PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

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Por Nise da Silveira

Todo ser tende a realizar o que existe nele em germe, a crescer, a completar-se. Assim é para a semente do vegetal e para o embrião do animal.

Assim é para o homem, quanto ao corpo e quanto à psique. Mas no homem, embora o desenvolvimento de suas pontencialidades seja impulsionado por forças instintivas inconscientes, adquire caráter peculiar: o homem é capaz de tomar consciência desse desenvolvimento e de influenciá-lo. Precisamente no confronto do inconsciente pelo consciente, no conflito como na elaboração entre ambos é que os diversos componentes da personalidade amadurecem e unem-se numa síntese, na realização de um indivíduo específico e inteiro. Essa confrontação “é o velho jogo do martelo e da bigorna: entre os dois, o homem, como o ferro, é forjado num todo indestrutível, num indivíduo. Isso, em termos toscos, é o que eu entendo por processo de individuação” (Jung).

O processo de individuação não consiste num desenvolvimento linear. É movimento de circunvolução que conduz a um novo centro psíquico. Jung denominou este centro self(si mesmo). Quando consciente e inconsciente vêm ordenar-se em torno do self, a personalidade completa-se. O self será o centro da personalidade total, como o ego é o centro do campo do consciente.

O conceito jungueano de individuação tem sido muitas vezes deturpado. Entretanto é claro e simples na sua essência: tendência instintiva a realizar plenamente potencialidades inatas. Mas, de fato, a psique humana é tão complexa, são de tal modo intrincados os componentes em jogo, tão variáveis as intervenções do ego consciente, tantas as vicissitudes que podem ocorrer, que o processo de totalização da personalidade não poderia jamais ser um caminho reto e curto de chão bem batido. Ao contrário, será um percurso longo e difícil.

Pelo menos duas confusões frequentes devem ser de início esclarecidas. Em primeiro lugar não se pense que individuação seja sinônimo de perfeição. Aquele que busca individuar-se não tem a mínima pretenção a tornar-se perfeito. Ele visa completar-se, o que é muito diferente. E para completar-se terá de aceitar o fardo de conviver conscientemente com tendências opostas, irreconciliáeis, inerentes à sua natureza, tragam estas as comotações de bem ou de mal, sejam escuras ou claras. Outro erro grave seria confundir individuação com individualismo. “Vindo a ser o indivíduo que é de fato, o homem não se torna egoista no sentido ordinário da palavra, mas meramente está realizando as particularidades de sua natureza, e isso é enormemente diferente de egoísmo ou individualismo” (Jung). Note-se que o trabalho no sentido da individuação toma em atenta consideração os componentes coletivos da psique humana (conteúdos do insconsciente coletivo), o que desde logo permite esperar que daí resulte melhor funcionamento do indivíduo dentro da coletividade.

Nesse trabalho, ele aprende por experiência própria que a estrutura básica de sua vida psíquica é a mesma estrutura básica da psique de todos os humanos. Um conhecimento dessa ordem decerto não fomenta sentimentos de orgulhosos privilégios individualistas. Acontece é que as relações interpessoais mudam no decurso do desenvolvimento da personalidade. Liquidam-se projeções. As relações de estreita dependência, de quase fusão com outros seres, gradualmente modificam-se para dar lugar a uma posição de “respeito pelo segredo que é cada vida humana”. Talvez o indivíduo venha então a sentir-se algo solitário, porém estará cada vez mais longe do egoismo individualista.

VERDADEIRAMENTE IMORAL É TER DESISTIDO DE SI MESMO!!!

“Até cortar os defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro…há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo…. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. …Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões – cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força… Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você – respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você – não copie uma pessoa ideal, copie você mesma – é esse seu único meio de viver…Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma.” (LISPECTOR).

O processo de individuação é descrito em imagens nos contos de fada, mitos, no opus alquímico, nos sonhos, nas diferentes produções do inconsciente. Sobretudo através dos sonhos será possível acompanhá-lo ao vivo nos progressos, interrupções, regressões e interferências várias que perturbem seu desenvolvimento. Seguindo-o em numerosíssimos casos, Jung verificou a constante emergência de imagens análogas ou semelhantes que se sucediam, traçando, por assim dizer, o itinerário do caminho perorrido. Baseado nessas observações, Jung descreveu as principais etapas do processo de individuação.

A preliminar será o desvestimento das falsas roupagens da persona.

Para estabelecer contactos com o mundo exterior, para adaptar-se às exigências do meio onde vive, o homem assume uma aparência que geralmente não corresponde ao seu modo de ser autêntico. Apresenta-se mais como os outros esperam que ele seja ou ele desejaria ser, do que realmente como é. A esta aparência artificial, Jung chama persona, designação muito adequada, pois os antigos empregavam esse nome para denominar a máscara que o ator usava segundo o papel que ia representar. O professor, o médico, o militar, por exemplo, de ordinário mantém uma fachada de acordo com as convenções coletivas, quer no vestir, no falar ou nos gestos. Os moldes da persona são recortes tirados da psique coletiva.

Se, numa certa medida, a persona representa um sistema útil de defesa, poderá suceder que seja tão excessivamente valorizada a ponto do ego consciente identificar-se com ela. O indivíduo funde-se então aos seus cargos e títulos, ficando reduzido a uma impermeável casca de revestimento. Por dentro não passa de lamentável farrapo, que facilmente será estraçalhado se soprarem lufadas fortes vindas do inconsciente.

Nenhum exemplo ilustrará melhor o que seja a persona, que o conto de Machado de AssisO Espelho.

Neste conto, Machado apresenta a teoria de que o homem tem duas almas: “uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro”. (…) “Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; e assim também a polca, o voltarete, um livro, u’a máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc.” E narra o caso de um jovem que, sendo nomeado alferes da guarda nacional, tanto se identificou com a patente que “o alferes eliminou o homem”. Quando, por circunstâncias especiais, ele foi obrigado a ficar sozinho numa casa de campo onde não havia ninguém para prestar as louvações e marcas de respeito devidas ao alferes, sentiu-se completamente vazio. Até sua imagem no espelho, ele via esfumada, sem contorno nítido. Este fenômeno estranho levou-o ao pânico. Desesperado, lembrou-se de vestir a farda de alferes. “O vidro reproduziu então a figura integral, nenhuma linha menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior”.

Quanto mais a persona aderir à pele do ator, tanto mais dolorosa será a operação psicológica para despí-la.

Quando é retirada a máscara que o ator usa nas suas relações com o mundo, aparece uma face desconhecida. Olhar-se em espelho, que reflita cruamente esta face, é decerto ato de coragem. Será visto nosso lado escuro onde moram todas as coisas que nos desagradam em nós, ou mesmo que nos assustam. É nossa sombra. Os primitivos acreditavam que a sombra projetada por seus corpos, ou sua imagem refletida n’água, fosse uma parte viva deles próprios. E, com efeito, a sombra (em sentido psicológico) faz parte da personalidade total. As coisas que não aceitamos em nós, que nos repugnam, e por isso as reprimimos, nós as projetamos sobre o outro, seja ele o nosso vizinho, o nosso inimigo político, ou uma figura símbolo como o demônio. E assim permanecemos inconscientes de que as abrigamos dentro de nós. Lançar luz sobre os recantos escuros tem como resultado o alargamento da consciência. Já não é o outro quem está sempre errado. Descobrimos que frentemente “a trave” está em nosso próprio olho.

Quanto mais a sombra fôr reprimida mais se torna espessa e negra. Exemplo impressionante deste fenômeno da dinâmica psíquica encontra-se no conto de R. Stevenson, Dr. Jekyll e Mr. Hyde, que o cinema divulgou num filme intitulado O Médico e o Monstro. Dr. Jekyll era um médico admirado pela sua capacidade, afável com os amigos e cheio de bondade para seus doentes. Mr. Hyde, um ser moralmente insensível, sempre pronto a cometer crimes. O dois eram a mesma pessoa.

É muito curioso que o conto de Stevenson tenha tido origem num sonho do autor e logo haja sido escrito, quase sem pausas, em três dias. Trata-se de um extraordinário documento psicológico. Jekyll descreve-se: “meu maior defeito era uma certa disposição natural para o prazer, disposição que fez a felicidade de muitos outros, mas que eu achava difícil de conciliar com o meu imperioso desejo de andar de cabeça erguida. Usava então diante do público de uma aparência mais grave que o comum”. – Ele se surpreendia de ver que, sob a forma de Hyde, não lhe contentavam os prazeres que Jekyll não se permitia. Hyde, como personagem autônomo, livre de seguir seus impulsos, ia muito além, revelava-se intrinsicamente mau, capaz de todas as vilezas.

cruz

A sombra é uma espessa massa de componentes diversos, aglomerado desde pequenas fraquezas, aspectos imaturos ou inferiores, complexos reprimidos, até forças verdadeiramente maléficas, negrumes assutadores. Mas também na sombra poderão ser discernidos traços positivos: qualidades valiosas que não se desenvolveram devido a condições externas desfavoráveis ou porque o indivíduo não dispôs de energia suficiente para levá-las adinate, quando isso exigisse ultrapassar convenções vulgares.

A sombra coincide com o inconsciente freudiano e com o inconsciente pessoal jungueano. Nos sonhos costuma aparecer personificada em indivíduos do mesmo sexo do sonhador, que representam, por assim dizer, o seu avesso. É um duro problema de início de análise o reconhecimento de figurantes do sonho, julgados desprezíveis pelo sonhador, como aspectos sombrios de sua prórpia personalidade. 

Mas a sombra ultrapassa os limites do pessoal e alonga-se na sombra coletiva. Veremos então homens civilizados, quando reunidos em massa, portarem-se segundo padrões os mais inferiores. Caírem presas de preconceitos coletivos de discriminação raciais. Fabricarem bodes-expiatórios. Tornarem-se ávidos, destrutivos, sanguinários. Os exemplos são múltiplos e infelizmente estão de tal modo presentes no mundo contemporâneo que será desnecessários citá-los.

Depois de travar conhecimento com a prórpia sombra, uma tarefa muito difícil se apresenta. É a confrontação da anima.

Todos sabem que no corpo de cada homem existe uma minoria de gens femininos que foram sobrepujados pela maioria de gens masculinos. A feminilidade inconsciente no homem, Jung denomina anima. “A anima é, presumivelmente, a representação psíquica da minoria de gens femininos presentes no corpo do homem” (Jung). Esta feminilidade inconsciente no homem, indiferenciada, inferior, manifesta-se, na vida ordinária, por despropositadas mudanças de humor e caprichos.

Vêm compor a anima também as experiências fundamentais que o homem teve com a mulher através dos milênios, “um aglomerado hereditário inconsciente de origem muito longínqua, tipo de todas as experiências da linha ancestral em relação ao ente feminino, resíduo de todas as impressões fornecidas pela mulher” (Jung). A anima  encerra os atributos fascinantes do “eterno feminino” noutras palavras, é o arquétipo do feminino.

O primeiro receptáculo da anima é a mãe, e isso faz que aos olhos do filho ela pareça dotada de algo mágico. Depois a anima será transferida para a estrela de cinema, a cantora de rádio e, sobretudo, para a mulher com quem o homem se relacione amorosamente, provocando os complicados enredamentos do amor e as decepções causadas pela impossibilidade do objeto real corresponder plenamente à imagem oriunda do inconsciente. Aliás essa transferência nem sempre se processa de modo satisfatório. A retirada da imagem da anima de seu primeiro receptáculo constitue uma etapa muito importante na evolução psíquica do homem. Se não se realiza, a anima é transposta, sob a forma da imagem da mãe, para a namorada, a espôsa ou a amante. O homem esperará que a mulher amada assuma o papel protetor de mãe, o que o leva a modos de comportamento e a exigências pueris gravemente perturbadoras das relações entre os dois.

Na primeira metade da vida a anima projeta-se de preferência no exterior, sobre seres reais, estando sempre presente nas problemáticas do amor, suas ilusões e desilusões. Mas, na segunda metade da existência, quando o jogo dessas projeções vai se esgotando, é a mulher dentro do homem, durante anos reprimida (proque no consenso coletivo um homem nunca deve permitir que o sentimento influa na sua conduta), quem penetra na sua vida sem ser chamada. O “homem forte” estará então freqüentemente amuado, tornar-se-à hipersusceptível, surgirão intempestivas mudanças de humor, explosões emocionais, caprichos. Ele perderá progresivamente o comando em sua casa.

A anima apresenta-se personificada, nos sonhos, nos contos de fada, no folclore de todos os povos, nos mitos, nas produções artísticas. As formas, belas ou horríveis, de que se reveste são numerosíssimas: seria, mãe-d’água, feiticeira, fada, ninfa, animal, súculo, deusa, mulher. O princípio feminino no homem poderá desenvolver-se, diferenciar-se, transpor estágios evolutivos.

Eis um exemplo de anima correspondente à etapa em que fortes componentes sexuais acham-se mesclados a elementos românticos e estéticos. Fala, em linguagem enfática, a jovem tocadora de cinor pintada na parede de um túmulo pagão, lugar de refúgio do monge Pafnucio quando se debatia no seu doido amor por Thais: “Para onde pensas me fugir, insensato? Tu encontrarás a minha imagem no desabrochar das flôres e no donaire das palmeiras, no vôo das pombas, nos saltos das gazelas, na fuga ondulosa dos regatos, nas dormentes claridades da lua. E, se fechares os olhos, a encontrarás em ti mesmo. (…) Conheces-me bem, Pafnucio. Por que não me reconheceste? Sou uma das inúmeras encarnações de Thais. (…) Decerto ouviste dizer que Thais viveu outrora em Esparta sob o nome de Helena. Em Tebas Hecatompila, ela teve uma outra existência. Donde vem tua surpresa? Era certo que, fôsses aonde fôsses, encontrarias Thais”. (THAIS – Anatole France, tradução brasileira de Sodré Viana).

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Exemplo de anima representativa de estágio evolutivo superior, misteriosa encarnação de espiritualidade e sabedoria, é Mona Lisa. Dmitri Merejkowski, no livro O ROMANCE DE LEONARDO DA VINCI (tradução de Breno da Silveira) teve a intuição perfeita de que a Mona Lisa era a própria alma do pintor, quando pôs na boca de um de seus discípulos, estas palavras: “a realidade parecia um sonho e o sonho, realidade, como se Mona Lisa não fosse uma criatura viva, esposa de um cidadão florentino, um certo Messer Giocondo, o mais comum dos mortais, mas um ser semelhante aos espíritos e evocado pela vontede do mestre – uma fada, sósia feminino do próprio Leonardo”.

Se o princípio feminino no homem (anima) for atentamente yomado em consideração e confrontado pelo ego, os fenômenos decorrentes de seus movimentos autônomos dissolvem-se, suas personificações desfazem-se. A anima torna-se uma função psicológica da mais alta importância. Função de relacionamento com o mundo interior, na qualidade de intermediária entre consciente e inconsciente, função de relacionamento com o mundo do exterior na qualidade de sentimento conscientemente aceito.

Do mesmo modo que o corpo de todo homem existe uma minoria de gens femininos, no corpo de cada mulher acha-se presente uma minoria de gens masculinos. Jung denomina animus à masculinidade existente no psiquismo da mulher. Esta masculinidade é inconsciente e manifesta-se, de ordinário, como intelectualidade mal diferenciada e simplista. Daí vermos freqüentemente mulheres sustentarem afirmações a priori, opiniões convencionais, que não resistem ao exame lógico mas que nem por isso deixam de ser teimosamente defendidas com argumentos acirrados. O animus opõe-se à própria essência da natureza feminina que busca, antes de tudo, relacionamento afetivo. Sua hipertrofia resultará em humor querelante, em quebra de laços de amor.

O animus condensa todas as experiências que a mulher vivenciou nos seus encontros com o homem no curso dos milênios. E é a partir desse imenso material inconsciente que é modelada a imagem do homem que a mulher procura.

O primeiro receptáculo do animus será o pai. Transfere-se depois para o mestre, para o ator de cinema, o campeão esportivo ou o leader político. Projetado sobre o homem amado, faz dele uma imagem ideal, impossível de resistir à convivência cotidiana. Vêm as decepções inevitáveis.

VONTADE DE POTÊNCIA

Ensaio de uma transmutação de todos os valores

“Sem a fé cristã”, diz Pascal, “seríeis, em face de vós mesmos, assim como a natureza e a história, um monstro e um caos.” Essa profecia cumprimo-la: depois que o século dezoito, débil e otimista, adornou e racionalizou o homem.

Schopenhauer e Pascal… Num sentido essencial, Schopenhauer é o primeiro que retoma o movimento de Pascal: um monstro e um caos, portanto algo que é preciso negar… a história, a natureza, o próprio homem!

“Nossa incapacidade em conhecer a verdade é consequência de nossa corrupção, de nossa decomposição moral”, – é assim que Pascal fala. E Schopenhauer diz, no fundo, a mesma coisa. “Quando mais profunda é a corrupção da razão, mais necessária é a doutrina da graça” – ou, para falar a língua de Schopenhauer, negação.

Friedrich Nietzsche

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As relações entre o homem e a mulher ocorrem dentro do tecido fantasmagórico produzido pela anima e pelo animus. Portanto, não é para surpreender que surjam emaranhados problemas na vida dos casais.

As personificações que o animus assume nos sonhos, contos de fada, mitos e outras produções do inconsciente variam em escala larguíssima: formas animais, selvagens, demônios, príncipes, criminosos, heóis, feiticeiros, artistas, homens brutos e homens requintados.

Do mesmo modo que a anima, o animus é susceptível de evoluir, de transformar-se. Vários contos de fada nos dizem de prícipes metamorfoseados em animais que por fim são redimidos pela heroína do conto, o que significa evolução e integração do princípio masculino na consciência da mulher.

As representações dos aspectos negativos do animus são particularmente abundantes. Vamos encontrar exemplo dos mais típicos na Bíblia, no livro de Tobias (cap. VI), onde é contada a história da jovem Sara que se casou sete vezes e matou os sete maridos na noite de núpcias, por estar possuida pelo demônio Sinaïticus. Muitas histórias medievais narram também casos e mulheres que, possuídas de demônios, entregavam-se a um erotismo desenfreado e cometiam atos destrutivos.

Extraordinária figuração do animus, na literatura, é Heathcliff personagem de O MORRO DO VENTO UIVANTE, romance de Emily Bronte (tradução brasileira de Rachel de Queiroz). Heathcliff encarna os atributos negativos do animus em toda a sua crueza: brutalidade, crueldade, capacidade destruidora. Mas Emily, que vivi em íntimo contato com as imagens do inconsciente, conhecia também outras faces do animus. É ssim que em seus poemas exalta um “anjo radiante”, um “fantasma sempre presente – meu escravo, meu companheiro, meu rei”.

O animus nos seus aspectos positivos tem funções importantes a realizar. É o mediador entre inconsciente e consciente, papel desempenhado pela anima no homem. Se atentamente cuidado e integrado pelo consciente, traz à mulher capacidade de reflexão, de auto-conhecimento e gosto pelas coisas do espírito.

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A noção da bi-sexualidade de todo ser humano, antes de ser aceita pela ciência, era já uma intuição antiquíssima. Encontramo=la, por exemplo, no mito dos Androginos, apresentado por Aristóteles no Banquete de Platão. Os androginos eram seres bi-sexuados, redondos, ágeis e tão possantes que Zeus chegou a temê-los. Para resuzir-lhes a força, dividiu-os em duas metades: masculina e feminina. Desde então cada um procura anciosamente sua metade. O homem e a mulher sofrem esse mesmo sentimento, expresso pelo mito, de serem incompletos quando sozinhos, pois a natureza do homem pressupõe a mulher e a natureza da mulher pressupõe o homem.

Quando, depois de duras lutas, desfazem-se as personificações da anima ou do animus, “o inconsciente muda de aspecto e aparece sob uma forma simbólica nova, representando o self, o núcleo mais interior da psique” (M.L. von Franz).

Surgem então, nos sonhos, as primeiras figurações desse centro profundo. Habitualmente, nos sonhos de mulheres, esse centro revela-se sob a forma de uma figura feminina superior – mulher desconhecida de quem emana autoridade e benevolência, sacerdotisa, deusa mãe ou deusa do amor. Nos sonhos de homens assume o aspecto de velho sábio, de mago, de mestre espiritual, de filósofo. Essas personificações, sejam as femininas ou as masculinas, são dotadas de grande potencial energético, causando sempre ao sonhador uma impressão duradoura de maravilhamento.

O self (si mesmo) não se revela apenas através de personificações humanas. Sendo uma grandeza que excede de muito a esfera do consciente, sua escala de expressões estende-se de uma parte ao infra-humano e de outra parte ao super-humano. Assim, seus símbolos podem apresentar-se sob aspectos minerais, vegetais, animais; como super-homens e deuses. Também sob formas abstratas. A denominação de self não cabe unicamente a esse centro profundo, mas também à totalidade da psique. O reconhecimento da própria sombra, a dissolução de complexos, liquidação de projeções, assimilação de aspectos parciais do psiquismo, a descida ao fundo dos abismos, em suma o confronto entre o consciente e inconsciente, produz um alargamento do mundo interior do qual resulta que o centro da nova personalidade, construída durante todo esse labor, não mais coincida com o ego. O centro da personalidade estabelece-se agora no self, e a força energética que este irradia englobará todo o sistema psíquico. A conseqüência será a totalização do ser, sua esferificação (abrundung).O indivíduo não estará mais fragmentado interiormente. Não se reduzirá a um pequeno ego crispado dentro de estreitos limites. Seu mundo agora abraça valores mais vastos, absorvidos do imenso patrimônio que a espécie penosamente acumulou nas suas estruturas funsamentais. Prazeres e sofrimentos serão vivenciados num nível mais alto de consciência. O homem torna-se ele mesmo, um ser completo, composto de consciente e inconsciente incluindo aspectos claros e escuros, masculinos e femininos, ordenados segundo o plano de base que lhe fôr peculiar.

Expressão por excelência da totalidade psíquica é a mandala. Mandala, palavra sânscrita, siginifica círculo, ou círculo mágico. Seu simbolismo inclui toda imagem concentricamente disposta, toda circunferência ou quadrado tendo um centro e todos os arranjos radiados ou esféricos. O centro da mandala representa o núcleo central da psique (self), núcleo que é fundamentalmente uma fonte de energia.

“A energia do ponto central manifesta-se na compulsão quase irresistível para levar o indivíduo a tornar-se aquilo que ele é, do mesmo modo que todo organismo é impulsionado a assumir a forma característica de sua natureza, sejam quais forem as circunstâncias” (Jung).

No curso do processo de individuação, em torno deste centro e em função dele, segundo tentamos descrever, vêm organizar-se os diferentes fatores psíquicos e mesmo os mais irreconciliáveis opostos. Cria-se uma ordem que “transforma o caos em cosmos”. Mas não uma ordem estática. Formação, transformação, constiturm sua essência.

Valerá a pena o árduo trabalho da individuação? Aqueles que não se diferenciam permanecem obscuramente envolvidos numa trama de projeções, confundem-se, fusionam-se com outros e deste modo são levados a agir em desacordo consigo, com plano básico inato de seu próprio ser. E é este “desarcodo consigo mesmo que constitue fundamentalmente o estado neurótico”. Prossegue Jung: “A libertação deste estado só sobreviverá quando se pode existir e agir de conformidade com aquilo que é sentido como sendo a própria verdadeira natureza”. Este sentimento será de início nebuloso e incerto mas, à medida que evolue o processo de individuação, fortalece-se e afirma-se claramente. Então o homem poderá dizer, ainda em meio a dificuldades externas e internas, ainda reconhecendo que nenhuma carga é tão pesada quanto suportar a si mesmo: “Tal como sou assim eu ajo”.

Foram as próprias experiências internas de Jung que o levaram à descoberta do processo de individuação, segundo ele narra em suas Memórias. Viveu-se intensamente em todas as suas fases e, paralelamente, observava que o curso de desenvolvimento da personalidade de seus analisados seguia roteiro semelhante, sempre progredindo em diração  a um centro, a um núcleo energético que se revelava existente no fundo mais íntimo da psique.

O processo de individuação é o eixo da psicologia jungueana.

Será discernido nos sonhos, contos de fada, mitos, no opus alquímico, em suma nas mais diversas produções do inconsciente, percebendo-se em primeiro plano ora esta ora aquela etapa do processo

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Fontepesquisada:(Nise da Silveira – JUNG VIDA E OBRA , José Alvaro Editor S.A., 1968)

POSTED BY SELETINOF 1:59 AM 

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Sobre seletynof

Escola (ensino médio):Colégio Marista Cearense;Faculdade/Universidade: Universidade Federal do Ceará;Curso:Física; Diploma:Pós-Graduação em Física;Profissão:físico e professor; Setor:Científico.

Publicado em 24 de janeiro de 2008, em PSICOLOGIAFILOSOFIA. Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. Para se analisar a psique,,,,primeiro temos que redefinir o ego…ainda estudamos Jung para isso, mas na verdade ele desconehcia uma ferramenta antiga chamada de eneagrama `Os nove pontos de fixação do ego`, que tem uma incrível ligação com a Mitologia, `Musas e Graças`. Neste estudo é representado geométricamente a dinâmica do ego em sua expansão harmônica com o cosmo.`O indivíduo`O homem individualízasse apenas para que possa integrar-se e eassim alcançar a eternidade.Leila Aza integração e harmonia…o sincronismo com as esferas….nos é possível através da análise das correspondências geométricas da correlação do trânsito de energias estelares…assim a luz caminha incide…se curva…se associa e se amplifica ou passa para outra dimensão… a da matéria ou antimatéria.Hoje podemos compreender melhor embora não consigamos ainda definir em palavras a consciência….por isso dualizamos este conceito, o que sabemos quando uma pessoa toma consciência …apreende, descobre…se torna conscio de algo….esta energia será atribuida ao planeta e caminhará como uma gotinha num lago até que todos a despertem dentro de si.Assim a verdade caminha e a sabedoria é suprema.Criamos muitas regras para a ascenção do conhecimento, mas esquecemos que o próprio conhecimento já tem as suas regras….a cabala tb nos mostra isto…na árvore da vida, antes vem a sabedoria que nos toca como um raio pra depois nos deixar uma ínfima noção decodificada da verdade absoluta, como se segurássemos o rabo do cometa….rssss também 10% de utilização do cérebro….quem se arrisca a usar mais?….´O sentimento da razão`Sentindo a emoçãoNo bate-bate do seu coraçãoVeja a vida se abrindo como a florÉ o feitiço do amorTransformando um mundo novo de violência e solidãoQue quase sempre fecha os olhos e os ouvidos pra razãoMas a justiça não é cega nãoPor isso Canta o seu coraçãoSentindo a emoção no bate-bate do seu coração….Veja os homens escondidos numa casca de doutorQue não brilham na coragem, no sorriso e no amorMe diga aí…quem é o sábio, irmão?Pra responder ouça o seu coraçãoSentindo a emoção…..Segue o homem iludido procurando o poderBusca a fama e o dinheiro e si esquece de viverMas na verdade o que ele quer não temPois esta HISTÓRIA só acaba bem….Sentindo a emoção no bate-bate do seu coraçãoVeja a vida se abrindo como a florÉ o feitiço do amor!Leila Dan

  2. Prossegue
    Jung: “A libertação deste estado só sobreviverá quando se pode existir
    e agir de conformidade com aquilo que é sentido como sendo a própria
    verdadeira natureza”. Este sentimento será de início nebuloso e incerto
    mas, à medida que evolue o processo de individuação, fortalece-se e
    afirma-se claramente. Então o homem poderá dizer, ainda em meio a
    dificuldades externas e internas, ainda reconhecendo que nenhuma carga
    é tão pesada quanto suportar a si mesmo: “Tal como sou assim eu ajo”.Bom…Jung chegou a um velho ensinamento índio…e precisou estudar tanto….era um buscador…assim este ensinamento lhe foi despertado…Leia este ensinamento:http://www.orkut.com/AlbumZoom.aspx?uid=13780181461707752251&pid=13&aid

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