LACAN E O DESEJO DO DESEJO DE KOJÈVE – III

     

O Real de Kojève

 

Subsumir o sensível em conceitos equivale, para Kojève, a um “assassinato”.27 Ao reverberar seu mestre, Lacan acrescenta que este assassinato constitui no sujeito a “eternização do seu desejo”: a simbolização é a morte da coisa.28 O raciocínio se explica pelo pressuposto de que a linguagem não é somente uma interposição de limite, mas também a indicação de que permanece no corte um resto inefável. Não se trata apenas de excluir, mas de constituir uma diferença de potencial, uma tensão irrevogável.

 

26. Cf. KOJÈVE,A. 1947, pp. 14ss.

27. Idem, pp. 372ss. Devo esta idéia da convergência da teoria da linguagem de Lacan com a idéia de “assassinato”, de Kojève, à Lea Silveira Sales, doutoranda do Dept. de Filosofia da UFSCar.

28. LACAN, J. 1966b, p. 319.

 

A expressão, portanto, promete e não cumpre, não diz tudo o que deveria. Esta eterna inconformidade entre o ser e o não-ser, em Kojève, instaura e mobiliza a História; em Lacan corresponde ao nascimento do desejo. A limitação da linguagem não é somente um limite, além do qual nada existe. O fato é que a parte anulada pela linguagem, o resto inefável não subsumido no conceito, cobra da linguagem o seu lugar, e a dinâmica dizer/mostrar perpetua o movimento de falha e reconstrução simbólica como luta pelo puro prestígio. O resto não subsumido no conceito, a parte do sensível não caracterizada como essencial pela compreensão, é anulada, e o sentido, que sobrevive no presente como palavra, torna-se petrificado e morto. A palavra “cão”, abstraída do cão empírico, real, sobrevive pela anulação da sua temporalidade e existência. Mas a “palavra ‘cão’ não corre, não bebe e não come; nela o Sentido (a Essência) cessa de viver; isto é, ela morre.”29 Se fôssemos todos eternos, imortais como os trogloditas do conto de Borges,30 não necessitaríamos de palavras, pois o cão real, vivente e bricalhão bastaria por si mesmo. Os trogloditas imortais nada dizem, não falam por absoluta falta de necessidade de veicular sentidos, já que, do ponto de vista da eternidade, não apenas aquele cão, mas todos os cães do mundo seriam conhecidos por todos no decorrer da existência infinita. A linguagem, entretanto, por pertencer aos mortais e estar mergulhada no tempo, mata o cão real para fabricar sentidos e fazê-lo permanecer como morto. Lança-nos, assim, na assimetria e no inconformismo entre o sentido e a existência. É por este motivo que o Real de Lacan é a lembrança da impossibilidade da relação sexual e ao mesmo tempo a marca da inexistência d’A mulher. Para Lacan, não existe “A mulher, com o artigo definido para designar o universal”.31 Por isto, o Real se inscreve como o gozo interditado, roubado não apenas pelo pai vivo, mas, sobretudo, pelo seu assassinato. A morte do pai, aquisição do simbólico, nos separa definitivamente da existência real e impede a realização sensível do gozo. Não podemos escapar, não somos imortais, não temos a linguagem de Tzinacán. O pai morto faz com que o real “não cesse de não se escrever”. 

Na concepção kojeviana, tal como em Lacan, o “real” é absorvido somente como “impasse” ou “impossibilidade” operativos. A premissa de inseparabilidade entre o subjetivo e o objetivo, adiconado ao raciocínio de que é pela negatividade que se apreende o concreto, transformam o Espírito Absoluto hegeliano em sinônimo de Real. O Real é o que existe do Ser que meramente é:

A estrutura do pensamento é portanto determinada pela estrutura do Ser que ele revela. Se o pensamento “lógico” tem três aspectos, se ele é, dito de outra forma, dialético (no sentido amplo), ele o é unicamente porque o próprio Ser é dialético (no sentido amplo), pelo fato de implicar um “elemento-constitutivo” ou  um “aspecto” negativo ou negador (dialético no sentido estreito e forte do termo). O pensamento é dialético na medida em que revela corretamente a dialética do Ser que é e do Real que existe. 32   

 

29. KOJÈVE,A. 1947, p.373.

30. No conto de Borges, “El inmortal”, a imortalidade revela-se como a mais trivial das existências. Cf. BORGES,J.L.,1971, pp. 7-31.

31. LACAN,J. 1975c, lição de 20/02/1973, p. 93.


 

Pela epistemologia de Kojève, o equívoco da ciência ao tratar do real, é, precisamente, “fazer abstração do sujeito”.33 Mas para o Sábio, aberto ao acontecimento do Real no discurso – e do discurso no Real – , a experiência não se reporta nem a um nem a outro, apanhados isoladamente; é só a unidade indissolúvel dos contraditórios que torna possível a sua percepção. O Real seria, portanto, aquilo que na realidade concreta ultrapassa a identidade do ser. Ele se confunde com a extrapolação, projeta-se sobre a totalidade das possibilidades de identidade, é muito maior do que a fixação de apenas um momento na continuidade do devir. Em vista do Real, a identidade entre o ser e o mesmo, o A = A da tautologia, a forma própria do entendimento científico, segundo Kojève, simplesmente não existe.34 As operações do entendimento só apreendem uma parcela desse Real, porém, do ponto de vista da totalidade do ser no devir histórico, a fórmula verdadeira deve ser lida como A _ A. Para além da identidade percebida pelo entendimento, a Razão revela os elementos negadores das transformações históricas no contínuo espaço-temporal do universo: o Real vem a ser, frente ao ser, ele mesmo e o seu resto negativizante. Neste sentido, o erro tampouco importa como coisa em si mesma, o erro é também parte integrante da totalidade, ele pode até revelar-se no futuro como “verdade”: “O homem pode, portanto, transformar um crime em virtude, um erro moral ou antropológico em uma verdade.”35

   

Toda filosofia não é senão verdadeira e falsa ao mesmo tempo, isto é, uma dialética que absorve o falso e o verdadeiro, a subjetividade e o objetivo, tragando e superando os contrapostos nas transformações do curso histórico. E mesmo o irracional, diante da totalidade, nada é senão um momento do devir concreto, alguns segundos de desrazão nos milhões de anos de soberania concreta da História. Tomado pela perspectiva da totalidade, o “Real é racional”. Ou, se queremos, o mesmo “mundo indistinto”, ou a “impossibilidade” ou o vazio causal. Com efeito, Lacan concebe a sua lógica do Real como lógica dos impasses da lógica:

 

O importante, o que constitui o Real, é que pela lógica ocorre algo que demonstra não que p e não-p são ao mesmo tempo falsos, senão que nem um nem outro podem ser verificados logicamente de nenhuma maneira. (…) Esse é o Real, tal como nos é permitido definir na lógica, e a lógica só nos permite defini-lo se somos capazes, com relação a essa refutação de um e de outro, de inventá-la. 36

 

32. KOJÈVE,A. 1947, p. 448.

33. Idem, pp. 454-455. Este pensamento servirá depois para Lacan justificar a separação entre o “discurso da Universidade” e o “discurso do Analista”, ao reivindicar que a psicanálise é a única teoria que leva em conta o “sujeito”. Cf. LACAN,J. 1991, pp. 44ss.

34. KOJÈVE,A.1947, p. 478; cf. tb. pp. 471ss.

35. Idem, p. 465.

 

O Real é pensado por Kojève não apenas na modalidade de uma projeção que excede os limites do pensável, senão também como um apenso da descontinuidade na serenidade do ser. Em outras palavras, o Real não é só transbordamento, mas também uma ação no interior da fixidez do sentido, como uma fenda do negativo no coração das crenças, ou como a invasão do movimento nas convicções ilusórias ou na fixidez dos sentidos. O Real é uma espécie de “laceração” entre o ser humano e a natureza que sobrevive e perdura latente no Discurso. Esta divisão é, na verdade, o que dá origem à Razão; esta também é uma descontinuidade que, em dimensão microscópica, é lida como “negatividade”. Esse motor de propulsão da História vem a ser, no fim dos tempos, o próprio Espírito.37 O Real situa-se, portanto, para este pensador, também como a forma negativa do ser, e a sua contraparte no processo dialético de totalização da história pela via da negatividade. Bastaria, para devolver Lacan a Kojève, imaginar o seu “Real” no contexto do trabalho humano visto pela janela da antecipação da totalidade, ou do conjunto da história a partir do seu final. Não como a extensão para além do simbólico da limitação que o próprio simbólico instaura na margem da sua finitude, ou como “furo” na possibilidade imaginária de expressão da cultura. Em Lacan, o Real é um outro registro ou modalidade da linguagem. E, deveras, a idéia de que “tudo o que é Real é racional” aparece desde cedo neste autor como o protótipo do que viria a seguir no desenvolvimento do seu próprio estilo de fazer teoria.38

 

A Negatividade Explicativa

 

Se a linguagem é a apresentação da coisa morta, não é parte da sua função precípua a referência. A linguagem remete, por este motivo, somente a si mesma. A linguagem castra e mente. O desejo é a presença desta ausência,39 da “coisa” castrada sobrevivendo na demanda como ilusão. Ao definir o ser humano como “desejo de desejo”, Kojève instituiu uma epistemologia consequente com a sua tese de inseparabilidade entre sujeito e objeto, ou entre ser e mundo. O desejo negativizado assume as vezes de “causa eficiente” do movimento histórico, pois separa-se do ser humano que, por outra parte, define. A negatividade torna-se um terceiro termo, uma realidade última mediante a qual explicam-se os fatos. O desejo associado ao Nada já não é mais o desejo de alguém, como o de Maria, Pedro ou João. Entretanto, tampouco pode-se dizer que se trata de um princípio abstrato, um conceito que subsume universalmente as características essenciais do empírico ou do sensível. O “desejo do desejo do outro” passa a cumprir o papel de um princípio fundamental da ontologia negativa da mesma forma que uma “proposição gramatical” que ordena a realidade e institui os limites da  possibilidade e do sentido, de maneira inseparável da própria realidade empírica que ordena. Kojève promove uma metafísica operacional como critério de interpretação dos fatos, cria fios argumentativos que tecem uma descrição possível e coerente do comportamento humano como, isto sim, atitude de pessoas concretas. Temos, assim, a proposição de uma hipótese que é simultaneamente o estabelecimento de um princípio gerador e organizador que abraça o comportamento como um sintoma da sua presença invisível, e que, por sua vez, está excluído das regras que ele mesmo organiza.

 

 

36. LACAN, J. 1974, lição de 19/02/1974.

37. KOJÈVE, A., p. 549.

38. Cf. LACAN, J., 1966b, p. 310.

39. “O desejo é a presença da ausência, ele não é uma realidade empírica, não existe de uma maneira positiva no presente natural. Ele é… como uma lacuna ou um “furo” no Espaço: – um vazio, um nada.” KOJÈVE, A., p.368.


 

O Interesse de Lacan por Kojève

 

Por que teria Lacan assimilado de maneira tão orgânica o kojevismo? Por que mimetizou de tal maneira a sua teoria que chegou ao ponto de, também ele, ter-se transformado num pregador de seminários? Sabemos que a grande ambição de Lacan sempre foi a de constituir uma ciência da subjetividade. Nas suas primeiras formulações teóricas este ideal aparece consignado na criação do conceito de “personalidade paranóica”, que pretendia ser a figuração de uma nova forma de fazer teoria psicológica. Desde então, Lacan já recusava tanto as reduções organicistas da psiquiatria quanto as abordagens tipicamente compreensivas do fenômeno mental, buscando uma “terceira via” de cientificidade possível para os fenômenos psicológicos. O ideal é que esta forma teórica pudesse tornar os fatores indeterminados das teorias compreensivas em fontes de determinação, ao modo da explicação causal. Esta terceira via foi erigida nos moldes politzerianos. Se Lacan incorporou posteriormente a negatividade kojeviana do desejo, foi também porque aquela proposta sintetizava muito bem a bandeira da “filosofia concreta”. Mas, além disso, acresce o fato de que o “desejo do desejo do outro” é uma proposição teórica mais simples e com maior poder explicativo. Ela poderia englobar também a “paranóia de autopunição”.

 

Numa época em que toda a vanguarda parisiense inconformista e atuante da década de 30 respirava o ar do vers le concret, título de um livro de Jean Wahl publicado em 1932,40 que abrigava sob essa etiqueta tanto a “infelicidade da consciência”,41 de inspiração hegeliana, quanto uma espécie de existencialismo interpretado pela via kierkegaardiana,42 pelo lado da psicanálise, o livro de Politzer, Crítica dos fundamentos da psicologia,43 de 1928, se somava a essa atmosfera propondo uma teoria do comportamento humano livre dos postulados da vida interior do ser humano, com inspiração apenas nos aspectos pragmáticos da psicanálise freudiana.  

 

40. Cf. WAHL,J., 1932.

41. Cf. WAHL,J., 1929.

42. Cf. ARANTES,P., 1991, p.73.

43. Cf. POLITZER, G. 1998. 


A crítica politzeriana do que denominava como “psicologia abstrata” tornou-se o primeiro modelo teórico de Lacan. Os “aspectos pragmáticos”, no caso de Politzer, significavam a redução do fato psicológico não ao realismo empírico dos objetos mentais, tal como se a psicologia pudesse ser a física da interioridade, tal como se ela pudesse referir-se ao fato psicológico em terceira pessoa, mas somente à primeira pessoa do singular do sujeito da vida dramática, isto é, ao sentido ou significado que ele poderia ser atribuído ao conjunto da sua particularidade vivencial.

     

A ‘transformação’ própria da psicologia seria precisamente a que considera em ‘primeira pessoa’ todos os fatos com que essa ciência possa ocupar-se, mas de tal maneira que, para todo o ser e para toda significação dos fatos, a hipótese de uma primeira pessoa fosse constantemente indispensável. 44

Em vez de buscar o fato psicológico em supostos objetos mentais depositados na profundidade interna do indivíduo, isto é, em objetos mentais guardados na memória que seriam eficazes independentemente da consciência da pessoa e das suas relações sociais, dever-se-ia localizá-lo na superfície exterior dos sentidos e na ação dramática vivenciada pelo sujeito na sua fala, comportamentos e relato de sonhos. Em outras palavras, a convencionalidade e anterioridade do sentido seriam trocados pelo sentido do relato como ação no presente, e a interioridade do fato psicológico pelos atos dramáticos à luz da totalidade histórica do sujeito concreto.45 Para Politzer, a psicologia abstrata, representada em seu livro pelos ideais científicos sustentados pelo behaviorismo, pela Gestalt e pela psicanálise, não era muito mais do que uma renitente e patética demonstração de auto-engano combinada com fracasso metodológico. As formulações teóricas da psicologia abstrata (behaviorismo, Gestalt e psicanálise) modelavam-se, sustentava o autor, pela ciência natural. Ela também constituia seus objetos pelo recurso ao abstracionismo, ao formalismo e ao realismo. Procurando ser coerente com a crítica kantiana à psicologia racional e à psicologia empírica como ciência, Politzer pensava que o fato psicológico não poderia reduzir-se ao “realismo”, isto é, utilizar-se dos métodos apropriados a objetos que se encontram fora de nós, no espaço, tal como na física, na química e na biologia.

 

Para poder legitimar-se como ciência dos fatos do eu, pela sua proposta a psicologia se referiria, dali em diante, apenas à sucinta e concisa categoria de “drama”. Pelo drama, não é mais o eu que guarda o tesouro da significação dramática, o fato psicológico não está na interioridade. Mas é o drama, no sentido pessoal, que guarda o sentido do eu. O concreto seria então os fatos que se relacionam e se implicam com o “eu” do sujeito e os seus conflitos existenciais. Os  elementos explicativos em terceira pessoa, as assim chamadas abstrações, pertenceriam a uma forma de psicologia contrária à concreta, a psicologia abstrata, que tentaria legitimar-se à guisa de ciência natural.  

 

44. Idem, pp. 62-63.

45. Cf. GABBI Jr.,O. 1998, pp. VI a XIV.

 

Reparemos bem: a intenção real de Politzer não era tanto a de retirar a roupagem científica da psicologia, mas a de propor-lhe uma outra forma de ser ciência. Uma transformação da abordagem dos fatos psicológicos do abstrato para o concreto, para dotar a psicologia de um objeto especialmente adequado. Agora não mais pelos parâmetros possíveis para as ciências naturais, mas sim pela maneira pessoal de abordagem dos fatos. Dessa vez, já não mais como uma ciência do geral e do abstrato, de causalidades universais ou “impessoais”,46 como uma ciência que necessariamente supõe que os seus dados de observação têm existência real como qualquer outra substância presente no mundo sensível, ou, pelo menos, em analogia com elas. Já não mais como aquela que se vale de um método de introspecção para investigar a vida interior do indivíduo e tem por hábito destacar o sonho da pessoa que o sonhou em busca de determinantes ou concomitantes de processos psicológicos, porém como uma ciência de causalidades particulares ou “secundárias”,47 no mesmo plano da singularidade do indivíduo, atendo-se apenas e unicamente a cada subjetividade particular. Uma ciência que, embora sem valor universal, aplicar-se-ia, no entender de Politzer, “à média dos indivíduos, e a todos para certos sonhos”,48 uma descrição empírica do drama baseada em induções não-gerais que partem sempre do individual concreto. Para este pensador, a psicologia concreta cumpriria perfeitamente as condições de existência de uma psicologia que se quer positiva. São três:49

 

        (a) ser uma ciência a posteriori, quer dizer, o estudo adequado de um grupo de fatos;

        (b) ser original, isto é, estudar fatos irredutíveis aos objetos das outras ciências;

        (c) ser objetiva, em outros termos, definir o fato e o método psicológicos de tal forma que sejam universalmente acessíveis e verificáveis.

 

É certo que Lacan atendeu graciosamente às proposições da psicologia concreta. Isso se revela não somente nas “conclusões dogmáticas” da tese de 32 sobre o “caso Aimée”,50 mas igualmente na forma como este pensador da psicanálise dessubstancializa a metapsicologia freudiana e a envolve caracteristicamente nas malhas da estrutura de sentidos dos dramas do sujeito particular: “Nós entendemos por compreender, dar sentido humano às condutas que observamos nos nossos pacientes, aos fenômenos mentais que nos apresentam.” 51

     

No trabalho sobre A psicose paranóica, Lacan pretende afastar-se das hipóteses exclusivamente constitutivas, reativas e organicistas das causas desta doença mental, e propor uma modalidade de ciência possível para a psiquiatria. A psicose não decorre precisamente de determinações inatas ou de fatores elementares e abstratos, mas ela deve ser apreendida em sua totalidade, nas relações significativas que fundam o assentimento da comunidade humana e organizam a estrutura da personalidade.

 

46. POLITZER, G. 1998, p. 59.

47. Idem., p. 71.

48. Ib., p. 81.

49. Ib., p. 182.

50. LACAN, J., 1975a, p. 346.

51. Idem, p. 309. 

 

Esse movimento de dessubstancialização do elementar e do abstrato em favor do exterior e do concreto, não é um fenômeno presente somente no Lacan de 1932, não é uma inclinação teórica pontual, episódica e momentânea, mas perdura por todas as modulações por que passa o seu pensamento desde então. Todas as suas definições conceituais evitam a linguagem coisificante e o realismo, além de apor os efeitos do elemento definido na superfície onde o eu se estrutura – aliás, este é justamente o grande motivo da discordância e do rechaço da definição de inconsciente como “fundamento da linguagem”52 dada por Jean Laplanche, no Colóquio de Bonneval em 1960. Para Lacan, ao contrário de Laplanche, a linguagem é a condição do inconsciente. Na sua teoria, o inconsciente nunca é uma coisa; é, antes de tudo, um ato.53 Por isto, os conceitos substancializados e impessoais do freudismo são todos atrelados à continuidade da organização da subjetividade, que para Lacan não é interna, mas aparente; e os conceitos energéticos são revistos em termos relacionais (o eu e o outro) ou então imagéticos (formação de um ideal de eu).54

 

Porém, não foram apenas os aspectos pragmáticos, mas, sobretudo, o ideal de ciência de Politzer, o fator decisivo incorporado por Lacan a sua teoria psicanalítica. Desde o começo nosso autor pensava na psicanálise como “ciência do particular”,55 e a busca do rigor conceitual foi levada, nesse sentido, até o extremo da matematização e da geometrização.56 Sob Lacan a teoria se tornou enormemente complexa – e hermética – graças a essa vontade de legitimação.

Apesar do silêncio sobre a fonte (o nome de Politzer nos textos de Lacan brilha por sua ausência),57 o trabalho acadêmico de 32 é politzeriano no sentido de que Lacan rejeitou a etiologia organicista e concebeu a idéia de personalidade paranóica (como também a tipologia clínica “paranóia de autopunição” a ela associada) em relação com a totalidade dos antecedentes biográficos da paciente, os seus motivos e intenções conscientes ou não, o que se destacava de significativo nos seus delírios, e contextualizou todas essas ações ao meio social em que surgiram. O então doutorando evitou cuidadosamente o uso realista e objetivo do conceito de inconsciente da psicanálise de Freud e deu preferência, em vez disso, às formulações sobre o ego e o superego que dispensassem o recurso aos problemas energéticos da libido.58 A intenção era apenas a de abrigar a compreensão das representações e das fixações do sujeito dentro da polarização rivalizada entre o ideal subjetivo do eu e o julgamento do outro na qual surgia, a seu ver, a personalidade paranóica.59

 

52. Cf. LACAN,J., 2001a, pp. 393-401. Tb., 1973, lição de 17/06/1964.

53. “O inconsciente é entre eles [o sujeito e o Outro] o seu corte em ato” LACAN,J. 1966c, p. 839.

54. Cf. LACAN, J. 1966d, pp. 90-92.

55. LACAN,J. 1975b, p. 38, lição de 20 e 27/01/1954.

56. O que já estava prenunciado desde o Discurso de Roma, em 1953, que fala do objetivismo e o rigor matemáticos, previa o uso do toro, e buscava o lugar da psicanálise entre as ciências. Cf. LACAN,J. 1966b, p. 320.

57. Um costume, diga-se de passagem, pelo qual este autor também se notabilizou. Em toda a sua obra falada e escrita, Politzer é citado uma só vez nos Écrits (LACAN,J., 1966e, p. 161), uma vez no Seminário XVII (LACAN,J., 1991, pp. 71-72, lição de 20/01/1970), e aúltima vez no “Prefácio” de 1969 à tese de Anika Rifflet-Lemaire (LACAN,J.2001a, pp. 396 e 397).  

 

A psicose era então pensada por Lacan como perturbação específica da “síntese psíquica”, que ele denominava como “personalidade”.60 Essas perturbações da personalidade se prenderiam peculiarmente aos fenômenos do sentido humano, os quais, na Tese, seriam objetivados nas seguintes áreas:61

 

        (1) um desenvolvimento biográfico – uma evolução típica e as relações de compreensão que ali podem ser lidas; traduzido pelo sujeito como os modos afetivos pelos quais o sujeito vive a sua história;

        (2) uma concepção de si – as atitudes vitais e o progresso dialético que ali se podem desvendar; traduzida pelo sujeito como imagens mais ou menos ideais de si que o sujeito leva à consciência;

        (3) uma certa tensão de relações sociais – a autonomia pragmática da conduta e os laços de participação ética que ali se reconheçam; traduzida pelo sujeito como os valores representativos pelos quais ele se sentiria afetado pelo outro.

 

A pergunta que podemos nos fazer diante disso é por que o Lacan concreto, formulador de uma teoria inovadora da psicose de tipo paranóide muito bem recebida nos meios da vanguarda intelectual parisiense dos anos 30 (e completamente ignorada nos meios psicanalíticos de então),62 incorporou a metafísica kojeviana? É inegável que Kojève era naquela época o centro da atmosfera do vers le concret; entretanto, não é o brilho e a exuberância do espetáculo que podem responder à pergunta. É bem mais factível atentar para uma carência interna da lógica da própria teoria que o inovador psiquiatra tentava formular rigorosamente. Ora, a estrutura da personalidade, definida entre as fixações e as resistências da própria subjetividade e as influências incorporadas do outro, poderia contar com uma fundamentação filosófica mais firme, alguma coisa que explicasse de maneira unívoca e simples as suas origens causais.

Para quem buscava encontrar a “objetividade do subjetivo”,63 a idéia que propunha que a “estrutura reacional” do sujeito já estava inscrita na própria alienação do “eu” no “outro”, na estrutura da própria formação da consciência como processo de socialização, não poderia parecer menos que magnífica.64 Uma teoria menos frouxa, menos diluída na própria subjetividade que deveria ser descrita, muito menos indefinida que a categoria politzeriana de “drama”, seria claramente preferível, dada a preponderância da sua busca de cientificidade sobre a sua busca de “concretismo”. Lacan pretendia antes uma credibilidade científica que uma “boa interpretação”. Por isso, a intenção era esposar um tipo de causalidade que se coadunasse com as vias concretas da filosofia pela qual ele já havia optado, ou seja, uma espécie de “causalidade postulada a posteriori”, tal como propugnava Politzer, mas que também satisfizesse a ideais científicos mais rigorosos que simplesmente um conhecimento ou interpretação empírica.

 

58. LACAN, J. 1975a, p. 280 e também pp. 320ss.

59. Idem., p. 247.

60. Cf. Ib., p. 14.

61. Ib., p. 14 e 42-43.

62. Cf. ROUDINESCO, E. 1994, pp. 73-75. Logo após a tese doutoral, em 1933-1934, Lacan publica na revista “Le Minotaure”, órgão de divulgação da vanguarda surrealista parisiense, um artigo sobre o crime das irmãs Papin, no qual retomava a sua hipótese sobre a paranóia de autopunição.

63. Cf. OGILVIE, B, 1993, p. 10.

64. Cf. ARANTES, P. 1992, p. 65.

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Sobre seletynof

Escola (ensino médio):Colégio Marista Cearense;Faculdade/Universidade: Universidade Federal do Ceará;Curso:Física; Diploma:Pós-Graduação em Física;Profissão:físico e professor; Setor:Científico.

Publicado em 5 de outubro de 2007, em PSICOLOGIAFILOSOFIA. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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