BUROCRACIA E CRIATIVIDADE

 

As tecnologias que hoje temos à nossa disposição substituem o trabalho duro. Isso significa que resta ao ser humano o monopólio do trabalho criativo. Mas criativo é o oposto de burocracia, de acadêmico, porque é a fantasia aliada à realização. Realização sem fantasia gera burocratas. Portanto, burocracia e criatividade são opostos. O mundo atual precisa dos criativos. Estamos num mundo em que reduz-se progressivamente a tarefa executiva, que é delegada às máquinas, e diminui-se o espaço dos burocratas.  

A criatividade resulta de fantasia e realização. Acontece que é difícil encontrar alguém muito fantasioso, criativo e efetivo ao mesmo tempo. Quando ocorre, temos um gênio. (…) É difícil, portanto, encontrar gênios. Mas será que é possível criá-los? Na minha opinião, podemos desenvolver a criatividade coletiva, gerada por grupos em que uns têm maior fantasia e outros, maior capacidade de realização. 

A sociedade industrial nasceu do Iluminismo. Antes do Iluminismo, os fatos da natureza (raio, trovão ou uma epidemia) eram atribuídos ao desejo dos deuses ou ao diabo, e assim por diante. O Iluminismo introduziu a racionalização. Os seres humanos têm condições de entender racionalmente os acontecimentos físicos e humanos e dominá-los. (…) Mais: o Iluminismo acrescentou que tudo que é racional é masculino e se refere à produção, e produção se faz na empresa. Tudo que é ruim, ao contrário, é emocional, é feminino, e feminino se refere à reprodução, e reprodução é feita em casa. Houve, portanto, uma cisão terrível entre os homens, que se atribuíram o poder e o monopólio do trabalho, e as mulheres, que foram deixadas em casa. Mas hoje nos damos conta de que as empresas não progridem sem idéias, e que isso requer fantasia, subjetividade, estética e emotividade.

O século XX foi caracterizado pelo trabalho burocrata, porém, neste século (era pós-industrial) prevalecerá o trabalho criativo (…) Acho que no futuro será impossível distinguir estudo e trabalho de tempo livre, por causa das próprias atividades desse futuro.

Refletindo o pensamento do sociólogo De Masi (professor titular da Universidade de Roma La Sapienza), dado no texto acima (programa Roda Viva, TV Cultura), interrogamo-nos sobre a realidade hoje da universidade em nosso país e seu futuro. É dado estatístico, que ocorre atualmente uma grande desistência de alunos em todos os cursos universitários: os jovens apenas não estariam sabendo escolher sua profissão futura?! Mas, não será isto, sim, conseqüência de uma atitude da própria instituição acadêmica brasileira que, indiferente àqueles que não se adaptam ao sistema burocrático de ensino, apenas descarta-os?! Ou, não estará a pesquisa cientifíca de nosso país, ainda nos dias atuais, destituída de sua dimenção estética, cuja mensão fora feita, já na década de setenta, por Alfredo Marques?! Hoje, certamente, a universidade deverá priorizar caminhos nos quais o trabalho em equipe, pouca hierarquia, flexibilidade, mudança, inovação e risco sejam seu perfil, visando assim os desafios do novo século.

Dentro desta perspectiva, faço lembrar-nos do tempo (queremos dizer… lá pela Idade Média) em que o homem de ciência era capaz de discernir sobre quase tudo, ou seja, tinha conhecimentos profundos de física, matemática, biologia, filosofia, química, etc., os quais utilizava com grande eficácia segundo o progresso da ciência de sua época. Atualmente, temos a oportunidade de presenciarmos a mesma façanha, porém, de uma forma diferente: o pesquisador com a utilização do computador pode ter acesso fácil a toda informação que necessitar para desenvolver seus trabalhos. Mas é, sobretudo, se armando de sua criatividade (fantasia mais realização) que o homem atual poderá transcender e, então, transformar sua realidade.

Por fim, meditemos as palavras de Amoroso Costa, proferidas na famosa conferência sobre Otto de Alencar: Ensinar, disse ele, é alguma coisa mais do que repetir compêndios ou fornecer aos moços preceitos profissionais, o que importa sobretudo é modelar-lhes harmoniosamente a inteligência e a sensibilidade, abrir-lhes os olhos, para as coisas superiores. Queremos aqui, ainda, em forma de homenagem, mencionar o nome de um professor/pesquisador (do Deparatamento de Física da Universidade Federal do Ceará) que, além de ensinar segundo a forma como prega Amoroso Costa, reúne fantasia e realização com muita naturalidade: Josué Mendes Filho.  

POSTED BY SELETINOF AT 8:42 AM

 

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Sobre seletynof

Escola (ensino médio):Colégio Marista Cearense;Faculdade/Universidade: Universidade Federal do Ceará;Curso:Física; Diploma:Pós-Graduação em Física;Profissão:físico e professor; Setor:Científico.

Publicado em 7 de fevereiro de 2007, em EDITORIAL. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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