O PROBLEMA CÉREBRO E MENTE

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Miguel R. Covian
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto
Universidade de São Paulo

Hipócrates (século V a.C.), considerado o pai da medicina, foi o primeiro a falar de ‘localização cerebral’: “Algumas pessoas dizem que o coração é o órgão com o qual pensamos, e que ele sente dor e ansiedade. Porém não é bem assim: os homens precisam saber que é do cérebro e somente do cérebro que se originam nossos prazeres, alegrias, risos e lágrimas. Por meio dele, fazemos quase tudo: pensamos, vemos, ouvimos e distinguimos o belo do feio, o bem do mal, o agradável do desagradável (…). O cérebro é mensageiro da consciência (…). O cérebro é o intérprete da consciência.”

As questões levantadas pelo problema cérebro/mente interessam a vários campos de estudo. À filosofia, do ponto de vista epistemológico (relativo ao processo do conhecimento) e ontológico (relativo à natureza do ser); à física teórica, por envolverem considerações sobre energia e materia; à teologia, pelas implicações de ordem espiritual que levantam; à neurofisiologia, à neurologia, à psiquiatria e à psicologia finalmente, porque dizem respeito ao cérebro e ao sistema nervoso. Portanto, o problema cérebro/mente tem, pelo menos, os enfoques científicos e filosófico. A ciência busca correlacionar fatos e processos que ocorrem simultaneamente no organismo, sobretudo no sistema nervoso central, quando um ato mental é realizado. A filosofia, por sua vez, tenta esclarecer lógica e epistemologicamente os conceitos por meio dos quais podemos formular e interpretar essas correlações. Há dificuldades. E enquanto não podemos dissecar a mente e guardá-la num frasco de formol, temos que trabalhar com analogias.

De acordo com a definição do pensador francês Henri Bergson (1859-1941), um ‘problema’ é a consciência de uma dificuldade para a qual se busca uma solução. A relação cérebro-mente (C/M) é um problema ainda não solucionado, embora date de muitos séculos. A partir da indagação ‘como a mente se relaciona com o cérebro?’ este problema vem sucintando hipóteses: serão o cérebro e a mente duas entidades interdependentes, intimamente relacionadas, ou tudo que é mental pode ser reduzido a processos cerebrais? a atividade neuronal do cérebro pode explicar tudo o que a mente realiza? existe a mente?

A tendência científica atual em relação a este problema admite que: (a) Os estados mentais não são independentes dos eventos cerebrais; (b) É preciso – e possível – tornar a mente acessível à ciência; ( c) O conjunto dos fenômenos mentais é um subconjunto dos fenômenos que acontecem num sistema nervoso plástico; (d) A mente não é supra-individual, isto é, não tem existência própria; (e) Um neurônio, um conjunto de neurônios ou uma área cortical não podem, isoladamente, perceber, sentir ou pensar: estas atividades resultam de uma ação interdependente de muitas partes do sistema nervoso central.

Na história da neurofisiologia, o conhecimento das modificações elétricas que acompanham a atividade do sistema nervoso antecedeu o conhecimento das alterações bioquímicas. Assim, numa primeira fase, estudaram-se o impulso nervoso, a sinapse, o condicionamento, o aprendizado e a memória. Depois veio o período bioquímico: o sueco Holger Hydén, com métodos bioquímicos, demonstrou que, durante o aprendizado, ocorre a síntese de proteínas cerebrais específicas. Demonstrou igualmente a existência da memória breve e da memória prolongada, bem como o papel desempenhado pelo RNA, pelo cálcio e pelos mecanismos genéticos que controlam a diferenciação proteica durante o aprendizado.   

 Quando um animal começa a aprender uma tarefa nova, aparece em poucos minutos uma proteína de vida breve. Esta síntese, aumentada, requer pelo menos duas proteínas específicas do cérebro. Animais-controle, que não aprendem, não produzem essas proteínas. O mesmo tipo de produção ocorre em áreas corticais, porém mais tarde. Também durante o aprendizado, pelo menos duas outras proteínas são sintetizadas na membrana das sinapses.

Tais pesquisas são importantes porque permitem um melhor entendimento de atividades como o aprendizado e a memória. É admisível suspeitar que nas atividades chamadas mentais também ocorram alterações bioquímicas semelhantes. Mas descobri-las resolverá o problema? É evidente que a atividade mental tem como condição necessária a atividade da maquinaria cerebral. Teremos porém o direito, em virtude de um princípio reducionista, de identificar a mente com o cérebro e reduzir o fenômeno mental ao fenômeno neuroquímico cerebral?

A dificuldade principal enfrentada pelo problema C/M consiste numa exlicação adequada para os estados mentais, como pensamentos, intenções, desejos e, sobretudo, para a capacidade de abstração, isto é, a formação de conceitos, que permite ao homem passar do particular para o geral. Todos os dados que recebemos do mundo externo são concretos, singulares, captados por um mecanismo, assim resumido, de forma esquemática: um receptor, específico para determinado estímulo (visual, auditivo, táctil), transmite o impulso nervoso que, por via também específica, chega a uma área cortical que, por sua vez, o recebe e processa, originando sensações visuais, auditivas, tácteis nas chamadas áreas primárias de projeção (figuras 1 e 2). A dificuldade é que não existem receptores especializados, nem áreas específicas no córtex cerebral, para os ‘estados mentais‘.

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Fig. 1. Esquema das estruturas que participam no mecanismo da sensação. R, receptor; T, tálamo; FR, formação reticular.

O número de neurônios (5010) tem sido relacionado ao desenvolvimento da mente no homem, cuja área cortical é de 3,5 vezes maior que a do orangotango, os lobos frontais ocupando um espaço 6,3 vezes maior. A observação do inglês Charles Sherrington, de que a mente está ligada à expansão do córtex cerebral, aprsenta-se modernamente com o nome de ‘índice de encefalização‘, que é a relação entre o tamanho do cérebro e a massa corporal. O homem possui o mais elevado índice de encefalização (30) de todos os animais, superando de muito o dos macacos (10). E é quase

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Fig. 2. Áreas originárias de projeção e áreas de associação no córtex cerebral do gato. A-I e A-II, áreas auditivas primárias; AE, área auditiva primária ectossylviana; ACS, área auditiva da parte anterior da circunvolução supra-sylviana; S-I, primeira área sensorial somática; S-H, segunda área sensorial somática; V-I e V-II, áreas visuais primárias; V-SS, área visual da circunvolução supra-sylviana; AASM, área de associação anterior da parte mediana da circunvolução supra-sylviana; ALA, área de associação lateral anterior; APC, área de associação pericrucial. (segundo Thompson, Johnson e Jones, 1963.) 

O peculiar e extraordinário desenvolvimento do cérebro humano tem sido estudado passo a passo por evolucionistas e antropólogos (figura 3). Quanto mais esse estudo avança, observamos que, na escala zoológica, a massa relativa do cérebro de um animal cresce em sua complexidade anatômica. Esta fato é mais claramente observável nas últimas etapas da evolução, aquelas que antecederam a aparição do homem. O comportamento consciente surge quando o cérebro atinge um nível elevado de estruturação e complexidade. O cérebro humano foi investigado minuciosamente dos pontos de vista anatômico, bioquímico e fisiológico, com as técnicas mais apuradas. No entanto, esses estudos não fizeram avançar o problema. É possível que toda essa informação, embora necessária, não seja suficiente para sua solução.

O próprio surgimento da vida é concebido de modo diferente por diferentes correntes filosóficas e científicas. Escutemos, por exemplo, Jacques Monod, que diz em seu livro O acaso e a necessidade: “A vida apareceu sobre a Terra. Qual a probabilidade de que isso já tivesse ocorrido antes? Não está excluída, face à estrutura atual da biosfera, a hipótese de que o acontecimento decisivo não tivesse ocorrido senão uma só vez. O que significa que sua probabilidade a priori seria quase nula. Esta idéia repugna a maior parte dos homens de ciência. Com um acontecimento único, a ciência nada pode dizer nem fazer”.

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Fig. 3. Diferenças de tamanho e complexidade morfológica dos cérebros de alguns vertebrados. Fica evidente um crescimento progressivo do volume cerebral, assim como o desdobramento da superfície do córtex cerebral, que atinge o máximo no cérebro humano.

É preciso realizar um ato de fé para aceitar essa possibilidade, já que a evolução, ao contrário de outras teorias científicas, se apóia na história e não se presta a nenhuma verifcação experimental. Mas também é preciso realizar um ato de fé para aceitar a teoria oposta, de que a vida foi criada, direta ou indiretamente. Monod foi coerente com seu ateísmo. 

Chardin, como religioso, não podia deixar de ser um evolucionista que aceita a existência de Deus como criador de tudo. Assim, ambas as teorias evolucionistas – a materialista e não materialista – exigem um ato de fé. Isso significa que a investigação biológica não é imune a interpretações filosóficas: ela se banha na filosofia, como o próprio homem.

Quando procuramos a raiz dessa polêmica, verificamos que o animismo primitivo já distinguia uma substância material e outra espiritual. Mas foi necessário chegar ao século XVII para se saudar a aparição de quatro notáveis filósofos cujas teorias sobre a inter-relação C/M ainda influenciam o mundo científico: o francês René descartes (1596-1650), propondo uma teoria dualista dessa interação, que se processaria em ambos os sentidos (o ser extenso, material, e o ser pensante, imaterial); o alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1647-1716), com sua teoria do paralelismo psicofísico, que admite uma harmonia preestabelecida entre cérebro e mente, ambos trabalhando como dois relógios acertados ao mesmo tempo e desde o início dos tempos, mas sem influência mútua; o judeu holandês Baruch Spinoza (1632-1677), responsável pela teoria identidade que, em termos modernos, afirma serem as atividades dos centros superiores cerebrais e os estados mentais uma e a mesma coisa, como faces de uma mesma moeda, ou como o mítico Janos, o deus de duas faces – isto é, duas maneiras de compreender uma mesma realidade; e finalmente o inglês Thomas Hobbes (1588-1679), materialista, para quem a ideia de uma substância incorpórea era insustentável, até mesmo absurda, e que deu origem a duas correntes modernas – o behaviourismo (ou comportamentismo), que nega a existência de fenômenos conscientes, e a teoria do estado central. 

Todas essas teorias podem ser divididas em dois grandes grupos: (1) as teorias monistas, que admitem a existência de um só elemento, seja ele material ou imaterial, e (2) as teorias dualistas, que admitem dois elementos, que podem ou não interagir.

Um dos mais renomados filósofos da ciência da atualidade, Karl Popper, afirma: “A matéria existe e este fato é crucialmente importante, mas também existem utras coisas que interagem com a matéria, como as mentes”. Para Popper, ao contrário do que admitem outros filósofos e cientistas, os estados mentais formam um mundo real, que interage com o nosso corpo. A teoria da existência de dois estados – físico e mental – e e suas possibilidades de interação e relacionamento é o que se conhece como interacionismo, sustentado por Popper e pelo neurofisiólogo John C. Eccles, contemplados com o prêmio Nobel e autores, em parceria, de THE SELF AND ITS BRAIN, que está se tornando um clássico da literatura científico-filosófica. Popper definiu a existência de três mundos:

Mundo 1 – É o universo das entidades físicas, dos estados físicos. No que diz respeito a seus constituintes físicos, compreende o mundo inorgânico, o ogânico, o biológico (incluindo o cérebro humano) e o mundo dos artefatos (ferramentas, máquinas, livros, obras de arte e música).

Mundo 2 – É o mundo das entidades mentais, dos estados de consciênia, disposições psicológicas e também dos estados de inconsciência. Cada indivíduo pode conhecer o seu, por experiência própria, e o dos demais indivíduos por inferência. Compreende nossas percepções, pensamentos, emoções memórias, sonhos, nossa imaginação criativa.

Mundo 3 – É o mundo dos produtos da mente humana, conhecimento em seu sentido objetivo, isto é, da herança cultural, que corresponde a uma longa lista de contribuições do esforço humano, conservada em livros, museus e outras formas de registro. Está integrado pela filosofia, teologia, ciência, história, literatura, arte, argumentação científica. Na sua composição material, como papel e tinta, os livros pertencem ao Mundo 1, mas como criação estão no Mundo 3, que pertence exclusivamente ao homem e é desconhecido para os animais.

Atualmente a ciência se vê desconcertada com respeito à interpretação dos acontecimentos neurofisiológicos que acompanham a mais simples atividade mental. Uma das tentativas de explicar esses fenômenos foi feita pelo físico-químico húngaro Michael Polanyi. Ele trata de explicar a relação C/M por analogia com a que existe entre dois níveis de alerta: focal (totalizante) e subsidiário (de detalhes). Por exmplo, quando olhamos uma cadeira e a apreendemos como um todo, estamos utilizando o nível de alerta focal; quando analisamos a madeira com que foi feita, o trabalho de marcenaria, utilizamos o alerta subsidiário.

Duas imagens estereoscópicas produzem isoladamente imagens subsidiárias; quando fundidas, produzem uma imagem ou visão focal. Esta fusão põe em evidência uma característica que não está presente nas figuras subsidiárias. Dela surge algo novo, assim como a mente surgiria da atividade cerebral. As partes subsidiárias funcionam como pistas que vão conduzir a uma totalidade chamada ‘visão esteroscópica’. A fusão não é o resultado de uma simples adição, mas de uma integração. As pistas são condições necessárias mas não suficientes para conhecer-se o objeto ou produzir-se a visão estereoscópica. O mesmo aconteceria, segundo concebe Polanyi, no caso da relação C/M; o cérebro é necessário para que surja a mente, mas não é suficiente para explicar o fenômeno em sua totalidade.

A atividade mental, no esquema do físico-químico húngaro, usa subsidiariamente o cérebro, e a relação C/M tem a mesma estrutura que a relação entre as partes (pistas) e sua integração (mente), para a qual as pistas se orientam. O alerta emitido por nossos órgãos dos sentidos, nervos, cérebro e do resto do corpo entra subsidiariamente em nossa atividade mental, que constitui o foco de nossa atenção. A partir das pistas que assim nos são proporcionadas, nos dirigimos ao conjunto focal, que é a mente. No entanto, quando começamos a prestar atenção focal às pistas – que assim perdem, por conseguinte, seu caráter de subsidiárias -, elas deixam de integrar o todo que é a mente. Da mesma forma que não encontramos o todo nas pistas, também não encontramos a mente em nosso corpo, em nosso cérebro, comprometido na atividade mental. Portanto, a mente não é a soma aritmética da atividade dos neurônios: é uma entidade diferente com suas próprias leis.

Outro conceito que nos ajuda a iluminar o problema deve-se a Polanyi também: é a teoria das condições limitantes (CL). Ele parte do seguinte raciocínio: para fazer uma máquina, produto exclusivamente humano, elaboro um plano, uma estrutura, e depois adapto as peças, orientando-as de acordo com esse plano, que constitui a CL (nível superior). As peças constituem o nível inferior, que por uma força externa se acomoda ao plano. De forma analógica, na evolução do sistema nervoso observa-se claramente que a aparição de uma nova estrutura limita as estruturas filogeneticamente mais antigas e lhes acrescenta algo novo (figura 4). Um exemplo típico dssa limitação é dado pelo animal hipotalâmico, do qual foram retiradas todas as estruturas situadas acima do hipotálamo, filogeneticamente mais recentes. Nesse animal, ao menor estímulo, desencadeia-se um quadro de ira (falsa ira), que cessa bruscamente ao cessar o estímulo. A eliminação daquelas estruturas, principalmente do córtex cerebral, foi uma condição limitante para a atividade hipotalâmica.

Da mesma forma, a teoria da CL admite que as formas elevadas de vida estão no vértice de uma hierarquia, cada nível desta apoiando-se, para seu trabalho, nos níveis precedentes mas não podendo ser explicado por eles, isto é, não podendo se reduzir a eles. Cada nível tem suas próprias leis e deixa em aberto a possibilidade de algo novo. Assim, a emissão da voz deixa aberta a possibilidade de combinarem-se os sons em palavras, que a gramática articula em frases. Porém as leis da gramática não se aplicam à produção da voz.

De acordo com essas ideias, a mente seria um nível que, para suas operações, utiliza o cérebro como nível precedente, mas que é irredutível aos princípios deste. Se aceitamos que na natureza os seres formam uma hierarquia, na qual cada novo nível representa uma etapa que controla a precedente, impondo-lhe uma CL mas sem ser reduzido a ela, a evolução ganha um significado novo e mais profundo: o de uma progressão estritamente definida e orientada da vida, que vai desde os níveis mais primitivos, inanimados, até os mais elevados e conscientes. Haveria então nessa progressão uma finalidade – antigamente denominada teleologia (doutrina das causas finais), termo substituído por ‘programa genético’ ou ‘teleonomia’. Isso quer dizer que os princípios mais elevados já estariam presentes, numa forma pré-embrionária, nos passos iniciais da evolução, inclusive a mente. Essa teoria foi sustentada simultânea mas independentemente por um pensador ocidental, o jesuíta Teilhard de Chardin, e um oriental, Sri Aurobindo.

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Fig. 4. Representação esquemática da hierarquia orgânica.

Ao examinarmos um nível evolutivamente mais recente, devemos ter em conta que ele afunda suas raízes no nível precedente, mas também dirige sua vista para o que vem depois (como as duas faces de Janos). Os diversos níveis interagem e cada um deles está aberto à influência direta daqueles entre os quais se interpôe, e por sua vez os influencia (o que lembra o interecionismo de Popper-Eccles). Nesta linha de pensamento, a mente aparece como um nível que se apóia no nível anterior – o cérebro -, ao qual controla, estabelecendo-lhe condições limitantes. Como as operações da mente se apóiam no nível corporal, elas podem ser modificadas por alterações adversas ou favoráveis ao corpo. Aldous Huxley, em seu livro AS PORTAS DA PERCEPÇÃO, oferece um bom exemplo deste fato.

Outro prêmio Nobel (1981), o norteamericano Roger W. Sperry, apresenta um novo conceito da relação C/M, que tem relação com as idéias de Polanyi, concebendo a mente como ‘emergente causal’. Para compreendê-la, lembramos a distinção feita pelo argentino Mario Bunge, sobre entidades resultantes e emergentes: uma entidade é resultante quando suas propriedades são possuídas também pelos seus componentes, ou seja, quando ela é o resultado de uma soma; é emergente quando possui propriedades não observadas em nenhum dos seus componentes. Assim, a capacidade de pensar é uma propriedade emergente no cérebro dos primatas, em relação a seus componentes neuronais. Emergência significa algo totalmente novo, com respeito aos elementos dos quais surge. 

Sperry dá o nome de mentalismo à sua teoria, que consiste em aceitar a emergência, na hierarquia cerebral, de um nível novo que atua segundo princípios e leis diferentes daqueles da neurofisiologia e não redutíveis a eles. Entre ambos os níveis há uma interação nos dois sentidos, que nem violenta a explicação científica, nem reduz a experiência mental a fenômenos neurofisiológicos, como postula a teoria da identidade. O mentalismo não aceita experiências conscientes que não estejam ligadas à função cerebral, mas admite a existência de fenômenos mentais subjetivos como realidades potentes e primárias, não redutíveis aos fenômenos físico-químicos.

Os níveis biológicos emergentes controlariam – ou seja, limitariam – aqueles evolutivamente mais antigos, incluindo a relação C/M. As atividades mentais emergentes exerceriam um controle causal sobre a atividade nervosa que opera nos níveis celular, molecular e atômico. A mente influenciaria a matéria cerebral e estabeleceria uma interação de duas entidades tão distintas como os estados mentais e os fenômenos fisiológicos, interação esta ue assim se torna compreensível m termos cientificamente aceitáveis: a mente teria um papel operacional e causal. Essa teoria considera a mente como uma entidade emergente, não a reduzindo, portanto, às realidades, físico-químicas; mas a coloca no cérebro, por conseguinte no campo da ciência objetiva e numa posição de comando, incorporada ao funcionamento cerebral.

Em resumo: a atividade mental, emergente, da atividade cerebral desempenha um papel importante, causal, no controle da função cerebral. Tanto isso é verdade que os yogas conseguem modificar seus batimentos cardíacos, a temperatura do corpo, o peristaltismo, o funcionamento dos intestinos e outros processos físicos por meio da concentração mental. Na década de 1960, a ciência admitiu discutir esse novo conceito de interação C/M. Hoje, amplos setores científicos aceitam a potência causal da mente sobre os eventos neurofisiológicos, aos quai pode controlar, como entidade emergente causal. Os fenômenos mentais, emergentes da atividade cerebral, exercem,por sua vez, um controle ativo nessa atividade. Uma vez gerados por processos neurofisiológicos, os processos mentais atuariam de acordo com suas próprias leis, diferentes das que regem a neurofisiologia e não redutíveis a ela.

As entidades mentais transcendem as neurofisiológicas, assim como estas transcendem o nível molecular, o atômico e o subatômico, sucessivamente. A forma de existência inferior se encontra assumida na forma de existência superior, que a compreende sem aniquilá-la. Leibniz disse muito sagazmente que “as coisas inferiores existem nas coisas superiores de um modo mais nobre que o delas mesmas”. A evolução inclui o problema C/M, já que ele está implícito na aparição de controles hierárquicos emergentes e limitantes. Ela foi complicando o mundo a ser estudado, em virtude do surgimento de novas entidades e fenômenos, com propriedades e forças originais reguladas por princípios e leis também novos. Caberá aos futuros cientistas descobrir e formular em suas respectivas disciplinas – como por exemplo o mundo das partículas subatômicas, o princípio da indeterminação de Heisenberg, a mecânica quântica – essas novas leis e esses novos princípios.

Aqueles que só aceitam a realidade do mundo físico admitem que a ciência ainda não pode explicar neurofisiologicamente o mecanismo do pensamento abstrato e das ideias universais. No entanto, afirmam que, como já tem acontecido com relação a outros fenômenos, dia virá em que ela desvendará o mistério destes fatos até agora incompreensíveis. Para os que acreditam numa realidade que transcende o mundo físico mas interage com ele, a expectativa é de descobrir a maquinaria neuronal que seria o seu instrumento, assim como a palavra o é para o sentido da frase. Ambas as posições são realistas, refletindo as filosofias que as sustentam.

Essas soluções não satisfazem plenamente, mas é evidente que elas tratam de responder a um desafio e constituem passos importantes para uma solução científica do problema C/M. Vernon Mountcastle, um dos mais eminentes neurofisiólogos atuais, afirmou: “As neurociências estão chegando a uma etapa em que o estudo das funções mais elevadas está se tornando possível”. Então encontraremos respostas para algumas perguntas que procuram uma solução científica, tais como: ‘de que forma a maquinaria cerebral extrai do ambiente e da atividade sensorial periférica, que oferecem fatos singulares, as generalizações universais? como surge o princípio da liberdade num sistema baseado no cérebro, que funciona como uma máquina regida por leis físico-químicas e, por conseguinte, com poucos graus de liberdade? como, do finito em que estamos imersos, o cérebro capta a noção de infinito? como esses dados limitados, singulares, específicos são manipulados pelo cérebro, amplificados e universalizados, permitindo conhecer realidades que o próprio ambiente não oferece? como a mente, entidade emergente do conjunto neuronal, organização nova do ponto de vista evolutivo, consegue elaborar esses dados? como o cérebro, órgão do pensamento, pode se pensar a si mesmo? como pôde Einstein – o cientista mais brilhante e original deste século -, cujo cérebro era semelhante a outros cérebros, elaborar sua teoria inovadora? Uma característica: ele era um homem livre de dogmatismos e tabus científicos que aprisionam a mente. Foi essa liberdade que lhe permitiu afirmar que “o espaço e o tempo são relativos” e que “é tão lógico viajar de amanhã a ontem quanto ir de Boston a Washington”.

Algumas destas questões soarão como ‘filosóficas‘. Mas a filosofia também é uma ciência.

Fontepesquisada: CIÊNCIAHOJE – Vol. 10, Nº 58, Outubro de 1989.

POSTED BY SELETINOF AT 2:04 PM

Sobre seletynof

Escola (ensino médio):Colégio Marista Cearense;Faculdade/Universidade: Universidade Federal do Ceará;Curso:Física; Diploma:Pós-Graduação em Física;Profissão:físico e professor; Setor:Científico.

Publicado em 15 de setembro de 2007, em FISICAPSICOLOGIA. Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Francisco das Chagas Araujo

    Caro senhor Seletynof, boa noite!

    Escrevi no Google: “qual diferença entre mente e cerebro”, e tive a sorte de encontrar o ótimo trabalho que o senhor postou. Aproveito para cumprimentar também o autor, Miguel R. Covian, que tratou de um assunto tão complexo de forma tão objetiva. Agradeço a ambos pelo notável material.
    Abraços
    Francisco.

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