac Newton já afirmava que ciência e religião são duas coisas totalmente distintas. Mas aqui não estamos misturando tais coisas. Esta mistura, quando ocorre, o que em geral se observa, acontece simplesmente pelo sucesso que a ciência tem alcançado em todas as áreas do conhecimento, realizando, então, verdadeiros milagres: dai, assim, alguns buscarem o aval da ciência como que para respaldar seus planos doutrinários.

Aqui, todavia, com um pé na física e o outro na psicologia profunda, esboçaremos uma estrutura na qual possamos pensar a matéria e a psique através de um mesmo paradigma. Quanto aos caminhos, sim, deveremos trilhar aqueles já bem conhecidos por todos os pesquisadores. Newton, muitas vezes, justificava seu grande sucesso por ter, ele mesmo, se erguido sobre os ombros de gigantes: Galileu, Arquimedes, Euclides, etc… Quanto mais nós!

A físicapsicologia, portanto, estudando a Natureza com base na hipótese psicofísica de Carl G. Jung e Wolfgan Pauli, constitui-se como um sincretismo teórico pois engloba estudos os mais diversos. Segundo Maslow, o ser humano necessita transcender sua psique, conectando-se a outras realidades, procurando pela verdade, de forma a entender sua existência e ajudar a si próprio. Não obstante, a fisicapsicologia, buscando essa transcendência, procura aplicar uma metodologia que possa primar pela objetividade. Nisto, o ponto de vista da TRANSDICIPLINARIDADE é imprescindível, pois, nos permitindo uma abordagem integral do nosso objeto de estudo, nos possibilita vislumbrar a transcendência a partir de nossa imanência.

É sabido que o grande paradoxo que gira em torno do fenômeno psicofísico aponta para a sedução consciente que temos de tentar mapear, ou simplesmente, apreender o inapreensível: o “diagrama psicofísico”, acima, de nossa autoria, e todo o nosso trabalho aqui é um reflexo dessa influência sedutora. O objetivo maior de tal diagrama, então, embora se constitua num grande esboço do plano geral de nossas pesquisas, é representar um modelo teórico psico-material de uma realidade objetiva compatível com a nossa “realidade cotidiana”. Isto, portanto, concordante com Martin Heidegger: “sendo o Nada o fundamento do Ser, este é inapreensível”, ignoramos a natureza substancial, ontologicamente falando, correspondente à realidade psico-material aqui estudada.

Finalmente, de tudo exposto acima, em linhas gerais, elaboraremos um grande estudo ontológico, semântico, epistemológico e metodológico da FISICAPSICLOGIA.

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Atenção! A partir de agora faremos um grande passeio, onde visitaremos vários textos de autores reconhecidos na comunidade científica: através de tais textos buscaremos elaborar um lastro conceitual onde possamos fincar as bases de nossa construção paradigmática, qual seja, aquela correspondente ao nosso mapeamento psico-material da realidade. Ainda, esta nossa postagem, aqui e agora, encontrar-se-á sempre em construção: estaremos acrescentando mais textos e/ou mudando a ordem dos que já foram postados. A verdade é como nos ensina a transdiciplinaridade, ou seja,  “a consciência da complexidade nos faz compreender que não poderemos escapar jamais da incerteza e que jamais poderemos ter um saber total: a totalidade é a não verdade” (Edgar Morin).

 Sejam bem-vindos e obrigado pela visita! Bons estudos!

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FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

UNUS MUNDUS

Hipótese de Jug e Pauli

nicejung2paulimario_schenberg

Nice da Silveira

https://www.facebook.com/Nise.da.Silveira

https://pt.wikipedia.org/wiki/Faculdade_de_Medicina_da_Bahia

No texto abaixo, Nise da Silveira – em “JUNG VIDA E OBRA” -, desenvolve uma análise na qual estabelece relações paradoxais entre a psicologia e a física moderna.……….

No começo do século XX parecia ao homem do ocidente que todos os mistérios tinham sido desvendados. A visão do mundo segundo a física newtoniana era de uma clareza confortadora. Darwin explicava a origem das espécies. Marx descobria as leis que regem o desenvolvimento das sociedades. Freud trazia o mundo obscuro do inconsciente para o domínio da pesquisa científica, demonstrando que os fenômenos psíquicos inconscientes, mesmo os estravagantes e absurdos, estavam sujeitos às leis da causalidade.Fiel ao clima de opinião de sua época, Freud era um rigoroso determinista. Na INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE, escreve: “quebrar o determinismo, mesmo num só ponto, transtornaria toda concepção científica do mundo“...

De fato, a física moderna bouleversou a concepção do mundo construída pela física clássica, concepção que parecia absolutamente inabalável até os fins do século XIX. O indivisível átomo revelara-se divisível. Abriam-se brechas no determinismo: nem sempre os átomos comportavam-se de acordo com as leis causais. Certos fenômenos, no campo da microfísica, passaram a ser estudados à luz de leis estatísticas, ou seja, de leis de probabilidade. Einstein provou que a matéria e energia são equivalentes. Verificou-se que a luz apresenta simultaneamente os caracteres de onda e de corpúsculo. O tempo deixou de ser uma grandeza absoluta, pois, para velocidades próximas da velocidade da luz, o tempo passa mais devagar. O tempo, então, é relativo. Perplexos, retraimo-nos diante desses conceitos que perturbam nossa segurança. Não queremos ver além das fronteiras do mundo estável de Galileu e de Newton. Compreende-se a atitude de recuo: o abalo das próprias bases que serviam de ponto de apoio às operações de pensamento provocou deslocamento imprevistos a longa distância. Opostos, até então irredutíveis, deixavam de ser opostos. Argumentos lançados durante séculos contra determinados alvos não mais os atingiam porque os próprios alvos se tinham dissolvido ou mudado completamente de posição.Tanto quanto Freud, Jung investigou a causalidade nos campos da psicologia e da psicopatologia. Seus estudos sobre as associações verbais e os livros PSICOLOGIA DA DEMÊNCIA PRECOCE E O CONTEÚDO DAS PSICOSES, mostram que, mesmo nos distúbios psíquicos mais graves, é possível decifrar o sentido de sintomas de aparência desconexa, encontrando-lhes elos causais.

Mas observou também a ocorrência de fenômenos outros, de curiosos paralelismos, que não podiam ser encadeados causalmente. Seu método de trabalho, desde as pesquisas sobre associações feitas na juventude, sempre foi nunca desprezar qualquer fato que acontecesse, ainda aqueles que contradiziam regras estabelecidas ou que se afiguravam aos demais desprovidos de importância. Pareceu-lhe que seria preciso tomar em consideração certos fenômenos, inegáveis, que, entretanto, escapavam ao determinismo: a) coincidência de estados psíquicos e de acontecimentos físicos sem relações causais entre si, tais como sonhos, visões, premonições, que correspondem a fatos ocorridos na realidade externa; b)a ocorrência de pensamentos, sonhos e estados psíquicos semelhantes, ao mesmo tempo, em lugares diferentes.

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Muitos já tiveram experiências desse gênero ou as ouviram de pessoas de crédito. Mas as deixaram de lado, procurando mesmo esquecê-las, pelo mal estar que lhes causava sua estranheza ou devido aos preconceitos científicos da época. Nenhum desses obstáculos deteve Jung.

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Minha preocupação com a psicologia dos processos do inconsciente há muito tempo obrigou-me a procurar – ao lado da causalidade – um outro princípio de explicação, porque o princípio de causalidade pareceu-me inadequado para explicar certos fenômenos surpreendentes da psicologia do inconsciente. Verifiquei que há paralelismos psíquicos que não podem ser relacionados uns aos outros causalmente, mas devem estar em conexão por um outro modo diferente de desdobramento dos acontecimentos.”

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UNO MISMO
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 El “uno mismo”: El “sí-mismo”. ¿Qué es el “sí-mismo”? El psicólogo suizo Carl Gustav Jung lo define como “la unión de los opuestos, representando el fin último del proceso.
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Jung criou o termo sincronicidade (o princípio de causalidade, tornado sem valor, é substituído pelo princípio de sincronicidade) para designar “a coincidência no tempo de dois ou mais acontecimentos não relacionados causalmente, mas tendo significação idêntica ou similar, em contraste com o sincronismo que simplesmente indica a ocorrência simultânea de dois acontecimentos”. A sincronicidade, portanto, caracteriza-se pela ocorrência de coincidências significativas. Vejamos um exemplo citado por Jung. Trata-se de uma mulher, jovem e culta, cuja análise não progredia devido a seu excessivo racionalismo. “Um dia eu estava sentado diante dela, de costas para a janela, ouvindo sua habitual torrente de retórica. Ela tivera na noite anterior, um sonho impressionante, no qual alguém lhe dava um escaravelho de ouro, jóia de alto preço. Enquanto narrava-me este sonho, ouvi leves batidas no vidro da janela. Voltei-me e vi um grande inseto batendo de encontro à janela, no evidente esforço para penetrar na sala escura. Isso me pareceu estranho. Abri a janela e apanhei o inseto no ar. Era um besouro das rosas (cetonia aurata) cuja cor verde dourada aproxima-se de perto da cor do escaravelho dourado. Entreguei o inseto a minha paciente, dizendo: “Aqui está seu escaravelho“. Esta experiência abriu a desejada brecha no seu racionalismo e quebrou o gelo de sua resistência intelectual. O tratamento pode então continuar com resultados satisfatórios”.

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O estudo dos sonhos ou do estado psíquico de pessoas com as quais haviam ocorrido fenômenos de sincronicidade deu a Jung a impressão de que, no fundo do inconsciente dessas pessoas, um arquétipo se tivesse ativado e se manifestasse simultaneamente através de acontecimentos interiores e exteriores.

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 A exploração em profundeza do inconsciente levou ao curioso achado de que os mais universais símbolos do self (si mesmo) pertencem ao mundo mineral. São eles a pedra, seja pedra preciosa ou não preciosa, e o cristal, substância de estrura geométrica exata por excelência. Comenta M. L. von Franz: “O fato de que o simbolismo mais elevado e mais freqüente do self pertença à matéria inorgânica abre novo campo à investigação e à especulação. Refiro-me às relações ainda desconhecidas entre aquilo que chamamos psique inconsciente e aquilo que chamamos matéria.….

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Se o psicólogo, nas suas investigações através das camadas mais profundas da psique, encontra a matéria, por sua vez o físico, nas suas pesquisas mais finas sobre a matéria, encontra a psique.

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Físicos como Eddington, J. Jeans e outros grandes aceitam que a matéria esteja impregnada de um psiquismo elementar. O físico Alfred Hermanndiz que a natureza do elétron parece ambígua, meio matéria, meio psique. E o pensador católico Teilhard de Chardin concebe a matéria animada interiormente de espiritualidade, o que é tanto mais significativo, pois o cristianismo até então separava de maneira irredutível a matéria do espírito.

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olhow
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A conseqüência extrema da posição de psicólogos, de físicos e de biologistas, será admitir que “a psique e a matéria sejam um mesmo fenômeno observado respectivamente do interior e do exterior” (M. L. von Franz).

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UM NOVO TIPO DE CONHECIMENTO

TRANSDISCIPLINARIDADE

Basarab Nicolescu

Basarab Nicolescu

Físico Teórico do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (C.N.R.S.).

Fundador e Presidente do Centro Internacional de Pesquisas e Estudos Transdisciplinares (CIRET)

A NECESSIDADE MODERNA DA TRANSDISCIPLINARIDADE

O processo de declínio das civilizações é extremamente complexo e suas raízes estão mergulhadas na mais completa obscuridade. É claro que podemos encontrar várias explicações e racionalizações superficiais, sem conseguir dissipar o sentimento de um irracional agindo no próprio cerne deste processo. Os atores de determinada civilização, das grandes massas aos grandes líderes, mesmo tendo alguma consciência do processo de declínio, parecem impotentes para impedir a queda de sua civilização. Uma coisa é certa: uma grande defasagem entre as mentalidades dos atores e as necessidades internas de desenvolvimento de um tipo de sociedade, sempre acompanha a queda de uma civilização. Tudo ocorre como se os conhecimentos e os saberes que uma civilização não para de acumular não pudessem ser integrados no interior daqueles que compõem esta civilização. Ora, afinal é o ser humano que se encontra ou deveria se encontrar no centro de qualquer civilização digna deste nome.

O crescimento sem precedente dos conhecimentos em nossa época torna legítima a questão da adaptação das mentalidades a estes saberes. O desafio é grande, pois a expansão contínua da civilização de tipo ocidental por todo o planeta torna sua queda equivalente a um incêndio planetário sem termo de comparação com as duas primeiras guerras mundiais.

A harmonia entre as mentalidades e os saberes pressupõe que estes saberes sejam inteligíveis, compreensíveis. Todavia, ainda seria possível existir uma compreensão na era do big–bang disciplinar e da especialização exagerada?

Este processo de babelização não pode continuar sem colocar em perigo nossa própria existência, pois faz com que qualquer líder se torne, queira ou não, cada vez mais incompetente. Um dos maiores desafios de nossa época, como, por exemplo, os desafios de ordem ética, exigem competências cada vez maiores. Mas a soma dos melhores especialistas em suas especialidades não consegue gerar senão uma incompetência generalizada, pois a soma das competências não é a competência: no plano técnico, a interseção entre os diferentes campos do saber é um conjunto vazio. Ora, o que vem a ser um líder, individual ou coletivo, senão aquele que é capaz de levar em conta todos os dados do problema que examina?

A necessidade indispensável de pontes entre as diferentes disciplinas traduziu-se pelo surgimento, na metade do século XX, da pluridisciplinaridade e da interdisciplinaridade.

livro

Livro pra ler e baixar: http://livros01.livrosgratis.com.br/ue000014.pdf

 

DISCIPLINARIDADE, MULTIDISCIPLINARIDADE, INTERDISCIPLINARIDADE E TRANSDISCIPLINARIDADE.

 

A pluridisciplinaridade diz respeito ao estudo de um objeto de uma mesma e única disciplina por várias disciplinas ao mesmo tempo. Por exemplo, um quadro de Giotto pode ser estudado pela ótica da história da arte, em conjunto com a da física, da química, da história das religiões, da história da Europa e da geometria. Ou ainda, a filosofia marxista pode ser estudada pelas óticas conjugadas da filosofia, da física, da economia, da psicanálise ou da literatura. Com isso, o objeto sairá assim enriquecido pelo cruzamento de várias disciplinas. O conhecimento do objeto em sua própria disciplina é aprofundado por uma fecunda contribuição pluridisciplinar. A pesquisa pluridisciplinar traz um algo a mais à disciplina em questão (a história da arte ou a filosofia, em nossos exemplos), porém este “algo a mais” está a serviço apenas desta mesma disciplina. Em outras palavras, a abordagem pluridisciplinar ultrapassa as disciplinas, mas sua finalidade continua inscrita na estrutura da pesquisa disciplinar.

A interdisciplinaridade tem uma ambição diferente daquela da pluridisciplinaridade. Ela diz respeito à transferência de métodos de uma disciplina para outra. Podemos distinguir três graus de interdisciplinaridade: a) um grau de aplicação. Por exemplo, os métodos da física nuclear transferidos para a medicina levam ao aparecimento de novos tratamentos para o câncer; b) um grau epistemológico. Por exemplo, a transferência de métodos da lógica formal para o campo do direito produz análises interessantes na epistemologia do direito; c) um grau de geração de novas disciplinas. Por exemplo, a transferência dos métodos da matemática para o campo da física gerou a física matemática; os da física de partículas para a astrofísica, a cosmologia quântica; os da matemática para os fenômenos meteorológicos ou para os da bolsa, a teoria do caos; os da informática para a arte, a arte informática. Como a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade ultrapassa as disciplinas, mas sua finalidade também permanece inscrita na pesquisa disciplinar. Pelo seu terceiro grau, a interdisciplinaridade chega a contribuir para o big-bang disciplinar.

A transdisciplinaridade, como o prefixo “trans” indica, diz respeito àquilo que está ao mesmo tempo entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de qualquer disciplina. Seu objetivo é a compreensão do mundo presente, para o qual um dos imperativos é a unidade do conhecimento. Haveria alguma coisa entre e através das disciplinas e além delas? Do ponto de vista do pensamento clássico, não há nada, absolutamente nada. O espaço em questão é vazio, completamente vazio, como o vazio da física clássica. Mesmo renunciando à visão piramidal do conhecimento, o pensamento clássico considera que cada fragmento da pirâmide, gerado pelo big-bang disciplinar, é uma pirâmide inteira; cada disciplina proclama que o campo de sua pertinência é inesgotável. Para o pensamento clássico, a transdisciplinaridade é um absurdo porque não tem objeto. Para a transdisciplinaridade, por sua vez, o pensamento clássico não é absurdo, mas seu campo de aplicação é considerado como restrito.

Diante de vários níveis de Realidade, o espaço entre as disciplinas e além delas está cheio, como o vazio quântico está cheio de todas as potencialidades: da partícula quântica às galáxia, do quark aos elementos pesados que condicionam o aparecimento da vida no Universo.

A estrutura descontínua dos níveis de Realidade determina a estrutura descontínua do espaço transdisciplinar, que, por sua vez, explica porque a pesquisa transdisciplinar é radicalmente distinta da pesquisa disciplinar, mesmo sendo complementar a esta. A pesquisa disciplinar diz respeito, no máximo, a um único e mesmo nível de Realidade; aliás, na maioria dos casos, ela só diz respeito a fragmentos de um único e mesmo nível de Realidade. Por outro lado, a transdisciplinaridade se interessa pela dinâmica gerada pela ação de vários níveis de Realidade ao mesmo tempo. A descoberta desta dinâmica passa necessariamente pelo conhecimento disciplinar. Embora a transdisciplinaridade não seja uma nova disciplina, nem uma nova hiperdisciplina, alimenta-se da pesquisa disciplinar que, por sua vez, é iluminada de maneira nova e fecunda pelo conhecimento transdisciplinar. Neste sentido, as pesquisas disciplinares e transdisciplinares não são antagonistas mas complementares.

Os três pilares da transdisciplinaridade os níveis de Realidade, a lógica do terceiro incluído e a complexidade determinam a metodologia da pesquisa transdisciplinar.

A interdisciplinaridade tem uma ambição diferente daquela da pluridisciplinaridade. Ela diz respeito à transferência de métodos de uma disciplina para outra. Podemos distinguir três graus de interdisciplinaridade: a) um grau de aplicação. Por exemplo, os métodos da física nuclear transferidos para a medicina levam ao aparecimento de novos tratamentos para o câncer; b) um grau epistemológico. Por exemplo, a transferência de métodos da lógica formal para o campo do direito produz análises interessantes na epistemologia do direito; c) um grau de geração de novas disciplinas. Por exemplo, a transferência dos métodos da matemática para o campo da física gerou a física matemática; os da física de partículas para a astrofísica, a cosmologia quântica; os da matemática para os fenômenos meteorológicos ou para os da bolsa, a teoria do caos; os da informática para a arte, a arte informática. Como a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade ultrapassa as disciplinas, mas sua finalidade também permanece inscrita na pesquisa disciplinar. Pelo seu terceiro grau, a interdisciplinaridade chega a contribuir para o big-bang disciplinar.

A transdisciplinaridade, como o prefixo “trans” indica, diz respeito àquilo que está ao mesmo tempo entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de qualquer disciplina. Seu objetivo é a compreensão do mundo presente, para o qual um dos imperativos é a unidade do conhecimento.

Haveria alguma coisa entre e através das disciplinas e além delas? Do ponto de vista do pensamento clássico, não há nada, absolutamente nada. O espaço em questão é vazio, completamente vazio, como o vazio da física clássica. Mesmo renunciando à visão piramidal do conhecimento, o pensamento clássico considera que cada fragmento da pirâmide, gerado pelo big- bang disciplinar, é uma pirâmide inteira; cada disciplina proclama que o campo de sua pertinênc ia é inesgotável. Para o pensamento clássico, a transdisciplinaridade é um absurdo porque não tem objeto. Para a transdisciplinaridade, por sua vez, o pensamento clássico não é absurdo, mas seu campo de aplicação é considerado como restrito.

Diante de vários níveis de Realidade, o espaço entre as disciplinas e além delas está cheio, como o vazio quântico está cheio de todas as potencialidades: da partícula quântica às galáxia, do quark aos elementos pesados que condicionam o aparecimento da vida no Universo.

A estrutura descontínua dos níveis de Realidade determina a estrutura descontínua do espaço transdisciplinar, que, por sua vez, explica porque a pesquisa transdisciplinar é radicalmente distinta da pesquisa disciplinar, mesmo sendo complementar a esta. A pesquisa disciplinar diz respeito, no máximo, a um único e mesmo nível de Realidade; aliás, na maioria dos casos, ela só diz respeito a fragmentos de um único e mesmo nível de Realidade. Por outro lado, a transdisciplinaridade se interessa pela dinâmica gerada pela ação de vários níveis de Realidade ao mesmo tempo. A descoberta desta dinâmica passa necessariamente pelo conhecimento disciplinar. Embora a transdisciplinaridade não seja uma nova disciplina, nem uma nova hiperdisciplina, alimenta-se da pesquisa disciplinar que, por sua vez, é iluminada de maneira nova e fecunda pelo conhecimento transdisciplinar. Neste sentido, as pesquisas disciplinares e transdisciplinares não são antagonistas mas complementares.

Os três pilares da transdisciplinaridade os níveis de Realidade, a lógica do terceiro incluído e a complexidade determinam a metodologia da pesquisa transdisciplinar.

Há um paralelo surpreendente entre os três pilares da transdisciplinaridade e os três postulados da ciência moderna.

Os três postulados metodológicos da ciência moderna permaneceram imutáveis de Galileu até os nossos dias, apesar da infinita diversidade dos métodos, teorias e modelos que atravessaram a história das diferentes disciplinas científicas. No entanto, uma única ciência satisfaz inteira e integralmente os três postulados: a física. As outras disciplinas científicas só satisfazem parcialmente os três postulados metodológicos da ciência moderna. Todavia, a ausência de uma formalização matemática rigorosa da psicologia, da historia das religiões e de um número enorme de outras disciplinas não leva à eliminação dessas disciplinas do campo da ciência. Mesmo as ciências de ponta, como a biologia molecular, não podem pretender, ao menos por enquanto, uma formalização matemática tão rigorosa como a da física. Em outras palavras, há graus de disciplinaridade proporcionais à maior ou menor satisfação dos três postulados metodológicos da ciência moderna.

Da mesma forma, a maior ou menor satisfação dos três pilares metodológicos da pesquisa transdisciplinar gera diferentes graus de transdisciplinaridade. A pesquisa transdisciplinar correspondente a um certo grau de transdisciplinaridade se aproximará mais da multidisciplinaridade (como no caso da ética); num outro grau, se aproximará mais da interdisciplinaridade (como no caso da epistemologia); e ainda num outro grau, se aproximará mais da disciplinaridade.

A disciplinaridade, a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade são as quatro flechas de um único e mesmo arco: o do conhecimento.

Como no caso da disciplinaridade, a pesquisa transdisciplinar não é antagonista mas complementar à pesquisa pluri e interdisciplinar. A transdisciplinaridade é, no entanto, radicalmente distinta da pluri e da interdisciplinaridade, por sua finalidade: a compreensão do mundo presente, impossível de ser inscrita na pesquisa disciplinar. A finalidade da pluri e da interdisciplinaridade sempre é a pesquisa disciplinar. Se a transdisciplinaridade é tão freqüentemente confundida com a inter e a pluridisciplinaridade (como, aliás, a interdisciplinaridade é tão freqüentemente confundida com a pluridisciplinaridade), isto se explica em grande parte pelo fato de que todas as três ultrapassam as disciplinas. Esta confusão é muito prejudicial, na medida em que esconde as diferentes finalidades destas três novas abordagens.

Embora reconhecendo o caráter radicalmente distinto da transdisciplinaridade em relação à disciplinaridade, à pluridisciplinaridade e à interdisciplinaridade, seria extremamente perigoso absolutizar esta distinção, pois neste caso a transdisciplinaridade seria esvaziada de todo seu conteúdo e sua eficácia na ação seria reduzida a nada.

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A METODOLOGIA DA TRANSDISCIPLINARIDADE

A física quântica e os Níveis de Realidade

No começo do século XX, Max Planck confrontou-se com um problema de física, de aparência inocente, como todos os problemas de física. Mas, para resolvê- lo, ele foi conduzido a uma descoberta que provocou nele, segundo seu próprio testemunho, um verdadeiro drama interior. Pois ele tinha se tornado a testemunha da entrada da descontinuidade no campo da física. Conforme a descoberta de Planck, a energia tem uma estrutura discreta, descontínua. O “quantum” de Planck, que deu seu nome à mecânica quântica, iria revolucionar toda física e mudar profundamente nossa visão do mundo.

Como compreender a verdadeira descontinuidade, isto é, imaginar que entre dois pontos não há nada, nem objetos, nem átomos, nem moléculas, nem partículas, apenas nada. Aí, onde nossa imaginação habitual experimenta uma enorme vertigem, a linguagem matemática, baseada num outro tipo de imaginário, não encontra nenhuma dificuldade. Galileu tinha razão: a linguagem matemática tem uma natureza diversa da linguagem humana habitual.

Colocar em questão a continuidade, significa colocar em questão a causalidade local e abrir assim uma temível caixa de Pandora. Os fundadores da mecânica quântica: Planck, Bohr, Einstein, Pauli, Heisenberg, Dirac, Schrödiger, Born, de Broglie e alguns outros – que também tinham uma sólida cultura filosófica –, estavam plenamente conscientes do desafio cultural e social de suas próprias descobertas. Por isto avançavam com grande prudência, enfrentando polêmicas acirradas. Porém, enquanto cientistas, eles tiveram de se inclinar, não importando suas convicções religiosas ou filosóficas, diante das evidências experimentais e da autoconsistência teórica.

Assim começou uma extraordinária Mahabharata moderna, que iria atravessar o século XX e chegar até os nossos dias.

O formalismo da mecânica quântica e posteriormente, o da física quântica (que disseminou-se depois da segunda guerra mundial, com a construção dos grandes aceleradores de partículas), tentaram, é verdade, salvaguardar a causalidade local tal como a conhecemos na escala macrofísica. Mas era evidente, desde o começo da mecânica quântica, que um novo tipo de causalidade devia estar presente na escala quântica, a escala do infinitamente pequeno e do infinitamente breve. Uma quantidade física tem, segundo a mecânica quântica, diversos valores possíveis, afetados por probabilidades bem determinadas. No entanto, numa medida experimental, obtém-se, bem evidentemente, um único resultado para a quantidade física em questão. Esta abolição brus ca da pluralidade dos valores possíveis de um “observável” físico, pelo ato de medir, tinha uma natureza obscura mas indicava claramente a existência de um novo tipo de causalidade.

Sete décadas após o nascimento da mecânica quântica, a natureza deste novo tipo de causalidade foi esclarecida graças a um resultado teórico rigoroso — o teorema de Bell — e a experiências de grande precisão. Um novo conceito adentrava assim na física: a não separabilidade. Em nosso mundo habitual, macrofísico, se dois objetos interagem num momento dado e em seguida se afastam, eles interagem, evidentemente, cada vez menos. Pensemos em dois amantes obrigados a se separar, um numa galáxia e outro noutra. Normalmente, seu amor tende a diminuir e acaba por desaparecer.

No mundo quântico as coisas acontecem de maneira diferente. As entidades quânticas continuam a interagir qualquer que seja o seu afastamento. Isto parece contrário a nossas leis macrofísicas. A interação pressupõe uma ligação, um sinal e este sinal tem, segundo a teoria da relatividade de Einstein, uma velocidade limite: a velocidade da luz. Poderiam as interações quânticas ultrapassar esta barreira da luz? Sim, se insistirmos em conservar, a todo custo, a causalidade local, e pagando o preço de abolir a teoria da relatividade. Não, se aceitarmos a existência de um novo tipo de causalidade: uma causalidade global que concerne o sistema de todas as entidades físicas, em seu conjunto. E no entanto, este conceito não é tão surpreendente na vida diária. Uma coletividade — família, empresa, nação — é sempre mais que a simples soma de suas partes. Um misterioso fator de interação, não redutível às propriedades dos diferentes indivíduos, está sempre presente nas coletividades humanas, mas nós sempre o repelimos para o inferno da subjetividade. E somos forçados a reconhecer que em nossa pequena Terra estamos longe, muito longe da não separabilidade humana.

Em todo caso, a não separabilidade quântica não põe em dúvida a própria causalidade, mas uma de suas formas, a causalidade local. Ela não põe em dúvida a objetividade científica, mas uma de suas formas: a objetividade clássica, baseada na crença na ausência de qualquer conexão não local. A existência de correlações não locais expande o campo da verdade, da Realidade. A não separabilidade quântica nos diz que há, neste mundo, pelo menos numa certa escala, uma coerência, uma unidade das leis que asseguram a evolução do conjunto dos sistemas naturais.

Um outro pilar do pensamento clássico — o determinismo — iria, por sua vez, desmoronar.

As entidades quânticas: os quanta, são muito diferentes dos objetos da física clássica: os corpúsculos e as ondas. Se quisermos a qualquer preço ligá-los aos objetos clássicos, seremos obrigados a concluir que os quanta são, ao mesmo tempo, corpúsculos e ondas, ou mais precisamente, que eles não são nem partículas nem ondas. Se houver uma onda, trata-se, antes, de uma onda de probabilidade, que nos permite calcular a probabilidade de realização de um estado final a partir de um certo estado inicial.

Os quanta caracterizam-se por uma certa extensão de seus atributos físicos, como, por exemplo, suas posições e suas velocidades. As célebres relações de Heisenberg mostram, sem nenhuma ambigüidade, que é impossível localizar um quantum num ponto preciso do espaço e num ponto preciso do tempo. Em outras palavras, é impossível traçar uma trajetória bem determinada de uma partícula quântica. O indeterminismo reinante na escala quântica é um indeterminismo constitutivo, fundamental, irredutível, que de maneira nenhuma significa acaso ou imprecisão.

O aleatório quântico não é acaso.

A palavra “acaso” vem do árabe az-zahr que quer dizer “jogo de dados”. Com efeito, é impossível localizar uma partícula quântica ou dizer qual é o átomo que se desintegra num momento preciso. Mas isto não significa de modo algum que o acontecimento quântico seja um acontecimento fortuito, devido a um jogo de dados (jogado por quem?): simplesmente, as questões formuladas não têm sentido no mundo quântico. Elas não têm sentido porque pressupõem a existência de uma trajetória localizável, a continuidade, a causalidade local. No fundo, o conceito de “acaso”, como o de” necessidade”, são conceitos clássicos. O aleatório quântico é ao mesmo tempo acaso e necessidade ou, mais precisamente, nem acaso nem necessidade. O aleatório quântico é um aleatório construtivo, que tem um sentido: o da construção de nosso próprio mundo macrofísico. Uma matéria mais fina penetra uma matéria mais grosseira. As duas coexistem, cooperam numa unidade que vai da partícula quântica ao cosmo.

Indeterminismo não quer de maneira alguma dizer “imprecisão”, se a noção de “precisão” não estiver implicitamente ligada, de maneira talvez inconsciente, a noções de trajetórias localizáveis, continuidade e causalidade local. As previsões da mecânica quântica sempre foram, até o presente, verificadas com uma grande precisão por inúmeras experiências. Porém, esta precisão diz respeito aos atributos próprios às entidades quânticas e não aos dos objetos clássicos. Aliás, mesmo no mundo clássico, a noção de precisão acaba de ser fortemente questionada pela teoria do “caos”. Uma minúscula imprecisão das condições iniciais leva a trajetórias clássicas extremamente divergentes ao longo do tempo. O caos instala-se no próprio seio do determinismo. Os planificadores de toda espécie, os construtores de sistemas ideológicos, econômicos ou outros, ainda podem existir num mundo que é ao mesmo tempo indeterminista e caótico?

O maior impacto cultural da revolução quântica é, sem dúvida, o de colocar em questão o dogma filosófico contemporâneo da existência de um único nível de Realidade.

Damos ao termo “realidade” seu significado tanto pragmático como ontológico.

Entendo por Realidade, em primeiro lugar, aquilo que resiste a nossas experiências, representações, descrições, imagens ou formalizações matemáticas. A física quântica nos fez descobrir que a abstração não é um simples intermediário entre nós e a Natureza, uma ferramenta para descrever a realidade, mas uma das partes constitutivas da Natureza. Na física quântica, o formalismo matemático é inseparável da experiência. Ele resiste, a seu modo, tanto por seu cuidado pela autoconsistência interna como por sua necessidade de integrar os dados experimentais, sem destruir esta autoconsistência. Também noutro lugar, na realidade chamada “virtual” ou nas imagens de síntese, são as equações matemáticas que resistem: a mesma equação matemática dá origem a uma infinidade de imagens. As imagens estão latentes nas equações ou nas séries de números. Portanto, a abstração é parte integrante da Realidade.

É preciso dar uma dimensão ontológica à noção de Realidade, na medida em que a Natureza participa do ser do mundo. A Natureza é uma imensa e inesgotável fonte de desconhecido que justifica a própria existência da ciência. A Realidade não é apenas uma construção social, o consenso de uma coletividade, um acordo intersubjetivo. Ela também tem uma dimensão trans- subjetiva, na medida em que um simples fato experimental pode arruinar a mais bela teoria científica. Infelizmente, no mundo dos seres humanos, uma teoria sociológica, econômica ou política continua a existir apesar de múltiplos fatos que a contradizem.

Deve-se entender por nível de Realidade um conjunto de sistemas invariável sob a ação de um número de leis gerais: por exemplo, as entidades quânticas submetidas às leis quânticas, as quais estão radicalmente separadas das leis do mundo macrofísico. Isto quer dizer que dois níveis de Realidade são diferentes se, passando de um ao outro, houver ruptura das leis e ruptura dos conceitos fundamentais (como, por exemplo, a causalidade). Ninguém conseguiu encontrar um formalismo matemático que permita a passagem rigorosa de um mundo ao outro. As sutilezas semânticas, as definições tautológicas ou as aproximações não podem substituir um formalismo matemático rigoroso. Há, mesmo, fortes indícios matemáticos de que a passagem do mundo quântico para o mundo macrofísico seja sempre impossível. Contudo, não há nada de catastrófico nisso. A descontinuidade que se manifestou no mundo quântico manifesta-se também na estrutura dos níveis de Realidade. Isto não impede os dois mundos de coexistirem. A prova: nossa própria existência. Nossos corpos têm ao mesmo tempo uma estrutura macrofísica e uma estrutura quântica.

Os níveis de Realidade são radicalmente diferentes dos níveis de organização, tais como foram definidos nas abordagens sistêmicas. Os níveis de organização não pressupõem uma ruptura dos conceitos fundamentais: vários níveis de organização pertencem a um único e mesmo nível de Realidade. Os níveis de organização correspondem a estruturações diferentes das mesmas leis fundamentais. Por exemplo, a economia marxista e a física clássica pertencem a um único e mesmo nível de Realidade.

O surgimento de pelo menos dois níveis de Realidade diferentes no estudo dos sistemas naturais é um acontecimento de capital importância na história do conhecimento. Ele pode nos levar a repensar nossa vida individual e social, a fazer uma nova leitura dos conhecimentos antigos, a explorar de outro modo o conhecimento de nós mesmos, aqui e agora.

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A consciência da complexidade nos faz compreender que não poderemos escapar jamais da incerteza e que jamais poderemos ter um saber total: ‘a totalidade é a não verdade’.(Edgar Morin).

….

A Complexidade

Ao longo do século XX, a complexidade instala-se por toda parte, assustadora, terrificante, obscena, fascinante, invasora, como um desafio à nossa própria existência e ao sentido de nossa própria existência. A complexidade em todos os campos do conhecimento parece ter fagocitado o sentido.

A complexidade nutre-se da explosão da pesquisa disciplinar e, por sua vez, a complexidade determina a aceleração da multiplicação das disciplinas.

A lógica binária clássica confere seus títulos de nobreza a uma disciplina científica ou não científica. Graças a suas normas de verdade, uma disciplina pode pretender esgotar inteiramente o campo que lhe é próprio. Se esta disciplina for considerada fundamental, como a pedra de toque de todas as outras disciplinas, este campo alarga-se implicitamente a todo conhecimento humano. Na visão clássica do mundo, a articulação das disciplinas era considerada piramidal, sendo a base da pirâmide representada pela física. A complexidade pulveriza literalmente esta pirâmide provocando um verdadeiro big-bang disciplinar.

Paradoxalmente, a complexidade instalou-se no próprio coração da fortaleza da simplicidade: a física fundamental. De fato, nas obras de vulgarização, diz-se que a física contemporânea é uma física onde reina uma maravilhosa simplicidade estética da unificação de todas as interações físicas através de alguns “tijolos” fundamentais: quarks, léptons ou mensageiros. Cada descoberta de um novo tijolo, prognosticada por esta teoria, é saudada com a atribuição de um prêmio Nobel e apresentada como um triunfo da simplicidade que reina no mundo quântico. Mas para o físico que pratica esta ciência, a situação mostra-se infinitamente mais complexa.

Os fundadores da física quântica esperavam que algumas partículas pudessem descrever, enquanto tijolos fundamentais, toda a complexidade física. No entanto, já por volta de l960 este sonho desmoronou: centenas de partículas foram descobertas graças aos aceleradores de partículas. Foi proposta uma nova simplificação com a introdução do princípio do bootstrap nas interações fortes: há uma espécie de “democracia” nuclear, todas as partículas são tão fundamentais quanto as outras e uma partícula é aquilo que ela é porque todas as outras partículas existem ao mesmo tempo. Esta visão de autoconsistência das partículas e de suas leis de interação, fascinante no plano filosófico, iria por sua vez desabar devido à inusitada complexidade das equações que traduziam esta autoconsistência e à impossibilidade prática de encontrar suas soluções. A introdução de subconstituintes dos hádrons (partículas de interações fortes) — os quarks — iria substituir a proposta do bootstrap e introduzir assim uma nova simplificação no mundo quântico. Esta simplificação levou a uma simplificação ainda maior, que domina a física de partículas atualmente: a procura de grandes teorias de unificação e de superunificação das interações físicas. Contudo, ainda assim, a complexidade não demorou em mostrar sua onipotência.

Por exemplo, segundo a teoria das supercordas na física de partículas, as interações físicas aparecem como sendo muito simples, unificadas e submetendo-se a alguns princípios gerais, se descritas num espaço-tempo multidimensional e sob uma energia fabulosa, correspondendo à massa dita de Planck. A complexidade surgi no momento da passagem para o nosso mundo, necessariamente caracterizado por quatro dimensões e por energias acessíveis muito menores. As teorias unificadas são muito poderosas no nível dos princípios gerais, mas são bastante pobres na descrição da complexidade de nosso próprio nível. Alguns resultados matemáticos rigorosos até indicam que esta passagem de uma única e mesma interação unificada para as quatro interações físicas conhecidas é extremamente difícil e até mesmo impossível. Um número enorme de questões matemáticas e experimentais, de extraordinária complexidade, permanece sem resposta. A complexidade matemática e a complexidade experimental são inseparáveis na física contemporânea.

Aliás, a complexidade se mostra por toda parte, em todas as ciências exatas ou humanas, rígidas ou flexíveis. A biologia e a neurociência, por exemplo, que vivem hoje um rápido desenvolvimento, revelam- nos novas complexidades a cada dia que passa e assim caminhamos de surpresa em surpresa.

A complexidade social sublinha, até o paroxismo, a complexidade que invade todos os campos do conhecimento.

Edgar Morin tem razão quando assinala a todo momento que o conhecimento do complexo condiciona uma política de civilização.

O conhecimento do complexo, para que seja reconhecido como conhecimento, passa por uma questão preliminar: a complexidade da qual falamos seria uma complexidade desordenada, e neste caso seu conhecimento não teria sentido, ou esconderia uma nova ordem e uma simplicidade de uma outra natureza que justamente seriam o objeto do novo conhecimento? Trata-se de escolher entre um caminho de perdição e um caminho de esperança.

Teria a complexidade sido criada por nossa cabeça ou se encontra na própria natureza das coisas e dos seres? O estudo dos sistemas naturais nos dá uma resposta parcial a esta pergunta: tanto uma como outra. A complexidade das ciências é antes de mais nada a complexidade das equações e dos modelos. Ela é, portanto, produto de nossa cabeça, que é complexa por sua própria natureza. Porém, esta complexidade é a imagem refletida da complexidade dos dados experimentais, que se acumulam sem parar. Ela também está, portanto na natureza das coisas.

Além disso, a física e a cosmologia quânticas nos mostram que a complexidade do Universo não é a complexidade de uma lata de lixo, sem ordem alguma. Uma coerência atordoante reina na relação entre o infinitamente pequeno e o infinitamente grande. Um único termo está ausente nesta coerência: o vertiginoso vazio do finito o nosso. O indivíduo permanece estranhamento calado diante da compreensão da complexidade. E com razão, pois fora declarado morto. Entre as duas extremidades do bastão simplicidade e complexidade , falta o terceiro incluído: o próprio indivíduo.

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Representação dos três termos (A, não-A e T) da lógica do terceiro incluído por um triângulo, mostrando os diferentes níveis de realidade C (clássico) e Q (quântico): http://cetrans.com.br/textos/contradicao-logica-do-terceiro-incluido-e-niveis-de-realidade.pdf

A lógica do Terceiro Incluído

O desenvolvimento da física quântica, assim como a coexistência entre o mundo quântico e o mundo macrofísico, levaram, no plano da teoria e da experiência científica, ao aparecimento de pares de contraditórios mutuamente exclusivos (A e não-A): onda e corpúsculo, continuidade e descontinuidade, separabilidade e não separabilidade, causalidade local e causalidade global, simetria e quebra de simetria, reversibilidade e irreversibilidade do tempo, etc.

O escândalo intelectual provocado pela mecânica quântica consiste no fato de que os pares de contraditórios que ela coloca em evidência são de fato mutuamente opostos quando analisados através da grade de leitura da lógica clássica. Esta lógica baseia-se em três axiomas:

  1. O axioma da identidade: A é A;
  2. O axioma da não-contradição: A não é não-A;
  3. O axioma do terceiro excluído: não existe um terceiro termo T (T de “terceiro incluído”) que é ao mesmo tempo A e não-A.

Na hipótese da existência de um único nível de Realidade, o segundo e terceiro axiomas são evidentemente equivalentes. O dogma de um único nível de Realidade, arbitrário como todo dogma, está de tal forma implantado em nossas consciências, que mesmo lógicos de profissão esquecem de dizer que estes dois axiomas são, de fato, distintos, independentes um do outro.

Se, no entanto, aceitamos esta lógica que, apesar de tudo reinou durante dois milênios e continua a dominar o pensamento de hoje, em particular no campo político, social e econômico, chegamos imediatamente à conclusão de que os pares de contraditórios postos em evidência pela física quântica são mutuamente exclusivos, pois não podemos afirmar ao mesmo tempo a validade de uma coisa e seu oposto: A e não-A. A perplexidade produzida por esta situação é bem compreensível: podemos afirmar, se formos sãos de espírito, que a noite é o dia, o preto é o branco, o homem é a mulher, a vida é a morte?

O problema pode parecer da ordem da pura abstração, pode parecer interessar apenas alguns lógicos, físicos ou filósofos. Em que a lógica abstrata seria importante para nossa vida de todos os dias?

A lógica é a ciência que tem por objeto de estudo as normas da verdade (ou da “validade”, se a palavra “verdade” for forte demais em nossos dias). Sem norma, não há ordem. Sem norma, não há leitura do mundo e, portanto, nenhum aprendizado, sobrevivência e vida. Fica claro, portanto, que de maneira muitas vezes inconsciente, uma certa lógica e mesmo uma certa visão do mundo estão por trás de cada ação, qualquer que seja: a ação de um indivíduo, de uma coletividade, de uma nação, de um estado. Uma certa lógica determina, em particular, a regulamentação social.

Desde a constituição definitiva da mecânica quântica, por volta dos anos 30, os fundadores da nova ciência se questionaram agudamente sobre o problema de uma nova lógica, chamada “quântica”. Após os trabalhos de Birkhoff e van Neumann, toda uma proliferação de lógicas quâ nticas não tardou a se manifestar. A ambição dessas novas lógicas era resolver os paradoxos gerados pela mecânica quântica e tentar, na medida do possível, chegar a uma potência preditiva mais forte do que a permitida com a lógica clássica.

A maioria das lógicas quânticas modificaram o segundo axioma da lógica clássica: o axioma da não-contradição, introduzindo a não-contradição com vários valores de verdade no lugar daquela do par binário (A, não-A). Estas lógicas multivalentes, cujo estatuto ainda é controvertido quanto a seu poder preditivo, não levaram em conta uma outra possibilidade, a modificação do terceiro axioma: o axioma do terceiro excluído.

O mérito histórico de Lupasco foi mostrar que a lógica do terceiro incluído é uma verdadeira lógica, formalizável e formalizada, multivalente (com três valores: A, não-A e T) e não- contraditória.

A compreensão do axioma do terceiro incluído — existe um terceiro termo T que é ao mesmo tempo A e não- A — fica totalmente clara quando é introduzida a noção de “níveis de Realidade”.

Para se chegar a uma imagem clara do sentido do terceiro incluído, representemos os três termos da nova lógica — A, não-A e T — e seus dinamismos associados por um triângulo onde um dos ângulos situa-se num nível de Realidade e os dois outros num outro nível de Realidade. Se permanecermos num único nível de Realidade, toda manifestação aparece como uma luta entre dois elementos contraditórios (por exemplo: onda A e corpúsculo não-A). O terceiro dinamismo, o do estado T, exerce-se num outro nível de Realidade, onde aquilo que parece desunido (onda ou corpúsculo) está de fato unido (quantum), e aquilo que parece contraditório é percebido como não- contraditório.

É a projeção de T sobre um único e mesmo nível de Realidade que produz a impressão de pares antagônicos, mutuamente exclusivos (A e não-A). Um único e mesmo nível de Realidade só pode provocar oposições antagônicas. Ele é, por sua própria natureza, autodestruidor, se for completamente separado de todos os outros níveis de Realidade. Um terceiro termo, digamos, T’, que esteja situado no mesmo nível de Realidade que os opostos A e não-A, não pode realizar sua conciliação.

Toda diferença entre uma tríade de terceiro incluído e uma tríade hegeliana se esclarece quando consideramos o papel do tempo. Numa tríade de terceiro incluído os três termos coexistem no mesmo momento do tempo. Por outro lado, os três termos da tríade hegeliana sucedem-se no tempo. Por isso, a tríade hegeliana é incapaz de promover a conciliação dos opostos, enquanto a tríade de terceiro incluído é capaz de fazê- lo. Na lógica do terceiro incluído os opostos são antes contraditórios: a tensão entre os contraditórios promove uma unidade que inclui e vai além da soma dos dois termos.

Vemos assim os grandes perigos de mal-entendidos gerados pela confusão bastante comum entre o axioma de terceiro excluído e o axioma de não-contradição. A lógica do terceiro incluído é não-contraditória, no sentido de que o axioma da não-contradição é perfeitamente respeitado, com a condição de que as noções de “verdadeiro” e “falso” sejam alargadas, de tal modo que as regras de implicação lógica digam respeito não mais a dois termos (A e não-A), mas a três termos (A, não-A e T), coexistindo no mesmo momento do tempo. É uma lógica formal, da mesma maneira que qualquer outra lógica formal: suas regras traduzem-se por um formalismo matemático relativamente simples.

Vemos porque a lógica do terceiro incluído não é simplesmente uma metáfora para um ornamento arbitrário da lógica clássica, permitindo a lgumas incursões aventureiras e passageiras no campo da complexidade. A lógica do terceiro incluído é uma lógica da complexidade e até mesmo, talvez, sua lógica privilegiada, na medida em que nos permite atravessar, de maneira coerente, os diferentes campos do conhecimento.

A lógica do terceiro incluído não aboli a lógica do terceiro excluído: ela apenas limita sua área de validade. A lógica do terceiro excluído é certamente validada em situações relativamente simples, como, por exemplo, a circulação de veículos numa estrada: ninguém pensa em introduzir, numa estrada, um terceiro sentido em relação ao sentido permitido e ao proibido. Por outro lado, a lógica do terceiro excluído é nociva nos casos complexos, como, por exemplo, o campo social ou político. Ela age, nestes casos, como uma verdadeira lógica de exclusão: bem ou mal, direita ou esquerda, mulheres ou homens, ricos ou pobres, brancos ou negros. Seria revelador fazer uma análise da xenofobia, do racismo, do anti-semitismo ou do nacionalismo à luz da lógica do terceiro excluído.

CONCLUSÃO

Sem uma metodologia a transdisciplinaridade seria uma proposta vazia. Os Níveis de Realidade, a Complexidade e a Lógica do Terceiro Incluído, definem a metodologia da transdisciplinaridade. Só se nos apoiarmos nesses três pilares metodológicos poderemos inventar os métodos e modelos transdisciplinares adequados a situações particulares e praticas.

REFERÊNCIAS

GIBBONS, Michael et al., The New Production of Knowledge The Dynamics of Science and Research in Contemporary Societies. Londres, Sage: 1994.

NICOLESCU, Basarab O Manifesto da transdisciplinaridade. São Paulo, Triom: 1999. Tradução do Francês por Lúcia Pereira de Souza.

Site do Centro Internacional de Pesquisa e Estudos Transdisciplinares (CIRET): http://perso.club – internet.fr/nicol/ciret/ .

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WERNER HEISENBERG

A INTERPRETAÇÃO DE COPENHAGUE

a filosofia platônica e a consolidação da teoria quântica

 

Texto Original:

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-31662010000200004

HEISENBERG

Anderson Leite

Pesquisador do Grupo de Lógica e Filosofia da Ciência,

Universidade de Brasília, Brasil.

andersonleite@unb.br

Samuel Simon

Professor Adjunto do Departamento de Filosofia,

Universidade de Brasília, Brasil.

samuel.simon@pq.cnpq.br

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RESUMO

Este artigo discute o uso que Werner Heisenberg faz da filosofia grega clássica no âmbito dos debates acerca da teoria quântica realizados na primeira metade do século xx. Para esse autor, a ciência foi determinada pelo influxo de duas correntes de pensamento que surgiram na Grécia antiga: o materialismo e o idealismo. A partir de tal clivagem, Heisenberg fundamenta sua crítica aos opositores da Interpretação de Copenhague, além de justificar filosoficamente suas próprias teses sobre a mecânica quântica. Apesar de suas concepções filosóficas não serem passíveis de uma sistematização completa, a relação que Heisenberg estabeleceu entre a filosofia grega e os problemas da teoria dos quanta, acabou por resultar em uma interpretação da realidade física na qual é predominante um platonismo e um incipiente estruturalismo matemático.

Palavras-chave ● Mecânica quântica. Teoria quântica. Werner Heisenberg. Interpretação de Copenhague. Filosofia platônica. Idealismo. Materialismo.

INTRODUÇÃO

É inegável a influência das ideias de Niels Bohr (1885-1962) e Werner Heisenberg (1901-1976) sobre a comunidade dos físicos a partir de fins da década de 1920 no tocante à interpretação da nova teoria quântica. Tendo como marco o Congresso de Solvay em 1927, a disseminação do discurso de Bohr e de seu grupo estendeu-se por toda a década de 1930, sendo reforçada pelos físicos norte-americanos que chegavam aos centros difusores da ortodoxia na Europa: Copenhague, Göttingen e Cambridge. Segundo Cushing (cf. 1994, p. 121-3), o estilo pragmático dos físicos americanos e seu distanciamento, até mesmo desprezo, no tocante a questões filosóficas, contribuíram ainda mais para uma aceitação passiva da interpretação standard da teoria quântica.

O papel de Heisenberg na consolidação do “espírito de Copenhague” a partir de Solvay é notável. Sua confiança é demonstrada em uma carta datada do último dia do Congresso: “no que diz respeito aos resultados científicos estou completamente satisfeito. Seus pontos de vista e os de Bohr têm sido geralmente aceitos; ao menos objeções sérias não têm sido mais feitas, nem mesmo por Einstein ou Schrödinger” (Heisenberg apud Cassidy, 1991, p. 254). Com

essa ampla aceitação entre a elite dos físicos da Europa, Bohr e Heisenberg iniciaram a propagação de suas ideias em outros campos.

Bohr, na década de 1930, ministrou palestras para os mais variados públicos, relacionando a noção de complementaridade com um sem-número de temas. Em 1933, ele proferiu a palestra “Luz e vida” na abertura do Congresso Internacional sobre Terapias através da Luz. Em 1937, participou do Congresso de Física e Biologia em Bolonha e, um ano depois, discursou no Congresso Internacional de Ciências Antropológicas e Etnológicas, em Copenhague, discorrendo sobre “Filosofia natural e culturas humanas” (cf. Bohr, 1995).

Heisenberg, por sua vez, seguiu os passos de Bohr e, em 1929, realizou uma série de palestras (mas para platéias mais especializadas) pelos Estados Unidos, Japão, China e Índia. As preleções na Universidade de Chicago serviram de base para seu primeiro livro, intitulado The physical principles of quantum mechanics (Os princípios físicos da mecânica quântica), publicado em 1949 (cf. Heisenberg, 1949). Segundo Cassidy (1991, p. 265), este tinha como propósito expresso a disseminação do “espírito da teoria quântica de Copenhague” – o que explica a forte influência das ideias de Bohr em todo o texto.

Iniciou-se, então, a prolífica carreira de Heisenberg como divulgador das ideias do grupo de Copenhague, dela resultando toda a imensa produção de artigos filosóficos e científicos que marcaram a vida intelectual do físico alemão. Estes, sem dúvida, carecem de certa sistematicidade, pois seriam “sempre feitos sob medida para o consumo público, sendo deste modo motivados pelos objetivos pessoais [de Heisenberg] perante cada audiência particular” (Cassidy, 1991, p. 255). Mas, apesar da assistematicidade, o efeito propagandístico das palestras e artigos é imenso. Eles são um dos pilares para o estabelecimento da hegemonia do “espírito de Copenhague” não somente entre os físicos, mas, principalmente, entre o público leigo que, consequentemente, acaba por ignorar toda a variedade de interpretações possíveis para os fenômenos quânticos.

HEISENBERG, HISTÓRIA DA CIÊNCIA E FILOSOFIA GREGA

Uma constante nesse corpus textual é a referência à cultura clássica, especialmente aos filósofos gregos. Desde jovem, Heisenberg havia se convencido de que dificilmente “podemos ocupar-nos de física atômica sem conhecermos a filosofia grega” (Heinsenberg, 1962, p. 60). Essa intuição o acompanhou durante toda sua vida. Em 13 de julho de 1949, Heisenberg, a essa altura já laureado com um Nobel, retornou à instituição onde cursara o liceu, o Maxmilians Gymnasium em Munique, e proferiu uma palestra intitulada “Naturwissenschaft und humanistische Bildung” (“Ciência natural e formação humanista”). Pretendia defender que, mesmo em um mundo marcado pelo predomínio da ciência e da técnica, uma formação humanista baseada no estudo da história antiga e das letras clássicas, como a de Heisenberg, não poderia ser descartada como “um luxo, que só se podem permitir uns poucos para quem o destino tornou a luta pela vida mais fácil do que para os outros” (Heisenberg, 1962, p. 62). O que seria apenas um panegírico dedicado à escola onde passara sua juventude, tornou-se a oportunidade para Heisenberg defender que a ciência pode tirar benefícios da cultura humanista.

O currículo do Maxmilians Gymnasium  – que era dirigido por Nicolaus Wecklein, avô materno de Heisenberg – incluía o ensino do grego e do latim clássicos. O último ano, por exemplo, era pautado pela leitura de Sófocles, Homero e de alguns diálogos platônicos, tais como Apologia de Sócrates e trechos do Fédon e do Banquete (cf. Hermann, 1976, p. 12). Paralelamente a isso, Heisenberg havia desenvolvido um grande interesse pela matemática, a ponto de, ainda no Gymnasium, haver “aprendido por conta própria o cálculo diferencial e integral, que não fazia parte do currículo regular” (Piza, 2003, p. 73).1

Mais de duas décadas depois, em um artigo escrito em 1976, a reverência pela cultura clássica ainda permanecia. Nesse artigo, escrito no ano de sua morte, Heisenberg afirma que muitos dos equívocos relacionados à teoria das partículas elementares seriam decorrentes do distanciamento que os cientistas mantinham das questões filosóficas. Para ele, a “boa física é inadvertidamente prejudicada por uma filosofia ruim” adotada pelos físicos (Heisenberg, 1989, p. 82). A separação entre a atuação científica e as formulações teóricas gerais teria origem no esquecimento, por parte dos cientistas, de uma das principais características do pensamento grego: “a estreita ligação entre formulações teóricas e atuação prática […] e a aptidão em ordenar a policroma multiplicidade da experiência, tornando-a acessível ao pensamento humano” (Heisenberg, 1962, p. 52-3). Na raiz de todas as conquistas da ciência, encontra-se, segundo Heisenberg, a inestimável contribuição dos filósofos gregos. Para ele, o cientista que tenta desvincular-se da filosofia grega comete um duplo erro. Primeiro, torna-se incapaz de detectar e analisar o discurso filosófico que seu trabalho carrega, veladamente, limitando sua compreensão dos problemas da própria física. Segundo, ignora-se o quinhão da herança helênica para a humanidade, quando se nega a possibilidade de aproximação entre ciência e filosofia. Dessa maneira, a filosofia forneceria instrumentos conceituais mais sofisticados para o cientista compreender melhor o seu trabalho e o seu objeto de estudo, aperfeiçoando o próprio desenvolvimento científico.2

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Figura 2. Primeira página do artigo de 1925 que expõe a mecânica de matrizes, publicado no volume 33 do Zeitschrift für Physik. (Fonte: http://www.aip.org/history/heisenberg/p01.htm).

Assim, ainda para Heisenberg, o fato de filosofia e ciência possuírem um mesmo berço nas póleis gregas há mais de dois mil e quinhentos anos, não é uma mera contingência histórica. Apesar da atual separação acadêmica entre as duas disciplinas, suas histórias estariam intimamente ligadas,  pois certas escolhas conceituais  surgidas  na Antiguidade determinaramos caminhos da ciência em seu desenvolvimento nos séculos posteriores. Assim, nem os últimos cinco séculos, marcados pelo progresso extraordinário da técnica e da ciência, ficaram livres dessa influência.3

Portanto, ao analisar o uso que Heisenberg fez de conceitos herdados do pensamento grego antigo, é necessário compreender a sua visão da história da ciência, na qual a herança intelectual helênica se manifestava em duas correntes antagônicas: o materialismo e o idealismo. Para ele, da busca dos gregos por “um entendimento unificado dos fenômenos naturais”, surgiram “dois conceitos opostos” (o idealismo e o materialismo). Ambos prescreveriam diferentes respostas ao problema da estrutura fundamental da matéria. A teoria atômica criada por Leucipo e Demócrito é considerada o marco fundador do materialismo. A outra corrente, o idealismo, teria surgido com o Pitagorismo e Platão, mais especificamente com este último no Timeu. As duas tendências, afirma Heisenberg, não são apenas de interesse restrito a historiadores da filosofia. Para ele, a descoberta de Planck não se limitou a resolver um problema específico da termodinâmica. Uma de suas consequências foi reviver o debate entre Demócrito e Platão sobre os constituintes últimos da matéria.

Para Heisenberg, o século xviii foi crucial na trajetória histórica do materialismo, pois, a partir daquele século, viu-se que “as experiências químicas podiam ser ordenadas e interpretadas satisfatoriamente por intermédio da hipótese atômica herdada da Antiguidade, se o átomo fosse considerado como o elemento imutável, verdadeiro e realmente existente, constituinte da matéria” (Heisenberg, 1962, p. 11).

E a influência do materialismo chegou até os séculos xix e xx, a qual teria criado uma imagem “simplista” do mundo, sustentada tanto pelos avanços da química e da física da época, como pelo surgimento do “materialismo dialético” (Heisenberg, 1974, p. 9). Mesmo no século xx, muitos físicos, envolvidos nas pesquisas sobre as partículas elementares, estariam, segundo ele, sob a influência “mais ou menos inconsciente” de Demócrito.

Contudo, Heisenberg não identificava por completo o materialismo antigo com a filosofia que dominou as ciências naturais até as descobertas de Planck, pois a palavra “materialismo” assumiu no século xix um significado unilateral que se distanciava da filosofia grega da natureza. A nova concepção de materialismo, nascida da revolução científica do século xvii, que teve como um dos marcos a publicação do Principia de Newton em 1687, sofreu o influxo da filosofia cartesiana e da “cisão entre realidade material e realidade espiritual” preconizada por Descartes (cf. Heisenberg, 1962, p. 61).

A filosofia grega procurava um princípio unificador de todos os fenômenos observados no mundo, uma espécie de “matéria cósmica, vale dizer, uma substância universal que passaria por todas as transformações, da qual todas as coisas emergiriam para depois a ela retornar” (Heisenberg, 1995, p. 113). De Tales, passando por Demócrito e até Aristóteles, o conceito de matéria ligavase a essa tentativa de compreender a totalidade do mundo por meio de um princípio fundamental de unificação – a arché. Séculos depois, Descartes funda uma filosofia baseada na oposição entre matéria e espírito e, assim, o conceito de matéria sofre uma transformação: no lugar da totalidade unificada, a ruptura.

Foi a distinção radical entre res cogitans e res extensa que teria modificado profundamente o conceito de matéria herdado da Antiguidade Clássica.4 Nesse momento da história, a escolha estabelecida, ou seja, a mistura entre o atomismo antigo e a metafísica cartesiana, determinou o desenvolvimento das ciências nos séculos posteriores. Assim, desconsiderou-se qualquer tipo de “força espiritual” como explicação plausível para os fenômenos concretos. Esse novo materialismo entenderia a matéria como o resultado de uma “cadeia causal de interações mecânicas”; como consequência, “o conceito de matéria perdeu sua ligação com a ‘alma vegetativa’ da filosofia de Aristóteles” (Heisenberg, 1995, p. 114).

Haveria ainda outra característica do moderno materialismo que, além de diferenciá-lo do atomismo grego, seria uma das causas de sua visão de mundo “unilateral” e “simplista”. Em um texto de 1933, após descrever as transformações do conceito de matéria no decorrer da história, de Tales até Demócrito e Platão, Heisenberg se deteve em um problema conceitual: o materialismo, em seu curso histórico, com sua ênfase nas qualidades primárias e objetivas, não teria desconsiderado certos aspectos essenciais da realidade? Em sua avaliação, haveria uma gradativa substituição do termo Naturerklärung (interpretação da natureza) por Naturerbeschreibung (descrição da natureza), que seria “mais modesto” e acarretaria o abandono de um “conhecimento imediato e direto”, com o predomínio de um “entendimento analítico” (Heisenberg, 1952, p. 34).

BOHREINSTEIN

Figura 3. Niels Bohr e Albert Einstein,

fotografados pelo físico austríaco Paul Ehrenfest por volta de 1927.

(Fonte: Robson, 2005, p. 100).

Ao tentar compreender tal problema, Heisenberg recorre à análise platônica dos tipos de conhecimento realizada no Livro 6 da República. A distinção entre diánoia e epistéme é utilizada como um instrumento heurístico que permite compreender melhor a dinâmica entre o materialismo e o idealismo na história da física. Em Platão, os dois termos partilham atribuições epistemológicas e ontológicas, mas o físico alemão os emprega de maneira peculiar. Diánoia e epistéme seriam dois instrumentos conceituais que permitiriam uma melhor avaliação tanto da interpretação da natureza – de matriz idealista, qualitativa e baseada em um conhecimento direto e imediato – e da descrição da natureza – quantitativa, analítica e de raiz materialista. Nesse sentido, Heisenberg apresenta a seguinte interpretação da divisão da linha no famoso trecho 511 d-e da República:

[Platão] distingue quatro estágios da percepção: o mais alto deles é chamado de epistéme e corresponde ao conhecimento das coisas reais, à percepção e ao reconhecimento da sua natureza, como descrito na analogia [o mito da caverna].

O segundo estágio é conhecido como conhecimento discursivo – diánoia – e pode ser alcançado pelo estudo das ciências. Os dois últimos estágios relacionam-se com os dois primeiros assim como a crença o faz com a compreensão. Elas são chamadas de fé e crença (pístis) e conjectura (eikasía) (Heisenberg, 1952, p. 32).

Talvez por ser a transcrição de uma palestra, o texto apresenta uma confusão canhestra entre os conceitos de epistéme e nóesis. Na República (6, 511 d-e), Platão distingue não exatamente a epistéme, mas a nóesis da diánoia, da pístis e da eikasía; na República 508e, Platão associa epistéme   à verdade,   em oposição à  opinião (dóxa).  Para  todos os efeitos, tal confusão não altera substancialmente o argumento a ser analisado. Apenas deve-se considerar que, quando Heisenberg cita deve-se considerar que, quando Heisenberg cita epistéme, na verdade ele refere-se à nóesis.5 De que modo esses dois conceitos servem de parâmetros heurísticos para a compreensão da dinâmica entre o materialismo e o idealismo no transcorrer da história? Em resposta a essa questão, ele insiste em sua tese: além da influência da metafísica cartesiana sobre o materialismo moderno, este também se distingue do atomismo antigo, e de toda a filosofia grega, pelo fato de seu grande bastião, a ciência moderna, ter abandonado a epistéme como objetivo último, limitando-se à descrição matemática do mundo, ou seja, ao campo da diánoia.

Frente ao impacto do materialismo na história da ciência, a compreensão da natureza, nos últimos cinco séculos, limitou-se a afastar os dados da experiência imediata e, subjacente a eles, descobrir estruturas matemáticas. O ápice dessa postura epistêmica – marcada pela ênfase no quantitativo, em detrimento de outras propriedades dos objetos naturais – é encontrado, como já assinalamos, no alto nível de abstração que Newton inaugurou nos Principia mathematica. Para Heisenberg, com Newton “surgiu a possibilidade de unificar a infinita riqueza dos fenômenos em um formalismo matemático. Por meio de cálculos, o complexo processo individual pode ser compreendido como uma consequência de leis básicas e, portanto, ‘explicado’” (Heisenberg, 1974, p. 40).

É possível resumir essas reflexões de Heisenberg da seguinte maneira: o materialismo dominante na ciência moderna, anterior à descoberta de Max Planck, herdou de Demócrito a separação entre qualidades primárias e secundárias, com ênfase nas primeiras. Agregou-se a isso a cisão cartesiana entre res extensa e res cogitans que, além de esvaziar o ideal helênico de busca por uma fundamentação, uma ordem no cosmo, privilegiou a análise e a separação, desqualificando a subjetividade como algo relevante no âmbito da ciência. Daí, o recurso à oposição entre diánoia e nóesis (epistéme, nos textos de Heisenberg): o materialismo moderno limita-se à diánoia, o conhecimento mediano, intermediário que, ao invés da intuição intelectual autossuficiente, procede de modo analítico, mediato, passo a passo. Concomitante a isso, o alto poder preditivo e as inumeráveis aplicações tecnológicas geradas pela nova ciência legitimaram o predomínio da diánoia em detrimento da epistéme.

Heisenberg critica essa divisão, denominada “realismo metafísico”, e a primazia dada à res extensa frente à “coisa pensante”, primazia essa que acarretou o nascimento de um ideal de ciência puramente objetiva, sem referência ao “Eu”. No entanto, ele reconhece que, na base dos sucessos  da ciência moderna anterior à teoria quântica, a “hipótese de que se pode descrever o mundo sem fazer qualquer menção a Deus ou a nós mesmos” (Heisenberg, 1995, p. 64) pareceu ser a condição necessária para o desenvolvimento das ciências naturais. No entanto, após as descobertas de Planck e o subsequente desenvolvimento da teoria quântica, o realismo metafísico foi incapaz de compreender as novas situações colocadas.6

Para melhor compreender esse processo histórico, Heisenberg empregou um termo retirado da filosofia de Fichte: “autolimitação”.7 Esse conceito demonstraria que o predomínio da diánoia na história da ciência levou “ao fato de que praticamente todo progresso e conhecimento [da ciência] foram obtidos pelo sacrifício de importantes formulações anteriores de questões e ideias” (Heisenberg, 1952, p. 27). A autolimitação seria, neste caso, o abandono da busca por princípios gerais da natureza e sua substituição por uma análise dos fenômenos, concretizada pela ênfase no quantitativo, na busca de condições experimentais precisas, de medições exatas e de “uma terminologia livre de ambiguidades” (Heisenberg, 1974, p. 216).

A partir da descoberta do quantum de energia em 1900, até os subsequentes experimentos relacionados às partículas elementares, a concepção da estrutura atômica da matéria revela uma transição de Demócrito a Platão, ou seja, do materialismo ao idealismo (cf. Heisenberg, 1974, p. 18). A mecânica quântica e a física de partículas elementares, por exemplo, tornaram insustentável a concepção do átomo como uma entidade eterna, imutável e indivisível.8

Mas as partículas elementares não poderiam ser comparadas com o átomo de Demócrito e Leucipo? Não. Por mais que o atomismo antigo prive o átomo de uma série de atributos – restando apenas sua forma, movimento e arranjo espacial –, a atual descrição de uma partícula elementar exclui até mesmo esses aspectos mais abstratos do átomo de Demócrito. “Se quisermos oferecer uma descrição precisa de partícula elementar – e, aí, a ênfase está no termo ‘precisa’ – a única coisa que poderemos apresentar é uma função de probabilidade” (Heisenberg, 1995, p. 56). Ou seja, uma partícula elementar não pode ser identificada com um ponto material, mas sim com uma forma matemática. Com isso, não só o atomismo antigo, mas também suas herdeiras modernas – a química e a termodinâmica do século xix – tornaram-se incapazes de tratar do mundo subatômico. As aporias que a teoria quântica parece impor à aplicabilidade dos conceitos da física clássica são decorrentes de certas escolhas filosóficas – a autolimitação que fundamenta a ciência moderna.

Para Heisenberg, a revolução quântica, derivada da revolução galileana e de sua abordagem formalista e abstrata dos fenômenos naturais, levou a física a um ponto no qual apenas o formalismo matemático não alcançava o que estava em jogo no mundo subatômico. É nesse sentido que se pode entender plenamente a seguinte frase: “tal como Copérnico e Galileu abandonaram, nos seus métodos, a ciência descritiva de Aristóteles, assim seremos forçados a abdicar do materialismo atômico de Demócrito e retomar as ideias de simetria da filosofia de Platão” (Heisenberg, 1990, p. 91). A compreensão dos fenômenos subatômicos exigia uma volta da ciência aos termos do idealismo: estabelecer um distanciamento do materialismo, do cartesianismo e do predomínio de um pensamento estritamente formal e matematizado, a diánoia.

MATERIALISMO, REALISMO, IDEALISMO E A INTERPRETAÇÃO DE COPENHAGUE

Essa leitura da filosofia grega feita por Heisenberg vai permitir que ele responda aos críticos da Interpretação de Copenhague. Essas críticas, segundo ele, seriam herdeiras de uma “ontologia do materialismo”.9 No capítulo de Física e filosofia, intitulado “O desenvolvimento das ideias filosóficas, após Descartes, em comparação com a nova situação da teoria quântica”, Heisenberg apresenta suas ideias sobre a filosofia moderna, relacionando-a com o pensamento antigo e a teoria quântica. Como visto, sua opinião acerca da filosofia moderna, sobretudo com relação a Descartes, é crítica e contundente.

Nesse texto, Heisenberg apresenta três formas de realismo: prático, dogmático e metafísico. Todas partilham da crença segundo a qual “nós ‘objetivaremos’ uma afirmação, se mantivermos que seu conteúdo independe das condições sob as quais ela possa ser verificada” (Heisenberg, 1995, p. 64). Logo, o realismo opõe-se à Interpretação de Copenhague, pois, segundo esta, “não podemos objetivar completamente o resultado de uma observação experimental, e não temos como descrever o que ‘acontece entre uma observação e outra” (Heisenberg, 1995, p. 43).

O realismo prático limita-se a assumir afirmações que podem “ser objetivadas” e que a maior parte de nossas experiências, na vida cotidiana, “consistam em tais asserções”, o que faz dele um pressuposto necessário da prática da ciência natural (Heisenberg, 1995, p. 65).

HEISENBERG3

Figura 4. Heisenberg em sala de aula em 1936.

(Fonte: http://www.aip.org/history/heisenberg/p04.htm).

O realismo dogmático defende “não haver assertiva que diga respeito ao mundo material que não possa ser objetivada”. A física clássica estaria alicerçada nele, mas após a teoria quântica ficou óbvia a possibilidade de haver ciência exata fora dos preceitos do realismo dogmático. A “dificuldade” de Albert Einstein (1879-1955) em “entender e aceitar” a Interpretação de Copenhague deve-se a ele tomar o realismo dogmático como única base da ciência natural (Heisenberg, 1995, p. 65).

O realismo metafísico é definido, sucintamente, como a posição surgida da “partição cartesiana” e que identifica o mundo com a coisa extensa. Para o realista metafísico, o problema de nossas asserções poderem ou não ser “objetivadas” nem se coloca: é certo e seguro que elas existem (cf. Heisenberg, 1995, p. 64-5).

O criador da teoria da relatividade não foi o único alvo das críticas de Heisenberg. Durante a década de 1950, renasceram certas críticas à Interpretação de Copenhague, que a essa altura já era hegemônica. Se até esse momento os críticos se limitavam a poucos oponentes, o pós-guerra trouxe algo que não havia vingado antes: a elaboração de uma interpretação concorrente ao modelo que, desde os fins dos anos 1920, havia se tornado a ortodoxia entre a

comunidade de físicos. Ou seja, na revisão histórica empreendida por Heisenberg, os herdeiros de Demócrito e Descartes são, além de Einstein, David Bohm (1917-1992), Louis de Broglie (1892-1987), Max von Laue (1879-1960) e Erwin Schrödinger (1887-1961) que, além de taxados como representantes de uma filosofia ultrapassada, são acusados de sacrificarem “propriedades essenciais de simetria que a teoria quântica exibe” (Heisenberg, 1995, p. 111). Esses autores desenvolveram, de maneira diferente, interpretações contrárias à de Copenhague. Na esteira da crítica aos diversos realismos, Heisenberg fará então uso de novos argumentos derivados da filosofia de Platão para desqualificar essas interpretações.

Suas mais ásperas e diretas críticas contra as interpretações concorrentes vieram a lume durante uma das palestras apresentadas na Universidade de St. Andrews, na Escócia, durante os anos de 1955 e 1956. Em 1958, seriam publicadas em um único livro, Physics and philosophy: the revolution in modern science (Física e filosofia: a revolução na ciência moderna), uma espécie de suma das opiniões de Heisenberg sobre ciência, filosofia e história da ciência. O capítulo 8, “Críticas e contrapropostas à Interpretação de Copenhague da teoria quântica”, é dedicado exclusivamente a suas restrições frente às propostas de Bohm, Imre Fényes, A. D. Alexandrov, D. I. Blokhintsev, Schrödinger, Einstein e Max von Laue.

De início, Heisenberg declara que a Interpretação de Copenhague provocou o afastamento entre a física e o materialismo que prevaleceu durante o século xix. Todavia, a influência do materialismo foi esmagadora: abrangeu desde o pensamento filosófico, passando pela ciência natural e chegando até “o homem da rua”. A profunda ascendência das teses materialistas sobre os mais variados pontos de vista explica “que muitas tentativas tenham sido feitas para criticar a interpretação de Copenhague” (Heisenberg, 1995, p. 99).

Por mais que Heisenberg estabeleça, como será visto adiante, uma diferenciação entre os críticos da Interpretação de Copenhague, todos os opositores são considerados materialistas nostálgicos, que não perceberam – ou se perceberam, não aceitaram – a revolução introduzida de modo inexorável pelo grupo de Copenhague e Göttingen.

Nesse caso, os opositores foram divididos em três grupos. O primeiro seria caracterizado pelo fato de não pretender mudar a Interpretação de Copenhague no que diz respeito a suas predições empíricas. Seu foco seria, antes, modificar a linguagem da teoria quântica aproximando-a da física clássica. Formado por David Bohm, Imre Fényes, A. D. Alexandrov e D. I. Blokhintsev, esse grupo tenciona “mudar a filosofia sem tocar na física” (Heisenberg, 1995, p. 108). Quanto ao segundo grupo, representado pelo físico húngaro Lajos Jánossy, o objetivo seria modificar a teoria quântica em suas estruturas matemáticas, de maneira a chegar a uma interpretação filosófica diversa. O último grupo é composto por fundadores da teoria quântica, como Einstein e Schrödinger juntamente com Max von Laue. Haveria, para esses autores, uma “insatisfação generalizada com os resultados da interpretação de Copenhague, especialmente com suas conclusões filosóficas, sem, todavia, fazer contrapropostas definidas” (Heisenberg, 1995, p. 99).

Segundo ele, os argumentos de Einstein seriam os seguintes:

O esquema matemático da teoria quântica parece propiciar uma descrição perfeitamente adequada no que diz respeito aos atributos estatísticos dos fenômenos atômicos. Mas […] a interpretação usual não permite a descrição do que realmente acontece independente das observações, ou entre duas delas. Mas alguma coisa deve ter acontecido, sobre isso não há dúvida; essa “alguma coisa” precisa ser descrita, seja em termos de elétrons, ondas ou quanta de luz, mas, a menos que ela seja descrita de alguma maneira, a tarefa da física não está terminada.  Não se pode admitir que essa “alguma coisa” diga respeito somente ao ato de observação. O físico deve postular, em sua ciência, que ele está estudando um mundo que não construiu, o qual estará sempre presente e basicamente inalterado, mesmo em sua ausência (Heisenberg, 1995, p. 109).

Por mais que o texto contenha trechos que lembram a profissão de fé realista que abre o artigo onde se elabora o argumento EPR10 (cf. Einstein; Podolsky & Rosen, 1981, p. 90), não faz nenhuma referência a ele. Contra a exigência de uma “descrição do que realmente acontece independente das observações”, Heisenberg argumenta que devido ao fato de utilizarmos a linguagem da física clássica – um refinamento de nossa linguagem cotidiana – para descrever os fenômenos quânticos, haveria um limite intransponível na efetivação de tal tarefa.11

 TEORIA QUÂNTICA, IDEALISMO E A ESTRUTURA DA MATÉRIA

Para Heisenberg, essa limitação só poderia ser superada via o idealismo derivado das doutrinas platônicas12 sobre a estrutura da matéria, descritas no Timeu. Ao contrário do materialismo de Demócrito, no qual os constituintes últimos da matéria eram inalteráveis e indestrutíveis partículas materiais, o idealismo13 platônico considera que as menores partículas de matéria são, por assim dizer, apenas formas geométricas, no caso, os sólidos regulares da geometria. Esses sólidos, diferentemente dos átomos, podem ser divididos em partes ainda menores. Os sólidos geométricos podem ser decompostos em triângulos que, segundo Heisenberg, deixam de ser matéria, pois não possuem dimensões espaciais.14 A forma geométrica, uma das poucas características intrínsecas dos átomos, deixa de ser um atributo destes, como o era em Demócrito, tornando-se a estrutura subjacente da matéria.

E por que Heisenberg relaciona a doutrina platônica com a estrutura da matéria segundo a física moderna? O trecho a seguir é representativo do modo como Heisenberg interpreta a física platônica:

Quando duas partículas elementares de elevada energia colidem, originam-se várias partículas no processo de desintegração, mas os fragmentos resultantes não são necessariamente menores do que as partículas iniciais. (…) o conceito de divisibilidade perdeu assim o seu significado e, consequentemente, o mesmo aconteceu com o conceito de partícula mínima. Se a energia se converte em matéria, isso acontece porque a energia adota a forma equivalente de partículas elementares. Esta forma aparece como a representação de um grupo de transformação, tal como a rotação no espaço ou a transformação de Lorentz. (…) elas são as entidades menores, autênticos blocos construtores da matéria, ou são elas meramente representações matemáticas dos grupos de simetria pela qual a matéria é construída? (Heisenberg, 1990, p. 47).

Para ele, inclusive, “‘no começo era a simetria’ é, certamente, uma expressão melhor do que ‘no começo era a partícula’ de Demócrito […] nossas partículas elementares são comparáveis aos corpos regulares do Timeu de Platão. São modelos originais, as ideias da matéria” (Heisenberg, 1996, p. 278-9).15 A substituição do materialismo tradicional pelo platonismo adviria das partículas elementares não mais se adequarem a uma imagem dos átomos como “indestrutíveis” e “eternos”. Os experimentos realizados nos aceleradores de partículas demonstram que uma partícula pode ser transformada em outras partículas. Essas últimas seriam estruturas matemáticas da natureza, propriedades ou equações caracterizadas pela sua invariância frente às transformações (conversões) das próprias partículas umas nas outras.16

Segundo Heisenberg, um dos efeitos nefastos do materialismo moderno foi a ruptura com o modelo epistemológico platônico apresentado na República, pois o desenvolvimento das ciências como um todo levou “os dois tipos de percepção, epistéme e diánoia” a uma “relação de exclusão mútua” (Heisenberg, 1952, p. 34). Contudo, em seu contexto original, as duas noções eram interdependentes. Quando Heisenberg aproxima as simetrias matemáticas das estruturas geométricas e matemáticas do Timeu, ele não só tenta expurgar o materialismo moderno da física, mas, também, talvez inconscientemente, reaproxima o “conhecimento intermediário” da “intelecção pura”.

Do mesmo modo que os objetos sensíveis são decorrentes da mistura entre as formas geométricas e o princípio material sensível (cf. Reale, 1994, p. 148), a diánoia representa uma ciência intermediária que, no entanto, permite uma descrição do mundo físico, especialmente a “perda da certeza”, para empregar os termos de Cattanei.17

O retorno ao idealismo, devido à revolução quântica e à física das partículas elementares, não significa uma supressão da diánoia – algo impossível para a ciência moderna altamente matematizada. Levando as ideias de Heisenberg até seu desfecho lógico, pode-se considerar que o idealismo nas ciências naturais contemporâneas promoveu um reequilíbrio entre as duas noções. Contudo, essa foi uma conclusão que Heisenberg nunca expressou.18

A CONSTRUÇÃO DA INTERPRETAÇÃO DE COPENHAGUE:

FILOSOFIA GREGA E RETÓRICA

As mais corriqueiras opiniões acerca das ideias filosóficas de Heisenberg, especialmente entre seus críticos, são as que o taxam de ser um positivista ou um instrumentalista ingênuo que se deixou contaminar pelas filosofias da moda na Europa das décadas de 1920 e 1930. Filósofos conceituados, tais como Karl Popper e Mario Bunge,19 adotam por inteiro essa interpretação. No entanto, pode-se corroborar a tese de Popper e Bunge de que Heisenberg foi tão somente um êmulo do positivismo? Ao que parece não. Pelas seguintes razões. Desde o artigo de 1925 que expõe a mecânica de matrizes, até as palestras de 1958 que resultaram no livro Física e filosofia, Heisenberg insiste que a física só trata com grandezas observáveis, no que se refere ao mundo quântico.

O artigo de 1925 é finalizado com o seguinte parágrafo:

Se um método para determinar dados quânticos teóricos utilizando relações entre grandezas observáveis, tal como proposto aqui, pode ser tido como satisfatório em princípio, ou se esse método, após tudo, acabar por representar uma aproximação por demais grosseira para o problema físico de construir uma mecânica quântica teórica […] só pode ser decidido com investigações matemáticas mais intensas do método que foi superficialmente empregado aqui (Heisenberg apud Van der Waerden, 1967, p. 276).

O que iniciou como uma atitude quase que desesperada do jovem Heisenberg diante do emaranhado de dados experimentais e inconsistências teóricas relativas à estrutura do átomo (cf. Van der Waerden, 1967, p. 37-40) acabou por desenvolver-se nos anos subsequentes. Já em 1927, quando da elaboração do princípio de incerteza, as grandezas observáveis são tidas como a única fonte de significado físico para os fenômenos quânticos:

Quando queremos ter clareza sobre o que se deve entender pelas palavras “posição do objeto”, por exemplo, do elétron (relativamente a um dado referencial), então é preciso especificar experimentos definidos com o auxílio dos quais se pretenda medir a “posição do elétron”; caso contrário, a expressão não terá nenhum significado (Heisenberg apud Chibeni, 2005, p. 183).

Quase três décadas depois, em 1958, Heisenberg apresenta os mesmos argumentos, em um tom assumidamente filosófico:

De um ponto de vista muito geral, não há maneira alguma de descrever o que acontece entre duas observações consecutivas. É, certamente, tentador dizer que o elétron deve ter estado em algum lugar, no intervalo de tempo entre essas duas observações, e que, portanto, o elétron deveria ter descrito algum tipo de trajetória ou órbita, mesmo que seja impossível saber qual. Esse seria um argumento razoável na física clássica. Na teoria quântica, porém, teria sido um abuso de linguagem que, como veremos depois, não pode ser justificado […]. Se quisermos descrever o que ocorre em um evento atômico, deveremos compreender que o termo “ocorre” pode somente ser aplicado à observação, e não ao estado de coisas durante duas observações consecutivas (Heisenberg, 1995, p. 42-6).

No entanto, pode-se corroborar a tese de Popper e Bunge de que Heisenberg foi tão somente um êmulo do positivismo? Ao que parece não, por duas razões (cf. Heisenberg, 1995, 1996).

A obra de Heisenberg é inegavelmente perpassada por ideias similares às dos positivistas. Mas não existem provas textuais nas fontes consultadas que comprovem uma influência de fato de filósofos positivistas sobre Heisenberg. Além disso, seu diálogo com a filosofia grega e moderna inseriu uma série de noções e conceitos que o afastam de um positivismo puro e simples.

A influência de Ernst Mach – uma das referências fundamentais do positivismo – é rejeitada.20 Heisenberg afirmou que nunca o leu seriamente e o contato com sua obra foi posterior à criação da mecânica matricial (cf. Hermann, 1976, p. 28). A opção de utilizar apenas grandezas observáveis foi, segundo Heisenberg, inspirada pela teoria especial da relatividade (cf. Heisenberg, 1996, p. 78-9).

Outro motivo, que distancia Heisenberg das “bênçãos do Círculo de Viena”, pode ser aduzido a partir do seguinte trecho:

Embora o movimento positivista lógico vivesse seu apogeu quando a mecânica quântica se desenvolveu, as formas de antirrealismo, que comparecem na interpretação “ortodoxa” dessa teoria, não se identificam com o redutivismo positivista estrito (Chibeni, 1997, p. 31).

Bohr e Heisenberg não advogavam que as proposições teóricas deveriam ser reduzidas “a proposições observacionais através de certas convenções linguísticas (regras de correspondência) para que seu verdadeiro conteúdo empírico e significado se evidenciem” (Chibeni, 1997, p. 31).21

Mas, então, é possível deduzir algum tipo de filosofia consistente da obra de Heisenberg, particularmente no que se refere ao uso que ele faz da filosofia clássica, especialmente do atomismo, do platonismo e da história da ciência? É possível uma reconstrução racional dessas suas ideias filosóficas? Ao levar em conta as fontes consultadas, a resposta é não.

Não existiria um sistema subjacente ou um desenvolvimento intelectual com um sentido logicamente determinado que permitisse afirmar algo como “Heisenberg defendia uma concepção x1 que foi se desenvolvendo no decorrer de sua carreira e o conduziu a uma concepção x2”. No entanto, observam-se alguns temas recorrentes que foram incorporando as mais diversas teses filosóficas. Heisenberg, em diferentes momentos e em função do contexto de estabelecimento e construção da teoria quântica, busca na filosofia elementos teóricos que legitimem suas convicções científicas – especialmente no que diz respeito à Interpretação de Copenhague.

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Figura 5. Heisenberg e Bohr, 1935 ou 1936.

(Fonte: http://www.aip.org/history/heisenberg/p08.htm).

Pode-se colocar uma outra questão crucial: existiu uma interpretação de Copenhague, no sentido de uma escola, de um grupo, que partilhasse crenças e práticas homogêneas? Talvez os próprios textos de Heisenberg possam esclarecer essa questão.

Em A parte e o todo, o físico alemão utiliza um recurso estilístico que remete aos textos de duas matrizes do pensamento helênico: o supracitado Platão e o historiador Tucídides. O estilo dialogado platônico seria fundido com o artifício que Tucídides utilizou na sua História da guerra do Peloponeso: o de fazer cada orador falar “como, em minha opinião, ele o teria feito naquelas circunstâncias, atendo-me o mais estritamente possível à linha de pensamento que norteou sua fala” (Tucídides apud Heisenberg, 1996, p. 7).

A parte e o todo é um texto de recriação de uma série de diálogos entre o autor e outras personalidades importantes em sua vida, Einstein e Bohr, por exemplo, em uma forma textual denominada “condensação livre” (Heisenberg, 1996, p. 7). Nele, encontramos um trecho que, fora do contexto, parece não dizer muito:

Sinto-me fascinado pela ideia de que a simetria seja algo muito mais fundamental do que a partícula em si. Isso se enquadra no espírito da teoria quântica, tal como Bohr sempre a concebeu. Também se enquadra na filosofia de Platão, mas isso não interessa agora (Heisenberg, 1996, p. 193, grifo nosso).

Além de recriar diálogos de seu próprio passado segundo sua opinião, Heisenberg reconstruiu, sob uma ótica estritamente pessoal, a história da física no século xx. A estratégia da “condensação livre” de seu livro de memórias foi utilizada por ele desde a década de 1950. O trecho destacado é típico: relaciona “simetria”, “Bohr” e “Platão”; a teoria quântica é identificada com as ideias de Bohr e relacionada ao platonismo. Apesar do tom despretensioso, o trecho representa bem como se elaborou a criação daquilo que se convencionou chamar de Interpretação de Copenhague. Ela seria a única interpretação legítima da teoria quântica, além de ser a única filosoficamente aceitável, pois reintroduzia o idealismo na física.

Segundo Mara Beller, as opiniões filosóficas dos fundadores da Interpretação de Copenhague são marcadas por inconsistências e mudanças, em função das circunstâncias teóricas e sociopolíticas. O próprio Bohr mudou suas ideias sobre a mecânica quântica com o passar dos anos. Beller elaborou uma lista das inúmeras tentativas de pesquisadores em enquadrar o pensamento de Niels Bohr sob um único termo. O resultado foi uma série de interpretações conflitantes, todas elas com “boa evidência textual” (Beller, 1996, p. 183), e que inclui desde a avaliação de Popper, que considera Bohr um subjetivista, até Feyrerabend que o considera um defensor do objetivismo. Pesquisadores recentes se dividem: para Murdoch (1994), Bohr seria um realista, enquanto para Faye (1994), ele seria um antirrealista.

Diante desse cenário, a opção metodológica de Beller (1996, p. 183), consoante à opção adotada aqui frente às inconsistências da filosofia de Heisenberg, é evitar a ambição de “eliminar as inconsistências”.22 A partir de uma análise mais detalhada, revela-se que “a” Interpretação de Copenhague não possui a consistência e homogeneidade sugeridas pelos relatos de Heisenberg. Outros autores, como Pessoa Júnior (2005, p. 97) e Howard (2004),23 também enfatizam a ausência de uma coerência entre os criadores da mecânica quântica e defendem que a Interpretação de Copenhague é uma criação tardia. Howard chega a afirmar que, nos escritos de Bohr, não se endossa grande parte do que é considerado como Interpretação de Copenhague;24 a concepção de um ponto de vista unitário relativo aos físicos do eixo Copenhague–Göttingen seria um “mito pós-guerra”, uma criação de Heisenberg em 1955, com a introdução do termo “Interpretação de Copenhague”.25

HEISENBERGBORN

Figura 6. Max Born e Werner Heisenberg discordavam profundamente

de Einstein a respeito da mecânica quântica

(Fonte: Robson, 2005, p. 96).

Não se deve ignorar, nesse debate, o fator relacionado com o surgimento de interpretações concorrentes, como é o caso da teoria de David Bohm. O retorno de uma teoria ligada aos parâmetros da física clássica, tão similar, em seus pressupostos filosóficos, à mecânica ondulatória – a ponto de permitir o retorno de trajetórias e de uma visualização26 que se considerava perdida – não pode ser descartada como uma das motivações de Heisenberg no estabelecimento de um corpus de teses bem estabelecidas acerca da teoria quântica. Mais do que uma forma de combater as críticas frente à interpretação ortodoxa, o uso que Heisenberg fez da filosofia seria uma maneira de fornecer legitimidade e consistência filosófica e histórica à Interpretação de Copenhague.

Logo, o uso que Heisenberg faz de algumas noções da filosofia grega no decorrer de sua carreira parece endossar a seguinte tese: até os anos 1940, as ideias acerca dos termos platônicos diánoia, epistéme e a oposição entre materialismo e idealismo servem apenas como crítica à ciência anterior à descoberta do quantum de ação. Apenas no pós-guerra é que esses termos são utilizados em um outro contexto, no caso, de legitimação da recém-criada Interpretação de Copenhague e desqualificação das teses opostas.

Independentemente de diferentes contextos históricos terem motivado importantes mudanças no pensamento filosófico de Heisenberg – o que produziu uma “esquizofrenia”, segundo Beller (1996, p. 183) – considera-se que, a partir do uso que ele faz da filosofia grega, é possível extrair de cada uma dessas fases certos elementos referentes a uma ontologia. Vejamos como isso se dá a partir dos idos de 1930.

No ano de 1933, Heisenberg escreve um texto (cf. 1952a), que é produto de uma preleção dada no ano anterior. É um texto típico do período de divulgação da teoria quântica e não existe nenhuma menção a uma Interpretação de Copenhague. Mas o texto todo é perpassado por uma crítica direta à ciência moderna, seu viés materialista e à adoção de uma “descrição da natureza” em detrimento de uma “interpretação da natureza”. A relação de “exclusão mútua” entre a diánoia e a epistéme no decorrer da história da ciência moderna também já se apresenta nele. No entanto, não se faz menção a uma interpretação específica da mecânica quântica que se ligue a um desses termos platônicos.

Mesmo que de maneira negativa, existe uma ontologia que indiretamente pode ser extraída desse texto, pois a crítica que surge dessas páginas não é contra o realismo, mas sim contra uma de suas variedades, o realismo classicista: “a tese de que a realidade tem uma estrutura próxima às nossas concepções e intuições clássicas a respeito do mundo” (Pessoa Júnior, 2005, p. 104). Era esse o realismo que posteriormente foi taxado de “ontologia do materialismo” por Heisenberg e que foi superado com o nascimento da teoria quântica. Pessoa Júnior (2005, p. 104) cita uma série de “suposições classicistas que são violadas por alguma interpretação da teoria quântica” e que são criticadas por Heisenberg nesse texto: o corpuscularismo seria uma herança do atomismo helênico; a tese de que o mundo existe em quatro dimensões não tem sentido no mundo quântico em função do caráter abstrato da função de onda. Esse texto de 1933 traz em seu bojo imagens de uma ontologia que não tem mais validade para Heisenberg, uma espécie de ontologia negativa, decorrente da austeridade epistêmica da mecânica matricial e da influência de Bohr e de seus interditos epistemológicos, o que explica a ausência de imagens “positivas” quanto ao que se pode falar acerca do mundo quântico.

É somente em 1937, que Heisenberg (cf. 1952b) estabelece a oposição entre o materialismo dos atomistas gregos e o pitagorismo do Timeu, inclusive aproximando este último à ideia de átomo que surgiu na física moderna. Apesar do foco do texto residir na inadequação da imagem tradicional do átomo herdada de Leucipo e Demócrito frente ao átomo da física moderna, a aproximação entre o átomo e as estruturas matemáticas platônicas pode ser considerada um movimento em direção a proposições “positivas” quanto à ontologia do mundo quântico. Entretanto, ainda permanece a separação entre as restrições epistemológicas do estilo instrumentalista, pedra de toque da filosofia do eixo Copenhague-Göttingen, e tais observações realistas. Heisenberg, mesmo que houvesse percebido essa contradição entre as duas teses, não elaborou nenhum tipo de resolução dela.

Na década de 1940, em função do início da proliferação de partículas elementares, Heisenberg acrescenta um argumento que se tornaria recorrente a partir dessa época: a relação entre a energia e a arché dos pré-socráticos. Mais uma guinada na direção de uma ontologia “positiva”: as partículas elementares, tijolos últimos da matéria, são a combinação das simetrias com a energia, o mais próximo que se tem para um substrato material que Heisenberg já havia proposto. Mas o fantasma do materialismo é mantido a distância fazendo-se recurso ao conceito de arché, aliando Aristóteles e Platão: energia e simetrias coadunam-se do mesmo modo que matéria (hylè) e forma (morphè) conjugadas (cf. Heisenberg, 1952, p. 95-108).

Em meio às turbulências da Segunda Guerra Mundial, entre maio de 1941 e o fim de 1942, Heisenberg redige o manuscrito Ordnung der Wirklichkeit (A ordenação da realidade) que só foi publicado bem posteriormente em 1984. Se os textos filosóficos do físico alemão sempre foram pautados pela brevidade e por certa falta de compromisso com a sistematicidade de suas ideias, o mesmo não se aplica a esse manuscrito (cf. Heisenberg, 1998). Ao contrário da maioria de seus artigos, derivados de palestras e seminários para públicos não-especializados, esse texto foi escrito com fins pessoais, uma maneira de fazer entender como a obra de sua vida “se harmoniza com o todo” (Cassidy, 1991, p. 448). As palavras de Chevalley deixam claro o valor do manuscrito e sua importância: “o manuscrito de 1942 é acima de tudo um escrito filosófico e constitui a elaboração mais densa e sintética das ideias de Heisenberg sobre a significação epistemológica da física contemporânea e sobre o problema do conhecimento em geral” (1998, p. 11).

Dois princípios estruturam os argumentos do manuscrito: a divisão em níveis de realidade relacionados e um esvaziamento do papel dos conceitos de espaço e tempo em suas acepções clássicas. Apesar de sua importância, o texto praticamente não se refere à filosofia helênica, o que evidencia um enfoque diferenciado de Heisenberg na defesa filosófica da Interpretação de Copenhague.

No pós-guerra, iniciava-se um novo período de turbulência para os defensores do “espírito de Copenhague da teoria quântica”. Einstein mantinha-se irredutível em suas reservas quanto à teoria quântica nos moldes de Copenhague. Físicos do outro lado da Cortina de Ferro, além de tecerem críticas contra a interpretação usual, propunham modelos alternativos inspirados no materialismo dialético. Por fim, como vimos, o jovem David Bohm elabora uma teoria que parece ir de encontro a todos os preceitos e restrições duramente elaborados e divulgados desde o fim dos anos 1920.

É nesse período que o uso que Heisenberg faz da filosofia grega sofre sua grande estruturação. Os ataques aos antigos e novos opositores da Interpretação de Copenhague tornam-se explícitos. A noção de “ontologia do materialismo”, que articula a filosofia de Descartes com o atomismo de Demócrito, ambas conduzindo ao materialismo do século xix, também surge nessa época.

Como não bastava apenas atacar os opositores, mas legitimar essa Interpretação, Heisenberg elabora a visão segundo a qual, como também foi visto, a história da ciência é perpassada pela oposição entre duas filosofias de matriz grega: o materialismo e o idealismo. Este último, nomeado assim pela primeira vez em um texto de 1958 (Heisenberg, 2004, p. 14), liga-se ao pitagorismo e à concepção de matéria apresentada no Timeu. O idealismo só retornou à ciência, segundo Heisenberg, após 1900, com a descoberta do quantum de ação por Planck, sendo ele a única filosofia capaz de abarcar os fenômenos peculiares da nova física.

CONCLUSÃO

A oscilação entre epistemologia e ontologia na obra de Heisenberg pode ser descrita como uma tensão entre as restrições epistemológicas, que o acompanham desde a invenção da mecânica quântica, e a sua busca por um conteúdo ontológico que não recorresse às imagens do materialismo. Para lidar com esse impasse e conciliar as restrições epistemológicas que a mecânica quântica impôs à física clássica com uma ontologia mínima, Heisenberg propõe uma “nova realidade física objetiva” (Chevalley, 1992, p. 128), utilizando-se dos conceitos de potência e ato de Aristóteles27 e, curiosamente, de conceitos probabilistas. Seria um modo de estabelecer o equilíbrio entre diánoia formalista e a crença realista em estruturas matemáticas, como as descritas no Timeu.

Ao tratar de um dos problemas mais espinhosos da mecânica quântica, o problema da medição e do colapso do pacote de onda,28 Heisenberg consegue harmonizar duas tendências em seu pensamento que se mostravam incomunicáveis. Suas restrições epistemológicas acerca da possibilidade do uso de grandezas que não fossem observáveis acabaram por coadunar-se com sua busca por uma ontologia não-materialista e sua rejeição do realismo classicista, passando a receber um tratamento aristotélico a partir da década de 1950. O caminho na direção dessa nova realidade física ou, em outras palavras, a busca por um conteúdo ontológico nas estruturas matemáticas da teoria quântica, fica nítida quando Heisenberg afirma que as ondas de probabilidade introduziam “algo entre a ideia de evento e o evento real”, isto é, “um tipo estranho de realidade física a mediar entre possibilidade e realidade” (Heisenberg, 1995, p. 36).

O que resta então? Após todas as interdições epistemológicas, existe algum mínimo rastro de uma ontologia do mundo quântico na visão de Heisenberg? Ao distinguir a Interpretação de Copenhague do “positivismo”, que “toma as percepções sensoriais do observador como elementos básicos da realidade”, o físico alemão afirma que a Interpretação de Copenhague “considera as coisas e processos (passíveis de uma descrição clássica), isto é, o real, como o fundamento de toda a interpretação física”. O real, contudo, não é o do materialismo: além de “coisas”, ele é composto por “processos”. O fato de nosso conhecimento ser incompleto “por si mesmo”, em função das leis quânticas, não evita a possibilidade de postulação da existência desse real. No lugar dos pontos materiais, do império da res extensa, Heisenberg vê processos e simetrias fundamentais essencialmente platônicas, tidas por ele como “uma característica genuína da natureza” (Heisenberg, 1995, p. 111).

O que se pode concluir dessa análise até os idos da década de 1950? Parece ser possível afirmar que Heisenberg apoia-se na filosofia, especialmente na filosofia platônica, como um recurso retórico para estabelecer o que se chamou a Interpretação de Copenhague ou, mais ainda, o uso que ele fez da filosofia grega pode ser considerado como um dos principais elementos na construção de uma doutrina homogênea e unitária dessa interpretação. Se, por um lado, Platão é uma referência positiva, Demócrito e Leucipo, assim como Descartes, são utilizados como referências negativas, uma “má influência” na compreensão dos próprios conceitos físicos, especialmente da nova teoria dos fenômenos atômicos. A repartição da história da ciência em uma tendência atomista/materialista em contraposição a uma platônica/idealista – com um privilégio das estruturas matemáticas, via os grupos de simetria – serve não apenas a uma melhor compreensão da mesma, mas também funciona como uma estratégia de desqualificação de interpretações concorrentes da Interpretação de Copenhague.

NOTAS FINAIS

1 Essa rara conjunção de interesses humanísticos, técnicos e matemáticos pode ser explicada, em parte, pela família de Heisenberg. Seu pai, August Heisenberg, tornou–se, em 1910, o único a ocupar uma cadeira de filologia bizantina em toda Alemanha. Sua produção acadêmica abrangia desde trabalhos de paleografia até estudos acerca da literatura e história do Império Bizantino. O avô, além de diretor do Gymnasium em Munique, chegou a ser um reconhecido especialista em tragédia grega.

2 “As conquistas dos tempos modernos, de Newton e dos seus sucessores, apareceram-me como continuação imediata da obra em que tinham trabalhado matemáticos e filósofos gregos; o desenvolvimento completo da ciência parecia-me um todo único, e não me passou pela cabeça a ideia de considerar a ciência e a técnica como um mundo radicalmente diferente do da filosofia de Pitágoras ou de Euclides” (Heisenberg, 1962, p. 57).

3 “O grande rio da ciência, que atravessa a nossa época, brota de duas fontes situadas no terreno da antiga filosofia e, embora mais tarde muitos outros afluentes tenham desaguado nesse rio, contribuindo para engrossar o seu fecundo caudal, a sua origem é, não obstante, sempre claramente reconhecível” (Heisenberg, 1962, p. 62, grifo nosso).

4 Heisenberg faz uma interpretação que nos parece bastante correta das relações entre o sistema cartesiano e a física que se seguiu ao século xvii. “A antiga filosofia grega”, escreve ele, “tentara achar uma ordem, na infinita variedade de coisas e fenômenos, pela procura de algum princípio fundamental de unificação. Já Descartes procurou estabelecer a ordem por meio de uma divisão (isto é, separação) fundamental. Todavia, as três partes que resultam dessa divisão [Deus-Mundo-Eu] perdem algo de sua natureza, se cada qual for considerada separadamente das demais. Se quisermos mesmo fazer uso dos conceitos fundamentais cartesianos é essencial que Deus se encontre no mundo e no ‘Eu’, e é também essencial que o ‘Eu’ não possa ser realmente separado do mundo. Descartes, certamente, sabia da inegável necessidade dessa ligação, mas a filosofia e a ciência natural no período seguinte desenvolveram-se com base na polaridade entre res cogitans e res extensa, com a ciência natural detendo-se apenas na ‘coisa extensa’” (1995, p. 62-3).

5 Isso fica bastante evidente no seguinte trecho: “epistéme é precisamente o estado de consciência no qual se pode parar e para além do qual não é preciso mais pesquisar. Diánoia é a habilidade de analisar em detalhes o resultado da dedução lógica. Ao que parece, em Platão, apenas a epistéme fornece uma conexão com o verdadeiro, o essencialmente real, enquanto a diánoia, por mais que forneça de fato conhecimento, é um conhecimento desprovido de valores” (Heisenberg, 1974, p. 137).

6 Para Heisenberg “na interpretação de Copenhague da teoria quântica, podemos proceder sem nos mencionarmos como indivíduos, embora não possamos ignorar que a ciência natural é feita por homens. A ciência natural não se restringe simplesmente a descrever e explicar a natureza, ela resulta da interação entre nós mesmos e a natureza, e propicia uma descrição que é revelada pelo nosso método de questionar. Essa foi uma possibilidade que não poderia ter ocorrido a Descartes, mas que torna impossível uma separação bem nítida entre o mundo e o ‘Eu’” (1995, p. 64).

7 Autolimitação do ego, ou Selbstbeschränkung des Ich, significa que “em cada ato de percepção nós selecionamos uma percepção dentre infinitas outras, o que limitaria o número de possibilidades futuras” (Heisenberg, 1952, p. 28). Beller chega a afirmar que tal conceito de Fichte teve influência na própria concepção de Heisenberg do princípio de incerteza: “Uma das mais férteis ideias presentes no artigo sobre a incerteza foi a de redução do pacote de onda durante a medição. Cada medição seleciona um valor definitivo para um observável ‘a partir da totalidade de possibilidades e limites das opções para todas as medições subsequentes’ (Heisenberg, 1983, p. 74). Com essa ideia, Heisenberg inaugura o notório problema da medida na mecânica quântica, que atormenta físicos e filósofos da física quântica até os dia de hoje. A fonte dessa ideia […] foi a autolimitação do ego da filosofia de Fichte: ‘a observação da natureza pelo homem mostra uma analogia para com o ato individual da percepção, que Fichte entendeu como um processo de Selbstbeschränkung des Ich […]’ (Heisenberg, 1952, p. 28). Heisenberg explica a ideia de Fichte do seguinte modo: ‘em cada ato de percepção nós selecionamos uma percepção dentre infinitas outras, o que limitaria o número de possibilidades futuras’ (Heisenberg, 1952, p. 28). Estas palavras são quase idênticas às linhas da conclusão do artigo sobre a incerteza: ‘toda observação é uma seleção a partir de uma plenitude de possibilidades e uma limitação sobre o que é possível no futuro’” (Beller, 1999, p. 67). Ao aceitar a aproximação entre os dois textos feita por Mara Beller, tem-se a confirmação de uma influência direta de uma concepção puramente filosófica na produção científica de Heisenberg. Tão ou mais importante quanto mapear as origens dessa inusitada influência do idealismo alemão sobre um físico do século xx, é investigar as consequências dessa escolha filosófica nas subsequentes interpretações do problema do colapso.

8 “Historicamente, a palavra ‘átomo’ – utilizada na física e química modernas – foi associada ao objeto errado, durante o renascimento da ciência no século xvii, pois as menores partículas pertencentes a um elemento químico são ainda, como se sabe, sistemas um tanto complexos de unidades ainda menores” (Heisenberg, 1995, p. 56).

9 “Todos os oponentes da Interpretação de Copenhague estão de acordo sobre um ponto. Segundo eles, seria desejável retornar ao conceito de realidade da física clássica ou, para fazermos uso de um termo filosófico mais geral, à ontologia do materialismo. Eles prefeririam voltar à ideia de um mundo real objetivo, em que mesmo as partes mais diminutas existissem objetivamente” (Heisenberg, 1995, p. 99-100).

10 O fulcro do texto era demonstrar que o formalismo quântico, apesar de correto e consistente, era incompleto. Defender a completeza da mecânica quântica teria como consequência, estando o argumento EPR correto, a volta do conceito de simultaneidade na troca de informação entre dois sistemas físicos que, apesar de restrita a magnitudes microscópicas, inacessíveis para o experimentador, era algo inadmissível após a relatividade restrita (cf. Brown, 1981, p. 73). Por isso, os autores rematam o artigo com a seguinte afirmação: “Somos forçados a concluir que a descrição quântica da realidade física através das funções de onda não é completa” (Einstein; Podolsky & Rosen, 1981, p. 90). É emblemática a frase de abertura do artigo, de forte cunho realista: “Qualquer consideração séria a respeito de uma teoria física deve levar em conta a diferença entre a realidade objetiva, que independe de qualquer teoria, e os conceitos físicos com os quais a teoria opera. Pretende-se que tais conceitos tenham correspondência com a realidade objetiva, e por meio deles construímos uma imagem dessa realidade” (Einstein; Podolsky & Rosen, 1981, p. 90).

11 Tese apresentada por Bohr no Congresso Internacional de Física, em Como na Itália, em 1927 e depois publicada em artigo (cf. Bohr, 1928). O assim denominado postulado quântico pode ser resumido na seguinte afirmação de Bohr: “a teoria quântica é caracterizada pelo reconhecimento de uma limitação fundamental nas ideias da física clássica quando aplicadas a fenômenos atômicos. A situação assim criada é de natureza peculiar, já que a nossa interpretação do material experimental repousa essencialmente em conceitos clássicos” (Bohr, 2000, p. 135).

12 Os termos “platonismo” ou “doutrinas platônicas” são aqui utilizados em sentido lato, como “a doutrina segundo a qual os objetos da matemática têm uma existência real. É, na filosofia da matemática, a doutrina equivalente ao realismo na teoria do conhecimento” (Audi, 2006, p. 597).

13 Fica claro que o idealismo tratado por Heisenberg é do tipo objetivo, que “sustenta que as ideias existem por si próprias, e que nós apenas as ‘apreendemos’ ou as descobrimos”. A outra variante de idealismo seria o idealismo subjetivo: “as ideias existem apenas nas mentes dos sujeitos: não há mundo externo autônomo” (Bunge, 2002a, p. 179).

14 “Assim, em Platão, no limite mais baixo das séries das estruturas materiais, não existe efetivamente algo material, mas uma forma matemática. A raiz última a partir da qual o mundo pode ser uniformemente inteligível é, segundo Platão, a simetria matemática, a imagem, a ideia; esse conceito é, portanto, denominado idealismo” (Heisenberg, 2004, p. 12).

15 Quando Heisenberg refere-se às simetrias, ele está pensando nos grupos de simetria. A importância desses grupos na teoria quântica é bem conhecida e inegável. Para um bom tratamento dessa questão, mesmo em seus aspectos epistemológicos, ver, por exemplo, Wigner, 1979, especialmente o capítulo 3. Weyl, em seu livro Simetria, também examina o papel da simetria na teoria quântica (entre outras aplicações). Para Weyl, “a mecânica quântica representa o estado de um sistema físico por um vetor em um espaço de muitas, de fato, de infinitas dimensões […]. Assim, a mais profunda e a mais sistemática parte da teoria dos grupos, a teoria da representação de um grupo por meio de transformações lineares, vem aqui à baila. Devo refrear-me de apresentar uma descrição mais precisa desse difícil assunto. Mas aqui a simetria mostra-se mais uma vez ser a chave para um campo de grande variedade e importância” (Weyl, 1989 [1952], p. 135).

16 “Tal como os corpos elementares regulares de Platão, as partículas elementares da física moderna são definidas por condições matemáticas de simetria; não são eternas nem invariáveis e, portanto, dificilmente podem ser chamadas “reais” na verdadeira acepção da palavra. São antes representações daquelas estruturas matemáticas fundamentais a que se chega nas tentativas de continuar subdividindo a matéria; representam o conteúdo das leis fundamentais da natureza. Para a ciência natural moderna não há mais, no início, o objeto material, porém a simetria matemática” (Heisenberg, 2004, p. 26).

17 Elisabetta Cattanei vai um pouco além e considera uma certa ambiguidade na geometria: “Nas ciências matemáticas e, em particular, na geometria, Platão capta uma ambiguidade, refletindo talvez sobre a situação da pesquisa  sobre axiomas em seu tempo: trata-se de formas de saber intelectual que, contudo, não se desvinculam totalmente do visível, e que em si continuam hipotéticas. O Timeu fornece uma imagem viva dessa ambiguidade. Dela, Platão não deixa de sublinhar o aspecto que a epistemologia contemporânea chamou de ‘perda da certeza’, mas, por outro lado, explica seu poder de medição: o limite à pura intelectualidade da matemática, na medida em que a aproxima do sensível, torna-a instrumento plausível de explicação do mundo físico” (Cattanei, 2005, p. 280-1).

18 Catherine Chevalley expressa do seguinte modo esse problema na obra do físico alemão: “como compreender que Heisenberg possa sugerir uma ontologia das estruturas matemáticas sem deixar de ler a história da física como um processo de autolimitação do conhecimento? […] Heisenberg não oscilaria entre a epistemologia e a ontologia, com o risco de cair em um ecletismo pouco convincente?” (1992, p. 127).

19 Um trecho de Popper mostra a aprovação entusiástica por Moritz Schlick das ideias de Heisenberg: “Qualquer teste que se faça com o objetivo de verificar a trajetória entre os dois experimentos perturbará tanto essa trajetória que os cálculos de trajetória exata tornam-se ilegítimos. A propósito desses cálculos exatos, Heisenberg diz: ‘… é pura questão de gosto querer alguém atribuir qualquer realidade física à calculada história passada do elétron’. Com essas palavras, Heisenberg pretende claramente dizer que esses cálculos de trajetória, insuscetíveis de teste, são, do ponto de vista do físico, destituídos de significação. Schlick comenta essa passagem dizendo: ‘eu me expressaria de maneira ainda mais incisiva, manifestando completo acordo com as concepções fundamentais, tanto de Bohr quanto de Heisenberg, que acredito serem incontestáveis. Se um enunciado concernente à posição de um elétron, em dimensões atômicas, não é verificável, não podemos atribuir-lhe qualquer sentido; torna-se impossível falar da ‘trajetória’ de uma partícula entre dois pontos em que foi observada’” (Popper, 2000, p. 242). Mario Bunge segue o mesmo viés: “por volta de 1935, Bohr e Heisenberg, juntamente com Born, Pauli e outros, propuseram a chamada Interpretação de Copenhague, com a benção do Círculo de Viena. Segundo ela, a medição de uma variável não apenas perturba seu valor, como a cria. Dito de maneira negativa: enquanto não é medido, o quanton carece de propriedades. Desse modo, ele nem sequer existe, a não ser como constituinte de uma não-analisável e selada unidade: sujeito (experimentador) – objeto (quanton) – aparato […] obviamente, esta hipótese é antropomórfica e, inclusive, mágica” (2002b, p. 79).

20 Um detalhe pode ser levantado, e mesmo estudado com maior rigor: apesar da rejeição da influência de Mach, Pauli, declarada influência de Heisenberg, era afilhado do filósofo austríaco. Haveria uma influência de Mach sobre Pauli e, consequentemente, sobre Heisenberg?

21 A considerar as análises de Chibeni (1997, p. 16) e de Dutra (2003, p. 42-3) sobre os argumentos antirrealistas acerca da subdeterminação das teorias pelas observações, a insistência de Heisenberg em declarar a Interpretação de Copenhague como a única variante correta da teoria quântica, pois só ela levaria em conta certas características genuínas da natureza, acabaria por aproximá-lo de um certo realismo, o que o distancia ainda mais do positivismo lógico.

22 “Enquanto estudiosos têm investido competência e engenhosidade em fornecer a Bohr uma posição consistente, adoto uma atitude diferente e aceito que as opiniões conflitantes de realismo e positivismo (nas versões instrumentalistas de Bohr e operacionalistas de Heisenberg) são ambas inegavelmente presentes. Meu objetivo não é curar essa ‘esquizofrenia’ […] eliminando as inconsistências, mas analisar as fontes, usos e propósitos de tais desvios nas posições filosóficas” (Beller, 1996, p. 184-5).

23 “Aquilo que é chamado de Interpretação de Copenhague corresponderia apenas em parte ao ponto de vista de Bohr (…). Muito do que é tido como Interpretação de Copenhague é encontrado nos escritos de Werner Heisenberg, mas não em Bohr. De fato, Bohr e Heisenberg discordaram de modos importantes e profundos. A ideia de que existiria um ponto de vista unitário é uma invenção do pós-guerra, de responsabilidade, em grande parte, de Heisenberg” (Howard, 2004, p. 669-70).

24 “Não há colapso do pacote de onda, não há antirrealismo, nem subjetivismo. A interpretação da complementaridade de Bohr não é o que passou a ser posteriormente considerado como a Interpretação de Copenhague” (Howard, 2004, p. 675).

25 Vale notar que o texto no qual se teve a gênese da “Interpretação de Copenhague” (Heisenberg, 1955) foi a participação de Heisenberg em um volume em homenagem a Bohr, organizado por Pauli e Rosenfeld.

26 “Antes da mecânica quântica, se olharmos para as teorias bem sucedidas da física, todas eram suscetíveis – apesar disso não ser exigido – a uma estória causal de figura [causal pictures story], para falar de modo figurado. E tradicionalmente dizia-se que a mecânica quântica mostrava que isso não poderia mais ser feito. Mas aí veio Bohm e mostrou que poderia sim!” (Cushing, 2000, p. 17).

27 As referências a Aristóteles são acompanhadas pelo uso dos conceitos de dýnamis e enérgeia – tradicionalmente traduzidos como potência e ato, respectivamente. Heisenberg interpretou esses dois conceitos do seguinte modo: “Na filosofia de Aristóteles, a matéria foi imaginada na relação entre forma e matéria. Tudo o que percebemos no mundo dos fenômenos, à nossa volta, é matéria que encontrou sua forma. A matéria não é uma realidade por si mesma, mas só uma possibilidade, uma potentia; somente a forma lhe dará existência. Em um processo natural, a “essência” (para usar a expressão aristotélica) passa de mera possibilidade à realidade, pela presença da forma. A matéria aristotélica certamente não é uma matéria específica, como água ou ar, nem tampouco o vazio; ela é um tipo de substrato corpóreo indefinido, que tem em si a possibilidade de vir-a-ser ao se consubstanciar na forma” (Heisenberg, 2004, p. 14).

28 Pessoa Júnior expõe de maneira bastante clara o problema da medição na teoria quântica. “A mecânica quântica”, escreve ele, “pode ser estruturada da seguinte maneira. Um sistema fechado é descrito por um ‘estado’ que evolui no tempo de maneira determinista (de acordo com a equação de Schrödinger). Ao contrário da mecânica clássica, esse estado em geral fornece apenas as ‘probabilidades’ de se obterem diferentes resultados de uma medição. Após a medição, o sistema passa a se encontrar em um novo estado, estado este que depende do resultado obtido. Assim, pode-se dizer que no decorrer da medição o sistema evoluiu de maneira indeterminista. Essa transição tem sido chamada de ‘colapso do pacote de onda’ ou ‘redução de estado’, sendo descrita pelo postulado da projeção de Von Neumann. O chamado ‘problema da medição’ surge da oposição entre uma evolução determinista regida pela equação de Schrödinger e a evolução indeterminista descrita pelo postulado da projeção. Essa oposição torna-se um problema quando se assumem duas hipóteses: (1) um estado quântico pode ser atribuído ao aparelho de medição macroscópico (podendo incluir o observador consciente); (2) o ‘sistema composto’ (que inclui o objeto e o aparelho) pode ser considerado fechado em relação ao meio ambiente. Neste caso, o sistema composto deveria evoluir de maneira determinista (pois seria um sistema quântico fechado), mas ao mesmo tempo estariam ocorrendo reduções de estado indeterministas durante as medições efetuadas pelo aparelho no objeto. Como conciliar estas duas possibilidades contraditórias?” (1992, p. 178).

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FÍSICA QUÂNTICA, PSICOLOGIA PROFUNDA, E ALÉM

thomas

 Thomas J. McFarlane 

www.integralscience.org

Texto Original

http://www.integralscience.org/psyche-physis.html

26 de fevereiro de 2000

revisto 21 de junho de 2000

Tradução

Rogério Fonteles Castro

https://www.facebook.com/fisicapsicologia/

Pós-Graduação em Física

Universidade Federal do Ceará

RESUMO: Este artigo inicia com uma revisão da evolução da visão de mundo ocidental moderna, especialmente no que respeita às relações entre a psique e a matéria, com particular ênfase para certas tendências da psicologia e da física no início do século XX. Em seguida, continuando as discussões relativas à relação entre psique e matéria, estabelece as relações especialmente dadas entre a psicologia profunda junguiana e física quântica. O artigo conclui com algumas reflexões sobre a forma como a unidade da psique com a matéria, sugerida por essas ideias, pode fornecer um quadro para uma compreensão integrada de ambos os reinos interior e exterior de experiência. 

Introdução

Se uma união está a ter lugar entre opostos, como espírito e matéria, consciente e inconsciente, claro e escuro, e assim por diante, isso resultará em uma terceira coisa, que não representa uma mistura, mas algo novo. [1] – CG Jung

A visão de mundo moderna da cultura ocidental é caracterizada por uma divisão implícita entre o reino objetivo ou físico da existência e do domínio subjetivo ou psíquico da existência, com o domínio objetivo ou físico geralmente dominando os reinos subjetivos ou psíquicos, a ponto de exclusão virtual, como na visão de mundo materialista, que considera a mente como sendo um mero epifenômeno da matéria. O predomínio do materialismo moderno é em grande parte devido a sua associação com o poder teórico e prático notável da física clássica desenvolvida por Newton e seus sucessores. De acordo com este modelo, a realidade consiste de um espaço fixo e passivo contendo partículas materiais localizadas cujo movimento no tempo é deterministicamente regido por leis matemáticas. Consequentemente, os fenômenos mentais, neste quadro, não são nada mais do que as funções complexas do cérebro material regidos pelas leis da física.

Embora o materialismo científico seja a visão de mundo dominante da cultura ocidental moderna, ela não anula o uso de visões alternativas. No entanto, tais visões não conseguiram fundamentalmente desafiar o domínio do materialismo. Em vez disso, este desafio surgiu em grande parte dentro da própria ciência empírica. No século 20, a visão materialista do mundo moderno começou a ruir em face dos desenvolvimentos científicos, principalmente na física. Em física, o desenvolvimento da teoria da relatividade e quântica serviu para minar radicalmente diversas premissas fundamentais na base do modelo materialista. Por exemplo, as teorias especial e geral da relatividade forçou os físicos a rever as suas concepções básicas de espaço, tempo, movimento, gravitação, matéria, energia, bem como a natureza do cosmos como um todo. A teoria quântica, por outro lado, forçou uma revisão dos conceitos de causalidade, determinismo e localidade. Talvez o mais importante, chegou-se mesmo a desafiar a idéia de que as propriedades da matéria tem uma existência objetiva independente de observação. Como resultado, a física do século XX minou a base do materialismo sugerindo a alguns pensadores que a psique pode estar envolvida, de alguma maneira misteriosa, com a determinação das propriedades observadas da matéria.

Nesse meio tempo, com a evolução da psicologia também no século XX, explicitamente introduziu-se a psique no domínio da investigação científica. Em particular, a teoria psicanalítica de Freud demonstrou a existência de uma realidade psíquica inconsciente, uma realidade psíquica não observável que contém impulsos pessoais reprimidos e desejos. Estes conteúdos psíquicos ocultos exercem a sua influência sobre a consciência e, portanto, podem ser indiretamente conhecidos através do estudo de vários conteúdos conscientes, como os nossos sonhos. Embora o conceito de inconsciente psicológico inicialmente não desafiou o materialismo, a descoberta das profundezas transpessoais do inconsciente por Jung (ou seja, o inconsciente coletivo e os arquétipos psicológicos) pressupunha uma realidade psíquica que era difícil de conciliar com qualquer entendimento estritamente materialista da natureza humana. Além disso, os trabalhos posteriores de Jung com o fenômeno da sincronicidade forneceram evidências de que as regiões mais profundas do inconsciente (ou seja, o Unus  Mundus ) consiste em estruturas “psicóides” que transcendem completamente a distinção entre psique e matéria.

As evoluções acima, da física e da psicologia no século XX, têm implicações análogas: assim como a psicologia revela, nas regiões mais profundas da psique, uma conexão profunda com a matéria, a física revela, nas profundezas da matéria, uma conexão profunda com a psique. Embora a natureza exata dessas conexões permaneça indefinida e controversa, a possibilidade provocativa de transcender o dualismo matéria e espírito forneceu a motivação para o desenvolvimento de uma visão de mundo mais abrangente e unificada. Como a psicóloga junguiana Marie-Louise von Franz diz:

Os paralelismos inesperados de ideias da Psicologia e da Física sugerem, como Jung assinalou, uma possível unidade última de ambos os campos da realidade estudados pela Física e pela Psicologia. . . . O conceito de uma ideia unitária da realidade (o que foi seguido por Pauli e Erich Neumann) foi chamado por Jung de Unus Mundus (o mundo em que a matéria e a psique ainda não estão discriminadas ou separadamente atualizadas). [2]

O restante deste artigo irá explorar mais detalhadamente alguns destes desenvolvimentos dados no século XX, com especial destaque para a psicologia profunda e a física quântica. Porque este artigo não pressupõe sua familiaridade com a física quântica ou com a psicologia profunda, uma breve exposição de alguns conceitos básicos nessas duas áreas de pesquisa irá anteceder a discussão de suas conexões.

Física Quântica

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As leis fundamentais da física quântica foram descobertas, independentemente, em 1925 por Werner Heisenberg e em 1926 por Erwin Schrödinger em resposta a intrigante evidência experimental que contradizia os conceitos fundamentais da física clássica. Por exemplo, os elétrons (que foram previamente pensados como partículas) foram encontrados exibindo propriedades das ondas. Por outro lado, a luz (que foi previamente pensado como ondas) exibia propriedades das partículas. Esta confusão de distinções clássicas entre partículas e ondas foi resolvida pelo princípio da complementaridade de Niels Bohr, segundo o qual os conceitos de onda e de partícula, não obstante, entendidos como conceitos mutuamente exclusivos, são porém necessários para uma descrição completa dos fenômenos quânticos.

Uma consequência desta dualidade onda-partícula é que toda a matéria tem um aspecto de onda, e assim  não pode ser considerada como tendo uma posição bem definida em todos os momentos. Além disso, em virtude das propriedades não-locais da onda, pares de partículas separadas espacialmente, por vezes, apresentam correlações não-locais em seus atributos. Outra consequência da dualidade onda-partícula é a dualidade entre o observador e o observado. Esta dualidade levanta questões intrigantes sobre a natureza da medição na mecânica quântica: como é que a onda de repente se transforma em uma partícula, e como esta súbita transformação se relacionada com a observação?

Uma compreensão mais profunda dessas questões sutis requer algum conhecimento básico da forma como a física quântica descreve fenômenos. De acordo com a física quântica, o estado de um quantum (de matéria ou de energia),  não-observado, de matéria ou de luz (tal como um elétron ou fóton) é representado por uma solução para a equação de Schrödinger. Esta solução é uma função de onda quântica y ( x ), cuja intensidade | y ( x ) | 2 , em qualquer posição particular, representa a probabilidade de observar o quantum nessa posição. Quando o quantum é observado, no entanto, verifica-se uma posição atual definida, e a função de onda deixa de descrever propriamente o quantum. Assim, quando o quantum é não-observado, define-se como uma onda não-local de posições prováveis; e quando o quantum é observado, define-se como uma partícula localizada numa posição definida. Como resultado, tanto o conceito de partícula como de onda são necessários para caracterizar completamente um quantum: o conceito de partícula é necessária para descrever seu comportamento de partícula semelhante ao observado, enquanto o conceito de onda é preciso para descrever seu comportamento ondulatório quando não-observado. Os conceitos de partícula e de onda são chamados descrições “complementares” porque são ambos necessários para caracterizar os aspectos observados e não-observados de qualquer quantum, como ilustrado na tabela a seguir.

complementaridade

Embora a observação seja evidentemente necessária para realizar a transição do possível ao atual, a natureza fundamental da observação na teoria quântica permanece um tanto misteriosa. Este problema de medição deriva do fato de que, antes da observação do quantum este é definido como sendo uma onda não-local de probabilidade espalhada por todo o espaço, enquanto que, após a observação, apenas um dos possíveis valores é atualizado. Assim, a observação envolve um “colapso” descontínuo (também chamado de “projeção“) da função de onda quântica de um continuum de possibilidades para um único valor atualizado. Essa projeção, no entanto, é um  elemento ad hoc  do formalismo, e não uma transformação legal que se rege pela equação de Schrödinger. Não há explicação de como, quando ou onde esta projeção misterioso acontece. Além disso, quando a projeção ocorre, as leis da física quântica não prevê qual dos possíveis valores será atualizado em uma dada observação, violando assim o determinismo clássico e introduzindo um elemento de acausalidade e espontaneidade na teoria em um nível fundamental.

Em uma análise fundamental do processo de medição quântica, John von Neumann argumentou que a consciência é necessária para explicar a projeção da função de onda a partir das possibilidades de realidades, ou simplesmente, onda de probabilidade. Em particular, Neumann argumentou que, como todas as interações físicas são regidas pela equação de onda de Schrödinger, a projeção que está associado com a observação deve ser atribuída a uma consciência não-física que não é regida pelas leis da física. De acordo, ainda, com von Neumann, esta atividade da consciência só serve para realizar a projeção (ou seja, degenerar a onda de probabilidade), mas não seleciona ou influencia o valor específico atualizado. Há, portanto, uma espontaneidade inerente à projeção que ocorre na transição do não-observado ao observado.

Psicologia Junguiana

jung

Desde a queda das estrelas no céu ao empaledecimento de nossos mais altos símbolos, uma vida secreta reina no inconsciente… Nosso inconsciente… esconde água viva, espírito que se tornou natureza, e que por isso é perturbado. O céu tornou-se para nós o espaço cósmico dos físicos, e o divino firmamento uma memória justa de coisas que antes eram. Mas “o coração brilha” e uma inquietação secreta rói as raízes do nosso ser. [4] – CG Jung

A noção de inconsciente psicológico foi primeiro extensivamente desenvolvida por Freud em A Interpretação dos Sonhos, publicado em 1900, e mais aprofundado em seus Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, publicado em 1905. Além dos conteúdos de nossa consciência, Freud capacitou a psique para conter também uma região inconsciente cujo conteúdo é escondido e não pode ser observado diretamente. Estes conteúdos inconscientes, de acordo com Freud, consistem em conteúdos previamente conscientes que foram reprimidos e esquecidos. O inconsciente é, portanto, uma espécie de “armário de esqueletos” contendo conteúdos psicológicos pessoais que estavam conscientes no passado, mas, em seguida, escondidos. Embora já não sejam diretamente observáveis, estes conteúdos inconscientes podem ser indiretamente conhecidos através de seus efeitos sobre a consciência, tal como a sua influência sobre os nossos sonhos. Na concepção de Freud, o inconsciente contém apenas conteúdos psíquicos pessoais que antes eram conscientes, mas então reprimidos, tipicamente durante a infância.

Depois de estudar com Freud, Carl Jung aprofundou e expandiu a noção freudiana do inconsciente, principalmente em sua Psicologia do Inconsciente, publicado em 1912, e em seus Arquétipos do Inconsciente Coletivo, publicado em 1934. De acordo com Jung, o inconsciente contém, além de conteúdos pessoais reprimidos, uma região profunda e vasta de conteúdos psíquicos coletivos, o chamado inconsciente coletivo. Em contraste com os conteúdos inconscientes pessoais que eram anteriormente conscientes, os conteúdos inconscientes coletivos não derivam de conteúdos pessoais anteriormente conscientes. Em vez disso, os conteúdos coletivos são inatos e universais. Nas palavras de Jung,

Temos de distinguir entre um inconsciente pessoal e um impessoal ou inconsciente transpessoal. Falamos do último também como inconsciente coletivo, porque ele é separado de qualquer coisa pessoal e é comum a todos os homens, uma vez que o seu conteúdo pode ser encontrado em toda parte, o que naturalmente não é o caso dos conteúdos pessoais. [5]

Embora o inconsciente coletivo esteja presente nas profundezas de cada psique individual, não é subjetivo, no sentido de ser diferente de pessoa para pessoa. Porque o inconsciente coletivo é comum a todos os indivíduos, é objetivo no sentido de que todos os indivíduos compartilham as mesmas estruturas psíquicas profundas. Como Jung escreve:

Os estandes do inconsciente coletivo para a psique objetiva, o inconsciente pessoal para a psique subjetiva. [6]

Em suma, a porta do inconsciente não se abre para um armário de esqueletos, como Freud propôs, mas abre-se para um mundo maior além dos muros da psique consciente.

É importante notar que entre as regiões pessoais e coletivas da psique há vários níveis intermediários de profundidade, cada um com a sua quota de universalidade e particularidade. Jung explica:

Na medida em que existem diferenciações com relação a raça, tribo e até mesmo a família, há também uma psique coletiva limitada à raça, tribo e família para além da psique coletiva “universal”. [7]

O inconsciente, portanto, não está dividido em distintas regiões – pessoais e coletivas -, mas se constitui como uma continuidade tendo o conteúdo pessoal e universal em cada extremo. Mais importante contribuição de Jung e seu principal interesse, no entanto, é nas regiões mais profundas do inconsciente coletivo, cujas estruturas Jung chama de arquétipos. Como as ideias de Platão, os arquétipos do inconsciente coletivo são padrões universais que moldam a nossa experiência do mundo, fornecendo-lhe elementos comuns. Seguindo Kant, no entanto, Jung considera os arquétipos como estruturas epistemológicas em vez de entidades ontológicas independentes:

O inconsciente coletivo, sendo o repositório da experiência do homem e, ao mesmo tempo, a condição prévia dessa experiência, é uma imagem do mundo que levou eras para se formar. Nesta imagem, determinadas características, os arquétipos ou dominantes, cristalizaram-se no decurso do tempo. [8]

De acordo com a concepção do inconsciente coletivo de Jung, as estruturas arquetípicas não são fixas, mas dinâmicas. Não só os arquétipos evoluem ao longo do tempo, mas eles também têm atividade dinâmica e criativa no presente. Além disso, esta atividade não é apenas uma reação às atividades de consciência, mas é inerente ao próprio inconsciente. Como Jung explica,

Se [o inconsciente] é meramente reativo à mente consciente, podemos apropriadamente chamar-lhe de mundo espelho psíquico.  Nesse caso, a verdadeira fonte de todos os conteúdos e atividades estaria na mente consciente, e não haveria absolutamente nada no inconsciente, exceto os reflexos distorcidos de conteúdos conscientes. O processo criativo será encerrado na mente consciente, e nada de novo se teria, mas apenas invenção consciente ou esperteza. Os fatos empíricos desmentem isto. Todo homem criativo sabe que a espontaneidade é a própria essência do pensamento criativo. Porque o inconsciente não é apenas um reflexo reativo, mas uma atividade independente, produtiva, seu domínio de experiência é um mundo auto-suficiente, tendo a sua própria realidade, da qual só podemos dizer que ela nos afeta como nós a afetamos – precisamente a nossa experiência do mundo exterior. E assim como os objetos materiais são os elementos constituintes deste mundo, fatores psíquicos constituem os objetos deste outro mundo. [9]

inconsciente

O mundo psíquico objetivo, ou inconsciente coletivo, é, portanto, semelhante ao mundo físico objetivo em que ambos os mundos têm estruturas objetivas e ambos os mundos têm atividade autônoma independente da nossa vontade pessoal. Por exemplo, assim como o mundo físico objetivo serve como um impulso criativo para o desenvolvimento de nossas visões de mundo científica, a psique desenvolve e evolui porque a psique objetiva não é simplesmente só conteúdos conscientes reprimidos, mas tem uma atividade autônoma que é relativamente independente da nossa consciência pessoal. Porque essa atividade do inconsciente é relativamente autônoma, que muitas vezes se manifesta como uma compensação ou correção de nossos pontos de vista conscientes ou crenças. O resultado é uma evolução da psique em direção à integralização do todo, um processo Jung chamou de “individuação”.

Em uma compensação inconsciente, algum conteúdo inconsciente é  espontaneamente expressado ou manifestado na consciência, como em um sonho, e fornece a psique a oportunidade de integrar o conteúdo inconsciente na consciência. Um dos tipos mais interessantes e dramáticas de compensação inconsciente é o fenômeno que Jung chama de sincronicidade. Sincronicidade é necessariamente significativo no sentido de que é uma forma de compensação inconsciente que serve para fazer avançar o processo de individuação. Distingue-se de outras formas de compensação inconsciente pelo fato de que a sincronicidade envolve uma conexão entre a experiência psicológica interior e experiências externas do mundo, onde a conexão é acausal no sentido de que a experiência interior não pode ter sido uma causa eficiente da experiência externa , ou vice-versa. Em suma, a sincronicidade é, uma ligação acausal significativo entre eventos internos e externos. Como o fenômeno de sincronicidade envolve uma coordenação acausal dos mundos internos e externos de uma maneira significativa, não é exclusivamente um fenômeno psicológico ou físico, mas é “psicóide” o que significa que de alguma forma essencialmente envolve tanto a psique como a matéria. Assim, Jung interpretou a sincronicidade como prova da existência de um nível extremamente profundo da realidade antes de qualquer distinção entre psique e matéria. Em outras palavras, os fenômenos de sincronicidade representam uma manifestação na consciência de estruturas psicóides presentes nas profundezas de uma realidade unitária transcendental que Jung chamou de unus mundus:

Desde que psique e matéria estão contidos em um e mesmo mundo, e, além disso, estão em contacto permanente uma com a outra e, em última análise, em repouso, irrepresentável, fatores transcendentais, não só é possível, mas bastante provável, ainda, que a psique e a matéria são dois aspectos diferentes de uma única e mesma coisa. [10]

mundus unus também está implícito no fato de que nós, evidentemente, ocupamos uma realidade que contém a psique e a matéria, e que estes dois domínios da realidade não são absolutamente independentes e isoladas, mas interagem entre si.Como Jung diz:

Psique e matéria existem em um e o mesmo mundo, e cada uma participa da outra, de outro modo, qualquer ação recíproca seria impossível. Para que a pesquisa possa avançar suficientemente longe, necessitamos chegar a um acordo final entre os conceitos físicos e psicológicos.[11]

Conceito de Jung de unus mundus, portanto, não só mostra como a matéria está implicada nas profundezas da psique, mas também fornece uma estrutura para integrar a nossa compreensão da psique e da matéria. Neste contexto, tanto o mudo psíquico objetivo e o mundo físico objetivo estão enraizados em uma unidade comum nas profundezas da realidade. Porque o unus        mundus normalmente é inconsciente, é experimentado como o misterioso Outro que é o contexto invisível infinito de nossa experiência consciente finita. Visto em seu aspecto subjetivo, esta realidade unificada assume a forma de um domínio psíquico contendo arquétipos psicológicos que se manifestam em nossa experiência interior. Visto em seu aspecto objetivo, o unus mundus assume a forma de um domínio físico que contém as leis arquetípicas da natureza que governam as manifestações em nossa experiência exterior. Se psique e matéria são, pois isso sugere, uma única realidade vista de diferentes perspectivas, então, uma comparação de seus elementos comuns, como revelada em física e em psicologia, pode fornecer insights sobre a natureza da realidade em seu nível mais profundo e universal.

Psique e Matéria: As Conexões

A ciência moderna pode nos ter propiciado uma concepção mais gratificante dessa relação psicofísica através da criação, dentro do campo da física, do conceito de complementaridade. Seria mais satisfatório se matéria e psique pudessem ser vistas como aspectos complementares de uma mesma realidade. [12] – Wolfgang Pauli 

A microfísica está a sentir-se no caminho em direção ao lado desconhecido da matéria, assim como a psicologia complexa é empurrada na direção do lado desconhecido da psique. Ambas as linhas de investigação têm produzido resultados que podem ser concebidos apenas por meio de antinomias, e ambos desenvolveram conceitos que apresentam analogias notáveis. Se esta tendência deverá acentuar-se no futuro, a hipótese de a unidade das suas a matérias ganharia em probabilidade. É claro que há pouca ou nenhuma esperança de que o Ser unitário possa ser concebido, já que os nossos poderes do pensamento e da linguagem só permitem declarações antinomianas. Mas uma coisa que sabemos sem sombra de dúvida, que a realidade empírica tem um fundo transcendental. [13] – CG Jung

Na tentativa de compreender os níveis mais profundos da realidade, é aconselhável tomar nota da observação de Jung de que nossos conceitos são instrumentos imperfeitos, e que todas as representações conceituais que podem formar uma destas regiões da realidade provavelmente envolverá antinomias, e deve ser tomado como sendo essencialmente simbólico, em vez de literal. Por exemplo, o progresso na compreensão conceitual da natureza do quanta foi realizado por reconhecer o princípio da complementaridade, que afirma que conjuntos mutuamente exclusivos de conceitos devem ser utilizados para caracterizar completamente fenômenos quânticos em todos os seus aspectos. Como Marie-Louise von Franz nos diz, Jung reconheceu esse princípio da complementaridade aplicado tanto à psicologia, bem como à física:

A idéia de Bohr da complementaridade é especialmente interessante para os psicólogos junguianos, Jung viu que a relação entre a mente consciente e inconsciente também faz um par complementar dos opostos. [14]

 A analogia sugerida aqui é que a complementaridade onda-partícula na física quântica é paralela à complementaridade inconsciente-consciente em psicologia. Com efeito, tal como na realidade quântica onde a onda é aspecto não observado e a partícula o aspecto observado, na psique o inconsciente é o aspecto não observado e o consciente é o aspecto observado. Além disso, a onda é continuamente espalhada por todo o espaço, enquanto que a partícula tem uma localização limitada. Da mesma forma, Jung afirma que,

A área do inconsciente é enorme e sempre contínua, enquanto que a área de consciência é um campo de visão limitado momentânea. [15]

física-quântica

Fonte figura:

A Física Quântica explicada de forma simples

A analogia vai ainda mais longe. A função de onda quântica representa probabilidades, em contraste com a partícula atualizada. Da mesma forma, as estruturas arquetípicas do inconsciente representam potencialidades fundamentais da manifestação psíquica, enquanto conteúdos conscientes são atualizações dessas potencialidades. Como von Franz explica,

O que Jung chama de arquétipos … poderia muito bem ser chamado, para usar o termo de Pauli, “possibilidades primárias” de reações psíquicas. [16]

Isto sugere que o unus mundus por trás de ambos, psique e a matéria, é também um mundo contínuo de potencialidade. Jung explica:

O fundo comum para microfísica e psicologia profunda é tanto física como psíquica e, portanto, nenhum dos dois, mas sim uma terceira coisa, uma natureza neutra, que pode, no máximo, ser apreendido em sugestões já que em essência, é transcendental. O pano de fundo do nosso mundo empírico, portanto, parece ser de fato um unus mundus. … O fundo psicofísico transcendental corresponde a um “mundo possível” na medida em que certas condições que determinam a forma dos fenômenos empíricos são inerentes a tal fundo. [17 ]

A tabela a seguir resume a correspondência entre os princípios complementares na psique e na matéria:

PSIQUEMATERIA

Estendendo a analogia entre psique e matéria ainda, o físico Victor Mansfield aponta uma semelhança na maneira em que as potencialidades são transformadas em atualidades nos dois reinos:

Na física o processo de medição irreversível transforma as potencialidades em atualidades. Qual a função psíquica correspondente, que transforma o potencial mundo … no mundo da multiplicidade? É a consciência reflexiva, esta como  associação do conhecimento com o ego, torna o mundo empírico possível e traz o transcendental ao mundo empírico da multiplicidade. A unidade primordial do unus mundus então é quebrada pela consciência reflexiva – um ponto acordado na maioria das tradições místicas.. [18]

Na mecânica quântica é somente quando um indivíduo observa que                       um evento acausal se maifesta no espaço-tempo. A nossa participação através da medição gera acausalidade. Analogamente, quando um único centro de consciência, um indivíduo específico, atualiza uma possibilidade no unus mundus, a acausalidade entra no nosso mundo. Apresentando uma perspectiva particular, um centro finito de consciência, inevitavelmente traz acausalidade na transição de possibilidades para atualidades. [19]

Da mesma forma, Jung fez uma correspondência entre a indeterminação inerente à medição quântica e a tentativa de determinar conscientemente conteúdos inconscientes:

Qualquer tentativa de determinar a natureza do estado de inconsciência se depara com as mesmas dificuldades que a física atômica: o próprio ato de observação altera o objeto observado. Consequentemente, não existe atualmente nenhuma maneira de determinar objetivamente a verdadeira natureza do inconsciente. [20]

Deve-se ressaltar aqui que a caracterização da medição quântica de Jung requer esclarecimentos. A medição quântica não altera as propriedades reais do objeto que está sendo observado desde que essas propriedades não tenham existência determinada antes da medição. Mais precisamente, a medida é a ocasião para a determinação das propriedades reais do objeto. Há, portanto, uma espontaneidade que entra na natureza da medição quântica. Da mesma forma, a manifestação de conteúdos inconscientes na consciência também tem um elemento de espontaneidade, na medida em que a imagem consciente especial manifestando um arquétipo não é completamente determinada por conteúdos conscientes anteriores. Esse tipo de espontaneidade é especialmente evidente em sincronicidade.

Embora fenômenos de sincronicidade e fenômenos quânticos possuam certas semelhanças, há também diferenças importantes. Considere, por exemplo, as correlações não-locais que foram observadas experimentalmente entre dois eventos quânticos separados. Como sincronicidade, as propriedades observadas do quanta têm um elemento de espontaneidade em suas manifestações, mas as correlações entre os dois quanta não são devido a causação eficiente entre as duas partículas. Fenômenos de  não-localidade quântica diferem de sincronicidade, no entanto, porque dois eventos quânticos são ambos dados no mundo físico exterior. Sincronicidade, por outro lado, é necessariamente uma ligação entre um evento interior e um evento exterior, ligando a psique e a matéria, e apontando, assim, para o unus mundus. Isto leva-nos, talvez, a mais importante distinção entre os dois fenômenos, que se relaciona com o significado psicológico interior, que é essencial para a sincronicidade. Como explicado por Mansfield,

No fenômeno quântico … não há nenhum significado envolvido. … Em contraste, quando um arquétipo se manifesta em uma experiência de sincronicidade, o significado é o ponto crítico. [21]

Assim, sincronicidade envolve essencialmente a manifestação de significados no sentido de uma compensação inconsciente que precisa um indivíduo no seu processo de individuação em direção à totalidade. Correlações não-locais entre quanta, ao contrário, são conexões entre dois eventos físicos, e não envolvem uma manifestação de significados psicológicos interiores.

Outra distinção mais sutil entre sincronicidade e não-localidade quântica é que as correlações quânticas são cientificamente repetitivas e previsíveis, enquanto fenômenos de sincronicidade parecem ser quase inteiramente espontâneo e imprevisível. Um análogo psicológico mais perto de não-localidade quântica é fenômeno parapsicológico. Mansfield elabora:

Fenômenos parapsicológicos são um exemplo de ordem acausal geral, mas não de sincronicidade, que estritamente definimos como uma exemplificação acausal de significado no mundo interior e exterior. Fenômenos parapsicológicos são acausal já que nenhuma troca de energia ou informação parece responsável pelas correlações medidas, pois falta-lhes o significado associado com a sincronicidade. Além disso, os fenômenos parapsicológicos, como fenômenos quânticos semelhantes, são “constantes e reprodutíveis” …. Esta reprodutibilidade é ainda mais contrastante com a natureza única e imprevisível da sincronicidade mais estreitamente definida. [22]

Jung considera a sincronicidade como um caso especial de “ordem acausal geral”, que refere-se a formas de ordens que não podem ser entendidas em termos de causalidade eficiente ou determinismo físico. Por exemplo, a ordenação causal dos fenômenos físicos de acordo com as leis deterministas da física clássica não são ordens acausais. Correlações quânticas não-locais, no entanto, são um exemplo de ordem acausal manifesta no mundo físico. Sincronicidade é também um exemplo de uma forma específica de ordem acausal que envolve uma conexão significativa entre eventos internos e externos, exibindo uma manifestação das profundezas do unus mundus antes da divisão entre psique e matéria.

A partir das comparações anteriores entre a física e a psicologia, podemos inferir que o unus mundus é um domínio de potencialidade unificada além das limitações de separação espacial e relações causais no tempo. Embora isto seja preparatório para muitas estruturas e limitações de fenômenos manifestos, este domínio tem ordem e significado – é um domínio do Logos. Como resultado, a estrutura profunda do unus mundus é talvez mais apropriadamente representada usando os símbolos da matemática. Como Jung explica,

Número ajuda mais do que qualquer outra coisa para pôr ordem no caos das aparências. É o instrumento predestinado para a criação de ordem ou para apreender um já existente, mas ainda desconhecido, arranjo regular ou “ordenado.” Pode muito bem ser o elemento mais primitivo de ordem na mente humana. [23]

E von Franz amplifica Jung, destacando que ordem matemática é comum a ambos os domínios psicológicos e físicos:

Os mais profundos e mais claramente distinguíveis fatores arquetípicos, que constitui a base de equivalência psico-física são os padrões arquetípicos dos números naturais. . . . No que diz respeito à estrutura matemática, o ordenador causal em questão é do mesmo tipo que o da psique e cada um é refletido continuamente no outro. [24]

Como um arquétipo, o número se torna não apenas um fator psíquico, mas de modo mais geral, um fator “world-structuring”. Em outras palavras, os números apontam para um fundo de realidade em que psique e matéria não são distinguíveis. [25]

Se de fato números e a matemática em geral, reflete a ordem do unus mundus, o que explicaria o mistério profundo de como é que a matemática, que é um fenômeno da mente, deve provar de forma extraordinariamente eficaz a representação do mundo físico. Esta misteriosa harmonia entre psique e matéria está implicitamente presente na base de toda a física, e testemunha as raízes pitagóricas da ciência moderna. Os pitagóricos, entretanto, reconheceram na matemática muito mais do que uma simples linguagem de quantidade. Para eles, os números eram símbolos carregados de significado arquetípicos. A visão moderna dos números, entretanto, reconhece apenas o aspecto quantitativo dos números e ignora seus aspectos qualitativo e de significação. Além disso, von Franz ressalta que os números não são meramente formas estáticas, mas também representam energias vibracionais (como os pitagóricos demonstraram na conexão íntima entre números e tons musicais):

Hoje, em vez de estruturas estáticas ou ordens, também vemos processos em todos os lugares, eu também tenho proposto considerar os números nessa perspectiva – como configurações rítmicas de energia psíquica [26]

Desde tempos imemoriais o número tem sido utilizado com mais frequência para transpor os dois reinos, porque tal representa a estrutura geral dos movimentos das energias psíquicas e físicas na natureza e, portanto, aparece, por assim dizer, para fornecer a chave para a linguagem misteriosa da existência unitária, particularmente em seu aspecto de significação (Tao). [27]

Como os quanta, os números têm dois aspectos complementares, sendo que ambos são necessários se quisermos entendê-los de forma mais completa. Eles têm ambos os aspectos quantitativos e qualitativos, ambos os aspectos estáticos e dinâmicos. É através deste duplo aspecto de número, que von Franz afirma a sua importância como ponte entre psique e matéria:

Este duplo aspecto complementar de número (quantidade e qualidade) na minha opinião é a coisa que torna possível ao mundo da quantidade (matéria) e ao da qualidade (psique) o contato uns com os outros de uma forma periódica. [28]

Embora von Franz associe matéria com quantidade e psique com qualidade, deve-se notar que as vibrações materiais, como com cordas musicais, são experimentados como qualidades ou quantidades, dependendo de qual aspecto do fenômeno escolhemos para isolar. Além disso, as idéias matemáticas vivenciadas na psique têm aspectos de quantidade e de qualidade. Assim, parece ser mais adequado identificar o aspecto qualitativo do número com seu mais sutil, componente vibracional (físico ou psíquico), e o aspecto quantitativo do número com o seu mais concreto, componente discreta. A tabela de aspectos complementares pode, então, ser alterado para incluir os elementos do número, como segue:

PSIQUE2

Em qualquer caso, a chave para a unidade da psique e da matéria, e para a compreensão do unus mundus, envolve essencialmente a natureza do número. Não existia a menor  dúvida quanto a esse ponto por von Franz:

 Em última análise, o mistério do unus mundus reside na natureza do número. [29]

O entendimento sugerido pelas comparações entre as estruturas acima da física e da psicologia, portanto, é que matéria e psique são aspectos de uma mesma realidade, com a matemática como um núcleo arquetípico chave de ambos. No entanto, devemos notar que a complementaridade entre a psique e a matéria (ou seja, as duas colunas da tabela acima) aparece distinta da complementaridade dentro da psique e da matéria (ou seja, as duas linhas da tabela acima), por isso, devemos ter cuidado para não confundir os dois.

De acordo com von Franz, o físico David Bohm chegou a um entendimento similar do terreno unificado da psique e da matéria:

David Bohm também pressupõe a existência de um “oceano de energia”, como o plano de fundo do universo, um fundo que não é nem material nem psíquica, mas completamente transcendente. . . . Em última análise, corresponde exatamente ao que Jung chama o unus mundus, que está situado além da psique objetiva e da matéria e que também está situado fora do espaço-tempo. [30]

Bohm afirma que o  “oceano de energia” é uma parte profunda da ordem implícita da realidade, que se distingue da ordem explícita. Normalmente, estamos conscientes apenas destas características explicitas da realidade, enquanto que as características implícitas formam um fundo inconsciente. A idéia de Bohm de ordem implicita, assim, normalmente corresponde ao inconsciente, enquanto a ordem explícita corresponde ao consciente. Ele resume a idéia da ordem implícita da seguinte forma:

A característica essencial dessa idéia foi a de que todo o universo é, de alguma forma envolvido em tudo e que cada coisa está envolvida no todo Disto se segue que, de alguma forma e em algum grau, tudo envolve ou implica tudo, mas de tal maneira que, sob condições típicas da experiência comum, há uma grande dose de independência relativa das coisas A proposta básica é, então, que essa relação de desdobramento não seja meramente passiva ou superficial. Pelo contrário, seja ativa e essencial para o que cada coisa é. Segue-se que cada coisa está internamente relacionado com o todo, e, portanto, para todo o resto. As relações externas são exibidas no desdobramento ou explícitadas na ordem em que cada coisa é vista, como já de fato foi indicado, como relativamente independente e estendida, e relacionada apenas externamente com as outras coisas. A ordem explícita, que domina a experiência comum, bem como a Física clássica (newtoniana), aparece, portanto, para permanecer por si mesma. Mas, na verdade, não pode ser entendida corretamente além de seu terreno na realidade primária da ordem implicada. [31]

A realidade é um fluxo desse todo (ou, em termos de Bohm, um holomovimento) com diferentes graus de implicação e explicação. Para Bohm, a realidade inclui a psique e a matéria, e a idéia da ordem implícita aplica-se a mente, bem como a matéria, proporcionando, assim, uma ligação entre os dois:

Estamos sugerindo que a ordem implícita é válida tanto para a matéria como para a  psique … e a consciência podendo, portanto, tornar possível uma compreensão da relação geral dos dois, nos torna capazes de chegar a alguma noção de um terreno comum a ambos. [32]

E von Franz concorda:

Estes termos de Bohm pode ser aplicado muito bem com as idéias apresentadas por Jung em sua área de pesquisa. Por exemplo, nesse caso, os arquétipos podem ser entendidos como estruturas dinâmicas não observáveis, espécimes da ordem implícita. Se, por outro lado, um arquétipo manifesta-se como uma imagem de sonho que se desenrolou, tornar-se mais “explícito.” Se continuarmos a interpretar esta imagem usando a técnica hermenêutica de Jung. . . aquela imagem que “se explicita” se desdobra ainda mais. [33]

É importante notar que, como von Franz indica, o conteúdo inconsciente pode ser explicitado, em graus diversos, tornando-se mais consciente. Isto sugere que não há uma distinção clara entre o consciente e o inconsciente, mas sim um continuum.Na verdade, Jung diz explicitamente apenas isso:

Consciente e inconsciente não tem demarcações claras, um começando onde o outro parou. … A psique é um todo consciente-inconsciente.[34]

Em outras palavras, a psique é uma unidade inteira, contendo uma região explicitada de consciência que não é fixa nem, em última análise, distinguível do conjunto. De acordo com Bohm, no entanto, a consciência não é necessariamente coincidente com a ordem explícita, uma vez que pode se tornar diretamente conscientes desses aspectos sutis que fluem da ordem implícita ocorridos no fundo dos aspectos mais concretos e explícitos de nossa experiência. No entanto, a nossa consciência é na maioria das vezes habitualmente fixada no conteúdo mais explícito. Como Bohm explica:

Uma razão pela qual nós geralmente não percebemos a primazia da ordem implícita é que nos tornamos tão habituados à ordem explícita, enfatizada tanto em nosso pensamento e linguagem, que tendemos a sentir fortemente que a nossa experiência primária é resultante do que é explícito e manifesto. No entanto, uma outra razão, talvez mais importante, é que a ativação de gravações da memória, cujo conteúdo é principalmente do que é recorrente, estável e separáveis, deve evidentemente concentrar a nossa atenção muito fortemente sobre o que é estático e fragmentado. Isso, então, contribui para a formação de uma experiência em que esses recursos estáticos e fragmentados são muitas vezes tão intenso que as características mais transitórias e sutis do fluxo ininterrupto … geralmente tendem a empalidecer em tal insignificância aparente que se é, na melhor das hipóteses, apenas vagamente consciente deles. [35]

Bohm parece apontar para possibilidades de consciência que não foram reconhecidas por Jung. Em particular, para Jung, o inconsciente é uma região transcendental da realidade que nunca podemos conhecer diretamente. Assim, só sabemos do inconsciente indiretamente e de forma imperfeita a partir das imagens e outras manifestações concretas que surgem na consciência. De acordo com Bohm, no entanto, embora a consciência seja habitualmente fixada sobre as manifestações explícitas de superfície que se levantam em relação aos níveis implicítos mais profundos da psique, é no entanto possível tornar-se diretamente consciente dessas ordens implícitas da realidade – ordens de realidade que Jung assume como sempre inconscientes. Assim, enquanto Jung permanece correto no que diz respeito à consciência, de que é fixada exclusivamente em ordens explícitas, suas declarações devem ser requalificadas para permitir à consciência desenvolver a capacidade de ser consciente de níveis mais sutis de manifestação. Tal consciência terá capacidade para a consciência direta de conteúdos que anteriormente seria considerado transcendente, inconsciente, e só indiretamente cognoscível por inferência a partir de manifestações mais explícitas e concretas. A implicação é que não podemos manter uma distinção rígida ou definitiva entre o transcendente e o empírico, entre os arquétipos e suas manifestações, ou entre a ordem implícita e explícita. Pelo contrário, o explícito é embutido e essencialmente integrado com o implícito, com um continuum de graus de envolvimento e desdobramento unindo os dois. Da mesma forma, as imagens manifestadas dos arquétipos podem não vir a ser separadas dos arquétipos, mas devem ser vistas como manifestação de seus aspectos que são inseparáveis dos arquétipos em sua plenitude de potencial-atualizado.

Uma visão integral da Psique e da Matéria

Surpreendentemente, nossa exploração na unidade da psique e matéria revelou uma unidade essencial entre os aspectos implícitos e explícitos de cada uma. Ou seja, a unidade é tanto vertical dentro de cada domínio como horizontal entre elas. Em retrospecto, podemos ver porque isso deve ser assim, uma vez que os reinos separados empíricos de psique e de  matéria não pode ser verdadeiramente unidos, se essa unidade só reside em um reino transcendente que é absolutamente distinto dos reinos empíricos, tanto vertical quanto horizontalmente. Mas tdevemos de ter unidade, tanto vertical como horizontalmente. Esta integração vertical-horizontal combinada pode ser ilustrada pela seguinte analogia da física. Antes de Einstein, a energia e a matéria foram pensados como fenômenos empíricos distintos e autônomos. Esta separação de energia e matéria se reflete nas duas leis de conservação clássicas: a conservação de energia e a conservação da massa. Depois de Einstein, no entanto, a distinção entre matéria e energia já não era absoluta, e reconheceu-se que massa e energia são aspectos ou manifestações de uma unidade básica de massa-energia (matematicamente representado como um vetor de 4-dimensional energia-momentum). As antigas leis de conservação foram, portanto, incluídas no âmbito de uma nova lei: conservação da massa-energia.

DENSIONAL

Nessa analogia, a dualidade de massa e energia é horizontal, porque estes são dois fenômenos que se manifestam no mesmo plano empírico. Eles manifestam-se como fenômenos relativamente autônomos, contanto que os movimentos relativos sejam negligenciáveis em comparação com a velocidade da luz.. Na teoria de Einstein, a matéria e a energia são entendidas como as manifestações empíricas de uma realidade unificada (ou seja, o 4-vetor  momentum de energia). Energia corresponde a uma componente do vetor de quatro dimensões, enquanto que a massa corresponde às outras três componentes. Curiosamente, contudo, o vetor funciona como um todo, com o resultado de que os seus componentes de massa e energia podem ser misturados de várias maneiras conforme manifestadas (o vetor é “projetado”) numa estrutura de referência empírica particular. Esta mistura revela a unidade da energia e massa dentro deste reino transcendente. Pode-se visualizar a essência dessa mistura imaginando dois projetores brilhar em um porte vertical a partir de ângulos diferentes, projetando duas sombras no chão. Uma sombra é o análogo de energia, o outro é o análogo de massa. Se inclinar o porte longe da sua orientação vertical, os comprimentos das duas sombras (isto é, a massa e energia observadas) vão mudar, enquanto o comprimento do próprio poste permanece constante.

A analogia acima ilustra como entender a maneira como a psique e matéria podem se manifestar em reinos relativamente autônomos que são, no entanto, misteriosamente coordenados em virtude de suas origens comuns no fundo do unus mundus. Como as leis de conservação da matéria e da energia, a psique e a matéria manifestam-se de tal maneira que as transformações de uma são de muitas formas independentemente da outra. Nossos pensamentos, por exemplo, normalmente aparecem para operar com relativa independência das transformações que ocorrem na maior parte do mundo físico. Por outro lado, as transformações da matéria no universo não são normalmente alteradas por nossos pensamentos. No entanto, certos fenômenos anômalos como os de sincronicidade às vezes irrompem inesperadamente, sugerindo alguma unidade misteriosa da psique e matéria. E em níveis mais profundos, mais sutis e mais implícitos de manifestação, as conexões se tornam cada vez mais evidentes, tais como os padrões arquetípicos de número que são essenciais para o ordenamento em ambos os reinos.

Assim, se a consciência se torna suficientemente sutil para ver os aspectos implícitos de ambos os fenômenos psíquicos e físicos, sua unidade em uma fonte comum pode ser diretamente experimentado e não apenas inferida indiretamente de diversos particulares concretos. Isto implica a necessidade de uma epistemologia expandida para a física, psicologia e para conhecimento em geral que nos leve muito além das formas de conhecimento que são limitadas apenas às ordens explícitas da realidade.  Para conhecimento verdadeiramente integrativo, devemos expandir e aprofundar as nossas capacidades de consciência. Caso contrário, uma teoria integral não será nada mais do que uma construção especulativa agradável com base em conteúdos explícitos que surgiram a partir dos níveis mais profundos. Em suma, se estamos realmente a conhecer as profundezas do oceano unitivo de energia de Bohm, devemos deixar-nos afundar, e não apenas observar os fenômenos de superfície que apenas sugerem o que está abaixo. O inconsciente nos chama em suas profundezas.

Podemos definir o inconsciente, no sentido mais geral, como o domínio de todas as coisas que são conhecidas indiretamente, postuladas, ou presume-se que existam fora da presente consciência consciente, mas que têm uma influência sobre o conteúdo da consciência. O inconsciente é o reino do não-manifesto (em relação à nossa consciência presente). Normalmente, a nossa consciência está fixado na ordem explícita, enquanto que a ordem implícita permanece em grande parte inconsciente. Em alguns casos, porém, a consciência pode mover-se para as profundezas da ordem implícita. Além dos conteúdos psíquicos pessoais e impessoais, essas profundezas também incluem os conteúdos físicos pessoais e impessoais Por exemplo, embora os pratos dentro da máquina de lavar louça se presume realmente estarem lá, existem de fato fora do presente consciência consciente, e são de domínio do inconsciente (em relação à nossa consciência presente). Porque eles são, em princípio, acessível a qualquer um, eles fazem parte de um inconsciente coletivo. O que se convencionou chamar de realidade física objetiva, portanto, pode ser visto como uma região do inconsciente coletivo, que é parcialmente apresentado a cada um de nós de uma forma única durante a nossa consciência desperta. As estruturas desta região do inconsciente são conhecidas como as leis da física, uma vez que determinam a forma legal em que esta região se comporta e evolui. O chamado mundo objetivo é, de fato, parte do inconsciente e só é vislumbrada indiretamente através de suas projeções na consciência. Por exemplo, se eu abrir a máquina de lavar louça, o que aparece na consciência é uma imagem visual de um prato visto de uma perspectiva particular. O prato em si não é visto. Ele não está na consciência. Apenas uma projeção da imagem visual do prato é visto. O prato em si (o seu aspecto implícito) continua a ser uma idéia transcendental postulada a existir fora da consciência. O prato, portanto, está ainda, em grande parte, implícito no inconsciente, mesmo quando eu estou olhando para um aspecto explícito dele. Apenas uma imagem do prato, na verdade, surge na consciência. Além disso, se a minha amiga está olhando bem, constatará que a imagem difere segundo a perspectiva de cada observador. Nenhum de nós, entretanto, vê o prato em toda a sua totalidade implícita. Isso é análogo ao fato de que os aspectos implícitos universais de arquétipos não se manifestam na ordem explicada, mas seus diversos aspectos explícitos manifestam a nós nos sonhos como particulares expressões simbólicas, que variam de pessoa para pessoa.

Os conteúdos arquetípicos explícitos, que são geralmente acessíveis a nós, fornecem a base para uma compreensão coletiva de um mundo compartilhado. No caso do acesso através dos sentidos físicos, este entendimento coletivo assume a forma de o mundo físico. No caso da mente, esse entendimento coletivo assume a forma de arquétipos psicológicos, estados transpessoais de consciência, matemática, e assim por diante. Na medida em que os arquétipos não são inteiramente inequívocos em suas manifestações explícitas, ou manifesta de maneiras que são influenciados por fatores culturais ou pessoais, eles nos permitem criar uma infinidade de marcos interpretativos para a compreensão e representando estes mundos objetivos. Assim, por exemplo, a nossa experiência interior de estados místicos de consciência podem encontrar expressão em vários sistemas filosóficos ou religiosos diferentes, enquanto a nossa experiência externa de fenômenos físicos podem ser entendidas em termos de paradigmas científicos distintos. O desenvolvimento da física envolve o refinamento sucessivo da nossa compreensão e exploração de campos cada vez mais profundos destas regiões coletivamente acessíveis de experiência externa compartilhada. Como nossa compreensão penetra níveis mais profundos de crescente sutileza, as representações tornam-se universais e, portanto, mais abrangentes; embora a estrutura das representações, aninhadas dentro do conhecimento das leis universais da física,  sejam casos especiais válidos somente para domínios restritos da experiência, correspondem a uma específica previsão numérica quantitativa dada por um determinado arranjo experimental. Nosso entendimento é, portanto, dotado de uma profundidade que é obtida através de múltiplos conteúdos de consciência explícita de perspectivas várias possíveis das profundezas implícitas universais que são comuns a todas as perspectivas. Uma estrutura semelhante está presente nas tradições místicas, onde a compreensão vincula as vivências particulares de cada indivíduo, envolvendo níveis intermediários comuns às pessoas envolvidas nessas práticas particulares, com o princípios universais comuns a todos os indivíduos. A psicologia profunda outra vez é semelhante, com imagens oníricas experienciais como primeiros relatos de conteúdos relacionados com o  inconsciente pessoal e em seguida com as estruturas arquetípicas profundas de caráter coletivo natural.

Note que cada fenômeno contém aspectos de todos os níveis. Os aspectos implícitos de um fenômeno podem ser conhecidos diretamente por uma consciência correspondentemente sutil. Em alternativa, podem ser desdobrada, comparando e contrastando fenômenos semelhantes de muitas perspectivas diferentes, proporcionando-nos uma compreensão mais explícita dos aspectos que são específicos para cada fenômeno, e os aspectos que são universais para todos os fenômenos similares.

Parece que em um nível muito profundo, não há distinção entre as estruturas físicas e psíquicas, e que estes são, por assim dizer, duas perspectivas que temos sobre a mesma realidade núcleo. Assim, através da comparação e contraste de fenômenos físicos e psíquicos, podemos isolar a essência desse núcleo comum. Parece claro, no entanto, que uma das principais características deste núcleo é a sua natureza matemática. (Note-se que essa visão contrasta com a noção de que “físico” é um nível concreto da realidade, enquanto o “psíquico” é um nível sutil. Ao contrário, ambos têm profundidades de sutileza que penetram no núcleo da realidade, e ambos têm um superfície concreta que está imediatamente presente na consciência empírica comum. Assim, a mente não pode ser reduzida à matéria, nem matéria à mente. Ambos surgem como diferentes aspectos de um terreno mais fundamental.)

Deve-se ter em mente que, como Bohm salienta, nosso acesso a estes níveis implícitos profundos não é necessariamente limitado ao acesso indireto através de correlações de diversos conteúdos explícitos com representações teóricas, a fim de inferir a sua base comum. Também é possível acessar diretamente esses níveis implícitos da realidade que normalmente são considerados inconsciente. Em outras palavras, o inconsciente pode se tornar consciente de duas formas: indiretamente, através de inferência de conteúdos explícitos, ou diretamente através de uma ampliação do alcance da consciência para os níveis mais implícitos da realidade.

Com o avanço da física e da psicologia, nossa compreensão teórica do mistério para além do alcance de nossa consciência atual está se expandindo para o ponto onde vemos indícios da identidade da psique e da matéria em níveis profundos. A evolução da consciência que é explicitar e integrar o inconsciente, parece ser concretizar numa unidade explícita uma unidade implícita original. Esse entendimento teórico integrativo, no entanto, é apenas uma tentativa de manter conceitualmente juntos diversos conteúdos fragmentados que surgiram no nível explicitado. Tal unidade conceitual é na melhor das hipóteses uma representação parcial e imperfeito do conteúdo de outra forma inconsciente, e temos de ter cuidado para não confundir essa representação com o próprio conteúdo inconsciente, confundindo o nosso mundo de abstrações com a experiência concreta. Fundamentalmente, este erro é o desconhecimento do processo de postular a existência de coisas além ou fora de nossa consciência e, portanto, confundir nossas representações conscientes dessas coisas como “coisas em si” (como quando imaginamos uma partícula material para ter uma objetiva posição existente). Como a representação consciente, inevitavelmente, não corresponde exatamente com a realidade inconsciente, a confusão resulta em uma distorção de nossa compreensão da realidade. Inevitavelmente, a realidade (ou seja, a parte inconsciente da realidade) se manifesta na consciência de uma forma que contradiz essa distorção. Esta compensação inconsciente é então vivida como uma crise, e a anomalia é integrada ou negada. Se ela é integrada, a representação consciente mais abrangente e precisa da realidade tipicamente se desenvolve. Se ela não estiver integrada, as compensações inconscientes continuarão até criar uma crise cognitiva suficiente para resultar em um sacrifício da distorção. Em ambos os casos, porque as nossas representações nunca podem perfeitamente espelhar a realidade, o processo de desenvolvimento vai continuar. Todo este processo de desenvolvimento é baseado no erro fundamental de deixar de reconhecer que a nossa representação consciente do que está fora da nossa consciência (ou seja, o mundo objetivo) é uma construção imaginativa imperfeita, e não um espelho atual de alguma realidade objetiva real .

Se houver um reconhecimento do próprio processo de postular a existência de coisas fora da consciência através da confusão de representações do real, então qualquer imprecisão da nossa representação consciente não é mais um problema, porque nunca será confundida com a realidade primeira As revelações espontâneas de realidade que não se encaixam em esquemas de representação anteriores são então vividas com prazer, e não encontraram resistência. Em outras palavras, ela é reconhecida no nível mais profundo da nossa psique como a realidade que sempre foi e sempre será infinitamente transcendente às nossas representações dela. Como resultado, estamos mais em contato com a realidade, quando nossas experiências vão além das nossas representações da realidade.

Notas Finais

 

[1] Jung (1955), 536.

[2] von Franz (1964), 384.

[3] Heisenberg (1962), 201.

[4] Jung (1970), 25.

[5] Jung (1966), 66.

[6] Jung (1966), 66.

[7] Jung (1966), 275.

[8] Jung (1966), 95.

[9] Jung (1966), 185.

[10] Jung (1970), 5.

[11] Jung (1951), 261.

[12] Pauli (1994), 260.

[13] Jung (1970), 8.

[14] von Franz (1964), 382.

[15] Jung (1968), 8.

[16] von Franz (1964), 383.

[17] Jung (1955), 538.

[18] Mansfield et al. (1991).

[19] Mansfield (1995), 202.

[20] Jung (1970), 27.

[21] Mansfield (1995), 82-83.

[22] Mansfield (1998).

[23] Jung (1973), 40.

[24] von Franz (1980), 194.

[25] von Franz (1992), 216.

[26] von Franz (1992), 256.

[27] von Franz (1974), 284.

[28] von Franz (1992), 57.

[29] von Franz (1974), 54.

[30] von Franz (1992), 253.

[31] Bohm (1990).

[32] Bohm (1980), 196.

[33] von Franz (1992), 252.

[34] Jung, as quoted in Pauli (1994), 153.

[35] Bohm (1980), 206.

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FÍSICA QUÂNTICA E IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA

                              jungPauli

Cíntia Xavier de Albuquerque

Membro associado da Sociedade de Psicanálise de Brasília, texto publicado em trabalho apresentado na Reunião Científica de 13/9/2000.

“É bastante provável que na história do pensamento humano os desenvolvimentos mais fecundos ocorram, não raro, naqueles pontos para onde convergem duas linhas diversas de pensamento”.

Werner Heisenberg

UMA TENTATIVA DE APROXIMAÇÃO

 

INTRODUÇÃO

Há cerca de 10 anos venho tendo, esporadicamente, acesso a algumas informações a respeito das mudanças provocadas pela teoria quântica. Como costuma acontecer com os iniciantes que entram em contato com o micromundo das partículas que compõem o átomo, achava curioso, estranho, esquisito e incompreensível.

O estudo do comportamento dessas partículas terminou por derrubar dois princípios fundamentais da física clássica, o da unidirecionalidade do tempo e o da causalidade. O primeiro diz que o “agora” sempre deve preceder o “depois”. O segundo diz que um efeito não pode preceder sua causa. No entanto, no minúsculo microcosmo do átomo, nem o tempo nem a causalidade tem a significação de outrora. A noção de ordenação temporal dos acontecimentos torna-se insustentável e a não-causalidade é vista pelos físicos quânticos como conseqüência natural de suas teorias.

Outra mudança importante foi a retirada de distinções estáveis entre observador e observado. Aparentemente, a consciência tem um papel ativo na determinação dos resultados de experiências realizadas para estudar o fenômeno quântico.

A teoria quântica oferece possibilidades espantosas, não apenas para a compreensão do mundo material. Quanto a este, desde o início do século efeitos quânticos que ocorrem entre partículas reagindo no vácuo, em condições de laboratório, vêm sendo comprovados. Nos últimos 20 anos, físicos quânticos vêm tentando relacionar a teoria quântica a fenômenos psíquicos. Buscam provas de que existam pontes naturais entre fenômenos quânticos e nossos pensamentos e percepções. Em outras palavras, o importante é saber se o estranho comportamento das partículas atômicas tem influência, ao menos parcialmente, sobre a nossa vida diária.

Pois bem, na nossa vida diária de psicanalistas é comum falarmos também em fenômenos estranhos, esquisitos, misteriosos. Falamos de comunicação de inconsciente para inconsciente, de comunicação não verbal, de projeção e de introjeção de conteúdos internos, de pensamento em busca de pensador. Falamos de posições esquizoparanóide e depressiva e de sua dualidade, falamos do incognoscível.

Tudo isso tem relação com energia psíquica. Mas o que é mesmo isso? Motivada pela curiosidade, parti. Desordenadamente, comecei a questionar se haveria alguma relação entre energia psíquica e energia quântica. Quando me dei conta do tamanho do universo que se abriu, percebi que tentar formular algo a esse respeito, para mim, seria uma tarefa impossível.

Decidi, então, limitar meu universo: tentar enfocar o aspecto interpessoal envolvido no polêmico fenômeno da identificação projetiva, sob a luz dos conceitos básicos introduzidos pela física quântica. Da maneira como eu os apreendo, correndo o risco, de saída, de estar equivocada, por falta de conhecimento específico sobre a teoria mecânico-quântica e de interlocutores com os quais pudesse conversar sobre esses temas.

DA FÍSICA CLÁSSICA À FÍSICA QUÂNTICA

Até o início do século XX, a visão de mundo baseava-se no modelo mecanicista newtoniano do universo, o qual perdurou por mais de 300 anos e impregnou profundamente nosso modo de perceber a realidade. Era como uma rocha poderosa a apoiar toda a ciência.

Segundo esse modelo, o ser, em seu nível mais elementar e indivisível, consiste de partículas pequenas e distintas, os átomos. Estes colidem, atraem e repelem uns aos outros. Ocupam lugares próprios no espaço e no tempo. O espaço é tridimensional, absoluto, idêntico e imóvel. Todas as mudanças do mundo físico eram descritas em termos do tempo, tambémabsoluto, fluindo uniformemente do passado ao presente e deste, ao futuro. Os movimentos de onda (como de ondas de luz) eram considerados vibrações que ocorriam no éter, não sendo objetos de investigação.

As partículas sofriam o efeito da força da gravidade. Tanto partículas como as forças entre elas e as leis fundamentais do movimento eram vistas comocriações de Deus e, portanto, não estavam sujeitas a análises mais profundas. Além disso, Deus estaria sempre presente para corrigir quaisquer irregularidades.

Essa visão mecanicista implicava num determinismo rigoroso. Tudo possuía uma causa definida que gerava um efeito – o princípio da causalidade. A base filosófica desse determinismo provinha da divisão entre o eu e o mundo introduzida por Descartes, no século XVII. Os eventos deveriam ser descritos objetivamente, sem sequer se mencionar o observador humano.A objetividade tornou-se o ideal da ciência.

A filosofia de Descartes influenciou todo o modo de pensar ocidental. Seu “penso, logo existo”, levou à separação mente/corpo e à tendência do homem ocidental a identificar-se apenas com a mente. “Em conseqüência da divisão cartesiana, indivíduos, na sua maioria, têm consciência de si mesmos como egos isolados existindo dentro de seus corpos”.

Todavia, é inegável que tanto a divisão cartesiana quanto a visão mecanicista do mundo mostraram-se muito úteis para o desenvolvimento da física clássica e da tecnologia. O modelo newtoniano continua válido para objetos que possuem grande número de átomos e, exclusivamente, para eventos com velocidades pequenas se comparadas à da luz.

Ainda no século XIX, os trabalhos de Faraday e Maxwell provocaram o primeiro grande abalo sobre a concepção mecanicista de Newton: os fenômenos eletromagnéticos não podiam ser adequadamente descritos, pois envolviam um novo tipo de força, na verdade um campo de força, que não podia ser decomposto em unidades fundamentais.

Em 1905, Albert Einstein publicou dois artigos que deram início a rupturas conceituais revolucionárias. Um deles foi a teoria especial da relatividade. O outro era o embrião da futura física quântica, desenvolvida 20 anos mais tarde. Ambos os desenvolvimentos esfacelaram os conceitos básicos da visão newtoniana do mundo: espaço e tempo acham-se intimamente vinculados, formando um continuum quadridimensional, o “espaço-tempo”; não se pode falar de um sem falar do outro; inexiste um fluxo universal do tempo; massa é uma forma de energia, e tantos outros desdobramentos.

Assim teve início a Física Moderna. Vários fenômenos relativos à estrutura dos átomos foram descobertos. Primeiro, a radiação que conhecemos como raios X. Logo após, as substâncias radioativas que emanavam partículas alfa, verdadeiros projéteis extremamente velozes, de dimensões subatômicas. Os átomos, bombardeados pelas partículas alfa, se revelaram imensas regiões de espaço nas quais partículas muito pequenas – os elétrons – moviam-se em torno do núcleo, ligados a este por forças elétricas.

Uma curiosidade: para tentarmos visualizar o tamanho de um átomo, imaginemos uma laranja do tamanho do planeta Terra. Os átomos da laranja possuirão o tamanho de cerejas. Um átomo é extremamente pequeno se comparado a objetos macroscópicos, mas é enorme se comparado ao seu núcleo. Para que pudéssemos ver o núcleo de um átomo, teríamos que ampliar o átomo até que este atingisse o tamanho da abóbada da Catedral de São Pedro, em Roma. Nesse átomo, seu núcleo seria do tamanho de um grão de sal!

O trabalho de Einstein possibilitou o desenvolvimento da física atômica. Na década de 20, um grupo internacional de físicos juntou forças e superou fronteiras para desenvolver a Mecânica Quântica. Entre eles estavam Niels Bohr (dinamarquês), Erwin Schrodinger e Wolfgang Pauli (austríacos) e Werner Heisenberg (alemão). O homem entrava em contato, pela primeira vez, com o estranho e inesperado mundo subatômico.

A mais revolucionária e importante afirmação que a física quântica faz sobre a natureza da matéria provém de sua descrição da dualidade onda-partícula. É a afirmativa de que, no nível subatômico, os elementos atômicos, a luz e outras formas eletromagnéticas têm um comportamento dual. Podem ser igualmente bem descritos tanto como partículas sólidas, confinadas a volumes e espaços definidos, quanto como ondas que se expandem em todas as direções.

Além disso, nenhuma das descrições é suficiente para se compreender a natureza das coisas. É a própria dualidade o aspecto básico. Um aspecto complementa o outro e, ainda mais estranho, a expectativa se reflete na experiência. Onde se espera encontrar partículas, lá estão elas. Da mesma forma ocorre com as ondas. A solução para essa aparente contradição foi dada por Niels Bohr, ao elaborar o princípio da complementaridade, que estabelece que, embora mutuamente excludentes num dado instante, os dois comportamentos são igualmente necessários para a compreensão e a descrição dos fenômenos atômicos.

Nunca se consegue observar um elétron e medir sua velocidade ao mesmo tempo. Ao incidir um foco de luz para observá-lo, sua velocidade se altera. Então, não se sabe mais onde ele estava antes. Consegue-se medir ou sua exata posição – quando ele se manifesta como partícula – ou sua velocidade ou momentum – quando se expressa como onda, mas nunca ambos a um só tempo. Esse é outro princípio fundamental da teoria quântica: o princípio da incerteza de Heisenberg. A incerteza substitui, então, o determinismo e a objetividade.

É o observador, por meio da observação, que fixa o elétron, densifica sua energia e o observa numa determinada posição. Diz-se que o observador provoca o colapso de sua função de onda. No nível subatômico, não se pode dizer que a matéria exista com certeza, em lugares definidos. Diz-se que ela apresenta “tendências a existir” e que os eventos têm “tendências a ocorrer”.

Fala-se em probabilidades. Em ondas de probabilidades ou ondas de matéria. Todas as leis da física quântica são expressas em termos dessas probabilidades. No domínio dos quanta – que são pacotes de energia –, hoje chamados fótons, não se pode mais ter objetividade completa. O próprio fundamento da visão mecanicista – o conceito de realidade da matéria – foi posto abaixo, pois no nível subatômico os materiais sólidos dissolvem-se em padrões de probabilidades semelhantes a ondas.

Isso se deve às propriedades dos átomos. Em primeiro lugar, sabe-se que os átomos que compõem matéria sólida consistem quase que integralmente em espaço vazio. Seus núcleos, pequeníssimos e estáveis, constituem a fonte da força elétrica e contém quase toda a massa do átomo. Os elétrons transitam de um estado de energia a outro de forma espontânea e aleatória, absolutamente imprevisíveis.

Na verdade, eles nem “giram em torno do núcleo”, como aprendemos na escola. Os elétrons reagem ao confinamento no átomo movimentando-se em altíssimas velocidades, da ordem de 960 km/s. São essas velocidades que fazem com que os átomos pareçam esferas rígidas. Os prótons e nêutrons, dentro do núcleo, confinados num espaço muito menor, percorrem o núcleo de um lado para outro a 64.000 km/s!

Existe um equilíbrio ótimo entre a força de atração do núcleo e a resistência dos elétrons ao confinamento. É a interação entre elétrons e núcleos que constitui a base de todos os sólidos, líquidos e gasosos, dos organismos vivos e de seus processos biológicos.

Bem, se dispuséssemos de um supermicroscópio imaginário com o qual fôssemos examinar, por exemplo, um fragmento de osso, num dado momento, depois de toda ampliação possível, estaríamos vendo uma pulsação indistinta, vastidões de espaços vazios permeados por campos oscilantes de diversos tipos, pulsando e propagando-se cada vez mais para longe.

Desse modo, as partículas passam a ser vistas como padrões dinâmicos, que envolvem uma determinada quantidade de energia que se manifesta a nós como sua massa.

A totalidade do Universo aparece, aos físicos quânticos, como uma teia dinâmica de padrões inseparáveis de energia. “Uma contínua dança de energia”. Energia elétrica, magnética, acústica ou gravitacional. Esse todo dinâmico sempre inclui o observador humano. Ele faz parte da cadeia de processos de observação, e as propriedades de qualquer objeto atômico só podem ser conhecidas em termos de interação do objeto com o observador.

O observador também é feito de átomos. Como nós. Os princípios quânticos descrevem o funcionamento de tudo o que vemos e que, pelo menos fisicamente, somos.

A teoria quântica ainda está “constrangedoramente incompleta e permanecerá assim até que possamos incluir os observadores e, ao menos no caso dos observadores humanos, incluir a consciência com a qual fazem suas observações”. Isso decorre do fato de existirem equações para descrever eventos mecânico-quânticos, mas não para descrever o comportamento do observador. O problema da consciência (ou estados mentais) é central na física hoje. Até mesmo defini-la é difícil. Dependendo da definição dada, a ameba pode ser considerada uma criatura consciente.

A maioria dos físicos que procuram uma sede física para a consciênciapresume, hoje em dia, que sua fonte deve estar na capacidade funcional do cérebro em si. A natureza exata da ligação entre estados físicos do cérebro e estados mentais ainda é um grande mistério, tanto para a ciência como para a filosofia.

nicemario

Temos aqui, agora, a postagem final do artigo Física Quântica e Identificação Projetiva. Comprovadamente, portanto, verificamos a sentença de Nise da Silveira: Se o psicólogo, nas suas investigações através das camadas mais profundas da psique, encontra a matéria, por sua vez o físico, nas suas pesquisas mais finas sobre a matéria, encontra a psique.

SOBRE IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA

Já vimos que os físicos quânticos consideraram o universo uma teia dinâmica de energia, a constante dança de energia. Privilegiam as relações e o movimento.

Também a psicanálise tem evoluído nesse sentido. Cada vez mais falamos do “funcionamento do par analítico, da constituição do eu e do outro no movimento presente na relação, da busca da subjetividade na intersubjetividade”.

O conceito “identificação projetiva” é o que me parece mais fortemente referir-se ao aspecto interpessoal da relação analista-analisando. Ao mesmo tempo, é claro que diz respeito à atividade mental de uma pessoa, às suas fantasias inconscientes de aliviar a mente, sobrecarregada de conteúdos insuportáveis, num outro. Há “uma espécie de jogo dinâmico entre o intrapsíquico e o interpessoal”.

Não é minha pretensão fazer um estudo aprofundado da identificação projetiva. Considerando tratar-se de um fenômeno clínico observável, pretendo destacar o seu aspecto interpessoal. Sabemos que há controvérsias entre importantes autores psicanalíticos sobre se a identificação projetiva é uma fantasia inconsciente do paciente, ou um acontecimento também intersubjetivo.

Desde 1946, Klein sugere a dimensão interpessoal da identificação projetiva. Propõe a existência de um processo psíquico por meio do qual aspectos do self não são simplesmente projetados sobre a imagem psíquica do objeto (como na projeção), mas “para dentro” do objeto. Diz também que a identificação projetiva “provoca um esgotamento psíquico, na medida em que há um imenso gasto de energia no esforço de controlar o outro tão completamente, que ele é vivenciado como tendo adotado um aspecto da própria identidade”.

Segundo Ogden, também para Bion a identificação projetiva “não é simplesmente uma fantasia inconsciente de projetar um aspecto próprio no outro e controlá-lo desde dentro; representa um acontecimento psicológico no qual o projetor, por via de uma interação interpessoal real com o recipiente da identificação projetiva, exerce pressão sobre o outro para que vivencie e se comporte de forma congruente com a fantasia projetiva onipotente”.

De acordo com a leitura de Stefania Manfredi, para Klein a fantasia inconsciente é uma reserva inata de imagens psíquicas que acompanham a pulsão em busca do objeto. A fantasia assume uma força tal, que é capaz de produzir efeitos reais em outra pessoa. “Tudo aconteceria como se a pessoa, ou partes muito importantes dela, tivessem deixado o próprio corpo e tivessem ido morar em outro corpo”.

Rosenfeld diz que a identificação projetiva opera através da fantasia, mas pode também provocar efeitos temporários no comportamento de uma figura receptiva do mundo externo. Interessante aqui o uso do termo “receptiva”. De fato, sabemos, pela experiência clínica, que nem sempre a identificação projetiva “é bem sucedida”, isto é, nem sempre o analista é capturado por ela. Parece que, para ocorrer a identificação projetiva, alguns requisitos têm que ser preenchidos. Voltarei a esse ponto adiante.

Grotstein salienta que a identificação projetiva é uma fantasia inconsciente, é imaginação. Para Betty Joseph, o analista, se estiver realmente aberto para o que está ocorrendo, se identifica com as partes perdidas do paciente e, com isso, pode obter maior compreensão. Ogden afirma que, na identificação projetiva, as fantasias inconscientes de uma pessoa são processadas por outra pessoa.

A meu ver, um aspecto importante ressaltado por Ogden é o de que, além do empobrecimento ou “esvaziamento psicológico” envolvido na identificação projetiva, sabe-se hoje que tal fenômeno “também envolve a criação de algo potencialmente maior e mais produtivo do que qualquer um dos participantes (isolado do outro) poderia produzir”.Trata-se, para ele, de algo que é criado, um terceiro sujeito, além do projetor e do recipiente: o sujeito da identificação projetiva.

Nesse momento, várias perguntas me ocorrem: como é que algo passa para o outro? Essa transmissão inconsciente tem a proximidade física como requisito? Poderia ocorrer à distância? Como poderia ocorrer uma comunicação de inconsciente para inconsciente?

Antes de tentar aproximar alguns conceitos quânticos dos fenômenos que vivenciamos na clínica e na vida, relatarei algumas situações, no mínimo, curiosas.

SITUAÇÕES CLÍNICAS

Situação 1: acordei, certa manhã, com angústia intensa e taquicardia. Havia sonhado que batia, completamente descontrolada, no meu marido, sem saber por quê. Eu não parava para ouvi-lo. Fiquei toda a manhã com as cenas do sonho voltando à minha mente, e com a sensação de estar com o coração dolorido.

À tarde, uma paciente chega e, logo após acomodar-se no divã, relata um sonho, no qual agredia com muita violência seu marido, com um ódio imenso, achando que poderia até matá-lo. Estava impactada e angustiada.

Situação 2: uma colega sonhou que passeava numa montanha com alguém, depois entrava num supermercado, onde queria comprar um xampu, mas não tinha dinheiro.

No dia seguinte, sua paciente sonhou que estava num bosque. Fôra levada por alguém. Era um lugar gostoso. A pessoa sumiu e ela teve fome. Comeu num restaurante, mas não tinha dinheiro para pagar.

Situação 3: uma colega, em supervisão, reclamou que sua paciente não nomeava as pessoas. Nunca. Conversamos sobre seu próprio desejo e curiosidade. Na sessão seguinte, sua paciente começou a nomear todos os personagens, e assim continuou dali para frente.

UM OLHAR QUÂNTICO SOBRE A IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA

Parto da hipótese que, na identificação projetiva, alguma comunicação passa de uma pessoa para outra, de maneira inusual. Como uma espécie de fusão que envolve e emaranha duas pessoas de tal modo que, durante algum tempo, misturam-se os mundos interno e externo de ambas. Como o desfazer de fronteiras.

A física quântica Danah Zohar, ao mencionar a identificação projetiva e a intimidade, diz: “Parece que “eu” e “você” nos influenciamos mutuamente, parece que “entramos” um no outro e modificamos um ao outro no interior, de tal forma que “eu” e “você” nos tornamos “nós”. Esse “nós” que experimentamos não é apenas “eu” e “você”, é uma coisa nova em si, umanova unidade. Essa colocação é muito semelhante à de Ogden, ao nomear aquele algo novo, que é criado, de sujeito da identificação projetiva.

Para as abordagens clássicas da filosofia, da psicologia e da psicanálise, é impossível compreender a transmissão de aspectos internos de uma pessoa para outra. Para um físico quântico, as relações interpessoais são vistas do mesmo modo como se reconhece a dualidade onda-partícula do átomo (que não deve ser chamado de partícula elementar, pois já foram descobertas mais de 200 partículas “elementares” no núcleo do átomo).

O aspecto partícula da matéria quântica origina os indivíduos e as coisas que podem ser apontadas. O aspecto onda dá origem aos relacionamentos entre esses indivíduos por meio do entrelaçamento das funções de onda de seus componentes. Como as funções de onda podem se entrelaçar, os sistemas quânticos podem “entrar” uns nos outros formando um relacionamento criativo impossível para as “bolas de bilhar newtonianas”. A qualidade e a dinâmica do relacionamento íntimo dependem das variáveis a que estão sujeitos os sistemas ondulatórios das pessoas envolvidas. Para haver a identificação projetiva, é preciso que as pessoas estejam em estados parecidos, que haja intimidade e compromisso entre elas, isto é, que haja alto investimento de energia nessa relação.

Vejamos como Danah Zohar fala da identificação projetiva presente na relação mãe-bebê: “Em termos quânticos, a função de onda do bebê está quase totalmente sobreposta à de sua mãe. Em grande parte, a experiência do bebê é a experiência da mãe, e ele começa a tecer seu ser utilizando o tecido da mãe”.  Nesse período, muita quantidade de energia é empregada na integração da função de onda do bebê com a de sua mãe. Com o passar dos meses, esse investimento na mãe diminui e aumenta a quantidade de energia empregada na interação do bebê com os outros.

A partir da descoberta da dualidade onda-partícula do átomo, nenhum dos aspectos é considerado mais o primordial. Existem ambos separadamente e também existe a dualidade. Do mesmo modo, do ponto de vista mecânico quântico, o ser humano é indivíduo e seus relacionamentos, e nenhum dos dois é o primordial.

DISCUSSÃO

Devido ao envolvimento de Jung com o então chamado mundo do ocultismo, Freud, em 1909, teria dito que não queria ouvir mais nada sobre “a maré negra da porcaria do ocultismo”.Dois anos depois ingressou na Sociedade para a Pesquisa Psíquica inglesa e na americana, e publicou seus ensaios sobre o assunto. Durante pelo menos vinte anos Freud parece ter estado interessado em alguns fenômenos polêmicos. Contudo, apesar de seu interesse, chamava a esses outros campos de “colônias da Psicanálise, não a verdadeira pátria”.

Freud preocupou-se, argumentou e sofreu durante alguns anos, antes do rompimento definitivo com Jung, por quem nutria carinho, admiração e enormes expectativas. Desde 1898 Jung se interessava por todos os aspectos do “ocultismo”. Em maio de 1911, comunicou a Freud que estava “ampliando o conceito de libido de modo a designar com este uma tensão geral”. O ano seguinte foi decisivo no processo de separação dos dois. Jung tomou outro rumo, e logo seu posicionamento foi festejado e considerado, pelo British Medical Journal de janeiro de 1914, como seu “retorno a um enfoque mais são da vida”.

Estranha comemoração, pois se a importância que Freud atribuía à pulsão sexual era objeto de fortíssima resistência no meio científico da época, a direção tomada por Jung não deveria, naquele momento, ser considerada sã ou científica.

Em agosto de 1921, Freud escreveu o artigo intitulado Psicanálise e Telepatia e o apresentou, em setembro, a um seleto grupo de seguidores. Sentindo estar a psicanálise ameaçada por um tremendo perigo, disse que não seria mais possível manter-se afastado do estudo dos fenômenos “ocultos”. E que não havia lógica em temer que um interesse maior pelo ocultismo fosse perigoso para a psicanálise. Pelo contrário. Deveríamos, disse ele, “estar preparados para encontrar uma simpatia recíproca entre eles. Ambos experimentaram o mesmo tratamento desdenhoso e arrogante por parte da ciência oficial”.

Contudo, devido às diferenças existentes entre suas atitudes mentais, Freud considerava uma cooperação entre ocultistas e psicanalistas bastante improvável. Os primeiros seriam “crentes convictos” buscando confirmação, apressadamente, de suas convicções, e generalizariam resultados parciais a todos os fenômenos. Os segundos, diz Freud, “são no fundo incorrigíveis mecanicistas e materialistas, ainda que procurem evitar despojar a mente e o espírito de suas características ainda irreconhecíveis”. Parece que isso não mudou desde 1921…

Após alguns anos ocultando suas observações a respeito desse tema, Freud resolveu apresentar três casos, sendo o terceiro o relato de uma experiência clínica pessoal. O tema era a possibilidade ou não de haver transmissão de pensamento. Quando chegou à cidade de Gastein, onde se realizou o encontro, Freud percebeu a força de sua resistência em abordar esse tema: ele deixara em Viena as notas sobre sua própria experiência. “Nada se pode fazer contra uma resistência tão clara”, disse à ocasião.

Percebem-se claramente as dúvidas e reticências de Freud em relação ao assunto, aspecto salientado pelo Editor Inglês em sua nota introdutória.

No ano seguinte, Freud publicou Sonhos e Telepatia. Parece que ele pretendia ler o artigo na Sociedade Psicanalítica de Viena, mas por alguma razão, desistiu de fazê-lo. Termina esse texto dizendo que quis ser “estritamente imparcial”, já que não tinha “nem opinião nem conhecimento sobre o assunto”.

Seu terceiro texto sobre o tema foi apresentado dez anos depois: Sonhos e Ocultismo (Conferência XXX). Nesse, ele enfoca especialmente a possibilidade de existência da transmissão de pensamento, em que “os processos mentais numa pessoa – idéias, estados emocionais, impulsos conativos – podem ser transferidos para uma outra pessoa através do espaço vazio, sem o emprego dos métodos conhecidos de comunicação que usam palavras e sinais”.

Após descrever em detalhes algumas situações clínicas que ilustram fenômenos mentais “tão difíceis de apreender”, Freud diz: “Aquilo que se situa entre esses dois atos mentais facilmente pode ser um processo físico, no qual o processo mental é transformado, em um dos extremos, e que é reconvertido, mais uma vez, no mesmo processo mental no outro extremo”.

Apesar de Freud não ter formulado o conceito de identificação projetiva, essa sua hipótese me parece pertinente se tentarmos olhar, com base em conceitos quânticos, para esse tipo de transmissão. Como já vimos, a energia de vibração é um dos aspectos mais importantes da matéria. O núcleo do átomo, elétrons e moléculas têm suas taxas vibratórias características. Quando pensamos, nossos cérebros geram correntes elétricas rítmicas que se espalham pelo espaço – sob a forma de ondas eletromagnéticas – à velocidade da luz. Essas correntes elétricas são muito fracas, mas podem ser detectadas por instrumentos sensíveis.

Nossos corpos são feitos de diversos tipos de tecidos que interagem de diferentes maneiras com as energias vibratórias. “Independentemente de quão diminuto seja o efeito, nossas psiques podem responder vigorosamente a ele”. Se considerarmos que tanto a mente como a matéria fazem parte do mundo dos acontecimentos quânticos, nossos pensamentos (inclusive os inconscientes) e relacionamentos poderiam ser, em alguns casos, explicados pelas mesmas leis e padrões de comportamento que governam o mundo subatômico.

Assim, para o físico quântico é simples compreender a identificação projetiva, a inversão de papéis (que ocorre quando dois sistemas quânticos não-localmente relacionados trocam de oscilação: ressonância quântica), o contágio emocional de uma torcida de futebol, de um comício político ou a mente grupal (quando um dos membros do grupo parece expressar os pensamentos e sentimentos do grupo inteiro).

Ocorre que eles vão muito além e fazem colocações que afrontam o bom senso, o já conhecido, nossa maneira usual de pensar. Consideram banal e corriqueiro explicar o movimento instantâneo à distância, que chamam de princípio da não-localidade, e que diz que algo pode ser afetado mesmo na ausência de uma causa local; especulam sobre viagens para trás ou para adiante no tempo; explicam a pré-cognição. Na esperança de obter uma nova visão de mundo, menos fragmentada, voltam-se para temas como o misticismo oriental, a cura, os fenômenos psíquicos. “São tentativas parciais e vacilantes de articular algo que “está no ar”, algo que responda à necessidade das pessoas de um quadro mais coerente do mundo.

O próprio Einstein jamais se sentiu à vontade com as implicaçõesmetafísicas mais amplas da física quântica. O fenômeno da não-localidade era, para ele, “fantasmagórico e absurdo”. Ele ficou extremamente desgostoso com os desdobramentos de seu trabalho, mas não conseguiu refutá-los.

Durante a elaboração deste trabalho, surpreendi-me inúmeras vezes. Uma das surpresas – e talvez o seja também para vocês – foi encontrar Jung bastante considerado pelos físicos quânticos cujos textos pesquisei. Sua obra é tida, sob muitos aspectos, como “uma exceção de brilho ímpar dentre as muitas tendências da psicanálise e da psiquiatria clínica”.

Em O Ponto de Mutação, Fritjof Capra dedica cinco páginas a tecer comentários sobre o trabalho de Jung. Diz que, ao romper com Freud, ele “abandonou os modelos newtonianos de psicanálise e desenvolveu numerosos conceitos que são inteiramente compatíveis com os da física moderna e da teoria geral dos sistemas”. Citando uma passagem do livro Aion, de Jung, destaca: “A psique não pode ser totalmente diferente da matéria, pois como poderia de outro modo movimentar a matéria? E a matéria não pode ser alheia à psique, pois de que outro modo poderia a matéria produzir a psique? Psique e matéria existem no mesmo mundo, e cada uma compartilha da outra, pois do contrário qualquer ação recíproca seria impossível”. Capra destaca ainda que Jung concebeu a libido como uma energia psíquica geral, considerando-a uma manifestação da dinâmica básica da vida e que o inconsciente é um processo que envolve padrões dinâmicos coletivamente presentes. Termina seus comentários dizendo: “Jung não foi levado muito a sério nos círculos psicanalíticos. Com o reconhecimento de uma crescente compatibilidade e coerência entre a psicologia junguiana e a ciência moderna, essa atitude está condenada a mudar…

COMENTÁRIOS FINAIS

É comum falarmos sobre a importância do intercâmbio da psicanálise com outras ciências. Com elas trocaríamos experiências e conhecimento e, dessa interseção, adviria enriquecimento para todos.

Física Quântica e Psicanálise têm aproximadamente a mesma idade. Ambas romperam com a pretensão de verdade e realidade fixas e imutáveis, com a concepção de tempo e ordem vigentes. Experimentador e psicanalista são observadores participantes. Freud introduziu o conceito de Inconsciente – o que surpreende, o que não se sabe, e os físicos quânticos, o Princípio da Incerteza – nunca se sabe onde e como se encontrará uma partícula subatômica. Tanto os fenômenos atômicos como os inconscientes não costumam ser diretamente observáveis: requerem interpretação. Os físicos quânticos reconhecem que todos os conceitos e teorias científicos são limitados e aproximados. E que a ciência nunca poderá proporcionar um entendimento completo e definitivo. São idéias que nos são muito familiares. Contudo, outras não o são.

Quando aplicamos conceitos quânticos à natureza do ser humano, uma verdadeira revolução na nossa maneira de nos percebermos – e ao mundo – é exigida. A física quântica pede que modifiquemos nossas noções de tempo e espaço, de causa e efeito e de matéria e energia de maneira assustadora. Parecem faltar inclusive condições para pensar. É como não saber pensar aquelas idéias.

Que sirva de consolo: mesmo físicos quânticos, quando procuram entender o que suas equações estão indicando, inadivertidamente tentam encaixar conceitos quânticos em modelos newtonianos antigos, bem conhecidos, o que faz com que eles próprios vejam seu trabalho com a mesma estranheza que nós.

Certamente não estamos preparados para uma “revolução quântica”. Uma imensa dificuldade com que nos defrontamos é o (nosso velho conhecido) medo do desconhecido. Vigoroso, quase nos impede olhar, fazer contato, ouvir novas – e estranhas – idéias.

A teoria quântica é revolucionária. Não deveríamos esquecer que a psicanálise também o é. Sua história mostra o quanto ela vem provocando resistências, críticas, medo, ataques dos mais diversos tipos e intensidades. Ela própria já mudou tanto – na teoria e na técnica – nesse seu primeiro século de existência. Somos nós que a transformamos, com nosso interesse pelo funcionamento da mente humana e com nossa prática clínica, em algo tão vivo e apaixonante.

Com esse texto introdutório – e informativo – espero ter conseguido transmitir a idéia de que talvez tenhamos, à nossa disposição, um tipo particular de sensibilidade a desenvolver, com a qual possamos aprimorar nossa escuta psicanalítica.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

  1. Assis, Maria Bernadete A. C. Considerações sobre técnica no campo da intersubjetividade. Segundo Relatório de Supervisão. São Paulo, 1998.
  2. Bentov, Itzhak. À espreita do pêndulo cósmico. A mecânica da consciência. Ed. Cultrix//Pensamento, 1988.
  3. Capra, Fritjof. O Tao da física. Ed. Cultrix, 1975.
  4. Capra, Fritjof. O ponto de mutação. Ed. Cultrix, 1982.
  5. DEP. O Inconsciente emergente. Introdução à dinâmica energética do psiquismo. Ed. Envelopes & Cia, 2000.
  6. Freud, S. Psicanálise e telepatia (1921), Standard Brasileira. Ed. Imago, Vol. XVIII.
  7. Freud, S. Sonhos e telepatia (1922), Standard Brasileira. Ed. Imago, Vol. XVIII.
  8. Hawking, S. Breve história do tempo. Ed. Gradiva, 1988.
  9. Jones, Ernest. Vida y obra de Sigmund Freud. Ediciones Horme, Buenos Aires, Vol. II, 1976.
  10. Manfredi, Stefania. As certezas perdidas da psicanálise clínica. Ed. Imago, 1998.
  11. Ogden, Thomas. Os sujeitos da psicanálise. Casa do Psicólogo, 1996.
  12. Rolim, Ana Maria A. A psicanálise é uma ciência: mas quem não se importa? Uma ressonância de a psicanálise não é uma ciência: mas quem se importa? Psicologia – Ciência e Profissão. Nº 2, Ano 20.
  13. Zohar, Danah. Através da barreira do tempo. Ed. Pensamento, 1982.
  14. Zohar, Danah. O ser quântico. Ed. Best Seller, 1990.

 

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A FÍSICA QUÂNTICA E  SINCRONICIDADE

Texto Original:

http://www.rascunhodigital.faced.ufba.br/ver.php?idtexto=168

cone

Fonte figura:

Luiz Felippe Perret Serpa

FACED/ UFBA

Aderval Barros da Silva

IF/ UFBA 

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RESUMO

Neste trabalho, a partir da experiência EPR, cujo resultado demonstra a não-localidade da realidade física, desenvolvemos uma correspondência com a sincronicidade, e, consequentemente, um isomorfismo entre o inconsciente e o vácuo quântico, concluindo pela dimensão da Física Quântica como uma teoria psicanalítica do universo.  

As construções humanas são norteadas pelas percepções inconscientes do mundo,  acumuladas ao longo da evolução da espécie, devido às constantes modificações nas capacidades mentais. As contribuições inconscientes  de criação nas elaborações artísticas e científicas estão imbricadas nas novas idéias e sensações que nos são incutidas e acumuladas no inconsciente. É a partir destas percepções inconscientes que se evidenciam e racionalizam os fenômenos e os processos físicos, perceptíveis pela consciência humana, transformando de forma contínua as leituras, interpretações e traduções do mundo macroscópico, objeto da Física Clássica. Ainda por um fator inconsciente, somos levados a construções de modelos mediadores de comunicação, que são transmitidos por meio de uma determinada linguagem.

De acordo com Lacan, toda investigação humana está  vinculada irreversivelmente no interior do espaço criado pela linguagem. Esta certeza converge para o conceito de inconsciente, introduzido na psicanálise por Freud, e reelaborado por Jung posteriormente.

Os diferentes desdobramentos da inventividade humana, embora muito diversificados, têm uma mesma origem, a mente humana e as percepções inconscientes; daí o fato de construções distintas eventualmente conduzirem os pensamentos a uma mesma referência. Há uma sincronicidade nas construções humanas decorrente deste fundo comum a todos os seres humanos.

Pode-se, assim, pensar o inconsciente como um universo virtual de possibilidades, o vazio,onde o contexto é atemporal e a-espacial, o que nos possibilita uma analogia com o vácuo quântico. Os colapsos ocorridos neste universo virtual,  construtor  das realidades humanas, são provocados pelos acontecimentos e pelas variadas formas de linguagem. São os acontecimentos que geram as temporalidades e as espacialidades, enquanto esse contexto tempo-espacial, juntamente com as linguagens, constroem o sentido.

Por exemplo, algumas teorias foram elaboradas, em alguns casos no mesmo período, por pessoas que não se conheciam e moravam em diferentes países, e não tinham conhecimento racional, consciente, do trabalho do outro, ( o trabalho do outro é um evento físico, a construção da teoria é um evento psíquico, e este fato é um evento sincrônico).

Alguns filósofos fazem distinção entre crear e criar; devemos esclarecer que se entende por crear a potencial e virtual manifestação da essência em forma de existência, e por criar, a transmissão de uma forma de existência em outra forma de existência. A história nos leva a afirmar que, em potência, um matemático compartilha com um poeta, pintor, músico ou escritor do mesmo princípio creador, embora suas criatividades  precipitem diferentes construtos do real. Estas evidências constroem de forma autônoma uma ponte entre a psique e as nossas interpretações para os fenômenos  físicos, pois as teorias que as definem são construções humanas. Resta-nos localizar esta ponte e caminhar sobre suas bases, explorando todo o panorama em volta, construindo de maneira mais sólida a realidade humana.

Entendemos como verdades humanas, elementos e fatos do mundo ou do universo, que possuem uma forma repetitiva de se manifestar diante da consciência humana.

E se hoje busca-se encontrar uma ponte entre a Física Quântica e a Sincronicidade, é porque estas transformações na visão de mundo, seguidas de suas respectivas construções mentais, não mudam o fato das mentes creadoras possuírem as mesmas propriedades mentais, comuns a todos, fazendo com que, em algum lugar, mentes conscientes percorram os caminhos apontados pelo conjunto de transformações envolvendo mente, consciência e psique humana.

A ideia das atualizações do inconsciente  pode ser pensada como sendo o resultado do acúmulo de acontecimentos e excitações a nível quântico, pois o inconsciente é também um espaço virtual de possibilidades, o vazio, algo que corresponde ao conceito de vácuo quântico presente na teoria quântica.

A mente humana tem o correspondente simbólico na consciência pela atualização dos acontecimentos quânticos e suas respectivas excitações, pois esta atualização é a gênese do mundo macroscópico. A consciência relaciona os acontecimentos no mundo clássico, e as idéias da Física Quântica são estranhas perante à consciência, porém se realizam como acontecimentos e linguagens gerando a realidade clássica.

Estamos diante de um problema de escala, desde que a consciência está apta a analisar o mundo macro. Na verdade, consciência e inconsciente fazem parte de uma mesma estrutura, a mente humana, e se inter-relacionam de forma complexa, condicionando nossas atividades e interpretações de eventos e fenômenos físicos e metafísicos.

Os paradigmas científicos puramente racionais não levarão a humanidade à realidade última, absoluta, pois são edificados e trabalhados tendo os limites determinados pelo funcionamento cerebral e mental humano, alimentados por uma atividade inconsciente. Até aqui, pensamos na ciência como uma forma de padronização de percebermos o universo que nos cerca, o macro e o micro mundos, visando uma melhor compreensão de onde nos encontramos imersos, e consequentemente, uma melhor interação com o meio em que habitamos, sem que isto implique em um conhecimento onde paire a certeza. A percepção do micromundo ocorre no inconsciente de forma indizível, colapsando nos eventos resultantes da ação humana.

 A maneira mecanicista e cartesiana com que as impressões do mundo apresentam-se à consciência nos leva a por em dúvida as coisas que afloram do inconsciente, mas suas manifestações apresentam-se cada vez mais intensas, levando os homens da ciência a inovações que resultam nas crises científicas, e, consequentemente, às mudanças de paradigmas. Assim, a consciência e o inconsciente auto-organizam-se, avolumam-se nas suas capacidades, modificando e acrescentando novas percepções de mundo que se manifestam na ação humana.

Chamaremos de atividade mental todas as transformações na matéria, pois qualquer movimento no espaço-tempo decorre de uma atividade mental. Certamente a mente humana não define todas as atividades mentais no planeta, nem no universo, mas mantém sempre, em potência, a possibilidade de atualizá-las. Há no universo potencial e virtual das possibilidades, o inconsciente ou o vácuo quântico, a imanência da totalidade do universo. O conjunto de todas as mentes e suas conexões constituem o Unus Mundus.

Estas considerações  podem justificar o fato do paradoxo de Einstein, Rose e Podolsky (EPR)  confirmar a validade do teorema de Bell, quando, em princípio, pretendia-se o efeito contrário, pois uma decorrência deste teorema é o caráter não local dos eventos físicos, implicando que a realidade quântica é sincronizada espacialmente.

A experiência EPR foi formulada por Einstein com o objetivo de obter uma prova cabal da incompleticidade da teoria quântica, com o auxílio dos físicos Boris Podolsky, originário da Rússia, e Natan Rose, americano. Einstein não aceitava o fato de que a teoria quântica atribuía ao observador, e ainda é assim, a propriedade de criar a realidade.

Cabe aqui justificar esta consideração com o argumento de que a realidade humana é verdadeiramente construída pelo observador, e isto é um fato que implica no não absolutismo desta realidade.

Esta experiência originalmente refere-se a dois elétrons com momentos correlacionados. Esta experiência foi modificada, empregando-se dois fótons com polarizações correlacionadas. Experimentalmente, a polarização do fóton pode ser medida utilizando-se um cristal de calcita que divida  o raio luminoso em dois canais, um alto e um baixo, dependendo dos fótons estarem polarizados, respectivamente, ao longo do eixo ótico da calcita ou em ângulo reto com este eixo. Uma fonte de fótons que os emitam aos pares, de duas cores distintas, e que se desloquem em direções opostas rumo a dois detetores afastados convenientemente, poderá propiciar medidas de polarização desses fótons.

EPR

Fonte figua: http://www.hablandodeciencia.com/articulos/2012/07/31/el-experimento-epr-einstein-podolsky-rosen/

Os pares de fótons deixam a fonte num estado particular de embaralhamento de fases, denominado estado de polarização paralela. Desta forma, a fase de cada fóton depende do que está fazendo o outro fóton. Consequentemente, nenhum desses fótons está representado por uma forma ondulatória definida, o que de acordo com a teoria quântica implica em que nenhum desses fótons possui uma polarização definida; logo, nenhuma medida de polarização dará sempre o mesmo resultado. Para cada fóton a medida  de polarização dará meio a meio para os dois canais, alto e baixo. Embora cada fóton por si só não possua uma onda mandatária definida, — entenda-se como onda mandatária um comportamento ondulatório associado aos fótons, enquanto entidades individuais, e que são ondas que não transportam energia — o estado dos dois fótons como um todo é representado por uma onda definida, o que significa que certos atributos das duas partículas (pertinentes simultaneamente aos dois fótons ) possuem valor definido. Para fótons no estado de polarização paralela, um destes atributos definidos é a polarização parelha dos fótons.

Esta experiência, sob a ótica da Sincronicidade, possibilita atribuir a este tipo de evento algo semelhante à psique humana, isto é, uma virtualidade, coexistente nos fótons, e certamente em qualquer entidade quântica, e explicá-lo como sendo um evento sincrônico.

A implicação de que a realidade quântica é não-local impõe aos cientistas procurar novos caminhos: o universo auto-consciente, a ideia do Unus Mundus, a teoria da Sincronicidade.

Como afirma Jung:

Sincronicidade exprime uma coincidência significativa ou correspondência:a) entre acontecimentos psíquicos e um acontecimento físico não ligado por uma relação causal. Tais fenômenos de sincronicidade aparecem, por exemplo, quando fenômenos interiores ( sonhos, visões, premonições ) parecem ter uma correspondência na realidade exterior: a imagem interior ou a premonição mostrou-se “verdadeira”;b) entre sonhos, idéias análogas ou idênticas que ocorrem em lugares diferentes, sem que a causalidade possa explicar umas e outras manifestações. Ambas parecem ter relação com processos arquetípicos do inconsciente.

Portanto, os efeitos sincrônicos podem ser decorrência do ímpeto da creação e manifestarem-se sem nenhuma correlação espacial, ao menos aparente, em estruturas macro e microscópicas.

Concluímos, assim, que podemos imaginar um universo virtual de possibilidades, o qual consideramos como o vácuo quântico, no caso da natureza, e como o inconsciente, no caso do homem. A precipitação dos acontecimentos pela ação do homem ou da natureza,  contextualiza o espaço-tempo e ganha sentido pela linguagem.

O Unus Mundus é imanente, virtual e possível. O real concretiza-se através do eterno retorno ao Unus Mundus.

Em síntese, a Física Quântica constitui-se em uma psicanálise do universo, onde o vácuo quântico é o seu inconsciente.

(Texto produzido em 2000 com o estudante de Física Aderval Barros da Silva)

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ESTRUTURA DA PSIQUE

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Luis Marcelo Ramos

http://www.escavador.com/sobre/3528289/luis-marcelo-alves-ramos

Graduação em Psicologia pela Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP

Mestrado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP

 

Buscando estabelecer uma visão geral da base científica que dá sustentação ao conhecimento psicanalítico, postamos abaixo os “apontamentos de aula” de Luis Marcelo Ramos: o texto traz o conteúdo de uma aula sobre Teorias da Personalidade com foco nos fundamentos da Psicologia Analítica do psicólogo e psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961).

 

GÊNESE DA PSICOLOGIA ANALÍTICA

 

Fundada no início do século XX pelo psicólogo e psiquiatra suíço Carl Gustav Jung(1875-1961), o termo Psicologia Analítica passou a ser utilizado oficialmente por Jung em 1913, porém, suas bases foram geradas em anos anteriores.

Jung foi um dos mais proeminentes discípulos de Freud, exercendo a Psicanálise de 1909 a 1913, ano em que rompeu com Freud e fundou a Psicologia Analítica. Após a morte de Jung em 1961 a Psicologia Analítica continuou a receber contribuições dos neo-junguianos.

CONCEITO

Escola de Psicologia fundada pelo psicólogo e psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, detentora de uma teoria sobre a estrutura e o funcionamento do psiquismo humano (psique) e, também, uma categoria de psicoterapia.  

PRINCIPAIS FUNDAMENTOS

A psique (psiquismo humano) é formada por: consciente, inconsciente pessoal einconsciente coletivo.

O eixo central da Psicologia Analítica é o Processo de Individuação: tendência instintiva e teleológica de o ser humano, através de processos de autoregulação, desenvolver suas potencialidades inatas em direção à realização da totalidade psíquica (autodesenvolvimento, autorealização e autoconhecimento).

O Processo de Individuação ocorre através do fluxo dialético (permuta e transformação) da energia psíquica (libido) que corre entre o consciente, o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo.

Esse fluxo de energia, através de processos de autoregulação, sempre visa ahomeostase psíquica (equilíbrio psicológico).

O conceito junguiano de libido difere do freudiano: para Jung a libido compreende não só a energia sexual, mas, também, energias associadas ao instinto de sobrevivência, à motivação, às relações afetivas, desejos de autorealização, autoconhecimento, vivências espirituais e, enfim, ao Processo de Individuação.

Apesar de o Processo de Individuação ser o tema principal da obra junguiana, seu estudo mais conhecido trata dos tipos psicológicos – tipos de personalidade. 

ESTRUTURA DA PSIQUE

A Psique está estruturada em três elementos: consciente, inconsciente pessoal e inconsciente coletivo.

Consciente 

– Sistema do aparelho psíquico que mantém contato com o mundo interior (processos psíquicos, internos) e exterior (meio ambiente e social) do sujeito.

– Na consciência destaca-se os fenômenos de percepção intrínseca e extrínseca, senso de identidade, atenção, raciocínio e memória, entre outras funções cognitivas e emocionais.

– As pessoas são conscientes apenas de uma pequena parte de sua vida psíquica.

– O consciente tem como centro organizador o Eu. Tanto o Eu como oConsciente como um todo surge do Self (localizado no Inconsciente coletivo).

Inconsciente pessoal  

– É a camada mais superficial do inconsciente, cuja fronteira com o consciente é bastante imprecisa.

– Nele permanecem os conteúdos inconscientes derivados da vida do indivíduo – sua formação é, portanto, a posteriori ao nascimento.

Esses conteúdos são formados por percepções subliminares e combinações de idéias com energia psíquica insuficiente para irromperem na consciência, experiências de vida “esquecidas” pela memória consciente, recordações dolorosas se serem relembradas, repressões sexuais, desejos reprimidos, qualidades da personalidade – positivas e negativas – desconhecidas pelo Eu e, principalmente, grupos de representações carregados de forte carga emocional e incompatíveis com a atitude consciente (complexos, cujas bases são os arquétipos – localizados no Inconsciente coletivo).

– Geralmente esses conteúdos não possuem energia psíquica suficiente para permanecerem no campo da consciência, entretanto, podem adquirir a energia necessária para emergir na consciência na forma de lembranças, sonhos, fantasias, devaneios e comportamentos.

Quando irrompem na consciência podem possuir um significativo grau de autonomia, chegando até a tomar sua posse temporária.

Inconsciente coletivo 

– É a camada mais profunda do inconsciente e a base da psique.

– É constituído pelos arquétipos : núcleos instintivos passados de forma psicobiológica de geração a geração, trazendo padrões de comportamento herdados desde o surgimento da humanidade e mesmo antes dela, no período em que o homem ainda era animal – a gênese doInconsciente coletivo é, portanto, a priori ao nascimento.

– Os arquétipos constituem a base dos complexos situados noInconsciente pessoal. Os arquétipos são inúmeros, incontáveis, entretanto, Jung identificou alguns que estão em permanente contato com o Eu. São eles a persona, a sombra, a anima, o animus e o self.

– O Self – também denominado de si mesmo – é o centro organizador não só do Inconsciente (pessoal e coletivo), mas, também, de toda apsique. É do Self que surge a consciência e o Eu.

– Jung chamou a camada mais profunda do Inconsciente coletivo dePsicóide : a ela estão associados fenômenos “extra-racionais” tais como sonhos e visões premonitórios, sincronicidades (“coincidências significativas” em torno de pessoas e objetos) e telecinésia.

Temos abaixo a estrutura da psique em forma de diagrama:

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ARQUÉTIPOS PERSONA, SOMBRA, ANIMA, ANIMUS  E SELF

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Persona 

O termo persona origina-se do teatro grego antigo e significa máscara.

Arquétipo associado ao comportamento de contato com o mundo exterior necessário à adaptação do indivíduo às exigências do meio social onde vive.

Corresponde à identidade e desempenho de papéis socialmente atribuídos a uma pessoa.

Também está intimamente relacionada a conveniências pessoais.

A persona corresponde a uma significativa parcela do comportamento do sujeito enquanto personagem coletiva.

A alma, em oposição à persona, corresponde ao comportamento do sujeito enquanto personagem individual, sua real personalidade.

Uma pessoa pode ter um determinado comportamento em sociedade (persona) e, outro, completamente oposto, em casa (alma).

Convém esclarecer que nem todo comportamento social é manifestação da persona, também pode ser uma expressão da alma.

A persona possui dois aspectos: positivo e negativo.

O aspecto positivo está associado à adaptação do sujeito ao seu meio social.

O aspecto negativo surge quando o Eu se identifica com a persona, fazendo com que a pessoa se distancie e desconheça sua real personalidade, a alma.

Muitas vezes é difícil para um observador externo identificar numa pessoa o que é sua persona e o que é sua alma.

Ao se manifestar geralmente de modo inconsciente – sem que o Eu não tenha consciência de sua existência – a persona revela seu significativo grau de autonomia na psique.

Quando tornada consciente – assimilada pelo Eu – a persona traz benefícios ao autoconhecimento e à melhoria das relações interpessoais.

 

Sombra

Arquétipo associado às virtudes e defeitos de caráter que o indivíduo desconhece existir em si mesmo.

Uma pessoa tende a projetar sua sombra nos outros e negá-la em si mesma.

sombra possui dois aspectos: positivo e negativo.

O aspecto positivo está associado às virtudes que o indivíduo desconhece existir em sim mesmo.

O aspecto negativo está associado aos defeitos de caráter que o indivíduo desconhece existir em si mesmo.

A sombra também pode se manifestar de forma coletiva, tanto nos seus aspectos positivos como negativos.

Ao se manifestar geralmente de modo inconsciente – sem que o Eu não tenha consciência de sua existência – a sombra revela seu significativo grau de autonomia na psique.

Quando tornada consciente – assimilada pelo Eu – a sombra traz benefícios ao autoconhecimento e à melhoria das relações interpessoais.

Anima e animus

A anima corresponde ao princípio feminino presente na psique do homem.

O animus corresponde ao princípio masculino presente na psique da mulher.

Anima

Arquétipo associado à personificação da natureza feminina no inconsciente masculino.

Manifesta-se no comportamento masculino através de expressões emocionais.

Projeta-se em figuras femininas: mãe, irmã, namorada, esposa, amante, mulher desejada, mulheres admiradas (nos sentidos eróticos, heróicos, intelectuais e espirituais).

A anima condensa todas as experiências que o homem vivenciou no seu encontro com a mulher durante milênios e é a partir desse imenso material inconsciente que é modelada a imagem de mulher que o homem procura.

A anima possui dois aspectos: positivo e negativo.

O aspecto positivo está associado àquilo que a anima, uma vez tornada consciente – assimilada pelo Eu -, pode trazer ao homem no sentido de conhecer suas próprias emoções e melhorar suas relações afetivas. Ainda, mesmo que inconsciente, possibilita ao homem a capacidade de amar, a receptividade ao irracional, a sensibilidade à arte e à natureza, a intuição profética e o acesso ao inconsciente e, em conseqüência, à busca espiritual.

O aspecto negativo está associado ao fato de que, quando inconsciente – desconhecida pelo Eu -, a anima expressa-se em manifestações emocionais infantis e primitivas, domina o homem, tornando-o subjugado por figuras femininas, fazendo com que ele possa incorrer em paixões cegas e desilusões amorosas, dependência da mulher, mudanças bruscas de humor, explosões emocionais, ciúme, caprichos, ansiedade, melancolia, depressão e mesmo (tentativas de) suicídio.

Ao se manifestar geralmente de modo inconsciente – sem que o Eu não tenha consciência de sua existência – a anima revela seu significativo grau de autonomia na psique do homem.

Quando tornada consciente – assimilada pelo Eu – a anima traz benefícios ao autoconhecimento e à melhoria das relações interpessoais.

Animus 

Arquétipo associado à personificação da natureza masculina no inconsciente feminino.

Manifesta-se no comportamento feminino através de expressões judicativas e reflexivas.

Projeta-se em figuras masculinas: pai, irmão, namorado, esposo, amante, homem desejado, homens admirados (nos sentidos eróticos, heróicos, intelectuais e espirituais).

O animus condensa todas as experiências que a mulher vivenciou no seu encontro com o homem durante milênios e é a partir desse imenso material inconsciente que é modelada a imagem de homem que a mulher procura.

O animus possui dois aspectos: positivo e negativo.

O aspecto positivo está associado àquilo que o animus, uma vez tornado consciente – assimilado pelo Eu -, pode trazer à mulher no sentido de conhecer seus próprios pensamentos e melhorar suas relações afetivas. Ainda, mesmo que inconsciente, possibilita à mulher o gosto pelo conhecimento da natureza dos fenômenos e o acesso ao inconsciente e, em conseqüência, a busca espiritual.

O aspecto negativo está associado ao fato de que, quando inconsciente – desconhecida pelo Eu -, o animus expressa-se em manifestações judicativas e reflexivas infantis e primitivas, domina a mulher, tornando-a subjugada por figuras masculinas, fazendo com que ela possa incorrer em paixões cegas, dependência do homem, juízos irrefletidos, preconceitos infundados, certezas não fundamentadas, teimosias, afetos de vingança e frieza emocional.

Ao se manifestar geralmente de modo inconsciente – sem que o Eu não tenha consciência de sua existência – o animus revela seu significativo grau de autonomia na psique da mulher.

Quando tornado consciente – assimilada pelo Eu – o animus traz benefícios ao autoconhecimento e à melhoria das relações interpessoais.

Sizígia: anima e animus 

Devido à diferente natureza dos dois gêneros, a relação entre homens e mulheres é uma relação de oposição e, ao mesmo tempo, de complementaridade não só fisiológica, mas, também, psicológica.

A tomada de consciência – pelo Eu -, da anima pelo homem e do animuspela mulher, propicia a melhoria das relações interpessoais e afetivas entre os gêneros.

Essa sizígia (arquétipo da alteridade, segundo Byington) já era bem conhecida pelo taoísmo – uma antiga filosofia chinesa – expressando-se na idéia/símbolo do Tai Chi (princípio do princípio) que compreende a oposição e complementaridade entre os princípios Yin (feminino, branco) e Yang (masculino, negro).

Self 

É o núcleo organizador não só do Inconsciente (pessoal e coletivo), mas, também, de toda a psique.

É o arquétipo que leva o homem à busca pela individuação – e não individualismo -, o autoconhecimento, pela integração com os demais homens e com a natureza, pela vivência espiritual e o sentido da vida e da morte.

Essa busca é denominada por Jung de Processo de Individuação, sendo este o tema central da Psicologia Analítica.

Possui dois aspectos: positivo e negativo.

O aspecto positivo está associado à (possibilidade de) efetivação doProcesso de Individuação.

O aspecto negativo está associado ao fato de que o Self pode subjugar oEu, criando doutrinadores e fanáticos religiosos.

Quando tornado consciente – assimilado pelo Eu – o Self traz benefícios ao autoconhecimento e à melhoria das relações interpessoais.

PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO 

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É a busca do ser humano pela individuação – e não individualismo -, pelo autoconhecimento, pela integração com os demais homens e com a natureza, pela vivência espiritual e pelo sentido da vida e da morte.

Essa busca é instintiva e herdada de nossos ancestrais, desde o início da humanidade.

Os sinais dessa busca estão expressos nas manifestações artísticas dos homens primitivos e seu registro percorre toda a história da civilização.

A efetivação do Processo de Individuação implica na integração entre o Eu e o Self, entre consciente e inconsciente.

Esse mecanismo psíquico de integração dos opostos no Processo de Individuação foi denominado por Jung de Função Transcendente.

O próprio Jung esclareceu que a Função Transcendente não é um processo metafísico, mas uma função teleológica instintivamente herdada.

Apesar de o Processo de Individuação possuir uma natureza teleológica, sua realização é possibilidade e não certeza.

Essa possibilidade está estreitamente relacionada por um lado à Função Transcendente – no sentido da prontidão do Eu e do Self para desencadear e dar curso ao Processo de Individuação – e, por outro lado, a realidades exteriores que podem facilitar ou dificultar – e mesmo impedir – a realização desse processo, tais como certas patologias psicológicas e orgânicas e determinados contextos ambientais e sociais.

Abaixo, introduzimos texto e imagens publicadas por Silvia Helena Cardoso: buscamos, assim, exemplificar, de forma prática, o aspecto negativo da realidade sobre o processo de individuação aludido por Ramos em seus apontamentos.

A progressiva fuga da realidade para a fantasia está expressa nas figuras abaixo. São de Louis Wain, artista plástico europeu do início deste século. Wain, desde jovem, costumava pintar retratos de gatos para calendários, albuns, cartões-postais, etc. Aos 57 anos, sua vida e sua arte apresentavam sintomas de psicose. Passou os últimos 15 anos da vida em instituições psiquiátricas. Os retratos dos gatos que pintava, tomou uma forma ameaçadora. Reveladores de seu estado psicótico são os olhos dos gatos, que miram fixamente com hostilidade, mesmo num de seus primeiros desenhos desta fase (primeira imagem). O psicótico geralmente acha que o mundo crava nele olhares hostis. Outro sinal é a fragmentação do corpo. As imagens do corpo sofrem uma estranha transformação na psicose e quase sempre são representadas com distorção.:

 

Retratos de Gatos Pintados na Progressão da Psicose 
de um Artista Esquizofrênico

  gato1  gato2 gato3

Início da Psicose

Desenvolvimento

Estágio Final da Psicose

O gato acima foi pintado durante as primeiras fases da angústia de Louis Wain, um indivíduo com esquizofrenia. A pintura difere dos seus primeiros trabalhos não só nos olhos alarmados mas também no pelo eriçado. Wain trocou, além disso, o seu desenho de fundo paisagístico por um tratamento formal.

Neste quadro, o gato já é bem hostil, predomina o vermelho demoníaco, especialmente nos olhos – projeção do medo que Wain sentia de estar sendo tomado por espíritos malígnos. Os halos coloridos em torno do gato são, em geral, encontrados na arte psicótica.

Nos últimos estágios da esquizofrenia, os gatos de Wain são quase desenhos abstratos, total desintegração do realismo. Wain substituiu-o por modelos simétricos, obssessivos, formais, num esforço desesperado para organizar e controlar suas funções mentais em desordem.

GATOS

GATO2

Figuras fonte: http://www.cerebromente.org.br/n07/fastfacts/esquizo.htm

Processo de Individuação, portanto, não implica em individualismo(egocentrismo e egoísmo), muito pelo contrário, significa individuação, isto é, o indivíduo tornar-se consciente de si mesmo na relação com os outros, melhorando as relações intra e interpessoais.

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Veja também a ESTRUTURA DA PSIQUE de Sigmund Freud:

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REALISMO E POSITIVISMO

oswaldo 

Osvaldo Pessoa Jr.

(http://www.fflch.usp.br/df/opessoa/)

Aqui, postamos texto, na íntegra, de Oswaldo Pessoa Jr., retirado de seu livro Conceitos de FÍSICA QUÂNTICA. Tomamos a liberdade de fazer alguns grifos e apresentar o texto com algumas modificações sem importância:

“O estudo da ontologia da ciência estaria justificado mesmo se o anti-realismo se afirmasse como a concepção correta da ciência. Mesmo que tivéssemos certeza que no fundo a ciência não descreve uma realidade inobservável, ainda assim o papel heurístico do realismo continuaria valendo. Os realistas tipicamente argumentam que o realismo possui um importante papel heurístico na prática da ciência, se os cientistas não estivessem convencidos de que desbravam os segredos da natureza, a sua lide perderia o sentido. Rescher vai ainda mais longe e afirma que o realismo é mesmo uma condição necessária para a prática científica, não haveria ciência se os cientistas (e também os filósofos quando não estão filosofando) não fossem realistas. Assim, supondo que o anti-realismo vença o debate e decida a questão, ainda assim a ontologia teria um valor prático: ajudar a construir uma visão de mundo coerente baseada nas ficções da ciência”.  

Realismo em Geral

Você é um realista? Distingamos primeiramente um sentido “ontológico” (relativo às essências das coisas, ao “ser” das coisas) e um sentido “epistemológico” (relativo ao conhecimento). O realismo ontológico é a tese de que existe uma realidade lá fora que é independente de nossa mente (ou de qualquer mente), de nossa observação. A negação desta tese é chamada de idealismo, que pode assumir várias formas, conforme veremos. O realismo epistemológico afirma que é possível conhecer esta realidade, ou seja, que nossa teoria científica também se aplica para a realidade não observada.[94] Exploraremos inicialmente essas teses no nível do conhecimento individual, para depois analisarmos a forma que o realismo epistemológico assume quando consideramos o conhecimento científico – o chamado de realismo científico.

Para começar, devemos salientar que o termo “realismo” tem mudado de significado ao longo da história. Na filosofia medieval, o realismo era a tese de que os universais (“a árvore”, “a cadeira”, “o homem”) existem antes das coisas particulares, tese esta  que estava associada à filosofia de Platão. A esta posição se opunha o nominalismo, segundo o qual os universais são meros nomes, e a realidade só se refere ao particular do mundo físico atual (Guilherme de Occam, século XIV).

No século XIX o termo “realismo” surgiu principalmente nas artes como reação ao romantismo. Este último apresentava uma atitude holística, orgânica, intuitiva, idealizadora, que em ciência influenciou aNaturphilosophie (início do século: GoetheSchellingOersted). A reação realista nas artes realçava o cotidiano e o social, tendendo a ser politicamente mais progressista.

Na ciência, o realismo estava associado ao mecanicismo e ao atomismo, com uma valorização da quantificação e do método hipotético-dedutivo.[95] Ele se contrapunha ao positivismo, originado com A. Comte e defendido por E. Mach e energeticistas como W. Ostwald. Para opositivismo, qualquer especulação sobre mecanismos ocultos deve ser evitado. Só tem sentido tecer afirmações sobre o que é observável, verificável. Uma sentença “sem sentido” é aquela para a qual não há um método para verificar se ela é verdadeira ou falsa. Por exemplo, a frase “a realidade física existiria mesmo que não existisse nenhum observador” seria sem sentido. Para o realista, porém, tal frase não só tem sentido como é verdadeira.

No século XX, a questão de como fundamentar o uso da matemática na ciência levou ao “positivismo lógico” (Viena: M. SchlickR. Carnap) e “empirismo lógico” (Berlim: H. Reichenbach). Formas abrandadas dessas correntes tiveram bastante força até o início da década de 1960, na filosofia da ciência. Na década de 50, iniciou-se uma reação contra o positivismo lógico, centrando-se fogo especialmente no seu “empirismo”, tese de que as observações são bases seguras para construir a ciência (K. PopperW. Quine). Por um lado, autores “relativistas” (M. PolanyiN. R. HansonP. FeyerabendT. Kuhn) atacaram a ênfase excessiva na descrição lógica da ciência, salientando que o conhecimento tem um componente intuitivo, e que ele está sujeito às circunstâncias históricas e sociais. De outro lado, a corrente do “realismo científico” (G. MaxwellH. Putnam) foi elaborada, e tentaremos esboçá-la adiante.

Em outros campos, fora da filosofia da ciência, o “positivismo” foi também bastante atacado, tendo-se tornado até um termo depreciativo. Este sentido negativo parece ter surgido com as teorias positivistas em Ciências Humanas (inclusive na Educação), como o “behaviorismo” em Psicologia, que simplifica ao máximo a representação que se tem do ser humano, focalizando seu estudoapenas na relação entre estímulo e resposta (os dados “positivos”).[96] Tal abordagem pode ser usada para se justificar a manipulação e dominação de homens por outros homens, tendo sido bastante criticada, como por exemplo pela Escola de Frankfurt (T. AdornoJ. Habermas, etc). Salientemos então o seguinte: no presente estudo, iremos nos concentrar na discussão entre formas de realismo e anti-realismo nas Ciências Naturais, onde “positivismo” não é necessariamente um termo depreciativo.

Os Problemas do Conhecimento

Um ponto crucial para entender as diferentes formas do anti-realismo, ou o que significam os diferentes “ismos” filosóficos, é considerar o tipo de pergunta que cada um responde. Adaptaremos aqui as análises feitas pelo filósofo alemão Johannes Hessen e pelo filosófo da ciência finlandês Ilkka Niiniluoto.[97]

Consideremos primeiramente o problema ontológico da existência de uma realidade independente do sujeito ou de uma mente. Já mencionamos que o realismo ontológico afirma a existência desta realidade; a negação desta tese recairia em um “idealismo ontológico”, que é mais conhecido como idealismo subjetivista. A forma mais radical desta é o “solpsismo”, segundo o qual a realidade se resume ao conteúdo do meu pensamento: a realidade seria uma espécie de sonho em minha mente. Uma forma menos radical é a doutrina do esse est percipi” (Berkeley, séc. XVIII), segundo a qual só existe aquilo que é percebido por alguém. Berkeley termina por defender um idealismo objetivo, porque a realidade externa existiria enquanto atividade mental de Deus. Tal idealismo é consistente com o realismo ontológico. Vemos assim que o idealismo não surge apenas como negação do realismo ontológico. Umidealismo epistemológico [98] (que negaria o realismo epistemológico) defenderia a impossibilidade de se conhecer entidades independentes de qualquer sujeito cognoscente.

Podemos aceitar a existência de uma realidade exterior e colocar o problema epistemológico que Hessen chama de problema da “essencia do conhecimento”: é o objeto que determina o sujeito (realismo), ou é o sujeito que determina o objeto do conhecimento (idealismo)? O idealismo transcendental daquele que é considerado o mais importante filósofo moderno, o alemão Immanuel Kant (séc. XVIII), adota uma posição intermediária: aceitar a existência decoisas-em-si (“noumeno”), mas considera que a existência só tem acesso às coisas-para-nós, os “fenômenos”. Tais fenômenos, porém, seriam organizados pelo nosso aparelho perceptivo e cognitivo, sendo assim em parte dependentes do sujeito (isso também é defendido pelo idealismo conceitual de N. Rescher, 1973). A causalidade, por exemplo, não existiria na realidade, mas seria uma “categoria do entendimento”, uma estrutura cognitiva sem a qual a própria compreensão do mundo seria impossível.

No outro extremo, um tipo importante de realismo é o materialismo, para o qual apenas a matéria (e energia) existe ou é real: processos mentais seriam “epifenômenos” causados por processos materiais. O marxismo, uma forma de materialismo, considera que as ações humanas são determinadas pelos aspectos econômicos.

Consideremos agora um outro problema epistemológico, que é o da “possibilidade do conhecimento”: pode o sujeito apreendr o objeto, pode ele conhecer verdades a respeito do mundo? Diferentes formas de realismo afirmam que sim, enquanto que a negação desta tese se chama ceticismo. Dentre as atitudes intermediárias podemos mencionar o pragmatismo (séc. XIX: C. S. PeirceW. James), que leva em conta apenas as conseqüências práticas das idéias, e que é uma forma de relativismo. O relativismo considera que nosso conhecimento e as verdades dependem do contexto psicológico e social no qual nos encontramos.

Por fim, consideremos o problema da “origem do conhecimento”: é a razão ou é a experiência a fonte e a base do conhecimento humano? O empirismo considera que a única fonte de conhecimento é a experiência. Conhecimento sobre o que existe não pode ser obtido de maneira “a priori”. Os significados das idéias seriam redutíveis aos dados da experiência (séc. XVII-XVIII: F. BaconJ. LockeD. Hume). O sensacionismo (em inglês: “sensationalism”) ou “emprirismo radical” enfatiza que as idéias são redutíveis às sensações (sense data), e no final do séc. XIX esta posição foi defendida pelo “empirio-criticismo” de Ernst Mach. A posição de Mach também é considerada uma forma de idealismo subjetivista, devido à tese de que “o mundo consiste apenas de sensações”. Uma forma mais pragmática de emprirismo é o fisicalismo, para o qual os termos descritivos da linguagem se referem a objetos físicos (não sensações) e suas propriedades, e são definidos “operacionalmente”. Para ooperacionismo (década de 1920: P. Bridgman), todo conceito científico é sinônimo do conjunto de operações físicas associados ao processo de medi-lo.

O ponto de vista oposto ao empirismo é o racionalismo (ou melhor, intelectualismo), que defende que o critério de verdade não é sensorial mas intelectual e dedutivo (R. Descartes, séc. XVII). Verdades básicas são evidentes para a razão, e outras verdades são dedutíveis destas. A posição de Kant pode ser considerada intermediária entre o empirismo e o racionalismo.

Para finalizar, salientemos que o positivismo não envolve uma tese única, mas consiste de quatro afirmações principais [98 a]: (i)Descritivismo: só faz sentido atribuir realidade ao que for possível descrever, observar. (ii) Demarcação: teses científicas são claramente distinguidas de teses metafísicas e religiosas, por se basearem em “dados positivos” (são verificáveis). (iii) Neutralidade: o conhecimento científico deve ser separado de questões de aplicação  de valores. (iv)Unidade da ciência: todas as ciências têm um método único, baseado no empirismo e na indução.

O Realismo Científico

Agora nos concentraremos na interpretação realista de uma teoria física, que inclui três afirmações básicas: 1) Realismo ontológico: existe uma realidade física que independe do conhecimento e da percepção humana. 2) Realismo científico: As proposições de uma teoria têm “valor de verdade”, isto é, são ou verdadeiras ou falsas, de acordo com a teoria da verdade por correspondência. Assim, uma teoria física serve para “explicar” fenômenos em termos da realidade física subjacente, e não apenas para prevê-los. 3) Realidade dos termos teóricos: a teoria pode conter “termos teóricos” que se referem a entidades físicas que não são diretamente observadas.

Além dessas características, costuma-se adicionar mais três afirmações para uma interpretação realista [99]: 4) Realismo metodológico: atingir a verdade é a meta principal da ciência. 5) Realismo convergente (K. Popper): as teorias físicas se aproximam cada vez mais da verdade, sem talvez nunca atingi-la de maneira completa. 6)Inferência para a melhor explicação: a melhor explicação para o sucesso prático da ciência é a suposição de que as teorias científicas são de fato aproximadamente verdadeiras.

A negação de uma ou outra das teses expostas acima constitui formas de anti-realismo, no contexto de teorias científicas. O relativismo nega que existam verdades únicas a serem descobertas pela ciência (anarquismo epistemológico de P. Feyerabend), sendo tudo fruto de uma negociação no âmbito das comunidades científicas (T. Kuhn, nova sociologia da ciência). Esta concepção está por trás da “verdade pragmática” que se opõe à verdade por correspondência.[100]

Uma negação do realismo científico é também feita peloinstrumentalismo, que pode ser “forte” ou “fraco”. Oinstrumentalismo forte nega que as teorias científicas tenham valores de verdade, e que elas expliquem uma realidade subjacente aos dados experimentais. Teorias seriam meramente esquemas lingüísticos que permitem fazer previsões sobre observações, e que organizam estas de maneira econômica.

Já um instrumentalismo fraco não nega que sentenças teóricas (relativas a entidades não-observáveis) tenham valores de verdade, mas nega que isto tenha qualquer importância na ciência (negando a tese 4). O que seria importante seria a solução de problemas (L. Laudan) ou a adequação empírica (B. van Fraassen).

A negação da tese 3 recai no descritivismo, que está associada ao positivismo. Uma maneira de negar o realismo convergente (tese 5) é oconvencionalismo, defendido na passagem do século por H. Poincaré, segundo o qual a forma particular da teoria adotada tem diversos elementos convencionais, já que outras teorias empiricamente equivalentes são possíveis.

O Anti-Realismo na Física Quântica

O anti-realismo que está associado à Mecânica Quântica envolve pelo menos três níveis epistemológicos: i) no nível de teoria científica, oinstrumentalismo afirma que a Mecânica Quântica não passa de um instrumento para fazer previsões experimentais; ii) no nível da essência do conheciemnto, o idealismo afirma que a consciência humana tem um papel importante na determinação do estado do objeto; iii) no nível do significado ou da origem do conhecimento, o positivismo nega que faça sentido afirmar a existência de entidades não observáveis ou afirmar proposições não verificáveis.

Na discussão sobre realismo científico, tem-se declarado que “o realismo morreu, quem o matou foi a Física Quântica” (A. Fine, 1982). Não examinaremos em detalhes, aqui, a viabilidade dasinterpretações realistas da Mecânica Quântica, mas queremos apenas sublinhar que quem morreu nos anos 70 não foi o realismo em geral, mas um certo tipo que chamaremos de realismo classicista, a tese de que a realidade tem uma estrutura próxima às nossas concepções e intuições clássicas a respeito do mundo.

Relembremos três capítulos do anti-realismo na história da física quântica.

(I)  O primeiro capítulo está associado à noção decomplementaridade:  “uma realidade independente no sentido físico ordinário não pode ser atribuída nem aos fenômenos, nem aos agentes da observação” (Bohr, 1928). Defendia-se que a teoria só trata do observável: uma realidade não-observada pode até existir mas ela não é descritível pela linguagem humana. A posição de Bohr modificou-se em 1935, e há uma controvérsia sobre o grau de positivismo ou instrumentalismo da visão de Bohr.[101] Mas mesmo após esta época manteve-se o chamado “relacionismo”, segundo o qual a realidade observada é fruto da relação entre sujeito e objeto, sendo dependente das escolhas ou vontade do observador (“voluntarismo” de von Weizsäcker).

(II)   O segundo capítulo é uma forma de idealismo subjetivistaassociada a uma consciência legisladora. Ela surge da tese de que ocolapso associado a medições só é causado pela observação humana: “a transformação irreversível no estado do objeto medido” seria devida à “faculdade de introspecção” ou ao “conhecimento imanente” que o observador consciente tem de seu próprio estado (London & Bauer, 1939). Filósofos adoram explorar os paradoxostrazidos por esta posição, como no exemplo do gato de Schrödinger, mas o consenso parece ser que tal posição radical é desnecessária (apesar de consistente). A interpretação dos estados relativos de Everett resolve problemas semelhantes sem atribuir um papel legislador à consciência, mas supondo que esta possa entrar em superposições quânticas.

(III) O terceiro capítulo do anti-realismo está associado ao trabalho de John S. Bell, que mostrou que qualquer teoria realista que satisfaça a propriedade de localidade (salvo algumas exceções) é inconsistente com a Teoria Quântica. Quem morreu com este resultado não foram as teorias realistas não-locais (como a de David Bonm), mas sim boa parte do realismo local, uma variedade de realismo classicista que defende que, na realidade, os sinais sempre se propagam com uma velocidade menor ou igual à da luz.

Alguns outros exemplos de suposições classicistas que são violadas por alguma interpretação da Teoria Quântica (além da localidade) são:determinismocorpuscularismo (a matéria é composta de partículas), a tese de que o mundo existe em quatro dimensões, de que eventos presentes não afetam o passado, de queemissões de partículas ocorrem em instantes bem determinados, etc. Apesar do classicismo estar em geral associado ao realismo, notamos que o classicismo pode ser em boa parte adotado por abordagens positivistas, como é o caso da interpretação da complementaridade de Niels Bohr.

Notas

[94] Na literatura mais recente de filosofia da física de lingua inglesa, é costume fazer uma distinção entre “realismo de entidade”, que seria sinônimo de realismo ontológico, e “realismo de propriedade”, que atribui exist~encia às propriedades (autovalores associados a observáveis) mesmo antes de qualquer medição.

[95] BRUSH, S. (1980): “The Chimerical Cat: Philosophy of Quantum Mechanics in Historical Perspective”, Social Studies of Science 10, 393-447.

[96] Uma história da influência do positivism de Mach tanto na Física quanto na Psicologia é apresentada por HOLTON, G. (1993), “Ernst Mach and the Fortunes of Positivism”, in Science and Anti-Science, Harvard U. Press, Cambridge, pp. 1-55.

[97] HESSEN, J. (1999), Teoria do Conhecimento, Martins Fontes, São Paulo. Original: Erkenntnistheorie, Dümmlers, Colônia, 1926. NIINILUOTO, I. (1987). “Varieties of Realism”, in LAHTI, P. & MITTELSTAEDT, P. (orgs.), Symposium on the Foundations of Modern Physics 1987, World Scientific, Cingapura, pp459-83.

[98] MEHLBERG, H. (1980), “Philosophical Interpretations of Quantum Physics”, in Mehlberg, Time, Causality, and the Quantum Theory, vol. 2 (Boston Studies in the Philosophy of Science 19), Reidel, Dordrecht, pp. 3-74. Ver p.8.

[98 a] OLDROYD, D. (1986), The Arch of Knowledge – An Introductory Study of the History of the Philosophy and Methodology of Science, Methuen, Londres, p. 169. Este autor se baseia em KOLAKOWSKI, L. (1968) , Alienation of Reason: A History of Positivist Thought, Doubleday, Garden City (original em polonês:1966).

[99] Ver  NIINILUOTO, op. cit. (NOTA 97), P. 467. Ver também MURDOCH (1987), op. cit. (nota 86), pp. 200-7. Para mais sobre o realismo, consultar: LEPLIN, J. (org.) (1984), Scientific Realism, U. Of California Press, Berkeley; TOULMIN, S. (org.) (1970), Physical Reality, Harper & Row, Nova Iorque.

[100] Para uma excelente introdução à problemática da verdade, ver HAACK, S. (1998), Filosofias das Lógicas, Ed. Unesp, São Paulo, cap. 7; original: Philosophy of Logics, Cambridge U. Press, 1978. Em português, ver também: DA COSTA, N.C.A. (1997), O Conhecimento Científico, Discurso Editorial, São Paulo, cap. III.

[101] Dentre os que enfatizaram o realismo de Bohr estão Hooker (1972), Fose (1985), Honner (1987) e Murdoch (1987). Dentre os que enfatizam seu não-realismo, encontramos Fine (1986), Krips (1987) e faye (1991). Estas referências, uma introdução ao problema, e vários artigos sobre Bohr podem ser encontrados em: FAYE, J. & FOLSE, H.J. (orgs) (1994): Niels Bohr and Contemporary Philosophy, (Boston Studies in the Philosophy of Science 153), Kluwer, Dordrecht (Holanda).

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FISICAPSICOLOGIA

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Heisenberg, defensor genial da ortodoxia quântica, afirmava mesmo que qualquer modelo explanatório que possamos construir da realidade só pode ter a finalidade duma melhor compreensão, representando apenas uma especulação. Portanto, à luz da “interpretação de Copenhagen” (ou, da ortodoxia da mecânica quântica), da teoria dos quanta, mesmo a oposição tradicioanal entre “realismo” e “idealismo” não pode mais ser empregada e as teoria tradicionais do conhecimento fracassam. Os processos que se verificam no tempo e no espaço de nosso ambiente diário são propriamente o real e deles é feita a realidade de nossa vida concreta. “Quando se tenta, diz Heisenberg, penetrar nos pormenores dos processos atômicos que se ocultam atrás desta realidade, os contornos do mundo “objetivo-real” se dissolvem, não nas névoas de uma nova imagem obscura da realidade mas na clareza diáfana de uma matemática, que conecta o possível (e não o “factual”) por meio de suas leis”. (…) Mas constatamos que o mesmo ocorre com a realidade psicomaterial investigada aqui.

Ainda, no texto abaixo, retirado do livro A DANÇA DO UNIVERSO, autor Marcelo Gleiser (físico brasileiro, atualmente professor de física e astronomia do Dartmouth College, em New Hampshire), fica muito claro a importância da criatividade em qualquer atividade produtiva do homem. Mas nosso fascínio pela Natureza e seus mistérios, sim, é a mola mestra de tudo… Com isto em mente, nesta postagem, estabelecemos uma “visão geral” do trabalho desenvolvido aqui.

Muitos pensam que a pesquisa científica é uma atividade puramente racional, na qual o objetivismo lógico é o único mecanismo capaz de gerar conhecimento. Como resultado, os cientistas são vistos como insencíveis e limitados, um grupo de pessoas que corrompe a beleza da Natureza ao analisá-la matematicamente. Essa generalização, como a maioria das generalizações, me parece profundamente injusta, já que ela não incorpora a motivação mais importante do cientista, o seu fascínio pela Natureza e seus mistérios. Que outro motivo justificaria a dedicação de toda uma vida ao estudo dos fenômenos naturais, senão uma profunda veneração pela natureza? A ciência vai muito além da sua mera prática. Por trás das fórmulas complicadas, das tabelas de dados experimentais e da linguagem técnica, encontra-se uma pessoa tentando transcender as barreiras imediatas da vida diária, guiada por um incrível desejo de adquirir um nível mais profundo de conhecimento e de realização própria. Sob esse prisma, o processo criativo científico não é assim tão diferente do processo criativo nas artes, isto é, um veículo de autodescoberta que se manifesta ao tentarmos capturar a nossa essência e lugar no Universo.

Sobre a grandeza e a miséria do homem escreveu Blaise Pascal, sobre o brilho e  miséria das cortesãs, escreveu Honoré de Balzac; porque não escrever agora sobre a grandeza e a miséria dafisicapsicologia? É verdade que a fisicapsicologia, definida aqui como uma ciência que se propõe estudar a matéria e a psique sob um mesmo ponto de vista, é um assunto por demais polêmico; sua grandeza, ainda, é muito questionável; mas, não se pode afirmar, que ela seja tão miserável quanto o homem. Mário Schenberg, físico brasileiro de renome internacional, nos dá abaixo uma idéia da grandeza de tal  unificação (denominada, por nós, de fisicapsicologia), caso ela se realize um dia.

Heisenberg, falando em seu livro, cujo título da edição em português é Fisica e Filosofia, sobre a importante unificação da química com a física, que havia sido feita no século XX com o patrocínio da mecânica quântica, faz o seguinte questionamento: “Qual seria o próximo passo? O novo seria a unificação da física com a biologia, esta entendida num sentido amplo, englobando citologia, e todas as áreas ligadas ao homem”. E não podemos esquecer isto. É grande a lição damecânica quântica, se já não era lição na sabedoria comum, de que toda nossa ciência é uma criação humana. Por isso, talvez a coisa mais importante seja compreender melhor o homem, do que essas teorias da Grande Unificação e outras coisas nesse sentido. Sem contar que nosso interesse em conhecer o homem é maior do que conhecer as teorias da Grande Unificação. Nós estamos num momento terrível da história da Humanidade, porque vivemos uma época em que não sabemos se daqui a dez anos ela existirá ou não. Uma guerra nuclear nas condições atuais, certamente levaria à destruição de toda vida sobre a Terra.

Assim, vejo uma grande sabedoria nesta previsão de Heisenberg. Porque na biologia, penso eu, também incluiria a psicologia e outras áreas mais diretamente ligadas ao homem. Seria um progresso mais na direção do Homem do que do Cosmo. Evidentemente, esta maior compreensão do homem, poderia eventualmente modificar também radicalmente, a nossa compreensão do Cosmo. Portanto, estou inclinado a ver mais dessa maneira: os passos mais essenciais seriam descobrir algo qualitativamente diferente (não estou dizendo que não se façam progresos importantes em partículas elementares ou noutros ramos da física). (…) Mas, ao que parece, o próximo grande passo na física, ou nas ciências naturais, digamos assim, seria na direção de uma compreensão maior da Vida e do Homem. Acreditava Heisenberg que com os conceitos atuais da física, não conseguiríamos fazer esta unificação, porque nos falta algo muito essencial. O que caracteriza a Vida, é uma certa historicidade, umtempo histórico, que não é o tempo da física. O  tempo físico é mais matemático, e o tempo histórico tem outras características. Ainda, Heisenberg achava muito importante introduzir na física algo que se aproximasse do tempo histórico. Na física ou fora dela, o fato é que esta introdução seria o mais importante. (…) Eu pertenço a uma certa tradição, pois afinal fui aluno de Pauli, e sofri sua influência; assim acredito que talvez a união da física com a biologia, seja precedida da união da física com a psicologia.

Deduz-se das palavras de Schenberg que, para uma possível unificação da físicacom a psicologia, é necessário se fazer um estudo profundo dos conceitos da física, mais princisamente no que diz respeito à mecânica quântica; tal se justifica pelo fato de somente no nível mais sutil da matéria ser possível observar seu caráter psíquico. Óbvio que um estudo pormenorizado das noções utilizadas no campo dapsicologia é também imprescindível ao encaminhamento das pesquisas necessárias à realização da propalada unificação; além, claro, de um profundo conhecimentofilosófico. Afinal, é ao homem que queremos descrever, compreender,explicar e dominar.

Desde o momento em que veio à luz o livro INTERPRETAÇÃO DA NATUREZA E PSIQUE, onde Carl Jung e Wolfgan Pauli expuseram os princípios da unificação da física com a psicologia (hipótese ou teoria psicofísica), já se passaram aproximadamente 73  anos. Ano após ano se multiplica o número de partidários dateoria psicofísica de Jung e Pauli e cresce cada vez mais a sua influência. Em que essa teoria reflete fielmente a realidade e dá a conhecer as leis da evolução do universo? A físicapsicologia,  cognome dado, por nós, à teoria psicofísica de Jung e Pauli, busca respoder estas questões instituindo a hipótese do UNUS MUNDUS:  idéia esta da identidade básica de matéria e psique, no qual tudo que acontece, seja como fôr, acontece num único mundo e é parte deste.

A maioria dos pesquisadores das ciências, principalmente no presente, como é sabido de todos, procuram ficar bem distantes de qualquer assunto ligado àreligião, ao misticismo, ou a qualquer outro assunto que não seja aprovado pela comunidade científica institucionalizada: é justificável tal atitude e concordamos plenamente com tal regulamento, pois  evita vários mal entendidos e, principalmente, a proliferação de teorias absurdas. Porém, não é crime asabordagens heterodoxas. Isaac Newton já afirmava que ciência e religião são duas coisas totalmente distintas… E aqui não estamos misturando tais coisas. Esta mistura, quando ocorre, acontece simplesmente pelo sucesso que a ciência tem alcançado em todas as áreas do conhecimento, promovendo então verdadeiros milagres: daí, portanto, alguns buscarem o aval da ciência para o estabelecimento de seus planos doutrinários.

Aqui, todavia, com um pé na física e o outro na psicologia profunda, buscamos esboçar uma estrutura na qual possamos pensar a matéria e a psique através de um mesmo paradígma, de um mesmo ponto de vista. Quanto aos caminhos, sim, deveremos trilhar aqueles já bem conhecidos por todos os pesquisadores: Newton, muitas vezes, justificava seu grande sucesso por ter, ele mesmo, se erguido sobre os ombros de gigantes (Galileu, Arquimedes, Euclides, etc). Imagine, então, nós! Contudo, queremos dizer que não vemos mal algum em se tentar naturalizar o conhecimento humanístico; ainda mais quando isto possa trazer alguma vantagem para nossa sociedade.

A físicapsicologia, assim, é um estudo da Natureza com base na física quântica, a partir da hipótese psicofísica de Carl G. Jung eWolfgan Pauli. É uma forma de sincretismo teórico, que abarca, além das teorias quânticas, conteúdos de algumas escolas filosóficas.Maslow, dizia que o ser humano necessitava transcender sua psique, conectando-se a outras realidades, procurando pela verdade, de forma a entender sua existência e ajudar a si próprio: a fisicapsicologia, longe de questionar tal transcendência, se limita estudar a psique e a matéria – ambas constituindo uma mesma  realidade –  e, aplicando métodos específicos da ciência, busca conhecer as leis que regem os fenômenos psicofísicos mais profundos.

Evitando, assim, a metafísica, como método em nossos questionamentos, seguimos com os nossos estudos tentando aplicar o aforisma de Francis Bacon:Naturam renuntiando vincimuspela renúncia vencemos a natureza. Assim, por mais paradoxal que pareça, o processo para arrancar à natureza seus mistérios e pôr suas forças a nosso serviço, se realiza renunciando ao conhecimento de sua “essência”. Embora tal renúncia seja somente provisória, trata-se contudo de um acontecimento de grande significação. Pois este método paradoxal de penetrar nos segredos da natureza mais e mais profundamente, renunciando a responder às questões que sempre tinham sido propostas (pense-se nas numerosas “causas” deAristóteles), sempre de novo se mostrou frutuoso. Uma tal atitude favoreceu o conhecimento teórico e não a prática. É isto que é notável, mas facilmente comprrensível se se olhar de mais perto.

Aqui está o ponto em que a maneira especificamente matemática de pensardesempenhou seu papel. A “renúncia” tem por conseqüência uma limitação de respostas possíveis sobre a natureza. Em muitos casos esta limitação, a impossibilidade de dar diversas respostas, se deixa precisar matematicamente. Resulta daí que as possibilidades estruturais de formular matematicamente as leis da natureza são igualmente limitadas. A fórmula é sempre determinada e em casos extremos absolutamente imutável. Não é como se somente o processo, e não a causa, de um fenômeno fosse representável pelos meios matemáticos, mas que outros conhecimentos a que se renunciou podem ser conhecidos positivamentepor métodos matemáticos.

Assim, a utilização da matemática na construção do conhecimento, se caracteriza mais por dominar (por meio de fórmulas, de simetrias) os fatos constatados experimentalmente por meio dessas regras, leis, fórmulas, e não mais de explicá-los ou compreendê-los. Este novo modo de encarar se manifesta em nosso dias de forma extrema na teoria dos quanta, onde qualquer passo novo leva a fatos surpreendentes, inexplicáveis (e a fortiori, incompreensíveis), e que só foi possível dominar pela formação de conceitos novos e aparentemente paradoxais: que se pense no “dualismo” de corpúsculo e onda. O mesmo se dá também narealidade psícomaterial profunda a qual carece de total compreensão e explicação. Assim, a unificação da fisica com a psicologia proposta aqui, se dará num nível psicomaterial de difícil compreensão, impossível de explicar, incapaz de ser visualizado pela percepção humana. De tudo isto, é natural que talUNIFICAÇÃO se realize no nivel da LINGUAGEM (definida, esta, como um postiço secretado pelo cérebro humano, o qual MD Magno chama de “secundário”, cuja estrutura é a mesma do “primário” dado pela Natureza, mas se constituindo como software e não como hardware: veja vídeo abaixo), e tudo quanto faremos para interpretarmos tal realidade, seguindo o mesmo caminho das teorias científicas,  se estabelece de forma hipotética: pois,  a vida vivida, afirmada pelos fenomenologistas, não se esgota jamais na vida refletida.

O espírito da primitiva matemática grega, seguindo o método de postulados e teoremas como na Geometria dos Elementos de Euclides, dominou o pensamento matemático até à época do Renascimento. Uma nova e vigorosa fase no desenvolvimento da Matemática começou com a aparição da Álgebra no sec. XVI, e os 300 anos que se seguiram foram testemunhas de grande quantidades de importantes descobertas. O raciocínio lógico, preciso, do método dedutivo, com o uso de axiomas, definições e teoremas, esteve manifestadamente ausente durante este período. Em vez disso, os pioneiros nos séculos XVI, XVII e XVIII recorriam a uma mistura de raciocínio dedutivo combinado com intuição, mera conjectura emisticismo, e não surpreenderá que se tenha visto mais tarde que alguns dos seusreultados eram incorretos. Contudo, um número surpreendentemente grande de importantes descobertas ocorreram neste período e uma grande parte deste trabalho sobreviveu à prova da História – um prêmio à destreza e engenho daqueles cientistas.

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RELATIVIDADE DOS CONCEITOS.  Quando os meus olhos te vêem, diz Seletinof a um amigo, somos quatro: primeiro eu, depois tu; ainda, eu em tu e, por fim, tu em mim.

Poderíamos muito bem pensar que as pesquisas no campo da físicapsicologiaencontram-se hoje aproximadamente na mesma situação da matemática após a descoberta da Álgebra no século XVI. Entretanto, não é bem a realidade, parece mesmo que na situação atual o estudo no campo da unificação da física com a psicologia mais se assemelha ao misticismo. Isto dado pela grande dificuldade da matematização dos fatos ou fenômenos psicofísicos profundos.

Já no ano de 1500, Leonardo da Vinci escrevia que em cada disciplina há tanta ciência verdadeira quanto houver nela matemática: a física moderna transformou-se em matemática… a fisicapsicologia também almeja tornar-se matemática: o pitagorismo presente em toda a matemática e a física, constitui a relação entre as coisas e os números, definindo nas coisas uma estrutura interna, a qual faz coincidirem as leis que regem as coisas com as leis que presidem os números; os modelos que tanto ajudam os matemáticos e os físicos são abstrações do real, com uma certa idealização – o que torna possível uma interpretação da natureza pelo homem.

Não obstante, seguindo Bacon, à física importa mais o fenômeno, saber o que é a coisa em si é secundário, e até impossível. O espaço, então, exemplo de um fenômeno do mundo, édúplice:em primeiro lugar, uma realidade, isto é, algo que existe fora do nosso cérebro, no mundo exterior; e, em segundo lugar, uma representação que nós formamos dessa realidade dentro de nosso cérebro. Exteriormente ao cérebro, então, a realidade é qualquer coisa de substancial. As representações que dessa realidade nós criamos, são produtos do cérebro humano e mudam de homem para homem e de geração para geração. (Aqui, tanto o mundo da materia quanto o mundo da psique são “externos” ao cérebro, portanto, substanciais).

Observemos agora um gato que se encontra no canto da minhaescrivaninha. O que é um gato toda gente julga sabê-lo. Na verdade, ninguém o sabe.  Perguntemos às pessoas o que é um gato e logo apreendemos o que qualquer indivíduo imagina ser um gato, mas ninguém nos pode dizer o que é um gato. Das coisas, o homem não sabe o que elas são, porém apenas o que a respeito delas ele pensa, e, segundo uma regra psicológica que se poderia designar por autoconsciência recíproca, crêem, os homens, tanto melhor conhecer uma coisa, quanto menos dela sabem. A criança exclama, rindo: não saberei eu o que é um gato?! Mas o filósofosabe que está diante de um problema insolúvel. É possível, num segundo, perfurar o gato com uma agulha; mas nem em quarenta anos de pesquisa diária, será possível penetrar um milímetro sequer naalma desta criatura que para todos os tempos continuará a ser umaEsfinge no canto da nossa escrivaninha.

Só quem bem compreende a natureza da ciência, poderá com proveito e prazer, e sem perplexidades, aplicar-se aos estudos científicos. Ciência não é coleção de conhecimentos nem busca da verdade, mas sim formação de conceitos. A física não contafatos, pois os seus termos: massa, energia, velocidade, não são realidades, e sim os conceitos fundamentais da física, como, aliás, muito bem se diz, mas   que   freqüentemente   nos   escapa   durante   a  leitura.  Os conceitos,  então, são instrumentos do pensamento, artificialmente construídos, tais, como as chaves de parafusos, são instrumentos que servem para abrir um motor, o qual nada tem a ver com chaves de parafusos; são escadas, pelas quais subimos a  uma casa eternamente fechada.

Nós, homens de 2008, denominamos determinado estado de matéria, a alteração deste estado de movimento, certa relação entre dois estados gravitação. Aristóteles não conhecia o conceito de atração e não teria podido discutir com Newton. Newton, por sua vez, não poderia intervir num atual congresso de físicos, pois os conceitos de campo, de quantum,  de salto eletrônico, não existiam para ele.Goethe e Shakespeare, diante de um jornal moderno, se sentiriam quase analfabetos. Progresso é aquisição de novos conceitos. Mas o significado dos conceitos antigos também muda. Mãe, dá-me o Sol!… Que é o Sol? Para os gregos representava o ígneo carro em que Hélio, com seus cavalos, andava por sobre a Terra. Para o homem da época gótica, era o olho de Deus. Depois Galileu o identificou com uma esfera de fogo. Nós pensamos hoje o que há cem anos ninguém poderia pensar, e nenhum de nós pode formar a idéia daquilo que os homens imaginarão daqui a cem anos quando pronunciarem a palavra Sol. Será algo muito diverso do que pensava o Osvaldo de Ibsen quando dizia no início de sua alienação mental:Mãe, dá-me o Sol.

O espaço, como qualquer fenômeno do mundo, é dúplice:em primeiro lugar, uma realidade, isto é, algo que existe fora do nosso cérebro, no mundo exterior; e, em segundo lugar, uma representação que nós formamos dessa realidade dentro de nosso cérebro.

Porém, o conceito de espaço é o mais difícil de todos. De gato ou Sol, podemos, pelo menos, ter uma idéia, errada ou certa. O espaço, todavia, não podemos imaginá-lo; pois só é possível compreender conceitualmente aquilo de que podemos pensar o contrário. Assim podemos dizer dia, porque a noite existe, vida, porque conhecemos a morte, silêncio, porque há ruído. Se não houvesse ruído, não haveria o conceito de silêncio. Não é possível representarmos o espaço, porque não podemos imaginar o contrário do espaço, o não-espaço. Estamos, como diz Einstein, tão profundamente mergulhados no espaço, como um peixe nas águas do oceano. Como este jamais chegará ao conhecimento de que se encontra no oceano, assim o homem jamais saberá o que seja o espaço. Teria que vir um pescador que nos tirasse para fora dele. Virá um. Mas, então, já será demasiado tarde…

Voltando a falar em matemática… temos que a física, para matematizar osfenômenos da natureza, estabelece primeiramente a limitação do problema em questão, pois, somente assim é possível precisá-lo numericamente; mas é com o auxílio da objetividade no tratamento dos dados analisados que se realiza tal limitação… O significado dos acontecimentos em nossa vida é obtido através da ligação de informações (impressões sensoriais) obtidas através de nossas experiênias: não obstante uma simples impressão sensorial seja completamentesubjetiva e não comunicável, o mesmo não se dando quando temos duas impressões no mesmo orgão sensitivo. Constatamos a existência de muitas tonalidades do azul; por exemplo, pálido, escuro, avermelhado e esverdeado. Se duas dessas tonalidades são observadas por duas pessoas, é quase certo que haverá acordo entre elas sobre se as tonalidades são as mesmas ou distintas. Assim, podemos classificar as impressões sensoriais como pertencentes à classe das experiências objetivas, desde que consideradas aos pares; ou seja, aobjetividade nasce das impressóes sensoriais dadas aos pares. Por isso mesmo a física enveredou pelo caminho que leva ao envolvimento de pares de impressões sensorias, ao invés de impressões isoladas, propiciando o uso dalinguagem matemática que está sujeita às mesmas limitações.

Dessa forma, a pesquisa objetiva sobre a natureza do universo é possível, fica garantida, mas o resultado é uma espécie de mundo sombrio destituído de qualquer cor intrínseca. Como, entretanto, cada observação se baseia em percepções sensoriais, a execução desse programa poderia criar um vazio intolerável entre os observadores experimentais e os teóricos. Assim, sempre  se esforça o máximo para não haver perda da conexão com os dados observacionais. Foi compravado que isso é possível até certo ponto de uma forma pictórica bem convincente por meio de linhas de campo etc. Também no domínio dos átomos não se necessita introduzir sempre figuras novas e não-familiares, mas se pode servir das usuais; é verdade que necessita-se de duas diferentes, uma ondulatória e outra com caráter de partícula. A única coisa necessária é restringir sua aplicabilidade e tomar cuidado para que de seu uso não resultem contradições lógicas. Isso é possível e justamente constitui um dos mais belos episódios da dísica Física Moderna, pelo qual se deve muito a Niels Bohr. Entretanto, à expressão de Hertz,imagem, Max Born prefere expressões como ajudas visuais ou ajudas visuais parciais. Enfim, todas as percepções sensoriais são imagens, e o que realmente está por trás do fenômeno (que Kant chama a coisa em si) permanece obscuro.

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Perdidos no Espaço “Interpsicogalático”

Ainda, a matematização, porém, impõe a adoção de pressupostos adaptáveis aos axiomas da matemática, que em geral não se conformam ao mundo real. Debate-se, portanto, até que ponto o objeto da psicologia é naturalmente quantitativo, para se utilizar aqui uma concepção histórica que é bastante retomada em defesa do emprego de modelos matemáticos. Ou ainda, como imprimir aos símbolos e fórmulas matemáticas uma significância psíquica? (…) Necessário se faz esclarecer, agora, o entendimento – uma vez que ainda não há uma padronização em sua interpretação – de alguns termos freqüentemente envoltos em alguma dubiedade: “quantificação”, “matematização”  e “formalização”.  Entende-se “quantificação” como o uso das matemáticas na investigação empírica e quantitativa dos fenômenos psíquicos, assim como na ilustração de proposições. O termo “matematização”  diz respeito ao emprego do raciocínio matemático na formulação da teoria pura. Finalmente, por  “formalização”, seguindo Katzner, compreende-se o desenvolvimento e análise das relações entre as variáveis de um modelo, a qual pode não estar na forma matemática. A  “formalização”  é considerada a fonte dos problemas mais complexos. (Fazemos neste ponto uma referência ao texto de Iara Vigo de Lima sobre a matematização da economia estabelecendo adaptações ao nosso estudo: é de se notar que na economia o problema da matematização ainda envolve muita polêmica).

Igualmente à ciência Física que elabora seus conceitos utilizando dialeticamente os pontos de vista do empirismo e do racionalismo, aqui ao longo de nossa caminhada procuramos agir sempre, também, de forma dialética. Portanto, visando a harmonização de idéias contraditórias, perseguimos sempre uma nova“realidade” na qual os pontos de vista problemáticos sejam integrados numa visão mais satisfatória à novas questões. Nesse sentido, visitamos diversos pontos de vista do conhecimento científico e filosófico procurando tornar nossa visão mais ampla e mais acurada: nosso trabalho consiste mesmo de vários textos, de bibliografia variada, alinhavados por nós no intuito de conferir-lhes uma unidade na qual seja possível fazer uma introdução ao estudo da fisicapsicologia. O mais importante, então, não é mostrarmos textos inéditos de nossa autoria; mas, acima de tudo, tornar o mais claro possível os nossos  posicionamentos. Dessa forma, a maior parte de nossas publicações são na verdade vários instantâneos sobre oHomem e o Cosmo (textos, pensamentos e vídeos), nos quais tentamos mostrar a natureza humana, e, claro, vislumbrar os mistérios do Universo em que vivemos.

Certos de que trilharmos um caminho bastante difícil, queremos, desde já, contar sempre  com a compreensão e camaradagem de nossos amigos leitores: “Tentar estabelecer relações entre física e psicologia(ou entre física e arte, ou física e religião) é uma tarefa difícil. Qualquer autor que se aventure a buscar a interface entre dois campos tão diferentes corre graves riscos. Em qualquer estudo que queira comparar a física à psicologia pressupõe-se que o autor conheça e compreenda igualmente bem os dois assuntos. No entanto, verifica-se que esse pressuposto muitas vezes não é satisfeito. Encontramos obras escritas por médicos e psicólogos, tentando encontrar relações entre seus campos de estudo e a física quântica (por exemplo), nas quais se percebe claramente que os autores não compreendem os conceitos básicos da física moderna. Inversamente, há estudos escritos por físicos, tentando relacionar sua disciplina a outras áreas – como a psicologia ou a filosofia – e que pecam igualmente pelo desconhecimento quase total do outro termo de comparação. É compreensível que isso ocorra. Afinal, não é fácil adquirir competência adequada em um campo de estudos – e é mais difícil ainda obtê-la em dois. (…) Evidentemente, o resultado de tentativas de aproximação entre as duas áreas por parte de quem não lida adequadamente com ambas costuma ser catastrófico. Por outro lado, um casamento adequado entre duas disciplinas distintas pode levar a resultados novos e excitantes, e o prêmio pode compensar o risco” (R. A. Martins,Grupo de História e Teoria da Ciência, Instituto de Física “Gleb Wataghin”, Universidade Estadual de Campinas, Unicamp).

Enfim, fortes e sempre preparados para a seara, aqui procuramos separar o joio do trigo. Bem sabemos, entretanto, que “o mundo não é o que penso, mas o que vivo, estou aberto ao mundo, comunico-me indubitavelmente com ele, mas não o possuo, ele é inesgotável”. Portanto, com esse pensamento deMerleau-Ponty em mente, com as mangas arregaçadas e os pés no chão nos encaminhamos, humildimente, dia-a-dia ao trigal visando sempre colher os melhores “frutos”.

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Consciência e Acto

 

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Como diz Bohm, é possível acessar diretamente os níveis implícitos da realidade que normalmente são considerados inconscientes. Ou seja, “o inconsciente pode se tornar consciente de duas formas: indiretamente, através de inferência de conteúdos explícitos, ou diretamente através de uma ampliação do alcance da consciência para os níveis mais implícitos da realidade”. Assim, nosso diagrama nasceu mais da ampliação de nossa consciência para os níveis mais implícitos da realidade do que indiretamente através de inferências de conteúdos explícitos. Portanto, por hora, fazemos algumas explanações superficiais sobre nosso diagrama: merecendo, sim, mais tarde um tratamento mais elaborado, mais profundo.

Segundo Fritz Kahn, a ciência, como seu nome diz, limita-se àquilo que é possível conhecer. Ou seja, sabendo que a natureza das coisas é incognoscível, o cientista, restringindo-se ao estudo dos fenômenos e ao uso do método científico, limita-se assim a descrevê-las; porém, procura (e essa é sua finalidade) a forma mais breve e mais clara. Aqui, também, antes de tudo, tentamos mapear ou descrever, da forma a mais breve possível, uma maneira de se pensar a realidade psicomaterial basada em algumas teorias físicas e em alguns sistemas filosóficos. 

Em síntese, nosso diagrama, tomando a existência primária da CONSCIÊNCIA, estabelece simetricamente a esta o realismo/metafísica de Platão e o realismo/metafísica de Aristóteles.

Entretanto, confirmando os conceitos de POTÊNCIA de Aristóteles, designa como existindo potencialmente o MUNDO MATEMÁTICO DE PLATÃO. Agora, a partir da ação da CONSCIÊNCIA (ação exercida segundo o conceito de ACTO de Aristóteles), sobre a realidade platônica, surgem os mundos: MUNDO IDEAL e o MUNDO MATERIAL.

Com o acesso aos FENÔMENOS (abstrato/concreto) mergulhamos no MUNDO FENOMÊNICO: segundo o EMPIRISMO, com os sentidos acessamos os fenômenos concretos ou materiais e, de acordo com o RACIONALISMO, com a razão acessamos os fenômenos abstratos ou ideais.

Com o uso da INTUIÇÃO, então, é possível conhecer a coisa-em-si: na metafísica de Platão temos  a “idéia-em-si”, e, na metafísica de Aristóteles, a “matéria-em-si”.

Podemos considerar o MUNDO MATEMÁTICO DE PLATÃO como o SER de Parmênides e o MUNDO FENOMÊNICO como o DEVIR de Heráclito. Aqui, ainda, o MUNDO MATEMÁTICO DE PLATÃO corresponde ao UNUS MUNDUS da psicologia profunda de Carl Jung: sendo o MUNDO IDEAL (DAS IDÉIAS) equivalente ao MUNDO DA PSIQUE: as idéias representariam os arquétipos.

A CONSCIÊNCIA é representada associada ao símbolo do TAO (o devir de Heráclito, onde tudo está em eterna mudança, em eterno movimento), o qual se origina, entretanto, da ação da consciência sobre o MUNDO MATEMÁTICO DE PLATÃO: como o ATO de Aristóteles, é a CONSCIÊNCIA – seja através da intuição, seja através da razão ou dos sentidos – que faz colapsar as ondas de probabilidade do MUNDO MATEMÁTICO DE PLATÃO (Realidade Potencial: SER de Parmênides), estabelecendo a EXISTÊNCIA (Realidade Factual: mundo fenomênico ou o VIR A SER de Heráclito). Ou seja, faz transmutar a REALIDADE POTENCIAL em REALIDADE FACTUAL. Aqui a consciência está representada pelo símbolo do TAO: Bohr encontrou na filosofia chinesa do yin-yang uma expressão antiga de sua concepção filosófica, tanto que colocou o tradicional símbolo do yin-yang no centro do brasão que desenhou quando foi agraciado com a Ordem do Elefante da Dinamarca. O lema do brasão é “contraria sunt complementa” (contrários são complementares).

Marcelo Gleiser nos relata em seu livro A DANÇA DO UNIVERSO que nossa compreensão das coisas é polarisada e que em geral esta se estabelece a partir dos contrários: quente/frio, claro/escuro, matéria/espírito, etc.. Assim, entender o que seja o espaço, afirmava Einstein, é inconcebível pois não sabemos o que seja o não-espaço. Engano portanto acreditar que a consciência – base fundamental da criação – esteja limitada apenas entre dois pólos, polarizada, igualmente nossa concepção das coisas. Quando na Matemática, através da pesquisa, são encontrados verdadeiros monstros lógicos/matemáticos, revelando mundos paradoxais, atestamos igualmente que a CONSCIÊNCIA se revela em vários níveis, multipolar, multidimensional, para além de nossa compreensão, longe do dualismo cartesiano, muito embora a representemos aqui de forma simples sendo ladeada pelos mundos material e ideal.

Mas, o REALISMO ESTRUTURAL epistemológico afirma que o nosso conhecimento do mundo, representado por nossas melhores teorias científicas, é estrutural; a ciência não pode nos revelar nada que esteja além da estrutura – ou seja, nada das ‘qualidades’, da ‘natureza intrínseca’ ou da ‘coisa em si’ dos objetos pode ser conhecido. O REALISMO ESTRUTURAL ontológico irá dizer que tudo o que podemos conhecer do mundo são estruturas porque só existem estruturas, e nada mais; essa versão sustenta uma ontologia de estruturas, e não de objetos. Ou seja, temos a possibilidade de uma METAFÍSICA de estruturas.

Podemos então concluir que através do estudo de observáveis (fenômenos) a ciência constrói conceitos os quais se organizam em ESTRUTURAS bem determinadas. Daí, sem ter acesso à “a coisa em si”, tais ESTRUTURAS, estabelecendo os modelos científicos, nos permitem pensar o Universo!!!

Essa linha de pensamento, então, está de acordo com as conclusões de Heisenberg: defensor genial da ortodoxia quântica, afirmava que qualquer modelo explanatório que possamos construir da realidade só pode ter a finalidade duma melhor compreensão, representando apenas uma especulação. Portanto, à luz da “interpretação de Copenhagen” (ou, da ortodoxia da mecânica quântica), da teoria dos quanta, mesmo a oposição tradicioanal entre “REALISMO” e “IDEALISMO” não pode mais ser empregada e as teoria tradicionais do conhecimento fracassam. Os processos que se verificam no tempo e no espaço de nosso ambiente diário são propriamente o real e deles é feita a realidade de nossa vida concreta. “Quando se tenta, diz Heisenberg, penetrar nos pormenores dos processos atômicos que se ocultam atrás desta realidade, os contornos do mundo “objetivo-real” se dissolvem, não nas névoas de uma nova imagem obscura da realidade mas na clareza diáfana de uma matemática, que conecta o possível (e não o “factual”) por meio de suas leis”. O mesmo se dá na psicologia profunda de Jung, pois, “se o psicólogo, nas suas investigações através das camadas mais profundas da psique, encontra a matéria, por sua vez o físico, nas suas pesquisas mais finas sobre a matéria, encontra a psique”.

Certamente pode-se afirmar que o MUNDO MATEMÁTICO DE PLATÃO representa esse novo REALISMO ESTRUTURAL pois este se constitui de todo tipo de estrutura (potencialmente todas as possibilidades). Ainda, representaria o novo REALISMO MATEMÁTICO proposto por Bachelard: a tal “clareza diáfana” de que nos fala Heisenberg: este,  aperfeiçoando o chamado cálculo matricial sobre bases estritamente probabilísticas, obteve a especial circunstância de que os fenômenos da matéria poderiam reduzir-se ao mero cálculo matemático. Pela primeira vez a imagem (representação pictórica) é varrida por completo da física. Com o cálculo de matrizes a matéria já não é partícula nem onda nem nenhuma outra coisa susceptível de descrição, mas aquilo que cumpre um puro esquema matemático regido pelos princípios da simetria.

Enfim, estabelecendo a semântica e a ontologia dos fenômenos abstratos/concretos, procuramos abrir uma trilha, pequena que seja, no sentido de contribuir à teorização da REALIDADE PSICO/MATERIAL.

BIBLIOGRAFIA

 

POSTAGEM EM CONSTRUÇÃO….

Sobre seletynof

Escola (ensino médio):Colégio Marista Cearense;Faculdade/Universidade: Universidade Federal do Ceará;Curso:Física; Diploma:Pós-Graduação em Física;Profissão:físico e professor; Setor:Científico.

Publicado em 19 de agosto de 2014, em FISICAPSICOLOGIA e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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