LOGOS E IMAGINAÇÃO

            

 

Se conhecermos exatamente o presente, podemos determinar o futuro.

W. Heisenberg 

 

Síntese precisa dos esforços da humanidade ao longo dos tempo. Para estes dois objetivos se voltaram filósofos e cientistas: conhecer o presente, determinar o futuro. Para isto criaram, imaginaram sistemas filosóficos e teorias.

Nos registros da filosofia ocidental, os pré-socráticos foram os primeiros a tentar transpor os limites das explicações mitológicas e buscar o logos, palavra usada pela primeira vez, no contexto filosófico, por Heráclito (540-480ª.C.). O logos é o contraponto do mito. À medida que a reflexão filosófica avança na consciência de si mesmo e os seus recursos, o logos demarca-se cada vez mais nitidamente da opinião e do mito. Neste sentido, quase se pode dizer que a filosofia grega é filha da tensão entre o logos e o mito. Encontram-se nos pré-socráticos as primeiras tentativas racionais para conhecer o presente a fim de detrminar o futuro. E eles foram muito imaginativos: Tales (624-546 a.C.), um dos sete sábios da Grécia, explicando a origem de todas as coisas pela água; Pitágoras (540-500 a.C.) afirmando que todas as coisas são números; Parmênides (540-470 a.C.) estabelecendo a distinção entre a via da verdade, onde o homem se deixa conduzir apenas pela razão e é então levado à evidência de que o que é, é – e não pode deixar de ser, e a via da opinião onde o homem não consegue a aletheia (descoberta da verdade) e fica no terreno da dóxa (opinião).

Com a hegemonia da filosofia grega estabelecida por Sócrates (469-399 a.C.), Platão (427-347 a.C.) e, principalmente, por Aristóteles (384-322 a.C.), a razão fica consagrada como fundamento da procura do conhecimento. É, segundo este princípio, ao longo de quase vinte e cinco séculos, que filósofos e cientistas criaram, imaginaram seus sistemas e teorias que pretendiam possibilitar a todos os homens conhecer o presente e determinar o futuro.

Alguns como Descartes (1596-1650), Kant (1724-1804) e Popper (1902-1994) valorizaram sobremaneira o aspecto discursivo do conhecimento.

Descartes, preocupado em eliminar, na sua elaboração teórica, qualquer resíduo de erro, começa por duvidar de tudo aquilo que não seja claro e distinto. Isto o leva a negar metodicamente a real existência de tudo que está ao seu redor. Subsiste à sua dúvida apenas a certeza da própria atividade intelectiva. Do cogito, ergo sum, procura derivar, desta vez sem erro, todo um sistema filosófico. Infelizmente, se o seu ceticismo metodológico foi louvável, como medida preventiva de erro, sua construção do edifício do saber nessa base não atingiu os objetivos propostos.

Pode-se dizer que de toda a obra cartesiana o que restou ainda na atualidade foi a genial criação da geometria analítica. Tudo o mais pode ser considerado obra de uma imaginação fértil na produção de erros.

Kant, o gênio filosófico do século XVIII, que revolucionou o pensamento do seu tempo e influenciou os que o sucederam, também andou propondo soluções para os grandes impasses epistemológicos. Acabou, entretanto, imaginando erros na medida em que supervalorizou a dimensão subjetiva da atividade cognoscitiva.

Sua revolução copernicana do conhecimento, ou seja, a ênfase do conhecer no sujeito e não no objeto, levou-o a imaginar que se pudesse configurar a realidade exterior a partir de modelos aprioristicamente concebidos, o que, de modo lamentável, para os seua seguidores, não se constituiu em funadamento definitivo do conhecimento.

 

           

 

Popper, talvez por ter adotado o caráter provisório e conjectural do conhecimento científico, proclama, sempre que trata do assunto, o fato de que a atividade cognoscitiva nada mais é que sucessivas tentativas de explicações da realidade, imaginadas pelos seus autores. Quando nega os fundamentos lógicos da indução e faz a distinção entre o momento da descoberta e aquele da justificação, aceita a idéia de que o surgimento de uma teoria ocorre em um instante de criatividade (imaginação), sujeito a erros e tropeços. A análise racional e lógica aparece no momento da justificação, isto é, quando se tenta verificar a adequação da teoria à realidade.

Outros estudiosos, como F. Bacon (1561-1628) e D. Hume (1711-1776), ao contrário, acentuaram o aspecto intuitivo do conhecimento, ou seja, construíram suas teorias a partir da observação dos fenômenos particulares, através do método indutivo.

Bacon se propôs fazer uma crítica severa a Aristóteles e seus seguidores, no Novum organum, tentando estabelecer os fundamentos definitivos do método indutivo. Foi feliz na crítica à filosofia grega. Não conseguiu, porém, demonstrar satisfatoriamente a validade do seu método. Estabelecer teorias por indução revelou-se, ao longo do tempo, um exercício eficaz de imaginar erros.

Hume percebeu a fragilidade lógica da indução. Para ele a ocorrência regular observada em um acontecimento não poderia assegurar sua recorrência. Entretanto, viu-se diante da necessidade de justificar a indução, uma vez que esta é prática comumente aceita. Apelou, pois, para a noção de hábito. As pessoas pensam que fenômenos ocorridos voltarão a acontecer, não por ter uma fundamentação lógica mas por estar a isto habituadas.

O pão que comi no passado me alimentou… mas segue-se daí, que outro pão em outro tempo deverá me alimentar…?

Esta pergunta de Hume mostra sua descrença da indução como caminho seguro para a obtenção da verdade e indica, pelo menos, sua desconfiança de que a construção das teorias científicas está enredada em incertezas e erros.

 


Umberto Eco, no magistral romance O Nome da rosa, registrou um diálogo entre o jovem noviço Adso e o vivido monge Guilherme, que bem reflete o caráter imaginativo do conhecimento. Vale a pena transcrevê-lo. Adso inicia a conversa, perguntando:

 

– Então, não tendes uma única resposta para nossas perguntas?

– Adso, se a tivesse ensinaria teologia em Paris.

– Em Pareis eles têm sempre a resposta verdadeira?

– Nunca – disse Guilherme – mas estão muito seguros de seus erros.

– E vós- disse eu com impertinência infantil – nunca cometeis erros?

– Freqüentemente, respondeu. Mas, ao invés de conceber um único erro, imagino muitos, assim não me torno escravo de nenhum.

 

Portanto, a trajetória humana, na busca do conhecimento, revela um processo de concepção de erros: o cientista de hoje e de sempre, então, longe de se tornar escravo, somente  IMAGINANDO ERROS pode contribuir para o avanço de nosso conhecimento da realidade.

  

Referências Bibliográficas  

ECO, Uberto. O Nome da rosa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983.

HUME, David. An enquiry concerning human understaanding. In: Great books of the Western World. Chicago: Enciclopaedia Britannica, 1952, v. 35.

LOGOS, Enciclopédia luso-brasileira de filosofia. Lisboa/São Paulo, Editorial Verbo, 1989, v.3.

O s Pré-Socráticos: fragmentos, doxografia e comentários. 2° ed. São Paulo, Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores).

 

Fontepesquisada: (BARRETO, José; MOREIRA, Rui. Imaginando Erros. Fortaleza, UFC – Casa de José de Alencar, Programa Editorial, 1997.)

 

POSTED BY SELETINOF 8:50 PM

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Sobre seletynof

Escola (ensino médio):Colégio Marista Cearense;Faculdade/Universidade: Universidade Federal do Ceará;Curso:Física; Diploma:Pós-Graduação em Física;Profissão:físico e professor; Setor:Científico.

Publicado em 14 de junho de 2008, em PSICOLOGIAFILOSOFIA. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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