UNUS MUNDUS-HIPÓTESE JUNG/PAULI

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CARL G. JUNG –  WOLFGANG PAULI – NISE DA SILVEIRA – MÁRIO SCHENBERG

O texto abaixo, extraído do livro de Nise da Silveira, JUNG VIDA E OBRA, buscando responder às certas perguntas eleboradas também pela autora (Dando tão grande importância aos sonhos, aos mitos, à alquimia, será Jung um sobrevivente de épocas já ultrapassadas? ou será, pelo contrário, um moderno ou mesmo um homem do futuro?), desenvolve uma análise na qual estabelece relações paradoxais entre a psicologia e a física moderna. Todos os grifos são nossos e as figuras também. A figura 2, partindo da hipótese de Jung/Pauli, estabelece nossa proposta paradigmática com relação à realidade psico-material. Ainda, ao final do texto de Nise da Silveira, acrescentamos um pequeno parágrafo revelando o pensamento de Mário Schenberg, físico teórico brasileiro, sobre os pontos de vista discutidos aqui.

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No começo do século XX parecia ao homem do ocidente que todos os mistérios tinham sido desvendados. A visão do mundo segundo a física newtoniana era de uma clareza confortadora. Darwin explicava a origem das espécies. Marx descobria as leis que regem o desenvolvimento das sociedades. Freud trazia o mundo obscuro do inconsciente para o domínio da pesquisa científica, demonstrando que os fenômenos psíquicos inconscientes, mesmo os extravagantes e absurdos, estavam sujeitos às leis da causalidade.
Fiel ao clima de opinião de sua época, Freud era um rigoroso determinista. Na INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE, escreve: “quebrar o determinismo, mesmo num só ponto, transtornaria toda concepção científica do mundo“.

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De fato, a física moderna bouleversou a concepção do mundo construída pela física clássica, concepção que parecia absolutamente inabalável até os fins do século XIX. O indivisível átomo revelara-se divisível. Abriam-se brechas no determinismo: nem sempre os átomos comportavam-se de acordo com as leis causais. Certos fenômenos, no campo da microfísica, passaram a ser estudados à luz de leis estatísticas, ou seja, de leis de probabilidade. Einstein provou que a matéria e energia são equivalentes. Verificou-se que a luz apresenta simultaneamente os caracteres de onda e de corpúsculo. O tempo deixou de ser uma grandeza absoluta, pois, para velocidades próximas da velocidade da luz, o tempo passa mais devagar. O tempo, então, é relativo. Perplexos, retraímo-nos diante desses conceitos que perturbam nossa segurança. Não queremos ver além das fronteiras do mundo estável de Galileu e de Newton. Compreende-se a atitude de recuo: o abalo das próprias bases que serviam de ponto de apoio às operações de pensamento provocou deslocamento imprevistos a longa distância. Opostos, até então irredutíveis, deixavam de ser opostos. Argumentos lançados durante séculos contra determinados alvos não mais os atingiam porque os próprios alvos se tinham dissolvido ou mudado completamente de posição.Tanto quanto Freud, Jung investigou a causalidade nos campos da psicologia e da psicopatologia. Seus estudos sobre as associações verbais e os livros PSICOLOGIA DA DEMÊNCIA PRECOCE E O CONTEÚDO DAS PSICOSES, mostram que, mesmo nos distúrbios psíquicos mais graves, é possível decifrar o sentido de sintomas de aparência desconexa, encontrando-lhes elos causais.

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Mas observou também a ocorrência de fenômenos outros, de curiosos paralelismos, que não podiam ser encadeados causalmente. Seu método de trabalho, desde as pesquisas sobre associações feitas na juventude, sempre foi nunca desprezar qualquer fato que acontecesse, ainda aqueles que contradiziam regras estabelecidas ou que se afiguravam aos demais desprovidos de importância. Pareceu-lhe que seria preciso tomar em consideração certos fenômenos, inegáveis, que, entretanto, escapavam ao determinismo: a) coincidência de estados psíquicos e de acontecimentos físicos sem relações causais entre si, tais como sonhos, visões, premonições, que correspondem a fatos ocorridos na realidade externa; b) a ocorrência de pensamentos, sonhos e estados psíquicos semelhantes, ao mesmo tempo, em lugares diferentes.
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Fig 14 - Nise da Silveira e C. G. Jung.tif

Fig 1 – Nise da Silveira e C. G. Jung

Muitos já tiveram experiências desse gênero ou as ouviram de pessoas de crédito. Mas as deixaram de lado, procurando mesmo esquecê-las, pelo mal estar que lhes causava sua estranheza ou devido aos preconceitos científicos da época. Nenhum desses obstáculos deteve Jung.
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Minha preocupação com a psicologia dos processos do inconsciente há muito tempo obrigou-me a procurar – ao lado da causalidade – um outro princípio de explicação, porque o princípio de causalidade pareceu-me inadequado para explicar certos fenômenos surpreendentes da psicologia do inconsciente. Verifiquei que há paralelismos psíquicos que não podem ser relacionados uns aos outros causalmente, mas devem estar em conexão por um outro modo diferente de desdobramento dos acontecimentos.”
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Jung criou o termo sincronicidade (o princípio de causalidade, tornado sem valor, é substituído pelo princípio de sincronicidade) para designar “a coincidência no tempo de dois ou mais acontecimentos não relacionados causalmente, mas tendo significação idêntica ou similar, em contraste com o sincronismo que simplesmente indica a ocorrência simultânea de dois acontecimentos”. A sincronicidade, portanto, caracteriza-se pela ocorrência de coincidências significativas. Vejamos um exemplo citado por Jung. Trata-se de uma mulher, jovem e culta, cuja análise não progredia devido a seu excessivo racionalismo. “Um dia eu estava sentado diante dela, de costas para a janela, ouvindo sua habitual torrente de retórica. Ela tivera na noite anterior, um sonho impressionante, no qual alguém lhe dava um escaravelho de ouro, joia de alto preço. Enquanto narrava-me este sonho, ouvi leves batidas no vidro da janela. Voltei-me e vi um grande inseto batendo de encontro à janela, no evidente esforço para penetrar na sala escura. Isso me pareceu estranho. Abri a janela e apanhei o inseto no ar. Era um besouro das rosas (cetonia aurata) cuja cor verde dourada aproxima-se de perto da cor do escaravelho dourado. Entreguei o inseto a minha paciente, dizendo: “Aqui está seu escaravelho“. Esta experiência abriu a desejada brecha no seu racionalismo e quebrou o gelo de sua resistência intelectual. O tratamento pode então continuar com resultados satisfatórios”.
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O estudo dos sonhos ou do estado psíquico de pessoas com as quais haviam ocorrido fenômenos de sincronicidade deu a Jung a impressão de que, no fundo do inconsciente dessas pessoas, um arquétipo se tivesse ativado e se manifestasse simultaneamente através de acontecimentos interiores e exteriores.
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A exploração em profundeza do inconsciente levou ao curioso achado de que os mais universais símbolos do self (si mesmo) pertencem ao mundo mineral. São eles a pedra, seja pedra preciosa ou não preciosa, e o cristal, substância de estrutura geométrica exata por excelência. Comenta M. L. von Franz: “O fato de que o simbolismo mais elevado e mais frequente do self pertença à matéria inorgânica abre novo campo à investigação e à especulação. Refiro-me às relações ainda desconhecidas entre aquilo que chamamos psique inconsciente e aquilo que chamamos matéria“.
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figura 2

 
Se o psicólogo, nas suas investigações através das camadas mais profundas da psique, encontra a matéria, por sua vez o físico, nas suas pesquisas mais finas sobre a matéria, encontra a psique.

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Físicos como Eddington, J. Jeans e outros grandes aceitam que a matéria esteja impregnada de um psiquismo elementar. O físico Alfred Hermann diz que a natureza do elétron parece ambígua, meio matéria, meio psique. E o pensador católico Teilhard de Chardin concebe a matéria animada interiormente de espiritualidade, o que é tanto mais significativo, pois o cristianismo até então separava de maneira irredutível a matéria do espírito. 
 
 
A consequência extrema da posição de psicólogos, de físicos e de biologistas, será admitir que “a psique e a matéria sejam um mesmo fenômeno observado respectivamente do interior e do exterior” (M. L. von Franz).
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figura 3

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Também os fenômenos de sincronicidade, denotando que podem ocorrer “arranjos” incluindo fatos psíquicos e fatos da realidade externa testemunham em favor da hipótese da unidade psicofísica de todos os fenômenos. Chegamos assim ao conceito de UNUS MUNDUS, isto é, à idéia da identidade básica de matéria e psique. “Tudo que acontece, seja como for, acontece no mesmo único mundo e é parte deste” (Jung). Os inesperados contatos entre psicologia e física, ciências que parecem tão distantes, provocaram a aproximação e colaboração entre JUNG e WOLFGANG PAULI, prêmio Nobel de física em 1945 por trabalhos concernentes à fissão nuclear. Juntos publicaram um livro que tem por título: INTERPRETAÇÃO DA NATUREZA E PSIQUE.
 
É problema atualíssimo chegar a uma conclusão sobre a possibilidade ou não possibilidade de conseguir-se o conhecimento de objetos observados sem que o observador esteja envolvido na avaliação final. A ciência esforçou-se obstinadamente para não tomar em apreço o observador, cuja função seria realizar operações racionais sobre os dados colhidos no exterior e exprimir, sob a forma de conceitos, os resultados obtidos, mantendo-se sempre o mais possível distante. Tudo faz crer que esse ideal não foi alcançado, salvo talvez em campos restritos. Desde que o observador é parte integrante do mesmo mundo onde estão os objetos da sua investigação, resulta difícil eliminá-lo. Na esfera da microfísica, o cientista reconhece: “unicamente a totalidade da relação homem-coisa é que tem validez de realidade perceptível para a física moderna” (C.F. von Weizsaker).
 
O físico Wolfgang Pauli declara-se convencido de que, ao lado das pesquisas sobre a realidade externa é necessário investigar a origem interior de nossos conceitos científicos. Aplicando este método, Pauli escreveu um ensaio sobre as relações entre idéias arquetípicas e as teorias científicas de Kepler. 
 
Este momento crucial da epistemologia reflete-se claramente na obra do filósofo francês Gaston Bachelard (falecido em 1962). Ele reconheceu as interferências subjetivas, o poder da imaginação no campo da ciência. E todo seu esforço dirigiu-se no sentido de “exorcisar as imagens que pretendem, numa cultura científica, engendrar e servir de base aos conceitos”. Mas, de outro lado, o mundo das imagens fascinava-o. Ninguém mais do que Bachelard amou e saboreou a imagem. Se uma parte de sua obra é dedicada ao “surracionalismo”, outra parte, é não a menos importante, ocupa-se enamoradamente da imagem (livros sobre as imagens do fogo, da água, do ar, da terra). Sua obra coloca-se em dois polos opostos que tentam excluir-se mutuamente.
 
Assim, a posição de Jung, que levantaria veementes protestos a 40 anos atrás, já não causa efeitos dramáticos depois que nos vamos habituando aos novos enfoques da física moderna. Devido sobretudo a que seus achados encontram-se em muitos pontos com os achados dessa nova física, a psicologia junguiana vem de repente colocar-se na vanguarda do pensamento contemporâneo, abrindo caminho adiante para novas pesquisas.
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figura 4

 
É importante, ainda, acrescentar o posicionamento do maior físico teórico brasileiro e um dos mais notáveis do mundo – Mário Schenberg –, em seu pronunciamento por ocasião da comemoração de seu 70 aniversário. No seu pronunciamento – por sinal, atualíssimo – podemos destacar a importância maior que dava à unificação da Física com a Psicologia em relação à TEORIA DA GRANDE UNIFICAÇÃO:
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“Heisenberg, falando em seu livro, cujo título da edição em português é Física e Filosofia, sobre a importante unificação da química com a física, que havia sido feita no século XX com o patrocínio da mecânica quântica, faz o seguinte questionamento: ‘Qual seria o próximo passo? O novo seria a unificação da física com a biologia, esta entendida num sentido amplo, englobando citologia, e todas as áreas ligadas ao homem’. E não podemos esquecer isto. É grande a lição da mecânica quântica, se já não era lição na sabedoria comum, de que toda nossa ciência é uma criação humana. Por isso, talvez a coisa mais importante seja compreender melhor o homem, do que essas teorias da Grande Unificação e outras coisas nesse sentido. Sem contar que nosso interesse em conhecer o homem é maior do que conhecer as teorias da Grande Unificação. Nós estamos num momento terrível da história da Humanidade, porque vivemos uma época em que não sabemos se daqui a dez anos ela existirá ou não. Uma guerra nuclear nas condições atuais, certamente levaria à destruição de toda vida sobre a Terra.

Assim, vejo uma grande sabedoria nesta previsão de Heisenberg. Porque na biologia, penso eu, também incluiria a psicologia e outras áreas mais diretamente ligadas ao homem. Seria um progresso mais na direção do Homem do que do Cosmo. Evidentemente, esta maior compreensão do homem, poderia eventualmente modificar também radicalmente, a nossa compreensão do Cosmo. Portanto, estou inclinado a ver mais dessa maneira: os passos mais essenciais seriam descobrir algo qualitativamente diferente (não estou dizendo que não se façam progressos importantes em partículas elementares ou noutros ramos da física). (…) Mas, ao que parece, o próximo grande passo na física, ou nas ciências naturais, digamos assim, seria na direção de uma compreensão maior da Vida e do Homem. Acreditava Heisenberg que com os conceitos atuais da física, não conseguiríamos fazer esta unificação, porque nos falta algo muito essencial. O que caracteriza a Vida é a historicidade, um tempo histórico, que não é o tempo da física. O tempo físico é mais matemático, e o tempo histórico tem outras características. Ainda, Heisenberg achava muito importante introduzir na física algo que se aproximasse do tempo histórico. Na física ou fora dela, o fato é que esta introdução seria o mais importante. (…) Eu pertenço a uma certa tradição pois afinal fui aluno de Pauli e sofri sua influência; assim acredito que talvez a união da física com a biologia, seja precedida da união da física com a psicologia.” (Mário Schenberg).

 
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BIBLIOGRAFIA
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JUNG VIDA E OBRA, Nise da Silveira. DOWNLOAD LIVRO:
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Sobre seletynof

Escola (ensino médio):Colégio Marista Cearense;Faculdade/Universidade: Universidade Federal do Ceará;Curso:Física; Diploma:Pós-Graduação em Física;Profissão:físico e professor; Setor:Científico.

Publicado em 20 de junho de 2007, em FISICAPSICOLOGIA. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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