O HOMEM PERDIDO DENTRO DA NATUREZA

O texto, abaixo, de A. da Silva Mello, foi extraído de seu livro ILUSÕES DA PSICANÁLISE… postado, aqui, sim, mais como uma reflexão, a qual conduz, certamente, a uma visão mais nítida da condição humana (os grifos são nossos e, também, a indicação dos sites). 

O que se tem tornado evidente é que o homem se encontra perdido dentro do mundo, não havendo nele encontrado o seu verdadeiro lugar, sobretudo devido à sua maneira de pensar. Em vez de tomar a vida como ela é, pondo a moral, a justiça, a estética de acordo com a Biologia, temos criado padrões falsos e arbitrários, que muito têm prejudicado a nossa felicidade, não raro tornando-nos bárbaros e arrogantes, mesmo em relação ao trato que damos aos nossos semelhantes e aos próprios animais. Não é por outra razão que precisamos rever esses valores, pondo os nossos instintos de acordo com a natureza, no sentido de a satisfação, a alegria, a felicidade, tornarem-se parte integrante tanto da nossa vida, quanto da nossa moral. Mas, em vez de seguir esse caminho, a nossa existência tem-se tornado cada vez mais artificial e sofisticada, acarretando toda sorte de malefícios ao nosso corpo e à nossa alma. Em vez de a cultura e a civilização haverem favorecido o desenvolvimento das nossas qualidades afetivas e emocionais, têm antes contribuído para recalcar e desvirtuar os nossos instintos, levando-nos à criação de concepções religiosas, políticas, sociais, por demais prejudiciais. 

É sabido que Freud, durante parte da sua vida, considerou o inconsciente como essencialmente bestial, sendo admitido que as concepções de Nietzsche, http://pt.wikipedia.org/wiki/Super-Homem_(filosofia), devem ter contribuído para isso, pois o super-homem é um assassino lúbrico, ao qual falta por completo o sentimento de culpabilidade. Também aos pais da horda primitiva, segundo Darwin, tudo era permitido, devorando eles os próprios filhos e matando as mulheres em proveito do seu prazer pessoal. Eu não compreendo por que essas concepções da brutalidade e da bestialidade do homem primitivo saõ tão exploradas em trabalhos de etnologia ou antropologia cultural, apesar de estarem em contradição com o que se pode observar diretamente na natureza, inclusive em relação aos animais. Tem havido nisso, provavelmente, um erro conservado pela tradição, que se vem repetindo, como é tão freqüente em trabalhos que se baseiam nos de autores precedentes. A História encontra-se cheia de exemplos desse gênero e é possível que também assim possa ser este explicado. Na verdade, porém, a Biologia ensina-nos que o fenômeno é muito diferente, sendo o ser humano primitivo caracterizado pela sua simplicidade e o seu humanismo. Além disso, muitas concepções religiosas e sociais, vindas de tempos remotos, falam no mesmo sentido. Na doutrina de Confúcio, a piedade em relação aos pais e aos avós é a única lei transcendental. Também o judaísmo e outras religiões menos antigas esposam pontos-de-vista semelhantes. Temos mostrado repetidamente que é a razão que tem desvirtuado os instintos, tornando-os desumanos e bestiais.

Apesar disso, não se pode estar de acordo com a afirmação de Freud quando admite que a civilização deixaria de existir, caso fizesse o homem tudo que lhe agrada(http://www.triplov.com/surreal/2006/JCarlos-Brito.htm). Há nisso um exagero absurdo, porque, afinal, o homem não é um criminoso que só procura o mal e a destruição. Esse pensamento é por demais consciente, tendo sido explorado até em direção filosófica. Mas deve estar completamente errado, porque o que comando os instintos é muito diferente, sendo eles que têm permitido a vida e a felicidade do homem e dos animais. São os instintos que precisam ser levados em consideração, devendo ser calcados sobre eles as exigências da nossa existência. Tem sido esse o principal leitmotiv de diversos dos nossos trabalhos, exposto sob variadas modalidades. O ditado “primeiramente viver, depois filosofar” encontra-se quase invertido, pois estamos procurando guiar a nossa vida pelo pensamento, apesar de o pensamento não ser senão uma das manifestações da vida, uma das mais tardias e, certamente, das que se têm tornado mais artificiais.

Num editorial do The Journal of American Medical Association, de 24 vde março de 1962, sobre povos primitivos e como devem ser eles julgados, é levantada, em primeiro lugar, a questão relativa ao que deve ser chamado de primitivo. A resposta é de que esses povos, em comparação aos atuais, estão ainda, sob alguns pontos-de-vista, menos desenvolvidos, por exemplo em relação a ler e escrever, a progressos técnicos e também, sob alguns aspectos, ao desenvolvimento moral e institucional. – “Mas é preciso acentuar que, sob certos ângulos, essas culturas primitivas encontrm-se mais desenvolvidas que muitas das culturas civilizadas, sendo aquelas, em alguns pontos, melhores que estas. Tomando em consideração esquimós e aborígines australianos – duas das culturas mais primitivas conhecidas dos antropologistas – verifica-se que os seus membros são muito mais generosos, afetuosos e cooperativos que a maioria dos das sociedades civilizadas. Segundo a nossa própria maneira de julgar esses valores, são eles melhores ou mais elevados entre aqueles primitivos do que entre nós, os civilizados. Os membros daquelas duas culturas primitivas são mais honestos, mais prestativos, mais alegres e mais corajosos do que habitualmente são os civilizados”. Nessa mesma publicação é mostrado quanto tem sido errôneo o julgamento dos civilizados em relação aos povos primitivos, criando opiniões que prevalecem apesar de falsas ou absurdas.

 

O que é preciso, todavia, é viver a vida como ela é, em toda a sua beleza e simplicidade, sem desvirtuá-la por falsas concepções e absurdas exigências. Esse deve ser o nosso caminho, caminho que precisamos trilhar com dignidade, visando à nossa grandeza e felicidade.

O homem, pela linguagem e a criação de instrumentos, tornou-se o senhor do mundo, quase sem perceber que a bondade e o altruísmo fazem parte do seu equipamento biológico, provindo dos seus longínquos antepassados, quer humanos, quer animais.

POSTED BY SELETINOF AT 11:02 PM

   

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Sobre seletynof

Escola (ensino médio):Colégio Marista Cearense;Faculdade/Universidade: Universidade Federal do Ceará;Curso:Física; Diploma:Pós-Graduação em Física;Profissão:físico e professor; Setor:Científico.

Publicado em 30 de abril de 2007, em PSICOLOGIAFILOSOFIA. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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