A PROBLEMÁTICA EPISTEMOLÓGICO-TEÓRICA DO DIMENSIONALISMO – TEXTO DE PEDRO DE ANDRADE

Resumo

A problemática do dimensionalismo percorre o inconsciente de múltiplos autores contemporâneos, a tal ponto que podemos considerar o épistémé do dimensionalismo como aquele que define, em última análise, o modo de pensar da nossa época. O dimensionalismo é a interpretação da realidade através das suas diversas dimensões, e não apenas a partir de uma dimensão privilegiada. O espaço e o tempo entendem-se enquanto dimensões fundadoras de todas as outras, ou meta-dimensões. As relações entre o espaço e o tempo, ou entre outras dimensões, foram reformuladas, menos ou mais directamente, por Einstein, Hawking, Foucault, David Harvey, Jean Baudrillard, Paul Virilio, entre outros. É possível, pois, empreender uma genealogia do dimensionalismo. Em particular, a realidade social encerra uma natureza interdimensional e reticular, onde se escondem os buracos negros do social, e onde a diacronia passa por dobras do tempo. No quadro desta polifonia da contemporaneidade, as escritas social e sociológica desenvolvem, inevitavelmente, uma estratégia de fractalidade.


1. O dimensionalismo na epistemologia e nas ciências.

Se retomarmos um conceito de Thomas Kuhn, talvez a ‘revolução científica’ operada por Einstein seja muito mais do que isso. Como se sabe, Einstein destaca-se na cena do pensamento, ainda mais do que pela teoria científica da relatividade, devido ao contributo epistemológico que permitiu. Ele é, a meu ver, o grande iniciador daquilo que nomearia a problemática do dimensionalismo, ou seja, a reflexão sobre a dimensionalidade do real em geral, e em particular no campo social da teoria e no âmbito da sua aplicação empírica.

Para Einstein, o mundo “… é composto de acontecimentos individuais onde cada um é determinado por quatro números, a saber três coordenadas de espaço x, y, z e uma coordenada de tempo t. (…) Não estamos habituados a considerar o mundo como um continuum de quatro dimensões, porque na Física pré-relativista o tempo preenchia, em relação às coordenadas do espaço, um papel diferente e mais independente. (…) Graças à Teoria da relatividade, a concepção do ‘mundo’ em quatro dimensões torna-se perfeitamente natural, porque, nessa teoria, o tempo é privado da sua independência. “ (Einstein, 2001 : 77-8)(1). Mais precisamente, este físico desenvolveu duas teorias da relatividade, a segunda pretendendo aperfeiçoar o carácter de relatividade ainda esboçado na primeira. (Idem: 1981 : 155)(2). Estes fenómenos permitiram a descoberta dos campos de gravitação, que darão origem à teoria dos campos de gravitação.

Por seu lado, Jean Piaget, no quadro da reflexão sobre os métodos científicos de construção e intuição das noções da Física, debruçando-se sobre a interpretação das relações espaciais pela microfísica, articula os níveis macro e o micro, ao comentar as possibilidades de “… verificação da interpretação epistemológica segundo a qual o espaço físico e o tempo resultam tanto das acções efectuadas pelo sujeito à nossa escala quanto dos caracteres globais próprios aos objectos macroscópicos.“ (Piaget, 1974 : 230)(3). No quadro da epistemologia das Ciências Sociais, esta relação macro / micro revela-se uma das mais importantes nos debates contemporâneos.

Na Breve História do Tempo, Stephen Hawking recenseia e esclarece as nossas ideias do tempo, desde a noção do tempo absoluto à teoria da relatividade, que sublinhou, na Ciência, o tempo do observador. “Quando se tentou unificar a gravidade com a mecânica quântica, foi preciso introduzir a noção de tempo ‘imaginário’. O tempo imaginário não se distingue das direcções no espaço.” Ou seja, pode percorrer-se o tempo de uma forma algo espacial, para diante e para trás, para norte e para sul. “Por outro lado, quando se olha para o tempo ‘real’, há uma diferença entre os sentidos para diante e para trás.“ Isto é, lembramo-nos do passado, mas não do futuro, que não conseguimos ‘percorrer’. (Hawking, 1995, 193-4)(4).

Para além disso, o conceito einsteiniano de ‘seta do tempo’ permite precisar a relação entre estas e outras formas do tempo. (Ibidem : 195)(5). Para nós, a seta sociológica exprime, essencialmente, o tempo sócio-histórico, uma das meta-dimensões que permitem explicar o mundo social, para além do espaço sócio-histórico.

Aliás, esta problemática do dimensionalismo percorre o inconsciente de muitos outros analistas da história das Ciências, e das Ciências Sociais e Humanas em particular, como Michel Foucault. “É preciso representar o domínio do épistémè moderno como um espaço volumoso e aberto segundo três dimensões: sobre uma delas, situaríamos as ciências matemáticas e físicas, para as quais a ordem é sempre a cadeia discursiva e linear das proposições evidentes e verificadas; haveria, numa outra dimensão as ciências (como as de linguagem, da vida, da produção e da distribuição das riquezas) (…) Quanto à terceira dimensão, seria a da reflexão filosófica (…) Deste triedro epistemológico, as ciências humanas são excluídas, pelo menos no sentido em que não as podemos encontrar em nenhuma das dimensões nem na superfície dos planos assim desenhados. Mas podemos dizer também que elas estão incluídas nesse triedro, porque é nos interstícios destes saberes, mais exactamente no volume definido pelas suas três dimensões, que encontram o seu lugar. Esta situação coloca-os em relação com todas as outras formas de saberes. “(Foucault,1966: 358)(6).

De alguma forma, o épistémè moderno – e Foucault parcialmente, na sua análise – utilizam um modelo que corresponde, grosso modo, à geometria Euclidiana e, mais exactamente, à geometria analítica cartesiana, de onde derivam muitas das nossas técnicas estatísticas actuais, como a análise factorial e a própria técnica conhecida como análise multidimensional.

Entretanto, encontramo-nos hoje num mundo onde não existem três, nem mesmo quatro dimensões da realidade. As dimensões do mundo revelam-se incomensuráveis, o que não impede de as vislumbrarmos não como um triedro, mas como um prisma multifacetado, em que a pluralidade e a polifonia das várias figuras da realidade possam ser, se não demonstradas ou representadas, como alguma modernidade pretende, pelo menos fugazmente mostradas ou indiciadas. Trata-se de um exercício de captação das resmas do real e do irreal, um Livro do Mundo sem capa nem número finito de páginas, escrito por uma heurística não apenas dedicada às presenças mas também às ausências ou buracos negros, a partir dos vestígios com que a realidade e as suas máscaras se aparentam vestir. Apanhar os troços pelos traços, os restos pelos rastos, os projectos e os seus projécteis pelas projecções.

Retomando Foucault: “Não há dúvida que a emergência histórica de cada uma das ciências humanas fez-se na ocasião de um problema, de uma exigência, de um obstáculo de ordem teórica ou prática.” (Ibidem: 356) Dito de outro modo: é necessário empreender uma genealogia do dimensionalismo, aqui apenas esquissada.

Aliás, se essa genealogia ainda se encontra por fazer, a Filosofia, as Ciências Humanas e as Ciências Sociais, sem o nomearem explicitamente, já se encontram a reflectir na problemática do dimensionalismo.

A este propósito, por um lado, quanto às temporalidades, uma obra aliciante mas também polémica, foi escrito por W. Newton-Smith, onde se percorre: a natureza do tempo; a mudança; a topologia do tempo (entendida nos parâmetros da linearidade, da unidade, do início e dos micro-aspectos); a métrica do tempo e a sua direcção. Em especial, o autor pretende ultrapassar a dualidade entre a posição daqueles que significam o tempo como contentor dos acontecimentos, ou absolutistas; e aqueles para quem o tempo não pode existir sem os eventos, ou relativistas. Para ele, o tempo pode mostrar-se cíclico, estabelecer ‘branchings’ ou seja, conectividade; existem tempos com ou sem começo, etc. Para além disso, o tempo apresenta-se como uma ‘estrutura teórica (theoretical structure) ou como um quadro teórico (theoretical framework). “Nesta acepção, as hipóteses acerca do tempo não são entendidas como representando hipóteses acerca dos factos, mas especificando modos de descrição para lidar com os factos. “ (Newton-Smith, 1984 : 239)(7). A sociologia também se interessa por esta problemática do tempo, sobretudo a partir de Anthony Giddens, David Harvey, Nikhlas Luhmann e Erving Goffman (8).

Por outro lado, a questão do espaço, e da ‘espacialidade’ em particular, recobre pelo menos quatro sentidos. Em primeiro lugar, no quadro do existencialismo e da fenomenologia de Heidegger e Husserl, J. Pickles aponta a espacialidade humana como pré-condição de qualquer compreensão dos lugares e dos espaços como tal. Nas nossas actividades quotidianas, não experimentamos abstracções cognitivas de objectos separados, mas constelações de relações e de sentido, o ‘equipamento ‘ segundo Heidegger, que se encontra ‘pronto para uso’ em ‘contextos de equipamentos’ (9).

Em segundo lugar, no âmbito do marxismo estruturalista, procura-se estabelecer a relação entre estruturas sociais e estruturas espaciais. Louis Althusser alega que as diferentes construções do tempo ou ‘temporalidades’ podem ser associadas a outros tantos planos dos modos de produção, resultando no ‘tempo económico’, no ‘tempo político’ ou no ‘tempo ideológico’. Contudo, Pierre Vilar sustenta que a história não articula apenas tempos mas ‘espacialidades’, também conectáveis aos níveis dos modos de produção (10). Por seu turno, A. Lipietz advoga uma correspondência entre a ‘presença-ausência no espaço e a ‘participação-exclusão’ nas práticas sociais (11). Neste quadro conceptual, Manuel Castells apresentou a mais completa sistematização das correspondências entre estruturas sociais e estruturas espaciais, mas acrescentando que não podemos falar dessas instâncias separadamente, apenas é possível referirmo-nos a espaços-tempos, que são conjunturas construídos pela história (12).

Em terceiro lugar, Edward Soja, inspirado em Henri Lefebvre e no seu conceito ‘produção do espaço’, afirma que nem todo o espaço é socialmente produzido, apenas a ‘espacialidade’. Aproximando-se ainda da teoria da estrutruração de Anthony Giddens, fala de uma ‘estruturação espácio-temporal’ (Soja, 1985 :1984 : 90-122) (13).

Em quarto lugar, alguns autores pós-estruturalistas, a partir de Deleuze e Foucault, referem-se a constelações de poder e saber inscritas nos espaços, a partir dos quais os posicionamentos e as identidades dos sujeitos são construídas (14).

Para além disso, de entre os autores que mais aproximam o espaço ao tempo, questão que nos interessa particularmente aqui, Giddens, a partir da ‘geografia do tempo desenvolvida por Torsten Hagerstrand, sugere a ‘distanciação tempo-espaço’, como sendo a expansão da interacção através do espaço e a sua contracção através do tempo, processo que influi nos outros fenómenos sociais: “Proponho que a noção de distanciação espaço-tempo se conecte, de uma maneira muito directa, com a teoria do poder. Explorando esta conexão podemos elaborar alguns dos contornos principais da dominação enquanto propriedade expansível dos sistemas sociais.” (Giddens, 1991: 258) (15). Por seu lado, David Harvey fala de ‘compressão tempo-espaço’, ou seja, a aniquilação do espaço pelo tempo sob o capitalismo, já entrevista por Marx, mas caracterizada por Harvey em termos de uma velocidade no ritmo da vida, que sugere o colapso do mundo em cada sujeito. Em particular, Harvey preocupa-se com o modo pelo qual a ‘compressão tempo espaço’ desloca o habitus. (Harvey, 1989, pp. 242-7) (16). Existe, pois, neste último autor, uma dimensão de experiência subjectiva e de crise de identidade que a noção ‘distanciação tempo-espaço’ de Giddens não traduz, pelo menos tão claramente.

 

Por seu turno, Jean Baudrillard refere-se pontualmente às dimensões, numa entrevista a Yves Laurent. “ [Baudrillard : ] — Um ser a duas dimensões, como a imagem, é em si perfeito. (Baudrillard, 2001: 99) (17). A terceira dimensão é uma forma de denegação da imagem. Com a quarta, com o virtual, temos um espaço-tempo que já não tem nenhuma dimensão…” (Ibidem : 100-1) (18). O autor acrescenta ainda: “Se quisermos voltar ao mais próximo da essência de um objecto estético, (…) é necessário subtrair, sempre subtrair …” (Ibidem; 101). A meu ver, Baudrillard, malgrado o interesse manifesto da sua análise, decididamente, pára de contar no zero. Se continuasse a subtrair, ultrapassaria o zero e chegaria à multiplicidade de dimensões negativas, o que não deixa de ser uma subtracção, que agora leva à multiplicidade de dimensões.

Baudrillard faz coincidir as quatro dimensões do virtual com a ‘realidade integral’, ou seja, a hiperrealidade. “O universo de três dimensões tornou-se agora flutuante, submergido por um universo de quatro dimensões, o do virtual, do digital, aquilo que chamo a realidade integral. “ (Ibidem : 102). No écran, o problema da profundidade não se coloca, não há o outro lado do écran, enquanto que existe um outro lado do espelho. (…) há felizmente excepções. Qualquer imagem verdadeira, qualquer fotografia verdadeira só vale como excepção …” No entanto, Baudrillard, a propósito desta redução às duas dimensões da imagem e à unicidade desta última, diz que “isso colocou-me um problema para a exposição fotográfica: ‘A morte da imagem’, onde expunha séries, portanto em total contradição com o que lhe digo . (…) Depois de falar da singularidade da imagem, do universo de duas dimensões, irredutível ao de três dimensões [o nível da realidade, da representação, segundo Baudrillard], encontro-me a usar a série, que é para a imagem uma maneira de entrar na quarta dimensão, aquela do fractal [e do virtual, do digital, da realidade integral, segundo o autor], e que faz parte, portanto, da morte da imagem . “ (Ibidem : 103-4).

No fundo, perpassa um certo dualismo, algo moderno, nesta interpretação, por parte de Baudrillard, da dimensionalidade do real. Mais, não nos parece que possa existir uma realidade ‘ideal’ a duas dimensões, aquela precisamente subjacente à generalizada ‘écranização da vida’ de que falam tantos analistas. Igualmente, a realidade ‘integral’ a 4 dimensões, a que investe na ‘virtualização da vida’, surge apenas como uma das ‘realidades integrais’ possíveis. Mais interessantes parecem ser as ‘realidades polifónicas’, ainda em construção, cada uma das quais mostradas – apresentadas mas já não representadas – , nas combinações singulares das dimensões da realidade e da irrealidade.

Para além disso, como bem recorda John Armitage, Paul Virilio interessa-se pela teoria da relatividade de Einstein, embora esse aspecto seja um dos menos considerados na apreciação do seu pensamento (19). “Nós encontramo-nos todos a atravessar os portões da relatividade. É sobejamente sabido que a teoria da relatividade está muito pouco popularizada, não é nada bem compreendida pelo público em geral. Mas não podemos ignorar a teoria da relatividade pela mera razão de que é de difícil compreensão. Porquê? Porque a vivemos. Nós vivemo-la através dos telemóveis, por meio dos programas ‘ao vivo’ na TV, por intermédio das telecomunicações, através da realidade virtual (VR), pelo ciberespaço, por meio da ciberconferência, pela mediação da viagem aérea supersónica, e assim por diante. Portanto, à medida que a vivemos, interpretamo-la, no sentido musical do termo. “(Armitage, 2001 : 17) (20). Esta relatividade advém, em grande parte, das deslocalizações operadas pela velocidade das comunicações planetárias. (Ibidem : 18) (21).

Paul Virilio irá, assim, circunscrever melhor a intervenção das dimensões espaciais e temporais na cena contemporânea: “Tempo (duração), espaço (extensão), a partir de agora inconcebíveis sem a luz (velocidade-limite), a constante cosmológica da velocidade da luz, contingência filosófica absoluta que sucede depois de Einstein ao carácter absoluto concedido por Newton e por muitos antes dele ao espaço e ao tempo. “ (Virilio, 2000:35) (22).Outro conceito importante, em articulação estreita com as anteriores dimensões, refere-se à sua crise no pensamento e na acção. “A transição crítica não é, pois, uma palavra vã: dissimula-se atrás deste vocábulo uma verdadeira crise da dimensão temporal da acção imediata. Depois da crise das dimensões espaciais ‘inteiras’, em favor da acrescida importância das dimensões fraccionadas, vai assistir-se, finalmente, à crise da dimensão temporal do instante presente.“ (Ibidem : 37).

Daí que Paul Virilio detecte um novo tipo de processos sociais, assim circunscritos: “Ao lado dos fenómenos da poluição atmosférica, hidrosférica e outras, existe um fenómeno de poluição despercebido, o da poluição da extensão, ao qual proponho chamar dromosférico – de dromos : corrida.” (Ibidem:47). Desta maneira, a velocidade e o percurso, e mesmo o percurso da velocidade, fundam-se e fundem-se, para Virilio, mais no tempo do que no espaço: “Ora, de que ‘espacialidade’ pode tratar-se quando já só subsiste o ser do trajecto, de um ‘trajecto’ que se identifica integralmente ao sujeito e os objecto em movimento, sem outra referência que não ele próprio? “ (Ibidem:171).

Um tal protagonismo do tempo é inegável. Contudo, parece-me mais rigoroso afirmar que a paisagem actual rege-se por inéditas espacializações de tempo e por temporalizações originais do espaço, devido à proliferação desmesurada e incomensurável de novas dimensões do real e, sobretudo, de novas relações entre elas. Neste sentido, em 1985, tinha sugerido a emergência de um tipo de saber nunca dantes visto, o ‘saber-dados’, que conectámos recentemente ao conceito valor informativo-textual (23). O saber-dados é o conhecimento nativo produzido nos sistemas informáticos e nas redes de informação, que se relaciona intimamente com todos os outros modos de conhecimento, afirmando-se mesmo como uma espécie de ‘saber-moeda’, equivalente geral dos restantes. Mais tarde, em Janeiro de 1996, propus a noção de cibertempo, a fim de acentuar não apenas o protagonismo das temporalidades, mas para as redimensionalizar com as espacialidades e as restantes dimensões, e em especial com o ciberespaço (24).

Também José Augusto Mourão aponta a necessidade de uma atenção acrescida à relatividade, em particular a interacção e o dialogismo reticulares entre o sujeito observador e o objecto observado, no quadro dos textos e o dos seus contextos. “Em 1913, Albert Einstein publicou a sua Teoria Geral da Relatividade. De acordo com esta teoria, a distinção entre actores e palco já não seria possível. O período moderno (i.e. de cerca de 1875 a 1925) assistiu a uma transformação radical na anterior noção de texto. O texto torna-se um objecto a obter, um texto dialógico. “ (Mourão, 2001 : 65) (25). Uma tal dimensão dialógica e textual da relatividade parece-me central.

Assim, se emigrarmos para Mikhail Bakhtine, o propulsor do dialogismo, encontramos o termo ‘cronótopo’, que significa as instâncias espaciais e temporais que intervém no texto narrativo, mediadas pelos códigos técnico-literários. Por exemplo, o autor mostra que, em meados do século XVIII, certas localizações geográficas condicionaram ‘cultos locais’ associados com trabalhos literários específicos, que aliás tetemunham um novo sentido de espaço e do tempo no trabalho artístico. (Bakhtine, 1986 : 47) (26).

Nesta perspectiva, a literatura e as linguagens são entendidas como sistemas mutantes de subgéneros e de linguagens fragmentadas, em luta umas com as outras, em contextos espácio-temporais onde os agentes e a arte dialogam e se hibridizam. Na Imaginação Dialógica, encontramos a caracterização das formas do tempo e do cronótopo na novela (Idem, 1990 : 41-83) (27). Os outros géneros, como o épico, são ‘géneros completos’ (Ibidem : 7), na medida em que encontram-se referidos, pelo menos no seu apogeu, a realidades sócio-culturais passadas. “…A interacção mútua dos géneros num único período literário unificado é um problema de grande interesse e importância.” (Ibidem: 4). “… De todos os géneros maiores apenas a novela é mais nova do que a escrita e o livro: só ela se encontra receptiva organicamente a novas formas de percepção muda, isto é, de leitura.” (Ibidem : 3) Hoje, processa-se uma ‘novelização’ (novelization) dos outros géneros, a partir da ‘novelidade’ (novelness) em estreita relação com as características temporais e espaciais ou sócio-culturais da cena contemporânea. “Quais são os traços salientes desta novelização dos outros géneros? Tornam-se mais livres e flexíveis, a sua linguagem renova-se pela incorporação de heteroglossias extra-literárias e os níveis ‘novelísticos’ da linguagem literária tornam-se dialogizados, permeados com risos, humor, elementos de auto-paródia e finalmente – isto é o mais importante – a novela insere, nestes outros géneros, uma indeterminação, uma certa abertura semântica, um contacto vivido com uma realidade contemporânea envolvente inacabada (o presente ilimitado)”. (Ibidem : 6-7).

Este conceito, ‘cronótopo’, aplica-se, com proveito, aos estudos sociológicos. Aliás, Lynne Pearce sugeriu uma sua extensão, a partir do hibridação desse termo com outra noção de Bakhtine, o ‘polifónico’, no vocábulo ‘policronotópico’. A palavra significa a coexistência de múltiplos cronótopos, cada um possuindo uma certa autonomia, num mesmo texto: “…sem sempre coincidirem, os cronótopos entram num diálogo complexo uns com os outros, que é, em todos os tempos, um diálogo inscrito pelo poder.” (Pearce, 1994 : 175) (28).


2. A fractalidade das escritas social e sociológica

Um outro aspecto importante na dimensionalização da natureza e da sociedade, e proximamente relacionado com a noção e questão das escritas social e sociológica, é a sua fractalidade. Sabemos que o fractal é uma organização de entidades que progride pela produção de formas semelhantes em escalas dissemelhantes. Benoit Mandelbrot defende que as paisagens geográficas e outros aspectos dos sistemas naturais possuem propriedades fractais (29). Por seu turno, M. Batty e P. Longley aplicam fractais em modelos formais e de crescimento das cidades, argumentando que, em diferentes escalas, o tecido urbano apresenta semelhanças (30). M. Goodchild e D. Mark, aproximam as formas fractais aos fenómenos geográficos e respectivos sistemas de informação (GIS). (1987 : 265-78) (31). Em particular, Edward Soja, a este propósito, desenvolve o conceito de ‘pós-metrópolis’: “O spatial turn foi a mais recente adição ao discurso especializado da nova política da cultura (…) Escolhi o termo cidade fractal para descrever o mosaico social reestructurado da pós-metropolis. (…) Adoptando uma perspectiva espacial ternária permite-nos ver em qualquer sítio empírico, desde o corpo à esfera global, a natureza fundamental da espacialidade da natureza humana em toda a sua riqueza e complexidade, em grande parte como uma biografia individual ou uma história social abre possibilidades para a consideração de todos os aspectos da condição humana geral. “ (Soja, 2000 : 281-283) (32).

Entretanto, no decurso de uma entrevista concedida por Baudrillard a Yves Laurent, ambos estabelecem a separação entre o fragmento e o fractal : “ Segundo Musil, o fragmento é o mais pequeno todo possível. Rokhto diz – falando da sua obra – que aquilo que a caracteriza é que ela se abre em todas as direcções (…) ao mesmo tempo que se fecha (…) gosto muito desta imagem: fechar-se em todas as direcções…Aí está, parece-me aquilo que é um fragmento. Fecha-se em todas as direcções, ao passo que o fractal não abre mais do que aquilo que fecha…” (Baudrillard, 2001: 104) (33). A meu ver, não há fractal sem fracturação em múltiplas formas, no seio do próprio fractal. Com efeito, o fractal não engendra apenas a clonagem de uma mesma figura. Para além disso, o fractal produz formas inéditas. Por um lado, fá-lo a nível microscópico, na forma de variações mínimas ou de relações novas entre as formas repetidas em escalas microscópicas diferentes. Por outro lado, no nível macroscópico, os efeitos da totalidade de uma tal organização da natureza ou da sociedade (o ‘desenho’ geral do fractal) relativizam-se, continuamente, devido à própria produção contínua de novas partes do fractal. Na verdade, a noção de ‘fractal finito’ é uma contradição, terminológica e lógica. Daí que a fractalidade se apresente como uma hibridação do Mesmo e do Outro. De facto, a fractalidade não se confunde totalmente com a mesmidade, porque diversifica as semelhanças do sistema através das relações de diferença (ou seja, as variações mínimas e as distintas escalas) que introduz. Da mesma maneira, não coincide completamente com a alteridade, já que a reproduz e a clona, em parte.

 

3. O épistémè da dimensionalidade.

Que deduzir, de um modo sintético, destas diversas contribuições epistemológicas e teóricas? Na minha perspectiva, a conclusão mais evidente é esta: aquilo que caracteriza o pensamento e a linguagem da contemporaneidade, o seu épistémè mais genuíno, é o épistémè da dimensionalidade. Mas não qualquer dimensão ou dimensionalismo simplista, ou uma dimensionalização que enfeude as dobras da realidade ou os buracos negros da não-matéria social numa gaiola física ou social. Por outras palavras, não se trata apenas de recorrer às dimensões físicas, como o espaço, o tempo, a velocidade ou a aceleração, ainda que aplicadas à sociedade. O que importa destacar é a versão interdimensional ou transdimensional do dimensionalismo, que realça não somente a multiplicidade e sobretudo a pluralidade e polissemia do real, mas assume-se enquanto poliedro teórico que relaciona as suas infindáveis dimensões sociais, onde, tal como um peixe apanhado numa rede de malhas pouco finas, o sentido escapa no próprio momento em que parece ser domesticado. Mais: para além das dimensões conhecidas, é necessário demandar aquelas nunca dantes percepcionadas, mas apenas presentes nos traços deixados nos mapas cognitivos e sémicos do futuro.

Assim sendo, uma tal hermenêutica interdimensional sublinha principalmente, duas coisas:

Primeiro, não basta professar uma bidimensionalidade, uma tridimensionalidade, nem mesmo uma multidimensionalidade. Apoiando-nos no conceito de polifonia de Milhail Bakhtine, uma polifonia das dimensões só se entende se acompanhada de uma polifonia das relações. Ou seja, as dimensões não devem ser coarctadas na sua hibridação e heteroglossia social. Por isso, extraímos do mundo não somente a dimensão ‘esferas sociais’, mas também os ‘níveis societais’ e as ‘negociações sociais’, bem como as meta-dimensões que as cruzam, como os espaços e os tempos sociais, para além de outras dimensões ainda em construção na hermenêutica interdimensional (34).

Segundo, não se assevera suficiente pensar as dimensões físicas aplicadas na realidade social, mas é preciso reflectir sobre as dimensões sociais articuladas às dimensões sociológicas. Ou seja, falta dimensionar não somente o real, mas igualmente a teoria. As relações entre as dimensões, como se verá, são essencialmente três: as relações intradimensionais, ou seja, as teias circulantes entre as zonas internas a cada dimensão; as relações interdimensionais, isto é, as redes tecidas entre duas ou mais dimensões; e as relações metadimensionais, ou os fluxos que envolvem pelo menos uma meta-dimensão.

 

NOTAS

 

1. Albert Einstein, 2001, La relativité, Paris, Payot.

2. De acordo com a teoria da relatividade restrita, as coordenadas de espaço e de tempo ainda conservam um carácter absoluto, já que são directamente mensuráveis pelos relógios e corpos rígidos. Mas tornam-se relativos por dependerem do estado de movimento do sistema de inércia escolhido.“ Ou seja, no quadro da relatividade restrita, cada sistema de inércia possui o seu tempo particular e relativo. Pelo contrário, a teoria da relatividade geral estende o “… princípio de relatividade aos sistemas de coordenadas [as quatro dimensões do mundo], possuidores de uma aceleração relativa de uns em relação aos outros.“ (Albert Einstein, 1981, Como vejo o mundo, Rio de Janeiro, Nova Fronteira).

3. Jean Piaget, 1974, Introduction à l’épistemologie génétique: 2. La pensée physique, Paris, PUF.

4. Stephen Hawking, 1995, Breve História do tempo, Do Big Bang aos buracos negros, Lisboa, Gradiva.

5. “O aumento de desordem ou entropia com o tempo é um exemplo do que se chama uma seta do tempo, qualquer coisa que distingue o passado do futuro, dando um sentido ao tempo. Há pelo menos três setas diferentes do tempo. Primeiro há a seta termodinâmica, o sentido do tempo em que a desordem ou entropia aumenta. Depois há a seta psicológica, ou seja, o sentido em que sentimos que o tempo passa, em que nos lembramos do passado mas não do futuro. Finalmente, há a seta cosmológica, que é o sentido do tempo em que o Universo está a expandir-se em vez de contrair-se.“

6. Michel Foucault, 1966, Les mots et les choses, Paris, Gallimard.

7. W. Newton-Smith, 1984, The Structure of Time, London, Routledge.

8. Para uma síntese das teorias do tempo social, cf: Simonetta Tabboni, 1989, La representazione sociale del tempo, Milano, Franco Angeli, sobretudo as páginas 185-214.

9. J. Pickles, 1985, Phenomenology, science and geography: spartiality and the human sciences, Cambridge University Press.

10. Pierre Vilar, 1973, « Histoire marxiste, histoire en construction : essai de dialogue avec Althusser », Annales ESC (28), pp. 165-98.

11. A. Lipietz, 1977, Le capital et son espace, Paris, Maspero.

12. Manuel Castells, 1977, The urban question, London, Edward Arnold.

13. Edward Soja, 1985, “The spatiality of social life: towards a transformative retheorization”, In D. Gregory; J. Urry (eds.) Social relations and spatial structures, London, MacMillan.

14. D. Gegory, 1994, Geographical Imagination, Oxford / Cambridge, Blackwell.

15. Anthony Giddens, 1991, The Constitution of Society: Outline of the Theory of Structuration, Camberidge, Polity Press.

16. David Harvey, 1989, The Condition of Post-Modernity : an enquiry into the conditions of cultural change, Oxford, Blackwell.

17. Jean Baudrillard, 2001, D’ un fragment à l’autre : entretiens avec Yves Laurent, Paris, Albin Michel.

18. (…) O facto de que a imagem seja a duas dimensões, agrada-me, na medida em que isso alcança – por razões que me são confusas – a ideia de dualidade… [Entrevistador:] —- O seu fundo gnóstico… [Baudrillard : ] — Deve ser isso! Parece-me que a ordem simbólica é dual, e nesse sentido, e que todas as ordens que se conhece são pelo contrário, unitárias, totalitárias… “ (…) “ De qualquer maneira, procura-se no universo do som como naquele da imagem, o acrescento de novas dimensões, uma trifonia, depois uma quadrifonia, depois uma multifonia. Na imagem, é a mesma coisa, damos-lhe uma, duas, três, várias dimensões.

19. Paul Virilio, 1997, Open Sky, London, Verso. John Armitage, 2001, Virilio Live: Selected Interviews, London, Sage.

20. John Armitage, 2001, Virilio Live: Selected Interviews, London, Sage.

21. “Tornámo-nos desterritorializados. A nossa incrustação em solo nativo, esse elemento do hic et nunc, (aqui e agora), ‘in situ’, essa inserção pertence, agora, em certa medida, ao passado. Foi superada pela aceleração da história – pela aceleração da própria realidade – pelo ‘tempo real’, e pela ‘vida’, conjunto que se posiciona para além do hic et nunc, condição ‘in situ. (…) Só relatividade! Não a relatividade dos físicos, mas a nossa relatividade, a relatividade das nossas próprias vidas vividas, pelas quais somos responsáveis, e das quais somos as vítimas, ao mesmo tempo. A relatividade já não é o domínio exclusivo do cientistas (naturais), tornou-se propriedade de todos aqueles que vivem no mundo moderno.“

22. Paul Virilio, 2000, A velocidade de libertação, Lisboa, Relógio de Água.

23. Pedro Andrade, 1985, “Para uma Sociologia da Documentação: sensibilização à necessidade da sua construção”, In Actas do 1º Congresso Nacional de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas ‘A informação em tempo de mudança’, Porto, 19-21/6/85, pp. 421-450.

24. Idem, 1996, “Para uma Sociologia (Interdimensional) da Internet”, In Actas do 3º Congresso Português de Sociologia, 7-9 Fev. [Editado em CD-ROM].

25. José Augusto Mourão, 2001, Para uma poética do hipertexto: a ficção interactiva, Lisboa, Edições Universitárias Lusófonas.

26. Mikhail Bakhtine, 1986, Speech genres and Other Late Essays, Austin, University of Texas Press.

27. Idem, 1990, The Dialogical Imagination: Four Essays with Problems of Dostoevsky’s Poetics, Austin, University of Texas Press.

28. Lynne Pearce, 1994, Reading Dialogics, London, Arnold.

29. B. Mandelbrot, 1982, The fractal geometry of nature, W. H, Freeman, San Francisco.

30. M. Batty; P. Longley, 1994, Fractal cities, London, Academic Press.

31. M. Goodchild; D. Mark, 1987, “The fractal nature of geographic phenomena”, Annals of the Association of American Geographers (77).

32. Edward Soja, 2001, Postmetropolis: Critical Studies of Cities and Regions, Oxford, Blackwell.

33. Jean Baudrillard, 2001, D’ un fragment à l’autre : entretiens avec Yves Laurent, Paris, Albin Michel.

34. A primeira formulação da Hermenêutica e Sociologia Interdimensionais, tal como a concebemos, foi proposta em Pedro de Andrade, 1993, “As sonoridades sociais”, In Actas do 2º Congresso Português de Sociologia. Lisboa, 5-7/2/92, 82-105. Esta questão será retomada e actualizada no próximo número de Atalaia/Intermundos.

POSTED BY SELETINOF AT 9:34 PM 

 

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Sobre seletynof

Escola (ensino médio):Colégio Marista Cearense;Faculdade/Universidade: Universidade Federal do Ceará;Curso:Física; Diploma:Pós-Graduação em Física;Profissão:físico e professor; Setor:Científico.

Publicado em 19 de abril de 2007, em PSICOLOGIAFILOSOFIA. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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