ASPECTOS FILOSÓFICOS DO VIRTUAL E AS OBRAS SIMBÓLICAS NO CIBERESPAÇO 2

      

3. O Virtual e a Organização do Conhecimento no Ciberespaço

 

3.1 Os Elementos da Doxa e o Paradoxo do Sentido


De acordo com Monteiro (2002), o virtual também serve como base funcional ou operacional para dois aspectos (filosóficos) da escritura hipertextual que explicam, por sua vez, a organização virtual do conhecimento no ciberespaço: o paradoxo do sentido e o rizoma.

Para entender o paradoxo do sentido há a necessidade de saber que o mesmo tem como oposição a doxa, ou seja: bom senso e senso comum que devem ser explicados anteriormente, pois os mesmos estão constantes na organização clássica do conhecimento.  Assim, Deleuze, em sua obra “Lógica do Sentido” (1998) demonstra criticamente como o “bom senso” enquanto sentido único, e o “senso comum” como designação de identidades fixas, levam a identificar o sentido com a significação.

Esses dois aspectos da doxa, são assim explicados:  O bom senso é o sentido único, exprime a existência de uma ordem de acordo com a qual é preciso escolher uma direção e se fixar nela.  Então, o bom senso tende a caminhar sempre do singular ao regular, por isso mesmo o bom senso é, em essência, repartidor: de um lado e de outro, nunca em duas direções ao mesmo tempo.

Essa teoria do paradoxo do sentido, Deleuze a fez baseando-se em Alice, da história de Lewis Carroll.  O “País da Maravilhas” tem sempre uma dupla direção, como também ela é (Alice)  aquela que sempre perde a identidade, a sua, a das coisas, e a do mundo [7].

Exemplificando melhor a dupla direção, citamos Deleuze (1998, p.1) “quando digo ‘Alice cresce’, quero dizer que ela se torna maior que era. “Mas por isso mesmo ela também se torna menor do que é agora.  “Sem dúvida não é ao mesmo tempo que ela é maior ou menor. “Ela é maior agora e era menor antes.” Mas o fato de crescer, também a torna capaz de ficar menor, isto é, Alice não cresce sem a possibilidade de ficar menor, e inversamente.

A repartição implicada pelo bom senso defini-se precisamente como distribuição fixa ou sedentária. O bom senso é agrícola, pois visa à instalação de cercados, propriedades e classes.  Assim sendo, o bom senso desempenha papel capital na determinação da significação. Mas não desempenha nenhum na doação de sentido, porque o “bom senso vem sempre em segundo lugar, porque a distribuição sedentária que ele opera pressupõe uma outra distribuição, como o problema dos cercados supõe um espaço primeiro livre, aberto, ilimitado, flanco de colina ou encosta.”  (DELEUZE, 1998, p.79) [8].

O bom senso, além de determinar uma direção, isto é, o sentido único, ele determina antes de tudo o princípio de um sentido único geral, assim que, esse princípio faz com que escolhamos uma direção em preferência de outra.

Mas, escolher o outro sentido, não se trata de escapar do bom senso, pois o outro sentido seria ainda um senso único, uma vez que o paradoxo do sentido toma sempre os dois sentidos ao mesmo tempo, as duas direções ao mesmo tempo.

O paradoxo de  sentido, está em ir às duas direções ao mesmo tempo e tornar impossível uma identificação, colocando a ênfase ora num, ora noutro dos efeitos.  É  o que se irá definir como duplo  sentido, onde na verdade é a ruptura com a ecologia cognitiva da escrita no tratamento da informação.

Já o senso (sentido) comum não se diz respeito de uma direção, mas de um órgão, uma função, uma faculdade de identificação, que relaciona uma diversidade qualquer à forma do “mesmo”.  Isto quer dizer que o senso comum é a instância capaz de referir o diverso à forma de identidade de um sujeito, à forma de permanência de um objeto ou de um mundo. Assim, a linguagem opera por determinações de significação: manifesta pessoas e relaciona nomes, designa objetos, classes, propriedades, significados, segundo uma ordem fixa.

Dessa forma, a linguagem parece impossível fora do sujeito que se exprime ou se manifesta nela e ainda a linguagem não parece possível fora de tais identidades que designa. Entretanto, tais identidades levam sempre à significação nas proposições, porque a doação de sentido, segundo Deleuze (1998), precede todo bom senso e senso comum: representa os dois sentidos (as duas direções são possíveis)  ao mesmo tempo, o devir-louco, e o nome perdido (o não senso da identidade perdida, irreconhecível): eis o paradoxo do sentido.

Assim, o bom senso é a afirmação de que todas as coisas há um senso único, e por isso tem papel importante na determinação da significação.  Já o senso comum é designado por identidades fixas, isto é, a compreensão do mundo a partir de unidades estabilizadas do sentido.  Resumidamente, teríamos as IDENTIDADES FIXAS (bom senso) DO SENTIDO ÚNICO (senso comum), que no tratamento da informação transformou-se na REFERÊNCIA FIXA DO CONHECIMENTO, classificado, catalogado, etiquetado e armazenado, conforme nossa análise., no Quadro 03:

REFERÊNCIA FIXA

SENTIDO ÚNICO

IDENTIDADE ÚNICA

UNIVERSALIDADE

CLASSIFICAÇÃO
(conteúdo)

Reprodução do modelo hierárquico das classes, das estruturas da linguagem, da raiz como imagem da  árvore-mundo . Reprodução das relações ontológicas do conhecimento. Criação de  um sistema de classes fixas de assuntos, indicando que há um só sentido, uma  só classe a  ser adotada  para  o assunto.

A identidade do assunto, dos referentes ontológicos, baseia-se  na  unidade estabilizada  do
Conhecimento.

A  universalidade do conhecimento,  a  partir de  uma classe,  como extensão da  universalidade  das interpretações dos  textos, das ciências.  A classe, expressa  por  um significante, e transformada em  notação internacio- nal,  conferiu a  homogeneidade  onto-lógica  dos  referentes científicos.

INDEXAÇÃO
(conteúdo)

Reprodução da estrutura da linguagem,  por meio das instruções semânticas  que conferem o  fechamento
semântico, através do  significante fundador, que recolhe todos os conteúdos ou significados sob  o  termo adotado,  que  indica  o  sentido certo.

A identidade do assunto baseia-se na  unidade estabilizada da linguagem.

Criação e adoção de linguagens controladas em várias áreas do conhecimento humano: os tesaurus.

CATALOGAÇÃO
(forma)

Formação de  um  sistema  de descrição que confere  o  fechamento físico  das  obras,  que indica  uma  só  direção  a ser  tomada à  organização e à localização do conhecimento.

Identificação única da obra, por meio da catalogação, que atribui a identidade fixa de autores,  obras e assuntos, sob um número.

Criação e aplicação de normas e padrões internacionais de formatos de catalogação, conferindo universalidade à  identificação das obras.

QUADRO 03:  A REPRESENTAÇÃO DA INFORMAÇÃO E A REFERÊNCIA FIXA DO CONHECIMENTO

 

O modelo  espelha o paradigma da escrita e a pragmática da organização do conhecimento, e tem como base filosófica os seguintes aspectos:

a) o sentido único do fechamento semântico das rubricas de assunto, na indexação, confirma o regime do signo significante da linguagem verbal escrita, juntamente com as classes fixas dos referentes ontológicos à semelhança da imagem árvore-mundo, confirmam, a propósito do bom senso,  que existe um só sentido a ser adotado (significado), bem como uma só direção a ser tomada para a armazenagem e recuperação do assunto;

b) a identidade única dada aos assuntos e à entrada do autor e obras  (expressa por um número de chamada), a propósito do senso comum como designação de identidades fixas;

c) a universalidade do conhecimento traduzida pela escolha de classes fixas do conhecimento, como extensão da universalidade das interpretações dos textos, também como reflexo da homogeneidade ontológica dos referentes científicos.

Já o “universal” é demonstrado por  Lévy (2000) como  parte integrante de uma ecologia cognitiva da tecnologia da escrita e dos textos impressos.  O sentido único e o domínio englobante do significado são partes constitutivas da escrita para garantir a mesma interpretação entre os atores da comunicação que estão em contextos separados. E a Biblioteconomia levou esse modelo, que propõe o fechamento semântico, até as últimas conseqüências. Mas se isso ocorreu, é porque a escrita assim o permitiu e permite até hoje pois, no regime significante do signo, a relação simples entre a palavra e a coisa, entre o significante e seu significado, permite tal agenciamento: é a base da representação (criticada por DELEUZE; GUATTARI, 1995, v.1), que permite o corte significante suprindo a ausência da coisa ou do autor, ou seja, a descontextualização entre a produção e recepção das obras.

    

O paradoxo do sentido diz  respeito à escritura hipertextual e é a base filosófica à compreensão da instauração do sentido e da indexação, no ambiente do ciberespaço. É uma nova maneira de produzir sentido e de buscar assuntos, mais livre, mais incerta.

A  identidade única assim como o sentido único do fechamento semântico são desmontados pelo paradoxo do sentido, pois é possível ir às duas direções (bidirecionalidade), assim como é impossível atribuir imagens identitárias clássicas construídas no ambiente da escrita.

Para Deleuze (1998, p.1), o paradoxo do sentido na linguagem é exemplificado de duas maneiras. Primeiro, pelo duplo sentido ou direção (contrariando o bom senso), já exemplificado pela Alice, e por sua vez explica o ciberespaço:  “pertence à essência do devir avançar, e puxar nos dois sentidos ao mesmo tempo.” No meio digital, esse paradoxo pode ser sentido entre o puxar e avançar da escrita/leitura, bem como não há o sentido único, o significado certo a ser instaurado ou utilizado na organização do conhecimento.

No segundo caso do paradoxo do sentido, diz respeito à identidade perdida (contra o senso comum), a impossibilidade de se atribuir a identidade única à Alice, assim como no ciberespaço não há referências (identidades) fixas do conhecimento, em que se possa atribuir uma estabilidade dos referentes ontológicos, tal como nas classes destinadas a esse objetivo, na pragmática da escrita.

O meio digital veio para demonstrar a tese que Deleuze já havia defendido somente no âmbito da linguagem. Os agenciamentos por ele identificados na instauração do sentido, na linguagem verbal escrita, só são sentidos agora, com a “desterritorialização” dos textos no ciberespaço, por isso mesmo o “virtual” é o principal atributo do ciberespaço, porque ele demonstra e faz possível identificar a escritura rizomática, no hipertexto, e o paradoxo do sentido da linguagem, que aqui é do meio (mídia) também, e todos esses elementos estão presentes na organização virtual do conhecimento.

A organização clássica do conhecimento, usa o esquema da Árvore de Porfírio, que tem como modelo e definição as dicotomias sucessivas, ordenando as idéias segundo sua compreensão crescente e extensão decrescente, relacionando de forma indistinta a realidade espiritual e a realidade natural.  Assim é o agenciamento da Árvore de Porfírio e da escrita: a subsunção da realidade natural (mundo) à realidade espiritual (livro) (FRAGOSO, 1997, p. 88).

No léxico do ciberespaço, especificamente na organização do conhecimento, percebeu-se que não há uma rubrica adotada como “certa” ou como sentido único à recuperação do conhecimento, por isso mesmo o significado (seja uma classe ou um descritor), como expressão única ou primordial, não desempenha papel principal na determinação da significação.

O ciberespaço está misturando as noções de unidade, de identidade e de localização, atributos relacionados à identidade única, à determinação de unidades estabilizadas do sentido por meio do senso comum. Todas essas implicações atingem diretamente à questão da identidade dos assuntos e da localização fixa  dos volumes ordenados em acervos fisicamente codificados, que no ciberespaço não existem.  Lévy (1996, p.25) afirma que as coisas só têm limites claros no real pois “a virtualização, passagem à problemática [caso do ciberespaço], deslocamento do ser para a questão, é algo que necessariamente põe em causa a identidade clássica, pensamento apoiado em definições, determinações, exclusões, inclusões” […].

Em suma, o paradoxo do sentido, na organização do conhecimento no ciberespaço, torna instável os principais atributos da doxa, o bom senso (sentido único) e o senso comum (identidade fixa), presentes na escrita e na representação da informação, ambas organizadas a partir de classes e categorias.

Não há também a universalização do conhecimento e de sua organização em  classes fixas, já que o virtual distribui o conhecimento em fluxo, uma vez que não há o fechamento físico das obras (exemplares etiquetados nas estantes), ou a realização de uma forma exclusiva.  A universalização, aqui, se dá pela livre distribuição do conhecimento e a conexão “todos-todos” no ciberespaço.

Continua:(http://petroleo1961.spaces.live.com/blog/cns!7C400FA4789CE339!1392.entry

POSTED BY SELETINOF 6:07 PM 

 

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Sobre seletynof

Escola (ensino médio):Colégio Marista Cearense;Faculdade/Universidade: Universidade Federal do Ceará;Curso:Física; Diploma:Pós-Graduação em Física;Profissão:físico e professor; Setor:Científico.

Publicado em 13 de julho de 2008, em EPISTEMOLOGIA. Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

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