O CÓDIGO CÓSMICO

           


Kant foi o primeiro filósofo que estabeleceu os limites, os objetivos e o valor das ciências, declarando que a ciência visa somente aos fenômenos, isto é, investiga o campo do sensível, não ultrapassando o campo da experiência.

De fato, quando verificamos a forma dos corpos, sua composição, suas propriedades, formulamos juízos que exprimem fatos ou relações entre fatos. Portanto, são juízos de uma existência ou realidade. Ao passo que, outros juízos podemos formular sobre o valor das coisas e não o que são elas, sendo estes, juízos de valor, os quais ultrapassam o campo do sensível e da experiência. Desse modo, podemos concluir que os juízos de realidade são científicos e os juízos de valor são filosóficos.

Cada ciência tem seu objeto. E o objeto de cada ciência é uma fração da realidade total. Não poderão, pois, as ciências, cujos objetos não são mais do que partes de um grande todo, fornecer ao homem uma visão do conjunto universal.

As ciências, portanto, não têm caráter universal, sua causa material é limitada, não possuem também profundidade, pois, as ciências se restringem à determinação das leis do fenômenos. A física, por exemplo, cuida das leis da mecânica, da ótica, da acústica, etc.,mas não se preocupa com a composição dos corpos, pois, é o objeto de outra ciência, a Química.

Disso podemos concluir que as ciências se limitam ao mundo dos fenômenos, ao mundo sensível da experiência e fundamentam-se sobre postulados, princípios aceitos sem discussão. Cuidam das causas imediatas, sem ultrapassarem o mundo do sensível.

Todavia, o desejo de saber é inato no homem e não tem limites; não podemos contentar-nos apenas com as causas imediatas das coisas. Existem várias perguntas, que transcendem a experiência e caminham pelo mundo dos valores das coisas, às quais as ciências não podem dar respostas. Cabem, pois, tais respostas a um ramo do saber de caráter universal, que tenha por objetos as causas supremas e gerais, que critique os postulados de todas as ciências particulares. Esse ramo é a filosofia.

A filosofia, então, visa, pela razão, ao que está além da experiência. Portanto, sendo a filosofia essencialmente metafísica, isto é, procurando ultrapassar o mundo físico ou sensível, deve ela servir-se da razão. Mas para atingir seus fins, deve ela servir-se somente da razão natural, distinguindo-se neste particular da teológica, que se serve da razão revelada.

Mas o que é o Universo? É um filme cósmico a três dimensões no qual todos somos atores involuntários? É uma anedota cósmica, um computador gigante, uma obra de arte de um Ser Supremo, ou apenas uma experiência? O problema de tentar compreender o Universo é o não termos nada com que o possamos comparar… As respostas que posssuem maior credibilidade se baseiam na utilização do método científico aliado à linguagem matemática; ou seja, a ciência nos propicia  resultados mais satisfatórios do que a filosofia. Não obstante, abaixo, temos uma análise científico-filosófica a respeito do Universo e sobre a possível linguagem em que este se deixa representar.  

Não sabemos o que é o Universo, ou se ele tem alguma finalidade, mas, como muitos físicos (os quais se utilizam da ciência em seus estudos) temos de encontrar um modo de pensar sobre ele. Einstein acreditava ser errado projetar as nossas necessidades humanas sobre o Universo, porque este é indiferente a elas. Steven Weinberg concorda: “(…) quanto mais sabemos sobre o Universo, mais se torna evidente que ele não tem finalidade nem sentido”. Como a rosa de Gertrude Stein, o Universo é o que é. Mas afinal o que é? A pergunta não se desvanecerá.

Pensamos que a mensagem está escrita num código, um CÓDIGO CÓSMICO, e a tarefa é tentar decifrar esse código. A idéia de que o Universo é uma mensagem é mutio antiga e remonta à Grécia, mas a sua versão moderna foi elaborada pelo empirista inglês Francis Bacon, que afirmou existirem duas relações. A primeira é-nos dada através das escrituras e da tradição e conduziu o nosso pensamento durante séculos. A segunda provém do próprio Universo e só agora começamos a ler esse livro. As frases deste livro são as leis físicas, as invariâncias postuladas e confirmadas pela nossa experiência. Se há pessoas que afirmam terem-se convertido por uma leitura das Escrituras, nós diríamos que o livro da Natureza também tem seus convertidos. Podem ser menos evangélicos do que os convertidos pelas Escrituras, mas partilham uma convicção profunda de que existe ordem no Universo e que essa ordem pode ser conhecida.

Muitos cientistas têm escrito sobre a sua primeira experiência de contato com o código cósmico, isto é, a idéia de ordem para lá da experiência imediata. Esta experiência surge muitas vezes nos primeiros anos da adolescência, quando se dá a integração da vida emocional e cognitiva do ser huamano. Einstein disse que a sua conversão, nessa idade, de uma perspectiva religiosa para uma perspectiva científica alterou completamente a sua vida. Newton, que defendeu posições religiosas heterodoxas ao longo de toda a sua vida, tinha também uma concepção do código cósmico; para ele, o Universo era um grande enigma que tinha de ser resolvido. I. I. Rabi, um físico atômico, contou que se interessou pela primeira vez pela ciência quando requisitou numa biblioteca alguns livros sobre movimentos planetários. O fato de a mente humana poder conhecer coisas tão imensas que não eram por ela imaginadas constituía para ele motivo de espanto e admiração. Heinz R. Pagels, quando adolescente, lendo a biografia de Einstein, o livro One, Two… Infinity,  de George Gamow, e o Exploring the Atom, livro de Selig Hevht, decidiu ser físico: para ele não havia nada mais gratificante do que resolver o enigma do cosmo; e a física, explorando o início e o fim do espaço, do tempo e da matéria, poderia realizar sua ambição.

 

Se aceitarmos a idéia de que o UNIVERSO é um livro lido pelos cientistas, deveríamos agora analisar como é que a sua leitura influencia a nossa civilização. Os cientistas libertaram uma nova força no nosso desenvolvimento político, social e conômico – talvez a maior força até agora libertada. Conhecendo a estrutura do Universo, cientistas e engenheiros inventam novos aparelhos e novas tenologias que alteram radicalmente o mundo em que vivemos. O que distingue este novo conhecimento é que a sua fonte está para além das instituições humanas: ele provém do próprio Universo. Pelo contrário, a literatura, a arte, o direito, a política e mesmo os métodos científicos foram por nós inventados. Mas nós não inventamos o Universo, a química dos nossos corpos, os átomos ou as ondas eletromagnéticas, descobertas que influenciam profundamente a nossa história e as nossas vidas. Poderia acontecer o código cósmico, revelado na arquitetura do Universo, ser, na realidade, um programa de evolução histórica?  

Arnold Toynbee afirmou que cada civilização  era a reação a um desafio. Os Romanos tinham o desafio de manter o domínio de um vasto império; a sua reação foi inventar um estado moderno. Da mesma forma, os Egípcios enfrentaram o desafio do sistema ecológico do rio Nilo construindo um complexo sistema de irrigação e uma estrutura política para o manter. O maior desafio à nossa civilização é dominar o código cósmico. As forças que a ciência descobriu no Universo podem aniquilar-nos. Podem também proporcionar a base para uma nova e mais gratificante existência humana. Ninguém sabe qual será a nossa reação a este desafio, mas certamente atingimos as frases do código cósmico que podem pôr fim à nossa existência ou, alternativamente, proporcionar o nascimento da humanidade no Universo.

Será que a ignorância e o desespero de um povo como os  indianos são conseqüência de suas crenças filosóficas e religiosas? (ou será o contrário?). Alguns intelectuais indianos pensavam que as grandes guerras do Ocidente, guerras que ceifaram milhões de vidas, eram fruto da filosofia, da ciência e da tecnologia ocidentais. O desafio à nossa civilização, que surgiu com o nosso conhecimento das energias cósmicas que alimentam as estrelas, do movimento da luz e dos elétrons através da matéria, da complicada ordem molecular que forma a base da vida, deve ser enfrentado através da criação de uma ordem moral e política que regule estas forças, pois, caso contrário, seremos destruídos. Serão necessários os nossos mais profundos recursos da razão e compaixão.

O nosso conhecimento recente proporciona ambém oportunidades ricas, complexas e muias vezes confusas. Podemos pensar que usamos a nossa liberdade ao fazermos as opções que entendemos, mas as próprias opções estão circunscritas por limites clarificados pela ciência moderna. O estado do Universo, do mundo e da vida humana é olhado por muita gente como produto da ciência, em lugar da descoberta da ciência. É uma sensação que tem por conseqüência um sentimento de alienação provocado pelo mundo tecnológico.

Heinz Pagels ilustra muito bem o impacto provocado pelas descobertas científicas na sociedade, quando nos relata seu encontro, em 1965, com uma senhora de idade, de olhos claros e vivos, pertencente a uma pequena comunidade que rejeitava o uso de máquinas (escreviam, por exemplo, com penas). A senhora, que era poetisa, disse-lhe que seu pequeno grupo continuava a acreditar no espírito humano, mas via esse mesmo espírito corrompido pela vida e pela tecnologia modernas. Ela explicou que um espírito demoníaco invadira a Terra havia cerca de trezentos anos, com o objetivo de a destruir. Todo o mal começou quando as melhores mentes de entre filósofos, cientistas e líderes sociais e políticos foram capturadas. Brevemente ficariam à solta os monstros da ciência, da tecnologia e do industrialismo. Pagels lembrara-se de William Blake, também poeta, que se lamentava da cegueira de Newton. A conquista estava quase terminanda, dizia ela; muito poucos resistiam à queda.

             

A senhora perguntou-lhe o que é que ele fazia e, quando  Pagels lhe disse que era físico, foi recebido com um olhar de horror. Era portanto um deles, um inimigo. Sentiu então uma enorme distância entre ele e a senhora. Um ano mais tarde, a Counterculture florescia na América; tinha-se instalado uma nova revolta contra a ciência.

Há ainda um caso de um jovem, que sofria de perturbações mentais, o qual corrobora os “males” da ciência. Conta Pagels que de um modo muito agitado, ele descreveu-lhe como os seres extraterrestres tinham invadido a Terra. Eram formados de uma substância mental, viviam nas mentes humanas e controlavam-nas através da criação da ciência e da tecnologia. Estes seres teriam o objetivo de gozar uma existência autônoma na forma de computadores gigantes, e não teriam então necessidade dos humanos; isso assinalaria  o seu triunfo e o fim da humanidade. Pouco depois foi hospitalizado porque não conseguia afastar esta visão.

A velha poetiza e o jovem estão corretos na sua percepção de que a ciência e a tecnologia vieram do “exterior” da experiência humana. Eles foram sensíveis a esta percepção de uma forma muito excessiva. O que nos é exterior é o Universo enquanto revelação material, mensagem a que Pagels chama de código cósmico e que programa hoje em dia o desenvolvimento econômico e social da humanidade. O que pode ser apercebido como ameaçador neste contato é que os cientistas, ao lerem o código cósmico, penetraram na estrutura invisível do Universo. Vivemos hoje uma revolução científica comparável à que ocorreu quando Copérnico demoliu o mundo antropocêntrico, revolução que começou com a invenção da teoria da relatividade e da mecânica quântica, no início deste século, e que ultrapassou muitas pessoas. Pela própria natureza dos fenômenos que estuda, a ciência tornou-se cada vez mais abstrata. O código cósmico tornou-se invisível; o invisível influencia o visível.

A transformação irreversível dos padrões da existência humana pela ciência constitui uma perturbadora experiência de que muitas pessoas nem se aperceberam porque estão demasiado próximas dela. Muitos de nós vivemos em grandes cidades com milhões de habitantes que pura e simplesmente não poderiam ter existido há alguns séculos, devido aos problemas de fornecimento de alimentos e de higiene. Aceitamos a tecnologia como parte das nossas vidas porque a nossa sobrevivência depnde dela. Os peritos e os cientistas asseguram-nos que tudo irá correr bem porque ela é apoiada pelas regras da razão. Mas outros, como a poetisa, vêem a razão como ferramenta do demônio, como instrumento para a destruição da vida e da fé simples. Eles vêem o cientista como destruidor do espírito humano, enquanto o cientista considera os aliados da poetisa cegos para as exigências materiais da sobrevivência humana. O que divide é a diferença entre aqueles que privilegiam as intuições e os sentimentos e aqueles que privilegiam o conhecimento e a razão – recursos diferentes da vida humana. Ambos os impulsos estão dentro de nós; mas por vezes não conseguimos uma síntese útil, e o resultado é um ser incompleto.

No século XIII, a filosofia escolástica tentou reconciliar a fé com a razão. Não teve êxito, mas do seu fracasso nasceu uma nova civilização: o mundo moderno, no qual a dialética entre fé e razão continua de pé. Não devemos optar por um dos termos da dialética: ela deve ser considerada como uma oposição que transforma a vida. A capacidade de realização só pode vir através da fé e dos sentimentos. Mas a capacidade de sobrevivência só surge da razão e do conhecimento.

Será a ciência moderna hostil à nossa humanidade? Max Born, um dos criadores da teoria quântica, exprimiu a sua preocupação sobre a permanência da aventura científica nos últimos trezentos anos. A ciência contemporânea, pensava ele, não tem um lugar fixo e sólido na vida humana, ao contrário da política, da religião ou do comércio. Ele perguntava se o gênero humano podia alguma vez abandonar a ciência. Se isso acontecesse, seria cortado o nosso ainda frágil laço ao código cósmico, erro que poderia custar-nos a existência. É possível que os historiadores do futuro verão a civilização contemporânea como reação à descoberta dos mundos das moléculas, dos átomos e das extensões inimagináveis do espaço e do tempo. O desafio é de trazer estes domínios invisíveis à nossa consciência e tornar humanos os enormes poderes que neles encontramos.

Ciência é outro nome para conhecimento, e ainda não descobrimos nenhum limite para o conhecimento, ainda que tenhamos descoberto muitos outros limites. Mas o conhecimento não é suficiente. Ele deve ser temperado por um sentimento de justiça, pela vida moral e pela nossa capacidade para o amor e para servir a comunidade. A ciência traz-nos uma apreciação renovadora da condição humana: as limitações da nossa existência no Universo. Através da expansão do conhecimento científico tomamos conhecimento não só dos avanços das nossas possibilidades materiais, mas também das nossas limitações intrínsecas.

O livro Gênesis conta-nos a história dos nossos primeiros pais, que foram criados pelo Senhor e colocados num jardim paradisíaco. Havia duas árvores , a árvore do conhecimento e a árvore da vida, e o Senhor proibiu-os de comer o fruto da árvore do conhecimento. Os nossos primeiros pais provaram do conhecimento e conheceram, assim, o bem e o mal. Eles podiam agora tornar-se, como o Senhor, potencialmente donos de um conhecimento infinito. O Senhor expulsou-os do jardim antes de eles terem provado o fruto da árvore da vida e terem assim uma vida inifinita. A humanidade enfrenta uma visão de conhecimento infinito a partir de um estado de existência finita.

A ciência não é inimiga da humanidade, mas sim uma das mais profundas expressões do desejo humano de ralizar este conhecimento infinito. A ciência mostra-nos que o mundo visível não é matéria nem espírito; o mundo visível é a organização invisível de energia. Não se sabe quais serão as próximas frase do código cósmico. Mas parece certo que o recente contato humano com o mundo invisível dos quanta e com a vastidão do Cosmo modelará o destino da nossa espécie ou daquilo em que esta se tornar.

Heinz Pagels revela-nos, ainda, que muitas vezes sonhou com quedas. Esses são comuns para os ambiciosos e para os alpinistas. Certa vez sonhara que se agarrava a uma rocha que subitamente se desprendeu.Tentou agarrar-se a um arbusto, mas ele cedeu e, num terror gelado, caiu no abismo. De repente apercebeu-se de que a sua queda era apenas relativa; não havia fim para ela. Encheu-se então de uma sensação de prazer: Compreendi que aquilo que eu representava, o princípio da vida, não pode ser destruído. Está inscrito no código cósmico, na ordem do universo. À medida que continuei a cair no vazio, abracei a abóboda celeste, cantei a beleza das estrelas e reconciliei-me com a escuridão.

 

Fontepesquisada: (Heinz Pageles, O CÓDIGO CÓSMICO, Gradativa, lisboa, 1982)  

 

POSTED BY SELETINOF 2:29 PM 

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Sobre seletynof

Escola (ensino médio):Colégio Marista Cearense;Faculdade/Universidade: Universidade Federal do Ceará;Curso:Física; Diploma:Pós-Graduação em Física;Profissão:físico e professor; Setor:Científico.

Publicado em 12 de maio de 2008, em FISICAPRAPOETA. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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