O HOMEM MODERNO, À LUZ DA CIÊNCIA NATURAL

Abaixo, postamos um texto extraído da obra de Fritz Kahn, O Livro da Natureza, traduzido do alemão para o português por Catharina Baratz Cannabrava. Embora seja publicação da década de cinqüenta, é surpreendente pela atualidade das questões discutidas e pela simplicidade e profundidade das abordagens. Em alguns pontos não concordo com o autor, não obtante, seja seu aspeto científico inquestionável. Divirtam-se e tirem suas conclusões… é importante ter em mente os problemas levantados no artigo, publicado aqui por nós, de Karen Horney.   

No princípio e no fim de qualquer ciência está a fórmula. Com as leis planetárias de Kleper se iniciou a investigação científica do sistema solar; com as leis de Newton sobre a atração dos corpos, a mecanica celeste; das leis da eletricidade derivou a era da eletrônica; com as fórmulas de Einstein sobre massa e energia, e a teoria dos quanta de Plank, marcou-se o início da era da Física Moderna.

Nas ciências dos seres vivos não é com leis e sim com teses que operamos. Também estas, porém, são a base indispensável de que a pesquisa necessita para construir o conhecimento nesta área. Já o primeiro que estudou a hereditariedade chegou às regras de Mendel; e o dia dessa descoberta é a data do nascimento da Lei da Hereditariedade. Com a sentença Omne vivum e vivo (Toda vida deriva da vida), descobriu-se o princípio fundamental que pôs termo a todas as fantasias então vigentes e que é lícito atribuir a um equívoco de Aristóteles. As râs não nascem do lôdo; as cordonizes não caem do céu; deixamos de matar bois a pauladas, para tirar abelhas da sua carne em decomposição: Omne vivum e vivo. Eis formulado enfim com clareza o conceito da existência; a este seguiram-se os conceitos árvore genealógica  e história da evolução. Com o preceito de Paster: As doenças contagiosas propagam-se pela transmissão dos germes, criou-se o conceito doença contagiosa e se empreendeu a caça aos bacilos, que libertou o planeta das epidemias.

Também para o homem se acharam fórmulas análogas. O próprio Lineu, embora se ativesse com fé inquebrantável à história bíblica da criação, viu-se forçado a emparelhar o homem com o símio. Mas, enquanto ele não ia além de confessar que o homem tem a estrutura dum primata, um século depois Darwin chegava à fórmula: O homem é um primata. Da semelhança assombrosa com os antropóides, Darwin deduziu um parentesco próximo com eles. Sabemos que hoje – aí está a segunda fórmula – que o homem não é um símio nem um antropóide; é um primata de tipo peculiar, um ramo que brotou há muito, antes que existissem os símios atuais, quase à raiz da árvore genealógica dos primatas. Nós não somos macacos; se o fôssemos, não estaríamos aqui sentados a ler. Os macacos não imprimem livros (nem sites na internet). Nem hoje nem em toda a eternidade

Os primatas acusam alguns traços primitivos comuns; são os que nós denominamos simiescos. E a terceira fórmula reza: Há no homem, não obstante a sua evolução superior e isolada, característicos nitidamente simiescos. Esses característicos se evidenciam mais quando o homem se poe à vontade ou está alcoolizado, quando faz parte de grande massa ou quer desmentir conscientemente a sua natureza simiesca: os homens drapejando-se em dignidade; as mulheres exagerando o chic. Homem algum parece tão amacacado como um dignitário em grande pompa.

Os símios são, na maior parte, animais gregários. Os antropóides, pelo contrário, vivem individualmente. O homem, situado na árvore genealógica entre as duas espécies, traz em si os característicos de ambas. Daí a quarta fórmula: A espécie humana divide-se em dois tipos: animais gregários e indivíduos independentes.

A fórmula gregários e indivíduos esclarece o estranho aspecto biforme da história onde sobressaem do fundo da massa anônima, da pretensa história dos povos, as biografias de personalidades isoladas, como pontos de prata num damasco. 

A massa tem por seu turno suas fórmulas próprias, estudadas antes de tudo com grande inteligência e bem expressas pelos franceses, como por exemplo aquela segundo a qual tanto a clareza de raciocínio quanto as inibicões do homem civilizado diminuem em proporções matemáticas com o aumento do número dos participantes. Estão aparentemente em jogo forças afins ao magnetismo para eletrizar a massa e fascinar o indivíduo, de modo que ele aplauda quando a claque bate palmas; corra quando, numa hora de pânico, todos fogem; ajoelhe, quando os demais dobram os joelhos; e até, por uma causa que não o interessa absolutamente, marche com entusiasmo para a morte.O orador que, do alto da tribuna, em moldura suntuosa (simiesca) fala à multidão, consegue em meia hora, de dez mil pessoas reunidas, o que não obteria dos indivíduos em dez mil anos.

A fórmula seguinte: Já que o procedimento do rebanho obedece a determinadas normas, repetem-se na história, como fatos típicos, determinados acontecimentos. No princípio está o clã; nos primórdios da história bíblica o clã de Abraão; o dos latinos, na história romana; o dos peregrinos, na história da América do Norte. Os clãs rivais, precisam de terra e alimento. Daí em toda a história as discórdias fraternas; Abraão e Lot; as cidades-estados gregas; as tribos germânicas; os duques franceses, as cidades italianas e as eternas contendas e guerras com intrigas, traições de vassalos e regicídios, imortalizadas pelas tragédias, ou melhor: pelos dramas horripilantes de Shakespeare.

Segue a fórmula: Os animais gregários são medrosos, cobardes, não se dão ao trabalho de pensar, não querem assumir responssabilidade. A maioria dos homens – escreveu Bertrand Russell – prefere deixar-se matar a pensar. A história o atesta. O clã subordina-se a um patriarca (Abraão); a tribo a um chefe como Moisés, que lhe dita a moral tribal. Tornando-se sedentários, as tribos escolhem um rei; e no fim há sempre um tirano: Herodes, Calígula, Ivã, o último sultão Abdul al Hamid ou a última Imperatriz da China (ou Saddam Hussen no Iraque). Durante essa evolução, que não pode encobrir o seu caráter biológico, aparecem as guardas do corpo, os exércitos, a burocracia, as religiões de estado, as classes sociais, os ricos e o proletariado; e, no fim, o todo estoura com um fragor: a revolução.

A fórmula que se segue é a luta entre o rebanho e o indivíduo. A maioria compacta – como Ibsen denominou o rebanho – opôe-se ao indivíduo. O bando não gosta de individualistas nem estes simpatizam com o clã. Irrrompe inevitavelmente a hostilidade. O indivíduo, mais fraco, recua – odi profanum vulgus et arceo (se empreender a luta, sucumbe).

O insensato, que, incapaz de guardar fechado o coração, mostrou à plebe o seu sentir, a própria opinião, sempre foi crucificado e queimado. (Achamos um exagero, ou demasiada generalização da parte de Kahn, usar aqui a palavra insensato, pois devemos muito à algumas destas pessoas destemidas  que, conscientes do risco, enfrentaram tudo em nome de uma causa sublime que visava o bem comum). Ele acabou no fundo duma cisterna, como Jeremias e João Batista; teve de galgar a via dolorosa das encostas do Gólgota, o Morro da Caveira (Neste ponto também discordamos de Kahn, pois, Jesus se deixou imolar, tinha um propósito sublime a cumprir); (acabou numa fôrca no Brasil colônia, num manicômio na França no tempo da ditadura militar brasileira ou na amazônia do Brasil); viveu desterrado em ilhas do Mediterrâneo, como foi a sina dos livres pensadores da Grécia antiga; deram-lhe para beber a taça de veneno, como a Sócrates, ou acusaram-no de sacrilégio, como ao divino Fídias. Dante foi exilado; Leonardo da Vinci emigrou para o exterior;  lançou-se a excomunhão a Spinosa; a Inquisição perseguiu Descartes; Giordano Bruno padeceu na fogueira; Oscar Wilde compôs De Profundis, na casa de correção de Reading. (Tiradentes foi enforcado, Frei Tito se suicidou, Chico Mendes foi assassinado).  Voltaire vivia pronto para  fuga, em Ferney; Haine, em Paris; Byron e Shelley, na Itália; Marx, em Londres; Vitor Hugo, na Ilha de Guernesey; Máximo Górki, em Capri; Nietzsche, em Sils-Maria. Por que viviam eles onde viviam? Porque o exigia a fórmula.

O encontro com personalidades faz-nos esbarrar na fórmula seguinte: o homem é uma criatura singular. Todos os primatas são criaturas dotadas de cérebro, mas o do homem não sofre confronto. O mundo espiritual é coisa especialmente humana. Não se pode admitir que o uivo lamentoso da macaca, à vista do filho morto, seja sequer o princípío da nobilitação dessa dor, anos mais tarde, numa nênia como: Vêde: choram as deusas, porque o belo passa e morre a perfeição… Embora o gibão possa solfejar uma escala, não existe nele absolutamente nada que possamos reputar o germe de uma futura Nona Sinfonia ou de um Lied von der Erde. A ave enamorada oferece uma pena colorida à sua eleita; certo pássaro dos bosques levanta-lhe até uma galeria em cuja moldura enfia flores. Mas em ser algum, excetuando o homem, despontará a idéia de venerar a maternidade, numa imagem de Madona, ou de simbolizar  o pensamento, como o fez Rodim, na figura do seu Pensador. Poder-se-ia supor que entre os símios – que defendem valentemente a sua habitação, que são cavalheirescos com as suas fêmeas e solícitos com os seus enfermos – se pudesse desenvolver a moral. Verificamos, porém, positivamente que isto não aconteceu; e temos o direito de apontar documentos quais o Decálogo, o Sermão da Montanha, a Declaração dos Direitos do Homem, como atestados honrosos da ética humana e da arte humana da palavra.

Quem nos dera podermos encerrar aqui este texto  com este panegírico do cérebro humano! Mas a história da natureza não é argumento para discursos em ocasiôes solenes. A próxima fórmula – e cá para nós a última – é uma película amarga. O cérebro humano, que hospedamos no crânio, não está sozinho. Atrás do cérebro recente, ou cérebro anterior delicadamente cinzelado, no fundo da abóbada craniana, jaz como um dragão o cérebro primitivo, ou cérebro posterior: o bruto do homem, o centro dos reflexos, a sede dos instintos e das sensações obscuras: fome, sêde, fadiga, impulso sexual, instinto de conservação, instinto gregário, todos os instintos englobados na qualificação de maus, como a vaidade, a inveja, a cobiça, a crueldade, a astúcia. Pela posse destes dois cérebros o homem é uma criatura contraditória ou – valendo-nos do antigo termo eclesiástico scisma – um ser esquizóide. É fenômeno absolutamente único na história do reino animal a existência duma criatura dotada de dois órgãos intelctuais opostos. Todos os observadores atilados da natureza humana percebem essa dualidade, desde Aristóteles, segundo o qual, o homem é, se o aperfeiçoarmos, o melhor dos animais; e, se o deixarmos entregue a si mesmo, o pior das feras, insaciável e voraz, até Ibsen que disse: 

                                      Viver significa combater os fantasmas

                                      Dos poderes obscuros em nós mesmos;

                                      Pensar é submeter a juizo

                                      O nosso próprio eu.

 

No mundo ocidental, essa natureza dúplice levou à filosofia do pecado original e da redenção; no Oriente, gerou a doutrina dos sete caminhos para virtudes cada vez mais excelsas e a vitória final sobre os próprios instintos… Que tragédia – diríamos quase: que caricatura da vida! Eis a criatura chegada ao fim duma série de evoluções; e o que se lhe prega é que subjugue o seu eu. Os gregos cultivaram poeticamente a ciência natural; chegaram, desse modo, não a fórmulas mas a alegorias. Simbolizaram o esquizóide do homem e a diferença entre o esquizóide homem e o esquizóide mulher, em duas formas fabulosas: o centauro, em cima herói, embaixo cavalgadura; e a sereia cujos lábios cantam, cujos dedos terminam em garras de abutre. Todos nós somos esquizóides; todos – idealistas e materialistas – somos o mesmo ser abnegado  e egoista, condescendente e irredutível, dominador e submisso, generoso e avaro, bom e cruel, sincero e mentiroso – tudo isto, entrelaçado numa teia inextricável em que estamos enredados.

Só quem conhece a fórmula do esquizóide possui a chave para entender, em si próprio e à sua roda, a vida em todas as suas contradições gritantes. O assassino não faz nenhuma análise de consciência ao partir a marteladas o crânio da velha compassiva, que lhe deu pousada, para lhe furtar alguns vinténs. Uma envenenadora, julgada em 1950 na Alemanha, no espaço de quinze anos despachara desta para melhor vida uma dezena de amigas, com uma xícara de café. O pastor conhecia-a como pessoa caridosa, freqüentadora assídua do templo. Na cadeia, essa mulher empenhava-se em converter à fé as companheiras. Frederico, o Grande, foi preso por seu pai, pelas suas atividades antimilitaristas. Não podendo ser paladino da paz, tornou-se herói guerreiro; empreendeu guerras de expansão e estimulava os seus soldados, nas batalhas, empunhando o bastão, com a frase que se tornou clássica: Pretendem não morrer nunca, seus malandros?  Farto de pilhagens, reverteu-se ao pacifismo. Apesar de rei tirano, convidava à sua mesa os paladinos da liberdade, para discutirem a educação da espécie humana, a abolição da guerra. Isso não o inibiu de urdir com Voltaire, modelo soberbo de esquizóide, especulações que nada tinham de régias. Sucedeu até que, um belo dia, ausentando-se o filósofo clandestinamente, o Rei da Prússia mandou perseguí-lo e revistar-lhe a bagagem, para lhe arrebatar documentos compremetedores.  

O esquizóide no homem a poucos preocupou tanto como a Goethe; e poucos como ele o proclamaram tão explicitamente a natureza inata do homem:  Atribuímos o nosso estado ora a Deus ora ao diabo; e, nos dois casos sentimos que o enigma está em nós mesmos, que somos produtos de dois mundos. Goethe era acentuadamente esquizóide. Uma sua contemporânea assim se refere ao jovem Goethe: Dum dos seus olhos espreitava-se um anjo; do outro, um demônio. Eckermann, na introdução dos Colóquios, descreve o velho Goethe como homem de duas naturezas completamente diversas, uma digna e serena; a outra genial e demoníaca. Fausto é a tragédia do homem esquizóide. Fausto e Mefisto são as personificações dos dois cérebros antagônicos, agindo um contra o outro; escrevendo Fausto, em que trabalhou, o que é significativo, a vida inteira, Goethe buscava a catarse ou – como diriam os psicólogos modernos – fez uma auto-análise sublimada. O mesmo homem, que na mocidade se deixava esculpir como Apolo e mais tarde como Zeus, está retratado num quadro a óleo em uniforme oficial, com uma condecoração no peito, na qualidade de Senhor Conselheiro Secreto. A mesma mão com que ele escreveu a sua arte de seduzir, experimentou numa criada de quarto, a mesma mão que deu à literatura universal a tragédia da donzela seduzida: Ah! Inclina, ó Dolorosa, o teu piedoso semblante para o meu sofrer… Pobres, pobres criaturas!  e faz a sua Margarida receber Fausto no calabouço com estas palavras: Se és homem, compreende as minhas penas, essa mesma mão ratificou a sentença de morte duma rapariga acusada de ter suprimido o seu filho ilegítimo. Oh, semideus esquizóide!

Bernard Shaw dedicou a vida ao ideal de redimir a sociedade humana das suas fraquezas sociais e morais. Ele prório não só era interesseiro, mas pouco se lhe dava mostrar que o era. Acumulou uma grande fortuna de que – outra vez, o esquizóide – não soube fazer uso; vivia frugalmente como um monge. Nem mesmo os seus subalternos fiéis e dedicados aproveitaram o que quer que fosse dessa riqueza. Shaw pagava-lhes, pelo contrário, salários de fome, contra os quais reclamava nas obras. Ele era o último homem a quem poderia ocorrer a idéia de aumentar ordenados – diz uma sua biógrafa. – Ocupava-se demais de escrever sobre economia. Os ideais dos homens estão, em primeiro lugar, no papel (Bernard Shaw). 

Shaw lembra muito Schopenhauer de quem tinha quer o senso crítico acerado e a elegância de expressão, quer a extravagância e o egoísmo mesquinho. O filósofo do pessimismo dormia com o revólver carregado na mesa de cabeceira. Pregava nos seus escritos a futilidade dos bens materiais; era, no entanto, impiedoso na cobrança de aluguéis; e, no aposento onde escreveu de maneira incomparável sobre triunfar das paixões, atirou uma inquilina escada abaixo, de maneira tão desastrosa, que teve de lhe pagar uma indenização.

O simiesco tende, no homem, para a farsa e a comédia; o esquizóide para a tragédia e o drama. Ninguém quer ter instintos nem ser esquizóide. Encobrir uma e outra coisa é a finalidade da educação. A criança ainda é inocente e, portanto, sincera; mas, quando lhe sucede dizer alguma verdade, mal a visita se retirou, os pais explicam: Nem sempre é possível dizer o que se pensa. Isso continua pela vida afora; e, quando o homem chegar a ser mestre na arte de disfarçar, na repressão dos impulsos normais, na compustura, faz jus ao título de pessoa bem educada.

Sigmundo Freud reconheceu que as impressões juvenis, com os seus conflitos entre inocência e convenção, bem como a revolta do homem contra o que a educação tem de artificial são a raiz de neuroses típicas. Freud foi o primeiro a pesquisar exatamente o esquizóide no homem, do ponto de vista moderno; e, como em toda pesquisa bem orientada, nessa também não tardaram a surgir fórmulas definidas que o psicólogo expressou em termos convincentes, fáceis de gravar na memória e que por isso logo se tornaram populares: complexos familiares; complexo de Édipo, complexo da mutilação na menina, trauma anímico, repressão, complexo de inferioridade e os seus reflexos, compensação, luta entre o eu e o id, o ego e o super-ego, ânsia de notoriedade, doutrina da sublimação dos impulsos e dos sonhos, pela atividade…

As obras de Freud que, à semelhança da maioria dos grandes trabalhos científicos, aparecem sob títulos despretenciosos, exercem influência poderosa, graças à clareza do raciocínio, à modéstia e à simplicidade com que são apresentadas, à incorrutibilidade da crítica e da autocrítica. Abriam-se, poderíamos dizer literalmente, os olhos dos homens para o mundo íntimo e instaurou-se uma entusiástica exploração internacional da alma humana. Como fato acessório absolutamente inesperado, desvendaram-se paralelos biogenéticos entre o desenvolvimento da criança e a evolução da humanidade; com efeito, mediante a pesquisa da psicologia infantil, aclarou-se o sentido das fábulas e dos mitos, do simbolismo da arte primitiva, das cerimônias superticiosas e fetichistas, dos ritos de povos primitivos e das religiôes da proto-história, dos primórdios da ordem social e da moral tribal.

Graças à psicologia de Freud, este século nos deu – juntamente com a física atômica, a exploração do infinito, a química sintética, a teoria da hereditariedade – também a ciência da alma humana. Esta ciência não é simples e ainda não está muito adiantada. O homem não é uma bolha de gás cósmico nem uma abelha operária. A pesquisa do átomo é brinquedo de criança, comparada à dificuldade de sondar as profundidades sombrias da alma dúplece do animal semideus, o homem. Ninguém a formulou mais modestamente do que o próprio Freud (nos lembremos aqui da Navalha de Okan na física). Ele não timbrou em ter razão ou sucesso; quis apenas pesquisar; e deixou aos discípulos tantos problemas por discutir, que eles fornecerão objetos de investigação a várias gerações de cientistas.

Aí temos, pois, a imagem do homem, à luz da ciência moderna: um primata que não é simio nem antropóide, mas um primata de espécie peculiar; meio animal gragário e meio indivíduo solitário, com muitos traços simiescos, alojando no crânio dois cérebros que fazem dele um esquizóide, incomparavelmente superior às demais criaturas pelo cérebro recente, e merecendo incontestavelmente o título de rei da criação. Nenhum outro ser ergue os olhos para os astros e diz como Kant: Duas coisas enchem a alma de admiração e reverência tanto maiores, quanto mais e mais intensamente a reflexão se concentrar nelas: o céu estrelado acima de mim; e a lei moral dentro de mim. Nenhum outro ser terrestre sonda o passado e propõe ao futuro o quesito eterno: Donde? Para onde? Para quê? Criatura alguma sabe calcular os cristais nem admira como ele o coral. Nenhum ser abrange num amor universal os seres deste planeta e voa, nas asas da sensibilidade, a grande distância, até à ave-do-paraíso da Nova Guiné, aos peixes luminosos dos abismos oceânicos. É dele este globo terrestre. (O aquecimento global é o resultado da ganância somente de alguns). Ele é o pai amoroso de todas as criaturas, o guardião de toda beleza, o sacerdote para quem o mundo é um templo grandioso onde a sua religião é o culto do enígma indecifrável da existência: a Natureza. (Aqui, sem contestarmos Kahn, apenas fazemos a seguinte pergunta: Mas será somente a Natureza, o enígma a ser desvendado para compreendermos a existência em todas as suas dimensões?).

POSTED BY SELETINOF AT 5:05 PM

 

 

 

 

 

 

Sobre seletynof

Escola (ensino médio):Colégio Marista Cearense;Faculdade/Universidade: Universidade Federal do Ceará;Curso:Física; Diploma:Pós-Graduação em Física;Profissão:físico e professor; Setor:Científico.

Publicado em 19 de fevereiro de 2007, em PSICOLOGIAFILOSOFIA. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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