CONSCIÊNCIA E ACTO

ato

Por Rogério Fonteles Castro

Pós-graduação em Física pela Universidade Federal do Ceará

O grande paradoxo que gira em torno do conhecimento das coisas aponta para a sedução consciente que temos de tentar mapear, ou simplesmente, apreender o inapreensível: o nosso diagrama é um reflexo disto. Segundoi Fritz Kahn, a ciência, como seu nome diz, limita-se àquilo que é possível conhecer. Ou seja, sabendo que a natureza das coisas é incognoscível, o cientista, restringindo-se ao estudo dos fenômenos e ao uso do método científico, limita-se assim a descrevê-las; porém, procura (e essa é sua finalidade) a forma mais breve e mais clara. Aqui, também, antes de tudo, tentamos mapear ou descrever, da forma a mais breve possível, uma maneira de se pensar a realidade psicomaterial basada em algumas teorias físicas e em alguns sistemas filosóficos. 

Em síntese, nosso diagrama, tomando a existência primária da CONSCIÊNCIA, estabelece simetricamente a esta o realismo/metafísica de Platão e o realismo/metafísica de Aristóteles. Entretanto, confirmando os conceitos de POTÊNCIA de Aristóteles, designa como existindo potencialmente o MUNDO MATEMÁTICO DE PLATÃO. Agora, a partir da ação da CONSCIÊNCIA (ação exercida segundo o conceito de ACTO de Aristóteles), sobre a realidade platônica, surgem os mundos: MUNDO IDEAL e o MUNDO MATERIAL.

Com o acesso aos FENÔMENOS (abstrato/concreto) mergulhamos no MUNDO FENOMÊNICO: segundo o EMPIRISMO, com os sentidos acessamos os fenômenos concretos ou materiais e, de acordo com o RACIONALISMO, com a razão acessamos os fenômenos abstratos ou ideais.

Com o uso da INTUIÇÃO, então, é possível conhecer a coisa-em-si: na metafísica de Platão temos  a “idéia-em-si”, e, na metafísica de Aristóteles, a “matéria-em-si”.

Podemos considerar o MUNDO MATEMÁTICO DE PLATÃO como o SER de Parmênides e o MUNDO FENOMÊNICO como o DEVIR de Heráclito. Aqui, ainda, o MUNDO MATEMÁTICO DE PLATÃO corresponde ao UNUS MUNDUS da psicologia profunda de Carl Jung: sendo o MUNDO IDEAL (DAS IDÉIAS) equivalente ao MUNDO DA PSIQUE: as idéias representariam os arquétipos.

A CONSCIÊNCIA é representada associada ao símbolo do TAO (o devir de Heráclito, onde tudo está em eterna mudança, em eterno movimento), o qual se origina, entretanto, da ação da consciência sobre o MUNDO MATEMÁTICO DE PLATÃO: como o ATO de Aristóteles, é a CONSCIÊNCIA – seja através da intuição, seja através da razão ou dos sentidos – que faz colapsar as ondas de probabilidade do MUNDO MATEMÁTICO DE PLATÃO (Realidade Potencial: SER de Parmênides), estabelecendo a EXISTÊNCIA (Realidade Factual: mundo fenomênico ou o VIR A SER de Heráclito). Ou seja, faz transmutar a REALIDADE POTENCIAL em REALIDADE FACTUAL. Aqui a consciência está representada pelo símbolo do TAO: Bohr encontrou na filosofia chinesa do yin-yang uma expressão antiga de sua concepção filosófica, tanto que colocou o tradicional símbolo do yin-yang no centro do brasão que desenhou quando foi agraciado com a Ordem do Elefante da Dinamarca. O lema do brasão é “contraria sunt complementa” (contrários são complementares).

Marcelo Gleiser nos relata em seu livro A DANÇA DO UNIVERSO que nossa compreensão das coisas é polarisada e que em geral esta se estabelece a partir dos contrários: quente/frio, claro/escuro, matéria/espírito, etc.. Assim, entender o que seja o espaço, afirmava Einstein, é inconcebível pois não sabemos o que seja o não-espaço. Engano portanto acreditar que a consciência – base fundamental da criação – esteja limitada apenas entre dois pólos, polarizada, igualmente nossa concepção das coisas. Quando na Matemática, através da pesquisa, são encontrados verdadeiros monstros lógicos/matemáticos, revelando mundos paradoxais, atestamos igualmente que a CONSCIÊNCIA se revela em vários níveis, multipolar, multidimensional, para além de nossa compreensão, longe do dualismo cartesiano, muito embora a representemos aqui de forma simples sendo ladeada pelos mundos material e ideal.

Mas, o REALISMO ESTRUTURAL epistemológico afirma que o nosso conhecimento do mundo, representado por nossas melhores teorias científicas, é estrutural; a ciência não pode nos revelar nada que esteja além da estrutura – ou seja, nada das ‘qualidades’, da ‘natureza intrínseca’ ou da ‘coisa em si’ dos objetos pode ser conhecido. O REALISMO ESTRUTURAL ontológico irá dizer que tudo o que podemos conhecer do mundo são estruturas porque só existem estruturas, e nada mais; essa versão sustenta uma ontologia de estruturas, e não de objetos. Ou seja, temos a possibilidade de uma METAFÍSICA de estruturas.

Podemos então concluir que através do estudo de observáveis (fenômenos) a ciência constrói conceitos os quais se organizam em ESTRUTURAS bem determinadas. Daí, sem ter acesso à “a coisa em si”, tais ESTRUTURAS, estabelecendo os modelos científicos, nos permitem pensar o Universo!!!

Essa linha de pensamento, então, está de acordo com as conclusões de Heisenberg: defensor genial da ortodoxia quântica, afirmava que qualquer modelo explanatório que possamos construir da realidade só pode ter a finalidade duma melhor compreensão, representando apenas uma especulação. Portanto, à luz da “interpretação de Copenhagen” (ou, da ortodoxia da mecânica quântica), da teoria dos quanta, mesmo a oposição tradicioanal entre “REALISMO” e “IDEALISMO” não pode mais ser empregada e as teoria tradicionais do conhecimento fracassam. Os processos que se verificam no tempo e no espaço de nosso ambiente diário são propriamente o real e deles é feita a realidade de nossa vida concreta. “Quando se tenta, diz Heisenberg, penetrar nos pormenores dos processos atômicos que se ocultam atrás desta realidade, os contornos do mundo “objetivo-real” se dissolvem, não nas névoas de uma nova imagem obscura da realidade mas na clareza diáfana de uma matemática, que conecta o possível (e não o “factual”) por meio de suas leis”. O mesmo se dá na psicologia profunda de Jung, pois, “se o psicólogo, nas suas investigações através das camadas mais profundas da psique, encontra a matéria, por sua vez o físico, nas suas pesquisas mais finas sobre a matéria, encontra a psique”.

Certamente pode-se afirmar que o MUNDO MATEMÁTICO DE PLATÃO representa esse novo REALISMO ESTRUTURAL pois este se constitui de todo tipo de estrutura (potencialmente todas as possibilidades). Ainda, representaria o novo REALISMO MATEMÁTICO proposto por Bachelard: a tal “clareza diáfana” de que nos fala Heisenberg: este,  aperfeiçoando o chamado cálculo matricial sobre bases estritamente probabilísticas, obteve a especial circunstância de que os fenômenos da matéria poderiam reduzir-se ao mero cálculo matemático. Pela primeira vez a imagem (representação pictórica) é varrida por completo da física. Com o cálculo de matrizes a matéria já não é partícula nem onda nem nenhuma outra coisa susceptível de descrição, mas aquilo que cumpre um puro esquema matemático regido pelos princípios da simetria.

Enfim, estabelecendo a semântica e a ontologia dos fenômenos abstratos/concretos, procuramos abrir uma trilha, pequena que seja, no sentido de contribuir ao questionamento da teorização da REALIDADE PSICO/MATERIAL.

 

Sobre seletynof

Escola (ensino médio):Colégio Marista Cearense;Faculdade/Universidade: Universidade Federal do Ceará;Curso:Física; Diploma:Pós-Graduação em Física;Profissão:físico e professor; Setor:Científico.

Publicado em 10 de agosto de 2014, em FISICAPSICOLOGIA. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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