A GALÁXIA DE GUTENBERG II

           

 

A GALÁXIA DE GUTENBERG E A DE MARSHALL MCLUHAN

 

O impresso ao surgir, isolando o aspecto visual da palavra, provocou algo de estranho, senão de fantástico. Pareceu criar uma crônica hipocrisia, uma ruptura entre a cabeça e o coração, entre o espírito e o sentimento. Esta ruptura entre a cabeça e o coração, que produziu a palavra impressa, é o traumatismo de que sofre a Europa desde Maquiavel até o presente. É interessante ver como um irlandês e um inglês descrevem essa ruptura alguns duzentos anos mais tarde, no fim do século dezoito. Temos, primeiro, os comentários de um celta sentimental, Edmund Burke, sobre o espírito de cálculo e de inventário, que vamos encontrar em suas Reflections on the Revolution in France (Reflexões sobre a Revolução Francesa):

Faz agora dezesseis ou dezessete anos que vi a rainha da França, então a delfina, em Versalhes; e seguramente jamais apareceu sobre a terra, que ela mal parecia tocar, visão mais deliciosa. Vi-a justamente no momento em que se elevava no horizonte do firmamento, onde se iria mover e do qual se iria constituir o ornamento e a alegria: Brilhando qual estrela d’alva, cheia de vida, de esplendor e de felicidade. Oh! Que revolução! E que coração preciso ter para contemplar sem emoção aquela ascensão e aquela queda! Que longe estava eu de sonhar, ao v~e-la reunindo aos títulos e à veneração o direito ao amor entusiasta, discreto e respeitoso, que jamais lhe fõsse preciso trazer, oculto no seio, poderoso antídoto contra o opróbrio e a desgraça; que longe estava de imaginar que haveria eu de viver para presenciar os desastres que desabaram sobre ela numa nação de homens galantes, numa nação de homens de honra e de cavaleiros. Julgara que dez mil espadas saltariam de suas bainhas para vingar até mesmo um plhar que a ameaçasse co insulto. Mas a idade do cavaleiro já havia desaparecido. A ela sucedera a dos sofistas, economistas e calculistas; e a glória da Europa extinguiu-se para sempre. Nunca, nunca jamais haveremos de rever aquela generosa lealdade à posição e ao sexo, aquela submissão altiva, aquela obdiência digna, aquela subordinação do coração, as quais guardavam vivazes, mesmo na própria servidão, o espírito e a paixão da liberdade. Essa graça inestimável da existência, essa salvaguarda espontânea das nações, essa seiva de coragem no sentimento e do heroísmo na ação, tudo desaparecera! Desaparecera aquela sensibilidade de princípios, aquela caridade da honra, que se ressentia de uma mancha como de uma ferida, que inspirava a coragem ao tempo que mitigava a ferocidade, que enobrecia tudo que tocava, e sob a qual o próprio vício perdia metade de seu mal, perdendo toda a sua grosseria.

 

A mente maquiavélica e a mentalidade comercial – escreve – estão juntas na sua fé ingênua na fôrça da divisão segmental para dominar tudo – na dicotomia entre poder e moral e entre dinheiro e a moral.”

A linguagem do numero precisou ser aumentada para satisfazer às necessidades criadas pela nova tecnologia de letras e a conseqüência foi o grande divórcio entre a arte e ciência, a partir do século XVI, com os processos acelerados do cálculo. Aretino, Rabelais e Cervantes proclamaram o significado da tipografia como – gargantuesco, fantástico, super-humano. (Dom Quixote seria a oposição cervantina ao homem tipográfico). A própria arte se desintegrava diante do prelo, confundido por todos (menos por Shakespeare, ressalva McLuhan) com um mecanismo de imortalidade: o divorcio entre poesia e música refletiu-se primeiro na página impressa; a polifonia oral da prosa feria o decoro linear literário (…).

 

“O pensamento maquiavélico e a mentalidade comercial estão unidos na mesma fé de carvoeiro no poder absoluto da segmentação. Dividir para reinar, o primeiro pela dicotomia do poder e da moralidade, a segunda pela dicotomia do dinheiro e da moralidade”

 

Mas a “blitz” da tipografia continuava: Marlowe antecipa “o alarido bárbaro de Whitman”, estabelecendo um sistema de apêlo publico nacional em versos brancos – “ um nascente sistema jâmbico de som para satisfazer a nova históriade-sucesso.” A imprensa eliminava o grego e o latim, línguas universalmente faladas, convertia os vernáculos (idiomas nacionais de cada país) em veículos de comunicação de sistemas fechados, e estendia o seu caráter à regulamentação e fixação dêsses vernáculos. Não apenas alternava a ortografia e a gramática, mas igualmente a acentuação e a inflexão das línguas, tornado assim possível a “má gramática”. A nivelação da inflexão e do trocadilho tornou-se parte do programa do conhecimento aplicado no século XVII. Nas sociedades não alfabetizadas, ninguém jamais cometeu erros gramaticais.

 

Os “sistemas fechados” da linguagem tipográfica dão origem às fôrças uniformes e centralizantes do nacionalismo moderno, ao mesmo tempo que a probabilidade do livro, “como a do cavalete do pintor”, contribui muito para o novo culto do individualismo. Em razão da uniformidade e reprodução da imprensa, surgem a aritmética política do século XVII e o cálculo hedonístico do século XVIII.

Os historiadores, embora conscientes do surgimento do nacionalismo no século XVI, até agora não têm explicação para a paixão que precedeu à teoria. No entretanto, o nacionalismo insiste na paridade de direitos entre os indivíduos e entre as nações igualmente: os exércitos de cidadãos de Cromwell e Napoleão são a manifestação ideal da nova tecnologia. A imprensa cria a uniformidade nacional e o centralismo governamental, mas também o individualismo e a oposição ao governo como tal.

  

DISSOLUÇÃO E RECONFIGURAÇÃO

Esse tipo de balê mental coreografado por Gutenberg por meio do isolamento do sentido visual é quase tão filosófico quanto a suposição de Kant, de ser a priori o espaço euclidiano. É que o alfabeto e outras invenções da mesma natureza há muito servem ao homem como fontes subliminares de postulados filosóficos e religiosos. Parece estar Martin Heidegger por certo, em terreno sólido, ao tomar a totalidade da própria linguagem como o datum filosófico. Com efeito, na língua, pelo menos nos períodos do analfabetismo, é que se encontra o devido equilíbrio e harmonia entre todos os sentidos. Isto, porém, não é recomendar a analfabetização, do mesmo modo que não constituem julgamento contra a alfabetização os usos que se fizeram da palavra impressa. Na realidade Heidgger parece ignorar completamente o papel da tecnologia eletrônica em promover o seu próprio modo de ver a linguagem e a filosofia como fenômeno global “não-letrado”. Entusiasmo pelo excelente saber lingüistico de Heidegger poderia entretanto, facilmente ser provocado por simples e ingênua imersão no organicismo metafísico de nosso ambiente eletrõnico. Se o mecanicismo de Descartes se afigura insignificante hoje, talvez seja pelos mesmos motivos subliminares que pareceu resplandecente em seu próprio tempo. Nesse sentido, todas as modas revelam certa espécie de sonambulismo e constituem meio de nos orientarmos criticamente quanto aos efeitos psíquicos da tecnologia. Talvez esteja aí um dos meios de esclarecer aqueles que acabam, afinal, por perguntar: “Mas será que não existe nada de bom com respeito mao texto impresso?” O tema deste livro não é de que não haja nada de bom ou ruim com respeito à palavra impressa, mas, sim, o de que a inconsciência do efeito de qualquer força constitui um desastre, especialmente quando se trata de força que nós mesmo criamos. É muito fácil comprovar os feitos universais da palavra impressa no pensamento ocidental depois do século dezesseis, bastando para isso o simples exame dos desenvolvimentos por certo extraordinários em qualquer arte ou qualquer ciência. A linearidade fragmentada e homogênea, que aparece como descoberta nos séculos dezesseis e dezessete, torna-se a novidade popular ou a moda utilitária dos séculos dezoito e dezenove. Quer dizer, o mecaniasmo persiste como “novidade” na idade eletrônica que começou com homens como Faraday. Alguns talvez sintam que a vida seja demasiado valiosa e deliciosa para ser despeediçada nesse automatismo arbitrário e involuntário.

Não sobrevindo alguma catástrofe, a alfabetização e a predominância visual poderiam subsistir e manter-se por longo tempo, resistindo à eletricidade e à percepção global do “campo unificado”. Mas, também se poderá dar o inverso. Os alemães e os japoneses, conquanto muito adinatados na tecnologia letratada e analítica, retiveram o âmago da unidade tribal auditiva e da total conjunção. O advento do rádio e da eletricidade em geral constituiu, não só para eles, como para todas as culturas tribais, a mais intensa experiência. As culturas há muito alfabetizadas oferecem naturalmente mais resistência à dinâmica auditiva do total campo elétrico da cultura de nosso tempo. 

Tais foram, segundo McLuhan, as implicações da popularização da tipografia que, entretanto, não poderiam escapar àquelas funções latentes (efeitos não pretendidos) de que nos fala ROBERT K. MERTON e que se interessem em qualquer atividade social.

MERTEON, Robert K. Teoría y estructura sociales. México-Buenos Ayres, Fondo de Cultura Económica, 1965, 2. ed).

A redução das qualidades palpáveis da vida e da língua constituem, com tipografia, aquêle refinamento buscado na Renascença e que, agora, na era eletrônica, está sendo repudiado. O novo sentido de tempo do homem tipográfico é cinemático, seriado e pictórico. A desnudação da vida consciente e a sua redução a um mínimo singelo, imposto pela arte niveladora da tipografia, cria o mundo novo do inconsciente no século XVII. O palco fora expungido dos arquétipos ou atitudes da mente individual e está pronto para os arquétipos do inconsciente coletivo.

A tipografia – acentúa McLuhan – rompera as vozes do silêncio. Tanto a filosofia quanto a ciência tinham aceito os pressupostos ou dinâmica da tipografia: Heidgger cavalgou a vaga elétrica tão triunfalmente como Descartes o fez com a onda mecânica.

Teoricamente, a galáxia de Gutenberg é dissolvida em 1905, com a descoberta do espaço curvo, mas na prática tinha sido invadida pelo telégrafo, duas gerações antes. Poppe denuncia o livro impresso como fator de uma restauração primitivista e romântica. A pura quantidade visual evoca a ressonância mágica da horda primitiva. O novo consciente primitivo é por êle visto como respingos acumulados da auto-expressão individual: a fôrça metamórfica do conhecimento aplicado é, por êle, apontada como uma paródia da Eucaristia.

“A galáxia de Gutenberg dissolveu-se teoricamente em 1905 com a descoberta da curvatura do espaço, mas na prática foi invadida pelo telégrafo duas gerações antes disso”

  

No nosso século, a Galáxia está reconfigurada: o homem-massa enfrentase com uma sociedade individualista que, entretanto, contém em sua tecnologia da comunicação os elementos básicos da sua própria e radical mutação: os meios eletrônicos que produzirão cultura, expressão artística, política e padrões filosóficos inteiramente diversos. Com a TV, em breve, o mundo não será mais do que uma aldeia ou um vasto campo cheio de sucata. Embora a imprensa, como tal, ainda possa durar algum tempo, será absorvida. A reação dos intelectuais aos meios de comunicação será idêntica à que valorizou o até então desprezado romance, quando surgiu o cinema, e considerou o cinema como uma forma de arte, quando veio a televisão, não hesitando em admitir a morte e o sepultamento do romance (…).

 

“A crescente separação da faculdade visual da interação com outros sentidos leva à rejeição, por parte da consciência, da maior parte de nossas experiências e à conseqüente hipertrofia do inconsciente”

 

Essa posição dos intelectuais é que McLuhan vem atacando rudemente como incompreensão do momento histórico que vivem. Todos temos obrigação de conhecer os fatos sociais do nosso tempo, o ambiente e a tecnologia que nos envolvem, a fim de que possamos controlar a evolução, em favor da cotização do conhecimento, que os meios de comunicação proporcionam. Por isso, devemos fazer como aquele marinheiro de “The Descent into the Maelstrom”, de Poe, que se salva do naufrágio porque conhece bem os sinais da tormenta e o movimento dos redemoinhos.

 

Um físico moderno, com seu hábito de percepção de “campo” e seu sofisticado afastamento de nossos hábitos convencionais de espaço newtoniano, facilmente encontra no mundo pré-alfabetizado um tipo congenial de compreensão e saber.

Heisenberg chamando a atenção para o valor da ciência como elemento do intercurso entre o homem e a natureza, nos mostra que as modificações de grandes conseqüências em nosso ambiente e em nosso modo de vida, causadas pela idade da tecnologia, alteram perigosamente nosso modo de pensar e geram as crises que tanto tem abalado nossos tempos.  

Mas talvez o valor real da história está em que impressionou Heisenberg. Não teria interessado a Newton. A física moderna não só abandona o espaço visual e especializado de Descartes e newton, como volta a entrar no espaço auditivo e sutil do mundo não-alfabetizado. E na sociedade mai primitiva, como na idade atual, tal espaço auditivo é um campo total de relações simultâneas, em que “mudança” tem tão pouca significação e atração quanto tinha para o espírito de Shakespeare ou para o coração de Cervantes. Independente de toda questão de valores, o que temos de aprender hoje é que nossa tecnologia elétrica tem conseqüências para nossas percepções e hábitos de ação mais comuns e que tais conseqüências estão recriando rapidamente em nós os processos mentais dos homens mais primitivos. Elas não afetam propriamente nosso pensamnetos e ações, matéria em que estamos treinados para ser críticos, mas afetam nosso mais comum senso de vida, o qual cria os vértices e as matrizes de pensamento e ação. Este livro procurará explicar porque a cultura tipográfica da palavra impressa confere ao homem uma linguagem de pensamento que o deixa completamente desarmado para enfrentar a linguagem de ua própria tecnologia eletromagnética. A estratégia a que qualquer cultura deve recorrer num período como esse foi indicada por Wilhelm von Humboldt:

Com os seus objetos vive o homem principalmente – de fato, visto que seu sentimento e sua atuação dependem de suas percepções, pode-se dizer exclusivamente – como a linguagem os traduz e a ele os apresenta. Pelo mesmo processo com que tira de si mesmo o fio para tecer a linguagem, o homem nela se aprisiona; e cada língua traça um círculo mágico em torno do povo ao qual pertence, círculo do qual nenhum homem pode escapar, salvo saindo dele para entrar noutro.

Fontepesquisada:(http://www2.metodista.br/unesco/luizbeltrao/luizbeltrao.htm); (McLUAN, M. A Galáxia de Gutenberg. São Paulo: Companhia Editorial Nacional, 1967).

 

 

 

POSTED BY SELETINOF 11:00 AM

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Sobre seletynof

Escola (ensino médio):Colégio Marista Cearense;Faculdade/Universidade: Universidade Federal do Ceará;Curso:Física; Diploma:Pós-Graduação em Física;Profissão:físico e professor; Setor:Científico.

Publicado em 31 de dezembro de 2007, em EPISTEMOLOGIA. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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