LOGOS E IMAGINAÇÃO

          

 

José Anchieta Esmeraldo Barreto

Graduação em Matemática pela Universidade Federal do Pará(1961), graduação em Pedagogia pela Universidade Estadual do Ceará(1966), mestrado em Pedagogia pela Tulane University of Louisiana(1972), doutorado em Pedagogia pela Tulane University of Louisiana(1975) e pós-doutorado pela Universitat Zu Koln(1975).

Rui Verlaine Oliveira Moreira

Se conhecermos exatamente o presente, podemos determinar o futuro.

W. Heisenberg 

————————————————————————————————–

 

Síntese precisa dos esforços da humanidade ao longo dos tempo. Para estes dois objetivos se voltaram filósofos e cientistas: conhecer o presente, determinar o futuro. Para isto criaram, imaginaram sistemas filosóficos e teorias.

Nos registros da filosofia ocidental, os pré-socráticos foram os primeiros a tentar transpor os limites das explicações mitológicas e buscar o logos, palavra usada pela primeira vez, no contexto filosófico, por Heráclito (540-480ª.C.). O logos é o contraponto do mito. À medida que a reflexão filosófica avança na consciência de si mesmo e os seus recursos, o logos demarca-se cada vez mais nitidamente da opinião e do mito. Neste sentido, quase se pode dizer que a filosofia grega é filha da tensão entre o logos e o mito. Encontram-se nos pré-socráticos as primeiras tentativas racionais para conhecer o presente a fim de detrminar o futuro. E eles foram muito imaginativos: Tales (624-546 a.C.), um dos sete sábios da Grécia, explicando a origem de todas as coisas pela água; Pitágoras (540-500 a.C.) afirmando que todas as coisas são números; Parmênides (540-470 a.C.) estabelecendo a distinção entre a via da verdade, onde o homem se deixa conduzir apenas pela razão e é então levado à evidência de que o que é, é – e não pode deixar de ser, e a via da opinião onde o homem não consegue a aletheia (descoberta da verdade) e fica no terreno da dóxa (opinião).

Com a hegemonia da filosofia grega estabelecida por Sócrates (469-399 a.C.), Platão (427-347 a.C.) e, principalmente, por Aristóteles (384-322 a.C.), a razão fica consagrada como fundamento da procura do conhecimento. É, segundo este princípio, ao longo de quase vinte e cinco séculos, que filósofos e cientistas criaram, imaginaram seus sistemas e teorias que pretendiam possibilitar a todos os homens conhecer o presente e determinar o futuro.

Alguns como Descartes (1596-1650), Kant (1724-1804) e Popper (1902-1994) valorizaram sobremaneira o aspecto discursivo do conhecimento.

Descartes, preocupado em eliminar, na sua elaboração teórica, qualquer resíduo de erro, começa por duvidar de tudo aquilo que não seja claro e distinto. Isto o leva a negar metodicamente a real existência de tudo que está ao seu redor. Subsiste à sua dúvida apenas a certeza da própria atividade intelectiva. Do cogito, ergo sum, procura derivar, desta vez sem erro, todo um sistema filosófico. Infelizmente, se o seu ceticismo metodológico foi louvável, como medida preventiva de erro, sua construção do edifício do saber nessa base não atingiu os objetivos propostos.

Pode-se dizer que de toda a obra cartesiana o que restou ainda na atualidade foi a genial criação da geometria analítica. Tudo o mais pode ser considerado obra de uma imaginação fértil na produção de erros.

Abaixo, nós – Seletynof – inserimos um adendo para chamar a atenção sobre o método criativo de Bachelard, ou seja, a sua FILOSOFIA DE DOIS POLOS:

17457887_1891856097739530_2248223180490641438_n

(…) É, portanto, na encruzilhada dos caminhos que o epistemólogo deve colocar-se: entre o empirismo e o racionalismo. É aí que ele pode apreender o novo dinamismo dessas filosofias contrárias, o duplo movimento pelo qual a ciência simplifica o real e complica a razão. Fica então mais curto o caminho que vai da realidade explicada ao pensamento aplicado. É nesse curto trajeto que se deve desenvolver toda a pedagogia da prova, pedagogia que é a única psicologia possível do espírito científico. (…) A ciência, soma de provas e experiências, de regras e de leis, de evidências e de fatos, necessita, pois, de uma filosofia de dois polos. (BACHELARD, 1978). (…) Epistemologicamente, a construção dos conceitos físicos se dá através da dialética entre o racionalismo e o empirismo, entre teoria e prática. Assim, a partir do momento em que se medita na ação científica, apercebemo-nos de que o empirismo e o racionalismo trocam entre si infindavelmente os seus conselhos. Nem um e nem outro, isoladamente, basta para construir a prova científica. Contudo, o sentido do VETOR EPISTEMOLÓGICO parece-nos bem nítido. Vai seguramente do racional ao real e não, ao contrário, da realidade ao geral, como o professavam todos os filósofos de Aristóteles a Bacon. Em outras palavras, a aplicação do pensamento científico parece-nos essencialmente realizante (BACHELARD, 1978).

Kant, o gênio filosófico do século XVIII, que revolucionou o pensamento do seu tempo e influenciou os que o sucederam, também andou propondo soluções para os grandes impasses epistemológicos. Acabou, entretanto, imaginando erros na medida em que supervalorizou a dimensão subjetiva da atividade cognoscitiva.

Sua revolução copernicana do conhecimento, ou seja, a ênfase do conhecer no sujeito e não no objeto, levou-o a imaginar que se pudesse configurar a realidade exterior a partir de modelos aprioristicamente concebidos, o que, de modo lamentável, para os seua seguidores, não se constituiu em funadamento definitivo do conhecimento.

          

Popper, talvez por ter adotado o caráter provisório e conjectural do conhecimento científico, proclama, sempre que trata do assunto, o fato de que a atividade cognoscitiva nada mais é que sucessivas tentativas de explicações da realidade, imaginadas pelos seus autores. Quando nega os fundamentos lógicos da indução e faz a distinção entre o momento da descoberta e aquele da justificação, aceita a idéia de que o surgimento de uma teoria ocorre em um instante de criatividade (imaginação), sujeito a erros e tropeços. A análise racional e lógica aparece no momento da justificação, isto é, quando se tenta verificar a adequação da teoria à realidade.

Outros estudiosos, como F. Bacon (1561-1628) e D. Hume (1711-1776), ao contrário, acentuaram o aspecto intuitivo do conhecimento, ou seja, construíram suas teorias a partir da observação dos fenômenos particulares, através do método indutivo.

Bacon se propôs fazer uma crítica severa a Aristóteles e seus seguidores, no Novum organum, tentando estabelecer os fundamentos definitivos do método indutivo. Foi feliz na crítica à filosofia grega. Não conseguiu, porém, demonstrar satisfatoriamente a validade do seu método. Estabelecer teorias por indução revelou-se, ao longo do tempo, um exercício eficaz de imaginar erros.

Hume percebeu a fragilidade lógica da indução. Para ele a ocorrência regular observada em um acontecimento não poderia assegurar sua recorrência. Entretanto, viu-se diante da necessidade de justificar a indução, uma vez que esta é prática comumente aceita. Apelou, pois, para a noção de hábito. As pessoas pensam que fenômenos ocorridos voltarão a acontecer, não por ter uma fundamentação lógica mas por estar a isto habituadas.

O pão que comi no passado me alimentou… mas segue-se daí, que outro pão em outro tempo deverá me alimentar…?

Esta pergunta de Hume mostra sua descrença da indução como caminho seguro para a obtenção da verdade e indica, pelo menos, sua desconfiança de que a construção das teorias científicas está enredada em incertezas e erros.

 

SER HUMANO, REVIRANDO TUDO: “Nossa ESPÉCIE, ao invés de EVOLUIR biologicamente segundo a Teoria da Evolução de Darwin (ou melhor, o homem ao invés de transformar-se corporalmente num monstro capaz de ter todas as faces e a qualquer hora ser capaz de trocar de cor, trocar de sexo, trocar de cabelo, etc.), ela simplesmente começou a secretar um PORTIÇO que é capaz de mapear as coisas mesmo que não possa transformá-las. E tal portiço são as linguagens, isto é, as línguas que a gente fala, todos os aparelhos discursivos de invenção, de ciência, de filosofia, de religião, etc. Mas, denominamos este portiço de SECUNDÁRIO, pois, apesar dele ter a mesma estrutura do PRIMÁRIO originário da NATUREZA, é “software” e não “hardware”. Então, secretando esse software, secretando esse portiço, o homem pode fazer mil conjecturas até achar uma LINGUAGEM (regra, modelo, teoria) que fica parecido com o funcionamento da coisa dura lá do primário e intervir neste através desse conhecimento, dessa linguagem, desse modelo, dessa teoria. É assim que tem funcionado. Portanto, nós somos “MACACOS” inteiramente primários constituídos de matéria (mas somos piradinhos, não queremos o assim, queremos o assado, também, ou pelo menos gostaríamos de querer) que, através da aplicação de um portiço sobre um primário dado, conseguimos transformá-lo quando temos PODER para isto, potência para isto, força para isto, condições para isto, quando podemos pagar o preço da TRANSFORMAÇÃO.” (MD MAGNO).

 

Umberto Eco, no magistral romance O Nome da rosa, registrou um diálogo entre o jovem noviço Adso e o vivido monge Guilherme, que bem reflete o caráter imaginativo do conhecimento. Vale a pena transcrevê-lo. Adso inicia a conversa, perguntando:

– Então, não tendes uma única resposta para nossas perguntas?

– Adso, se a tivesse ensinaria teologia em Paris.

– Em Pareis eles têm sempre a resposta verdadeira?

– Nunca – disse Guilherme – mas estão muito seguros de seus erros.

– E vós- disse eu com impertinência infantil – nunca cometeis erros?

– Freqüentemente, respondeu. Mas, ao invés de conceber um único erro, imagino muitos, assim não me torno escravo de nenhum.

Portanto, a trajetória humana, na busca do conhecimento, revela um processo de concepção de erros: o cientista de hoje e de sempre, então, longe de se tornar escravo, somente  IMAGINANDO ERROS pode contribuir para o avanço de nosso conhecimento da realidade.

———————————————————————————————–

Referências Bibliográficas

ECO, Uberto. O Nome da rosa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983.

HUME, David. An enquiry concerning human understaanding. In: Great books of the Western World. Chicago: Enciclopaedia Britannica, 1952, v. 35.

LOGOS, Enciclopédia luso-brasileira de filosofia. Lisboa/São Paulo, Editorial Verbo, 1989, v.3.

O s Pré-Socráticos: fragmentos, doxografia e comentários. 2° ed. São Paulo, Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores).

———————————————————————————————–

 

Fontepesquisada: (BARRETO, José; MOREIRA, Rui. Imaginando Erros. Fortaleza, UFC – Casa de José de Alencar, Programa Editorial, 1997.)

 

POSTED BY SELETINOF 8:50 PM

Anúncios

Sobre seletynof

Escola (ensino médio):Colégio Marista Cearense;Faculdade/Universidade: Universidade Federal do Ceará;Curso:Física; Diploma:Pós-Graduação em Física;Profissão:físico e professor; Setor:Científico.

Publicado em 14 de junho de 2008, em PSICOLOGIAFILOSOFIA. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: