LÓGICA E REVOLUÇÃO

Stevens Rehen, em artigo, Blog pode ser futuro da publicação científica, afirma: “(…) Outra conclusão do Fórum foi que os cientistas precisam sair do armário. O pouco engajamento social e político de cientistas e a supervalorização de critérios como o índice de impacto das revistas especializadas na análise da qualidade, mérito e promoção dos pesquisadores seriam alguns dos fatores responsáveis pelo distanciamento entre comunidade científica e sociedade”. Dada a revolução científica, política, e social (palavras chaves para novas instaurações), qual a mudança científica no racional de POPPER e KUHN numa suscetível reconstrução racional no domínio da lógica e do consenso à revolução?

Antes de responder ao questionamento feito acima pela nossa amiga, Prof. Gina (http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=11278038048433876600), buscaremos (em duas postagens), primeiramente, entender melhor os pensamentos de Popper e de Kuhn, mais especificamente naquilo que dizem respeito à construção e à validade do conhecimento científico, além de outros assuntos dentro do mesmo contexto.   

Popper cunhou o termo Racionalismo Crítico para descrever a sua filosofia. Esta designação é significante e é um indício da sua rejeição do empirismo clássico e do observacionalismo-inductivista da ciência, que disso resulta. Apesar disso, alguns académicos, incluindo Ernest Gellner, defendem que Popper, não obstante, não se ter visto como um positivista, se encontra claramente mais próximo desta via do que da tradição metafísica ou dedutiva.

Segundo Popper, o progresso da ciência se faz em três etapas: a colocação de um problema, a apresentação de soluções provisórias e a tentativa de refutar essas conjecturas. Essa concepção é radicalmente oposta ao raciocínio indutivista, que se resume também em três etapas: observação, generalizaçãodos resultados observados em leis e confirmação das leis gerais. Ainda, Karl Popper acreditava que o conheciemnto, em especial o conheciemto científico, decorre da experiência individual e, assim, não pode ser verificado por meio do raciocínio indutivo.

Popper argumentou que a teoria científica será sempre conjectural e provisória. Não é possível confirmar a veracidade de uma teoria pela simples constatação de que os resultados de uma previsão efectuada com base naquela teoria se verificaram. Essa teoria deverá gozar apenas do estatuto de uma teoria não (ou ainda não) contrariada pelos factos.

O que a experiência e as observações do mundo real podem e devem tentar fazer é encontrar provas da falsidade daquela teoria. Este processo de confronto da teoria com as observações poderá provar a falsidade (falsify) da teoria em análise. Nesse caso há que eliminar essa teoria que se provou falsa e procurar uma outra teoria para explicar o fenómeno em análise. 

Este aspecto é fulcral para a definição da ciência. Científico é apenas aquilo que se sujeita a este confronto com os factos. Ou seja: só é científica aquela teoria que possa ser falseável (refutável). 

Uma afirmação que não possa ser confrontada com a sua veracidade pelo confronto com a realidade não é científica. Será talvez uma especulação metafísica.

Mas, com efeito, nós compreendemos muito bem o que querem dizer os realistas, os idealistas, os solipsistas ou os dialéticos. Na realidade, afirma Popper, os neopositivistas tentaram eliminar a metafísica lançando-lhe impropérios. Mas, com o seu princípio de verificação, reintroduziram a metafísica na ciência (enquanto as próprias leis da natureza não são verificáveis). Mas o fato é que “não se pode negar que, ao lado das idéias metafísicas que obstacularizaram o caminho da ciência, também houve outras, como o atomismo especulativo, que contribuíram para o seu progresso. E, olhando a questão do ponto de vista psicológico, estou propenso a considerar que a descoberta científica é impossível sem a em idéias que têm natureza puramente especulativa e que, por vezes, são até bastante nebulosas – uma fé que é completamente desprovida de garantias do ponto de vista da ciência e que, portanto, dentro desses limites, é metafísica.

Portanto, do ponto de vista psicológico, a pesquisa é imposível sem idéias metafísicas, que, por exemplo, poderiam ser as idéias de realismo, de ordem do universo ou de causalidade. Já do ponto de vista histórico podemos ver que por vezes, idéias que antes flutuavam nas regiôes metafísicas mais altas podem ser alcançadas com o crescimento da ciência e, postas em contato com ela, podem se concretizar. (…) Entretanto, um conceito ou uma idéia metafísica só adquire status científico quando é apresentada de forma que possa ser falseada, ou seja, somente quando se torna possível decidir empiricamente entre ela e alguma teoria rival.

Os primeiros elementos da filosofia social de Popper encontram-se in nuce  no ensaio O que é a dialética? Esse escrito marca o momento em que Popper começa a se interessar pelos problemas de metodologia das ciências sociais. E, com base em sua concepção  do método científico, Popper afirma, entre outras coisas, que enquanto, por um lado, a contradição lógica e a contradição dialética não têm nada a dividir, por outro lado, o método dialético é um subentendimento e absolutização do método científico.

No método científico, com efeito, não se tem, como pretendem os dialéticos, nem uma produção necessária da “síntese” nem a conservação necessária, nesta, da “tese” e da “antítese”. Ademais, diz ainda Popper que, enquanto teoria descritiva, a dialética se resume na banalidade do tautológico ou então se qualifica como uma teoria que permite justificar tudo, enquanto não sendo falseável, ela escapa à prova da experiência. Em essência, embora parecendo onipotente, a dialética nada pode na realidade.

Segundo o historicismo, a função das ciências sociais deveria ser a de captar as leis de desenvolvimento da evolução da história humana, de modo a que se possa prever o seu desenvolvimento posterior. Mas Popper sustenta que tais profecias não têm nada a ver com as predições da ciência. O historicismo é capaz apenas de pretensiosas profesias políticas, não percebendo que:

a)   Os desdobramentos imprevistos da ciência tornaram impossíveis tais exercícios proféticos;

b)  A velha crença de que se pode captar a lei de desenvolvimento da história humana baseia-se em flagrante equívoco metodológico entre leis e tendências (enquanto uma tendência não é lei, mas assertiva singular histórica explicável por leis);

c)   A história humana não tem nenhum sentido, exceto o sentido que nós lhe damos;

d)  Conseqüentemente, a história não nos justifica, mas nos julga.

Por outro lado, o holismo é a concepção segundo a qual seria possível captar intelectualmente a totalidade de um objeto, de um acontecimento, de um grupo ou de uma sociedade e, paralelamente, do ponto de vista prático, ou melhor, político, transformar tal totalidade. Contra tal concepção holística, Popper observa que:

a)   Por um lado, é grave erro metodológico pensar que nós podemos compreender a totalidade, até do menor e mais insignificante pedaço do mundo, visto que todas as teorias captam e não podem captar mais do que aspectos seletivos da realidade e são por princípio sempre falseáveis e, sempre por princípio, infinitos em número.

b)  Do ponto de vista prático e operativo, o holismo se resume ao utopismo no que se refere à tecnologia social e ao totalitarismo no que se refere à prática política.

Mas, como se pode ver, Popper desenvolve a crítica ao historicismo e ao holismo em nome da unidade fundamental do método científico que deve existir, tanto nas ciências naturais como nas ciências sociais. Na opinião do autor, as ciências procedem segundo o modelo delineado na lógica da descoberta científica, ou seja, procedem através da elaboração de hipóteses que formulamos para resolver os problemas que nos preocupam e que é preciso submeter à prova da experiência. A contraposição entre ciências sociais e ciências naturais verificam-se unicamente porque, amiúde, não se entendem o método e o procedimento das ciências naturais. E o fato de que as ciências sociais sejam dessa natureza, ou seja, da mesma natureza que as ciências físicas, implica que, no plano da tecnologia social, proceda-se na solução dos problemas mais urgentes mediante uma série de experimentos, dispostos de modo a corrigir objetivos e meios com base nos resultados conseguidos. 

Em 1963, Kuhn publicou o livro A estrutura das revoluções científicas, sustentando que a comunidade científica se constitui através da aceitação de teorias que Kuhn chama de paradigmas. Escreve ele: “Com esse termo, quero indicar conquistas científicas universalmente conhecidas, que por certo período fornecem um modelo de problemas e soluções aceitáveis aos que praticam em certo campo de pesquisa”. (…) Assim como uma comunidade religiosa pode ser reconhecida pelos dogmas específicos em que acredita ou como um partido político agrega seus membros em torno de valores e finalidades específicados, da mesma forma é uma teoria paradigmática que institui uma comunidade científica, que, por força e no interior dos temas paradigmáticos, realiza o que Kuhn chama de ciência normal.

Mas a ciência normal é cumulativa (constroem-se instrumentos mais potentes, efetuam-se medidas mais exatas, precisam-se os conceitos da teoria, ampliam-se a teoria a outros campos, etc.) e o cientista normal não procura a novidade. E, no entanto, a novidade deve aparecer necessariamente, pela razão de que a articulação teórica e empírica do paradigma aumenta o conteúdo informativo da teoria e, portanto, a expõe ao risco do desmentido (com efeito, quanto mais se diz, mais se está arriscado a errar; quem não diz nada, não erra nunca; se diz pouco, arrisca apenas a cometer poucos erros).

Tudo isso explica aquelas anomalias que, em dado momento, a comunidade científica tem de enfrentar e que, resistindo aos reiterados assaltos paradigmáticos, determinam a crise do paradigma. Com a crise do paradigma, inicia-se o período da ciência extraordinária: os dogmas são postos em dúvida e conseqüentmente, suavizam-se as normas que governam a pesquisa normal.

Em suma, postos diante de anomalias, os cientistas perdem a confiança na teoria que haviam abraçado. E a perda de ponto sólido de partida se expressa no recurso à discussão filosófica sobre os fundamentos e a metodologia. Esses são os sintomas da crise, que cessa quando, do cadinho daquele período de pesquisa desconjuntada que é a ciência extraordinária, consegue emergir novo paradigma, sobre o qual se articula novamente a ciência normal, que, por seu turno, depois de um período de tempo talvez bastante longo, levará a novas anomalias e assim por diante.

Kuhn descreve a passagem a novo paraigma (da astronomia ptolemaica à copernicana, por exemplo) como uma reorientação gestáltica: quando abraça novo paradigma, por exemplo, a comunidade científica manipula o mesmo número de dados que antes, mas inserindo-os em relações diferentes de antes. Ademais, a passagem de um paraigma a outro, par Kuhn, é o que constitui uma revolução científica.

Mas, como ocorre a passagem de um paradigma para outro? Essa passagem se realiza por motivos racionais ou não?  

Como podemos verificar em nosso artigo FÍSICA E REALIDADE, nas palavras de Fritz Kahn, qualquer fenômeno do mundo, é dúplice: em primeiro lugar, uma realidade, isto é, algo que existe fora do nosso cérebro, no mundo exterior; e, em segundo lugar, uma representação que nós formamos dessa realidade dentro de nosso cérebro. Exteriormente ao cérebro, então, a realidade é qualquer coisa de substancial. As representações que dessa realidade nós criamos, são produtos do cérebro humano e mudam de homem para homem e de geração para geração. Ou seja, entre nós e o mundo exterior, sempre se colocará o fenômeno: Kant já havia estabelecido que ao homem somente é permitido conhecer os fenômenos (ou seja, impossível é, ao ser humano, conhecer a “coisa em si”, metafisicamente falando).  

Abaixo, temos nosso “diagrama epistemológico“, com o qual nos propomos, ilustrativamente, mostrar os caminhos seguidos por todos os pensadores e  cientistas na busca do conhecimento. Temos aqui representado o fenômeno, agora estabelecido em suas duas variações: a concreta e a abstrata. (Queremos deixar claro que a proposta filósofica que está contida nesse diagrama é de nossa inteira responsabilidade). Neste diagrama estabelecemos a existência de uma outra realidade, agora interior ao homem mas fora dele, interior ao cérebro mas fora do mesmo. Essa realidade chamamos de mundo ideal (podemos mesmo afirmar que é semelhante àquela realidade ideal de Platão, mas não ideal no sentido de pefeito). As representações de ambas as realidades estariam, então, no interior de nosso cérebro e dentro dele. As setas cheias diz respeito ao conhecimento relativo ou científico e, as tracejadas, ao conhecimento absoluto ou metafísico: o objeto de estudo do conhecimento científico são os fenômenos e, do conhecimento metafísico, são as “coisas-em-si”, seja material ou ideal. 

Gaston Bachelard, em O NOVO ESPÍRITO CIENTÍFICO, declara: Assim sendo, ao meditar a ação científica, percebe-se que o realismo e o racionalismo permutam sem fim seus pareceres. Nem um nem outro isoladamente é suficiente para construir a prova científica; no reino das ciências físicas, não há lugar para uma intuição do fenômeno que revelasse de uma só vez os fundamentos do real; tampouco há lugar para uma convicção racional – absoluta e definitiva – que impusesse categorias fundamentais aos nossos métodos de pesquisas experimentais. Existe aí uma razão de novidade epstemológica que teremos de trazer à luz; as relações entre a teoria e a experiência são de tal modo estreitas que nenhum método, seja experimental seja racional, está seguro de manter seu valor. Pode-se mesmo ir mais longe; um método excelente termina por perder sua fecundidade se não se renova o seu objeto. (…) É, portanto, na encruzilhada dos caminhos que o epistemólogo deve colocar-se: entre o realismo e o racionalismo. É aí que ele pode apreender o novo dinamismo dessas filosofias contrárias, o duplo movimento pelo qual a ciência simplifica o real e complica a razão. Fica então mais curto o caminho que vai da realidade explicada ao pensamento aplicado. É nesse curto trajeto que se deve desenvolver toda a pedagoia da prova, pedagogia que é a única psicologia possível do espírito científico.

Em postagem futura, além de explicar melhor nosso diagrama (tendo por base os pontos de vista levantados por Bachelard), responderemos, enfim, nossa querida amiga. Muito obrigado a todos pela visita e um grande abraço.

POSTED BY SELETINOF AT 9:14 AM

 

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Sobre seletynof

Escola (ensino médio):Colégio Marista Cearense;Faculdade/Universidade: Universidade Federal do Ceará;Curso:Física; Diploma:Pós-Graduação em Física;Profissão:físico e professor; Setor:Científico.

Publicado em 12 de maio de 2007, em EPISTEMOLOGIA. Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

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